Entre Sombras e Segredos

12 📖 Capítulo 11 - As Correntes que Sorriem


[O Silêncio Após o Banho de Sangue]


A sala ainda exalava ferro e sangue. Os corpos dos guardas juncavam o chão e o corvo repousava em um sono pesado, forçado pelo toque da entidade. O único som era o leve tilintar das correntes de Elion, que balançavam ao ritmo de sua respiração calma.


Abyssus não se afastou. Caminhava em círculos lentos ao redor dele, como uma fera que escolhe não atacar de imediato. Seus olhos vermelhos ardiam como carvões, sondando cada detalhe, como se quisessem despedaçar e decifrar aquela calma.


— Quantas vezes imaginei o momento em que você ousaria me chamar de novo. Por algum tempo, acreditei que tivesse me esquecido.


Elion ergueu o olhar, frio e sereno. Um sorriso breve curvou-lhe os lábios.

— Esquecer? O esquecimento é um luxo dos fracos. Eu nunca esqueço.


[pensamento de Abyssus]

“Ele fala como se fosse meu igual… como se o abismo não pudesse engoli-lo. Insolente. Perigoso. Fascinante.”



Ela se aproximou devagar. Os dedos longos deslizaram pela corrente presa ao peito de Elion, como se não tocassem ferro, mas a própria pele.


— Está acorrentado… e mesmo assim parece no controle.


— Correntes não têm valor algum. O que importa é quem acredita segurá-las.


Abyssus riu baixo. Não foi a gargalhada insana que despedaçava o ar, mas algo diferente. Um som breve, quase humano.


O silêncio que se seguiu era denso, carregado de algo que não se nomeava. Eles se encararam como forças opostas que, em vez de se repelirem, descobriam um estranho magnetismo.


— Sabe o que mais odeio nos homens? Eles tremem. Sempre tremem, mesmo quando tentam fingir coragem. Você não.


Elion inclinou a cabeça, sem desviar os olhos dela.

— Talvez porque eu tenha aprendido a temer algo maior do que você.


As pupilas vermelhas de Abyssus se estreitaram.

— Maior do que eu?


— O vazio de viver sem propósito. Você é caos. Mas até o caos encontra sentido quando se dança com ele.


[pensamento de Abyssus]

“Dançar comigo… Ele não me implora. Não me rejeita. Apenas… convida.”


Abyssus se inclinou até que o hálito frio roçasse o rosto de Elion, como vento noturno atravessando uma fenda.


— Cuidado, Elion. Os que tentam dançar comigo costumam morrer cedo.


Ele manteve o sorriso tranquilo.

— Então que eu morra dançando.


Por um instante, o sorriso dela não foi apenas insano. Havia nele algo mais perigoso: uma ternura corrompida, nascida no coração do abismo.


A torre estremeceu. Um som profundo vibrou nas pedras, como se o próprio Véu tivesse escutado o diálogo. As tochas se apagaram de vez, mergulhando a sala em trevas. Restaram apenas os olhos vermelhos de Abyssus e o olhar impenetrável de Elion como dois pontos de luz no escuro.


Ela se afastou, dissolvendo-se em sombra. A voz, arrastada pelas paredes, ainda ecoava quando desapareceu.

— Ainda não é hora. Mas em breve, Elion… em breve você descobrirá o preço de brincar comigo.


O silêncio voltou. Só Elion permaneceu, preso às correntes, mas com o mesmo sorriso frio nos lábios.


[pensamento de Elion]

“Ela começa a hesitar. Começa a se aproximar. A hesitação de uma fera é sempre o prelúdio de sua entrega.”


-Interessante!!