Entre Rosas e Espinhos
1 Capítulo 1: Salva - me, alivia a minha dor!
Notas iniciais
Berlim, Alemanha.
Uma neblina fina cobria a capital alemã, enquanto a cidade parecia deserta em pleno sábado à noite. Era o cenário perfeito para pisar forte no acelerador e elevar a velocidade de uma moto e rodar por todas as avenidas sem se importar com nada.
Eles não sabiam aonde ir, apenas queriam sentir o vento no rosto e se molhar um pouco. O jovem parecia estar em outro estado de consciência, e a garota que lhe acompanhava na garupa o abraçava fortemente com os olhos fechados sentido aquela sensação de euforia e tranquilidade ao mesmo tempo.
— Pra onde quer ir agora? Acho que já rodamos a cidade inteira. – Perguntou o jovem sorrindo timidamente.
— Você sabe o lugar! A Caverna de sempre. – Enquanto dava a resposta ela bagunçava um pouco o cabelo do seu mais que amigo.
Como não havia trânsito naquele momento, os dois chegaram rapidamente ao bar mais alternativo da cidade, onde os jovens costumavam se divertir com frequência. E naquele dia, apesar da aparente tranquilidade de Berlim, o local estava cheio.
Entraram os dois, juntos, de mãos dadas. Bastava um simples olhar para que qualquer pessoa percebesse a forte energia entre eles. E, além disso, ambos atraíam a atenção sempre que chegavam a algum lugar, pois formavam um belo casal.
Naquele dia Pandora estava linda, parecia feliz, diferentemente da sua apatia cotidiana. Usava um vestido preto básico um pouco curto, de mangas longas, acompanhado de uma bota que ia à altura dos joelhos, um visual que combinava perfeitamente com sua beleza gótica. Muitos homens não conseguiam desviar o olhar, mas nenhum deles conseguia roubar a atenção que a dama dava para Radamanthys. O rapaz loiro, de olhos azuis e feições britânicas fazia com que ela esquecesse de todo o resto.
Ambos se acomodaram em cadeiras altas que ficavam perto do balcão e comentavam sobre a música que tocava no momento, relembrando algumas passagens que já tiveram por aquele lugar.
— Nossa, esse lugar nunca muda. Lembra quando a gente matava aula pra vir aqui com o pessoal?- Disse a garota sorrindo enquanto recordava de seus momentos de fuga da escola no ano anterior. – Graças aos deuses meu tio nunca descobriu!
— Insanidades da adolescência, mas valeu apena, aquele foi até agora o melhor ano da minha vida, e você era e continua sendo ótima pra planejar nossas fugas!
— Mas você sempre foi o mais ousado, e é por isso que eu te adoro. – Nesse momento ela o chutou carinhosamente.
O jovem se levantou e foi até ela, que permanecia sentada. Ele lhe tocou o belo rosto, pálido como a neve, e se abaixou um pouco para encarrar seus olhos quase violeta.
— Poderia repetir o que disse? – Disse com um olhar penetrante.
— Eu te adoro... – Ela falou num sussurro.
— E eu te venero, Senhorita Pandora.
A garota sorriu maliciosamente e puxou o rosto dele para si, em seguida beijando-o lentamente. As mãos da garota apertavam os cabelos loiros do jovem, que por sua vez acariciava as longas e negras madeixas de sua amada.
Demoraram alguns instantes, aproveitando o momento e depois decidiram pedir bebidas. Para ela, vinho, e para ele o de sempre, whisky. Curtiram juntos aquele momento; dançaram enquanto trocavam carinhos e beijos apaixonados, até o cair da madrugada, quando decidiram sair do bar para olhar um pouco o céu.
— Como estão as coisas na sua casa? Seu tio está mais tranquilo, minha querida? – Perguntou o inglês enquanto acendia um cigarro oferecendo um para ela.
— Continua louco, queria me ver livre dele, de verdade, mas até setembro eu não posso fazer nada, apenas aguentar que ele mande em mim e no meu irmão. – Disse ela enquanto aceitava o cigarro. – Bem que poderíamos fugir, você me levava pra longe daqui!
— E por que não fazemos isso então? – Ele se acercou dela e a abraçou por trás.
