Entre Sombras e Segredos

11 📖 Capítulo 10 - O Sussurro de Abyssus


O caminho até a Torre do Véu era estreito, talhado na própria pedra do penhasco. O vento noturno soprava como uma voz antiga, trazendo consigo o cheiro de ferro oxidado e sal. Três figuras escoltavam Elion: dois guardas de armadura pesada, e o corvo negro, que andava rente ao chão, com os olhos pulsando em vermelho como brasas vivas.


Dentro da torre, as tochas ardiam baixas, espalhando uma claridade trêmula que mais escondia do que iluminava. O ar estava denso, impregnado de silêncio.


Os guardas acorrentaram Elion ao centro da sala. Um deles bateu a lança contra o chão, firme:


— Por ordem do Conselho, ficará aqui até que a verdade seja provada.


O corvo grasnou baixo, como se confirmasse o julgamento.


[pensamento de Elion]

"Eles acreditam que me reduziram a um prisioneiro. Mal sabem que, ao me trancar aqui, apenas abriram a porta certa."


[A Fenda na Escuridão]


De repente, a temperatura caiu. As chamas vacilaram, quase se apagando. Um sussurro percorreu as rachaduras das paredes, não um som humano, mas uma risada arrastada, insana, como unhas arranhando a pedra.


Os guardas se entreolharam.


— Você ouviu? — murmurou um deles.


O corvo bateu as asas, inquieto, grasnando em alerta.


Então, a escuridão tomou forma.


Do teto, uma silhueta se desdobrou, como se fosse moldada pelo próprio vazio. Primeiro, os chifres pretos, depois o contorno de orelhas pontudas, e enfim o rosto pálido, iluminado apenas pelos olhos vermelhos que brilhavam como brasas. Um sorriso largo, insano, se abriu em sua face,Era Abyssus!



[O Banho de Sangue]


— Quem… quem está aí?! — um dos guardas ergueu a espada, mas não houve tempo.


Abyssus avançou com a rapidez de uma serpente. Sua mão branca atravessou a garganta do soldado como lâmina, espalhando sangue quente pelas pedras. Antes que o outro reagisse, ela já o segurava pelo elmo e torcia o pescoço com um estalo seco.


O silêncio voltou, interrompido apenas pela respiração suave da entidade.


O corvo grasnou furioso, mas Abyssus apenas tocou-lhe a testa com um dedo delicado.


— Shhh… durma. — murmurou, e o animal caiu ao chão, adormecido em segundos.


Ela riu, o som ecoando pelas paredes como vidro se partindo.


[O Encontro]


Abyssus caminhou até Elion. Suas correntes tilintaram, mas ele não desviou o olhar.


— Você ousou me chamar. — disse ela, a voz ecoando em múltiplos tons, como se várias versões dela falassem ao mesmo tempo.


Elion inclinou levemente a cabeça, o sorriso frio.


— Não ousadia… apenas lembrança.


Os olhos dela se estreitaram, e por um instante, a sala se transformou em memória.


[Flashback]


Um altar de pedra, anos atrás. Elion mais jovem, de pé diante da escuridão. Sangue pingava de sua palma aberta.


— O que você deseja? — a voz dela ecoou pela primeira vez.


— Não desejo. Eu ofereço. respondeu Elion. — Um pacto de silêncio. Em troca, você terá… diversão.


A escuridão se moldou em risada.


— Diversão?


— O caos dos homens. As quedas dos que se acham poderosos. A tragédia deles… será teu alimento.


E ela aceitou.



[O Presente]


De volta à torre, Abyssus acariciou a corrente que prendia Elion, como se fosse uma joia.


— Você sempre soube falar a minha língua, ela sorriu, mostrando os dentes afiados. — Por isso não te devoro,Ainda.


Elion ergueu o queixo, sereno.


— O Conselho pensa que me prendeu. Mas na verdade, trouxe você até mim.


Ela se aproximou mais, os olhos vermelhos queimando a escuridão.


— Então, vamos brincar, Elion. — disse ela.

—Até que o mundo todo aprenda a pronunciar o meu nome.


O sorriso de ambos, lado a lado, era o mesmo: frio, insano e inevitável.


E a Torre do Véu tremeu.