Entre Sombras e Segredos

38 📖Capítulo 36: Tinta de Almas e Ferro


​O ar no Grande Salão de Sylvaris estava impregnado com o aroma de mel e essências raras. O Rei Eldarion e a Rainha Lythienne presidiam a mesa, ladeados por Aurélia e o príncipe herdeiro Lorienel. O jantar seguia a etiqueta milenar dos elfos, mas a tranquilidade foi subitamente interrompida por um fenômeno que fez as taças de cristal vibrarem.


​As raízes da Árvore-Mãe, que sustentavam a estrutura do palácio, pulsaram em um tom esmeralda ofuscante. O chão tremeu levemente, não como um terremoto, mas como um coração batendo forte. No centro do salão, o tecido da realidade se rasgou. Uma fenda dimensional, tecida por luz e sombras, abriu-se diante da família real.


​De dentro do portal, Leonardo surgiu. Seus passos eram mais firmes, e seu olhar carregava o peso de quem cruzou fronteiras proibidas. Em seu ombro, uma pequena criatura de sombras observava tudo com olhos astutos: Grimshadow.


​O silêncio que se seguiu foi cortado por um suspiro trêmulo. Aurélia levantou-se tão abruptamente que sua cadeira quase tombou. Uma única lágrima brilhou em seu rosto antes de percorrer sua face. Sem se importar com o protocolo ou com os olhares surpresos do rei e da rainha, ela correu. O impacto do abraço foi o de dois mundos que se reencontravam. Leonardo a segurou com força, sentindo o calor que tanto sentira falta no vazio do Refúgio Celestial.


​— Você voltou — ela sussurrou, afastando-se apenas o suficiente para olhá-lo, o rosto subitamente tomado por um rubor intenso que subia até as pontas das orelhas.


​Lorienel observava a cena em silêncio. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios enquanto seus pensamentos viajavam para longe, perdidos na imagem de uma certa pessoa que também ocupava seu coração.


​— Senti falta de todos vocês — Leonardo disse, fazendo uma breve reverência ao Rei e à Rainha.

— O Refúgio Celestial é um lugar de revelações, mas não é o meu lar.

​Sentando-se à mesa a convite de Eldarion, Leonardo começou a relatar sua jornada. Quando mencionou que sua mãe era a Guardiã do Sepulcro, o choque foi unânime. As taças foram pousadas com ruído.

Apenas Lythienne permaneceu serena, um brilho de conhecimento antigo em seus olhos indicando que ela já suspeitava da linhagem do jovem.


​— E este ao meu ombro — continuou Leonardo, gesticulando para a pequena fera — é Grimshadow.


​A Rainha Lythienne empalideceu, levantando-se lentamente.

​— O líder das cinco Bestas Sagradas... — sua voz era um sopro de reverência.


​Sem hesitar, a Rainha se ajoelhou. Eldarion, Aurélia e Lorienel, movidos pelo instinto e pelo respeito à reação da matriarca, seguiram o gesto, mesmo sem compreenderem totalmente a magnitude da entidade que ali estava. Nesse instante, o salão foi inundado por uma presença etérea.

A Árvore-Mãe manifestou sua forma verdadeira, uma silhueta de luz pura que pairou sobre eles.


​Ela cumprimentou a todos com uma inclinação de cabeça, mas seus olhos brilharam ao encontrar os de Grimshadow. O pequeno ser de sombras soltou um som baixo, pronunciando o nome verdadeiro da Árvore-Mãe, um som que não pertencia a nenhuma língua mortal. A entidade de luz abriu um sorriso radiante, uma confirmação de um vínculo que precedia a própria história do reino.

​Leonardo explicou que Grimshadow agora era seu familiar. Ele falou sobre o reencontro com sua mãe e a descoberta de que possuía um irmão gêmeo.

​— Eu sei que ele está por aí — Leonardo disse, a voz tingida de determinação. — E sei que terei minha chance de entender tudo isso.

​A Árvore-Mãe, observando o jovem, sentiu o peso do que sabia. Ela conhecia a localização exata de Theo, sentia a assinatura da alma do irmão de Leonardo em algum lugar do mundo. Contudo, ela se manteve em silêncio. Intervir ali seria rasgar a tapeçaria do destino, algo que nem mesmo ela ousaria.

Ela apenas nutria a esperança silenciosa de que os fios dos gêmeos se cruzassem novamente em breve.

​Após o almoço, que se estendeu em conversas sobre o futuro e as ameaças que ainda pairavam, Grimshadow retirou-se para o mundo espiritual. Lá, longe da densidade da matéria, ele poderia regenerar sua essência e acumular o poder necessário para as batalhas que viriam.

Enquanto isso, no interior da Árvore-Mãe, a consciência da árvore encontrava-se com sua contraparte, Voidrex, em um diálogo silencioso de forças primordiais.

​A noite caiu sobre o reino dos elfos. No quarto, o silêncio era confortável, quebrado apenas pelo som da floresta lá fora. Leonardo e Aurélia estavam sentados na cama, conversando em voz baixa sobre os dias de separação.

​Em um momento, as palavras cessaram. Eles se olharam nos olhos, e a distância entre eles pareceu desaparecer. O rubor voltou ao rosto de Aurélia, e Leonardo sentiu o coração acelerar.

Lentamente, como se o tempo tivesse parado, eles se aproximaram. Os lábios se tocaram em um beijo suave e hesitante no início, mas que logo se tornou a promessa de que, não importa para onde o destino o levasse, ele sempre teria para onde voltar.