— Não posso abandonar o Alone, ele só tem oito anos, e também não posso deixar toda a fortuna dos meus pais nas mãos daquele canalha. Mas um dia eu quero muito ir com você...
— Vou te levar pra Londres quando acabarmos a faculdade. Você vai adorar conhecer!
— Eu vou adorar qualquer lugar se eu for contigo! – Disse ela enquanto abria um largo sorriso e ele a apartava forte, mas com ternura. – Mas agora você precisa me levar pra casa, não quero ter problemas com ele...
Eles seguiram rapidamente até a mansão Heinstein, e ao chegarem se despediram rapidamente, ainda que o rapaz insistisse muito em gastar mais alguns minutos com ela. No entanto, Pandora não queria arriscar ser pega pelo seu tio Thanatos àquela hora da madrugada, quase raiando o sol, afinal ela tinha apenas dezessete anos e havia saído às escondidas.
Ao abrir a porta principal, a garota tomou um susto. Lá estava ele, seu tio, com um sorriso sarcástico no rosto, sentado no belo sofá negro da sala principal e tomando uma taça de vinho.
— Já estava quase acionando a polícia para te procurar, minha querida! – Disse ironicamente, enquanto olhava a sobrinha que, por sua vez, estava com os olhos arregalados.
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Equador.
— Ikki, abre a porta, rápido! – A garota gritava desesperadamente dando fortes batidas na porta, que poderiam ser ouvidas por toda vizinhança.
Assustado, e sem imaginar o motivo de tanto desespero, o rapaz correu para atender aquele pedido, era ainda madrugada e ele estava dormindo, seus cabelos negros estavam completamente despenteados e sua mente um pouco confusa.
— Esmeralda, meu amor! O que aconteceu?! – Perguntou aflito.
— O meu pai, ele... Ele está louco, descobriu tudo sobre nós e disse que vai te matar!- A garota correu para os braços do namorado enquanto as lágrimas rolavam freneticamente em seu delicado rosto.
A garota loira, de aspecto frágil, era filha de um homem muito perigoso chamado Guilty, conhecido na região por ser um matador de aluguel além de constantemente estar envolvido com traficantes. Mas, para manter uma boa aparência, ele também era proprietário de uma mercearia, na qual Ikki era seu empregado desde a adolescência.
Ikki era filho de um imigrante japonês com uma equatoriana que, por infelicidade, acabaram se endividando com agiotas e foram mortos, no entanto sua vida e a de seu irmão mais novo, Shun, foram poupadas, e a partir de então ele precisou trabalhar dia e noite para obter o sustento dos dois.
O rapaz trabalhava tantas horas que mais parecia um sistema de escravidão. Mas ao longo dos anos ele desenvolveu uma bela amizade com Esmeralda, que foi seu único alento em meio a uma vida tão severa. Eles estudaram juntos, numa escola pública, ao menos isso o pobre garoto teve direito, e se tornou o melhor aluno da classe. Porém aquela bela amizade se transformou num amor verdadeiro, e os dois namoravam às escondidas, pois sabiam que o pai de Esmeralda jamais permitiria que ela se casasse com um jovem inferior a ela, porém, na noite anterior, o carrasco havia descoberto o romance.
—-------------------------- Flashback----------------------------------
Era tarde da noite, Esmeralda estava muito cansada naquele momento, mas antes de tomar um banho e dormir ela costumava fazer anotações em seu velho diário. Naquele momento escrevia sobre Ikki, ela o amava bastante e os dois faziam muitos planos para o futuro, por isso gostava de anotar tudo naquelas páginas um pouco amareladas.
Depois de um tempo seguiu para seu banho revigorante, prendeu seus belos cabelos loiros fazendo um coque e foi ao pequeno banheiro que havia em seu quarto. Despiu-se e entrou debaixo do chuveiro.
Enquanto isso, Guilty, que ainda estava acordado, passou em frente ao quarto da moça e percebeu que a luz estava acesa. Seu semblante foi mudando para um ar de furioso, pois ela havia proibido que ela ficasse até tão tarde acordada. Logo decidiu entrar no quarto para obrigá-la a dormir naquele exato momento.
