Entre Sombras e Segredos
20 📖Capítulo 18 parte ² O Fio da Espada
Passou-se uma semana desde o despertar de Leonardo. O castelo parecera a uma rotina silenciosa, mas para ele e Aurélia cada dia foi marcado por treinos, estudos e a presença constante do peso de suas escolhas.
Naquela manhã, o sol mal despontava quando ambos foram chamados ao pátio de treinamento. O ar frio carregava o cheiro metálico das armas recém-afiadas. Os guardas que costumavam observar dali estavam em silêncio. não por curiosidade, mas por respeito. O treino daquele dia não seria conduzido por um mestre comum.
Do corredor sombrio surgiu Veyra, a Cavaleira Negra. Sua figura alta e imponente parecia absorver a luz ao redor. O som de suas botas contra a pedra ecoava como um tambor fúnebre, e até o vento pareceu cessar para recebê-la.
Leonardo engoliu seco ao vê-la. Havia nela algo que misturava beleza e ameaça, como uma lâmina reluzente na penumbra. Seus olhos violeta, frios e calculistas, varreram os dois jovens como quem analisa presas ou peças de xadrez.
— Vocês me parecem frágeis — disse, a voz baixa e firme. — Mas isso pode mudar. Hoje conhecerão o verdadeiro peso de uma espada.
Atrás dela, surgiram quatro guerreiros vestidos em armaduras negras, cada um marcado por uma presença única. Kaelen, o arqueiro, trazia um sorriso irônico no rosto, como se se divertisse antes mesmo de começar. Nyssara, silenciosa, caminhava como uma sombra, seu olhar fixo e enigmático. Drogath, o colosso, carregava uma espada larga nas costas, cada passo pesado como trovão. E Lyriel, esguia e ágil, observava Leonardo e Aurélia com uma centelha curiosa nos olhos.
Veyra posicionou-se diante deles.
— Estes são os Umbra, a lâmina oculta do rei. Se querem se tornar algo além de meros sonhadores, aprenderão com eles.
Aurélia apertou a espada em suas mãos, determinada. Leonardo respirou fundo, tentando conter a ansiedade.
— Primeiro teste — anunciou Veyra. — Resistam.
Sem dar tempo para perguntas, Drogath avançou como um muro de aço. Sua espada desceu com força, e Leonardo apenas conseguiu erguer a própria lâmina para aparar, sendo empurrado vários passos para trás. O impacto reverberou em seus braços, quase arrancando-lhe a arma.
Aurélia se colocou ao lado dele, ágil. Com movimentos precisos, desviou de uma estocada de Lyriel, as espadas curvas da elfa tilintando em um ritmo quase dançante.
Enquanto isso, Kaelen mantinha distância, disparando flechas de treino que zumbiam rente aos ouvidos de Leonardo.
— Mexa-se, garoto! — zombou, rindo.
Nyssara, por sua vez, apenas ergueu a mão. Um véu de sombras cobriu parte do pátio, dificultando a visão dos dois jovens. Cada passo que davam parecia ser engolido pela penumbra.
O caos do treino os cercava. Leonardo sentia o coração disparar, o corpo pesado, mas em meio à confusão viu Aurélia recuar até ficar lado a lado com ele. Seus olhares se cruzaram por um instante, e sem palavras alinharam-se.
Quando Drogath ergueu a espada novamente, Leonardo bloqueou com todas as forças enquanto Aurélia, aproveitando a abertura, deslizou pela lateral e encostou a lâmina no braço do colosso. Ele não se feriu — mas parou, como se reconhecesse o golpe bem calculado.
Lyriel riu suavemente, impressionada.
— Não são tão desajeitados quanto parecem.
Veyra levantou a mão, e o combate cessou. O silêncio caiu pesado sobre o pátio, quebrado apenas pela respiração ofegante de Leonardo e Aurélia.
A Cavaleira Negra os observou em silêncio, seus olhos violeta avaliando cada detalhe. Por um instante, Leonardo pensou ver um lampejo de aprovação em sua expressão fria.
— Vocês perderam — disse ela, firme. — Mas mostraram algo raro: coordenação. Isso pode ser forjado em verdadeira força.
Ela se aproximou, suas botas ecoando contra a pedra. Parou diante de Leonardo, a sombra de sua figura cobrindo-o.
— Você… ainda é fraco. Mas tem fogo. Se sobreviver aos treinos, talvez mereça o título de guerreiro.
Então voltou-se para Aurélia, cuja postura permanecia ereta, mesmo exausta.
— E você… tem disciplina. Mas disciplina sem instinto é apenas rigidez. Eu vou quebrar isso em você.
Recuando alguns passos, Veyra ergueu a espada e a apontou para os dois.
— A partir de hoje, não são mais protegidos da Árvore Mãe. São aprendizes sob o fio da espada. Se falharem, cairão aqui, não no campo de batalha.
As palavras ecoaram como um decreto.
Leonardo e Aurélia, mesmo exaustos, endireitaram-se.
— Nós não falharemos — disse Leonardo, com a voz firme, ainda que trêmula.
Um sorriso quase imperceptível curvou os lábios de Veyra.
— Veremos.
E assim começou o verdadeiro treinamento.
Fale com o autor