Entre Sombras e Segredos

9 📖 Capítulo 8 - Olhos de Sangue


Flashback – Ritual de Kael]

Duas horas antes de tudo acontecer, poucos minutos depois que Elion foi convocado pelos anciãos, Kael permanecia sozinho em seu santuário privado. O ar estava pesado, impregnado de incenso e cinza. Velas tremulavam, projetando sombras que dançavam como espectros nas paredes de pedra. No centro, um círculo de runas antigas estava traçado no chão com carvão e sangue seco de Kael. Cada marca pulsava com energia contida, pronta para despertar.


Kael fechou os olhos, respirou fundo e entoou palavras arcanas em uma língua esquecida, a voz reverberando pelas paredes:


— “Umbrae corvium, visus et voluntas, ad me veni! Tenebrae meae oculi pandant, et vigilantiam meam effundant!”


O ar tornou-se mais frio, pesado como chumbo. Uma figura começou a se formar acima do círculo: um corvo enorme, de penas negras como breu, olhos rubros como brasas. Cada batida de suas asas reverberava pelas pedras como trovões contidos. Kael estendeu a mão e sentiu a consciência do corvo fundir-se à sua, transmitindo sons, imagens e movimento. O corpo físico de Leonardo estava agora diante de seus olhos invisíveis. Cada passo, cada respiração, cada hesitação podia ser observado, analisado.


O corvo se elevou, desaparecendo na noite, levando os olhos de Kael para o mundo exterior.



[Flashback – Ritual de Maelith]

Maelith, anos antes, havia dominado a arte de invocar o Noctivigil, um espírito guardião antigo. Ela se lembrava claramente daquele dia em que entoou as palavras proibidas em outra língua ancestral:


— “Noctivigil, oculi et aures, ad me servitium! Vigilantia tua abscondita nos custodiet et revelabit veritatem!”


O ar ao seu redor se contorceu, sombras ondulando como se tivessem vida própria, e o espírito emergiu, invisível para qualquer mortal. Cada gesto, cada palavra, cada sussurro do mundo podia ser transmitido a ela. O Noctivigil tornou-se seu vigia, seu espelho, sua arma silenciosa.


O salão dos anciãos estava carregado de tensão. As tochas lançavam sombras que pareciam vivas, e cada murmúrio parecia pesar toneladas. Kael entrou firme, olhos flamejando de raiva.


— Um membro do clã dei Lupari sequestrou o herdeiro dos Braverd! rugiu, a voz cortando o ar.


Maelith ergueu-se, fria como gelo, o olhar fixo em Kael:

— Mesmo sendo o patriarca, não tens autoridade sobre o destino do clã por conta dessa acusação forjada. Eu já invoquei meu Noctivigil; ele observou cada movimento. Não houve sequestro.


Eryon bateu o cajado no chão, o impacto ecoando como trovão:

— A ponte, o herdeiro e o destino do clã não pertencem a ti!


Kael estreitou os olhos, a fúria fervendo em cada músculo do corpo:

— E vocês só respiram porque respeitei minha esposa! Sem ela, estariam mortos há muito tempo!


Maelith recuou um passo, mas não perdeu a compostura:

— Não nos intimidas. O que chamam de fúria não muda leis nem tradições.


— Não é fúria, é justiça! — cortou Kael, avançando, o ar ao redor vibrando. — Protegi este clã com sangue, suor e sacrifício. Enquanto vocês discutem títulos e protocolos, meu sangue ainda corre pelo futuro deste clã!


Eryon cerrou os punhos, voz firme:

— Palavras não bastam. Tua lealdade ao passado não te dá autoridade sobre o presente.


Kael avançou mais, o salão parecendo encolher sob sua presença.

— E vocês só existem porque respeitei Ayla! — rugiu, cada sílaba cortando o ar como lâminas. — Aproxime-se ou recuem, mas não se enganem: não temo nenhum de vocês!


Maelith deu um passo à frente, desafio nos olhos:

— Mesmo assim, não serás senhor do destino que não te pertence.


O silêncio caiu apenas por um instante, pesado como chumbo. Cada olhar queimava, cada respiração era medida. O confronto não precisava de repetições para ser brutal; cada palavra era uma lâmina cortando respeito e medo, deixando claro que aquele embate não terminaria sem cicatrizes.


Enquanto isso, na floresta, Aurélia guiava Leonardo, ainda frágil e sangrando, pelo caminho de volta ao seu clã. Suas mãos tremiam, mas a determinação queimava em seus olhos.


Ela ergueu os braços e começou a entoar palavras antigas, arcanas e proibidas, em uma linguagem esquecida pelo tempo, que fazia o vento vibrar e a própria terra estremecer:


— “Veyra thalos umbra, mor’kha elendir! Kharas nox et verum sanguis, cadant oculi et alae vestrae! Umbrae mortis veniunt ad voluntatem meam, et corvi cadant sub pes meus! Exsanguinem animas vestras, et regnum noctis ad me transibit!”


O ar ao redor enegreceu, espesso como tinta. Uma onda de energia negra se espalhou, atingindo corvos e aves menores que sobrevoavam a região. Cada um deles caiu ao chão, morto instantaneamente, como se sua vida tivesse sido sugada pelo próprio ar. O silêncio após a devastação era quase ensurdecedor, quebrado apenas pelo coração acelerado de Leonardo.


No salão, Kael e Maelith sentiram uma dor súbita atravessar seus corpos, seus olhos ardendo e o sangue escorrendo involuntário. A conexão entre eles e os pássaros transmitia cada movimento de Aurélia, cada comando, cada morte.


— Maldita… — sibilou Kael, os dentes cerrados.

— A Dama do Crepúsculo Sangrento! — completou Maelith, e ambos falavam em uníssono, a voz carregada de choque e temor.


A força de Aurélia era avassaladora. Ela não apenas guiava Leonardo; impunha sua vontade sobre a própria essência da vida ao redor. A floresta se curvava diante dela, e mesmo os anciãos mais poderosos se sentiam impotentes diante da presença sombria da jovem invocadora.