Entre Roubos e Amores
1 Planejando
Notas iniciais
Planejando
Samantha
“Durante a Grande Invasão os reis de todos os reinos da Terra dos Sete Reinos lutaram bravamente contra os exércitos do Medo. Porém, em vantagem numérica, os exércitos do Medo ganharam a invasão e para impedir mais mortes, os reis resolveram fazer um tratado com o líder da invasão, iriam entregar uma quantidade certa de ouro por ano e o seu povo seria deixado em paz.”
Eu sorri. Era incrível como os escritores vangloriavam os seus reis e contavam mentiras ao povo apenas para publicar seus livros e ganhar dinheiro. Realmente não acredito que desperdicei minhas quase últimas quinze moedas de ouro neste livro ridículo.
Eu estava lá quando houve a Grande Invasão, eu podia ser só uma criança, mas eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Não havia acontecido há exatamente muito tempo. No primeiro sinal de perigo, os reis e os nobres (os únicos que tinham condições de saber o que estava acontecendo) abandonaram a cidade e deixaram os outros para morrer. Poucas pessoas que não deixaram o reino morreram.
Quando a poeira abaixou, eles voltaram e fizeram um acordo com os invasores de mandar a cada ano uma quantidade de ouro e mais uns 50 guerreiros para o exército do Medo. Nenhum deles, é claro, nobre.
Rrrrrrr.
Meu estômago começou a roncar de novo. Eu ainda estava há mais ou menos umas quinhentas léguas da próxima cidade, três dias de caminhada parando para dormir e descansar de vez em quando, e eu só tinha uns... Chequei a minha bolsa de couro que estava firmemente presa ao meu cinto, três pães. Não daria para nem dois dias.
Era uma vida meio dura, eu não dormia em camas macias ou comia, digamos assim, freqüentemente, mas viajar pela Terra dos Sete Reinos era o único estilo de vida em que eu me sentia “livre”. Não exatamente livre. Eu não trabalho, e nem venho de uma família com muito dinheiro, por isso eu ganho a vida roubando, tem algumas cidades em que eu não posso voltar mais, se é que me entende.
Eu não tinha muita opção de vida depois da Grande Invasão. Meus pais morreram para me salvar e eu só tinha cinco anos. Não havia meios de eu ir para a escola, aliás nós, garotas, não vamos para escola, somos ensinadas em casa e nem isso eu tive. Eu só sei ler e escrever porque eu roubava livros quando era pequena.
Troquei de posição sobre a grama, a ponta da minha espada e meu arco estava incomodando. Eu não costumava a andar tão armada quanto eu ando agora. Ser uma ladra estava ficando cada vez mais perigoso nesses dias.
Segundo um de meus informantes, um amigo de infância (costumávamos a roubar juntos), os Inspetores (como gostam de ser chamados os soldados do exército do Medo que são mandados para manter a ordem nos reinos), que costumavam a nos contratar para roubar para eles quando nos encontravam, estavam agora sob ordens de matar os ladrões ao encontrá-los. Parece que estamos reunindo informação demais sobre como o exército funcionava. Interessante, não?
Agora, além de minha bolsa presa no cinto eu levava uma pequena espada (pequena para não me atrapalhar ao fazer... movimentos ousados) e um par de adagas. Eu acrescentei uma tira de couro extra nos meus braceletes (que pegavam todo o meu antebraço) para acomodarem, no antebraço esquerdo uma faca pequena, e no direito, um saquinho de veneno. Tudo isso mais minha aljava com vinte e quatro flechas, presa firmemente por uma tira de couro que atravessava meu peito e, claro meu arco.
Podemos dizer que eu era agora uma pessoa perigosa de se meter.
Eu levantei da grama. Era hora de recomeçar a andar. A cidade mais perto era a cidade de Hydras no Reino de Mithryn. A fronteira do reino em si devia estar a mais ou menos uns três passos a minha frente, perto do rio Ciro. Hydras era outro assunto, mais ou menos quinhentas léguas.
O rio Ciro era cristalino e marcava metade da fronteira de Mithryn. Ao leste, de onde o Sol tinha quase acabado de surgir erguiam-se as Colinas. Ao oeste uma floresta se estendia ao longe. A região toda era uma planície. Bem, melhor do que andar sobre as Montanhas Geladas, de onde eu venho andando nos últimos quatro dias.
Eu me espreguicei e me preparei para a longa caminhada. Quando eu chegar lá (mais ou menos amanhã á noite, já que não pretendo descansar) vou roubar comida e mais um pouco de dinheiro. Abaixei o capuz da minha capa e prendi meus cabelos castanho-claros em um rabo-de-cavalo alto. Eu já disse que seria uma longa caminhada?
Lucian
(alguns minutos antes do nascer do Sol)
Eu alcancei o telhado sem muita dificuldade e sem fazer muito barulho. Não tinha sido um dos meus roubos mais promissores, por assim dizer. Apenas consegui trinta e cinco moedas de ouro, meio frustrante.
Eu pulei agilmente para o telhado da próxima casa, que era um pouco mais alto e me provinha uma visão melhor do horizonte e olhei para o leste. O Sol estava quase nascendo. Não tinha tempo o suficiente para mais um roubo, não era muito aconselhável roubar durante o dia. Iria comprar uns dois pães amanhã e iria realizar um roubo mais ousado na noite seguinte.
Hoje eu não irei comer muita coisa e descansar bem de noite, para estar com a melhor energia amanhã à noite.
E na manhã do dia depois do roubo de amanhã à noite, eu iria embora para o Reino de Cistka. Os Inspetores estavam começando a investigar fundo os roubos em Mithryn. Sorri para mim mesmo. É, nesses últimos sete anos eu tinha conseguido deixar um marco em todas as cidades do reino. Cobri meus cabelos pretos com o capuz e pulei para o próximo telhado.
Será que a padaria já abriu?
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