— Essa desgraçada nunca me obedece, está merecendo apanhar muito, mas muito mais!- Pensou ele consigo mesmo.
Quando entrou no recinto, percebeu que a filha estava no banho, pensou em gritar alguns palavrões para que ela ouvisse, mas avistou um objeto jogado descuidadamente em cima da cama. Era o diário de Esmeralda.
Como um pai dominador e invasivo que sempre foi, Guilty volveu-se numa expressão sarcástica e curiosa, decidido a bisbilhotar as anotações de sua filha. Ele pegou o diário e começou a ler tranquilamente, não se importando nenhum pouco que fosse flagrado, afinal de contas ele é quem mandava em qualquer situação e a privacidade da filha sempre foi desrespeitada.
Lia sem achar nada interessante, somente concluía que a vida da jovem era medíocre demais, e chegou a achar que estava mesmo era perdendo tempo. Até que viu o nome de Ikki e tornou-se interessado. Foi então descobrindo pouco a pouco os segredos românticos da filha, e tornou-se irado naquele momento, decidido a destruir tudo aquilo, e com muita vontade de dar cabo da vida do rapaz, revelando o quão possessivo ele era.
Quando Esmeralda saiu do banho, encontrou seu pai sentado na cama, sorrindo e com o diário nas mãos. Naquele momento ela olhou para o chão e pensou que havia sido descuidada, pensou também que seu pai poderia ter lido, e começou a sorrir, se mostrando amistosa e permanecendo otimista.
— Filha, acordada a essa hora? Minha querida, já disse que não gosto que durma tão tarde. – Disse ele com uma voz doce que deixou a menina um pouco confusa, pois não era normal que ele se comportasse assim com ela. – Venha, sente-se aqui ao lado do seu papai! – falou enquanto dava batidas leves na cama.
A menina confusa foi ter com seu pai, e no mesmo momento tentou pegar o diário que estava em suas mãos, enquanto precipitava-se a falar.
— Me desculpe papai, não dormirei mais tão tarde... – Falava um pouco tranquila quando foi surpreendida.
Guilty desferiu um soco contra a própria filha, com todas as suas forças, fazendo com que a garota fosse jogada em cima da cama com os sentidos atordoados.
— Vadia desgraçada! Traiu minha confiança com aquele imbecil. Isso foi só o começo, você nem imagina o que eu vou fazer com ele... Eu vou arrancar membro por membro daquele infeliz, e, se eu quiser, do irmão retardado dele também! E você vai assistir tudo, está me ouvindo?!
Ela não conseguia falar uma palavra sequer, tentava esconder o rosto com as mãos enquanto chorava de forma descontrolada. Ouvira cada palavra, e sabia bem que seu pai era capaz de tudo aquilo, afinal de contas ele era um matador profissional e tinha tirado a vida de sua própria esposa por ciúmes, quem dirá do pobre Ikki.
O pai levantou-se, puxou a jovem pelos cabelos e a jogou contra a parede com força, depois ainda lhe chutou algumas vezes enquanto ela continuava sem dizer nada.
— Agora eu vou dormir, porém mais tarde eu resolverei logo isso. – Saiu do quarto e bateu a porta, causando um estrondo alto.
A partir daquele momento só se passava uma coisa na cabeça da loira: Fugir. Pela primeira vez ela teve coragem de tomar essa atitude. Então começou a juntar suas roupas e todos os seus documentos. Passado algum tempo, percebeu que o pai roncava alto e se aproveitou para adentrar cuidadosamente no escritório. Havia preparado com travesseiros a cama, para caso ele voltasse ao quarto acreditasse que ela estava a dormir.
A casa tinha piso de madeira, e por isso ringia um pouco, mas ela foi com cuidado até uma gaveta do escritório onde seu pai deixava a chave da casa e também guardava muito dinheiro que recebia pelos crimes, pois já que não podia colocar no banco, ele deixava tudo em casa, mas jamais tinha passado em sua cabeça que Esmeralda poderia usá-lo.
Ela sequer contou quando dinheiro havia pegado, só sabia que era muito, tanto que enchia totalmente um compartimento grande de sua mochila com notas de valor máximo em dólar.
Saiu sem que fosse notada, e pegou um táxi em direção à casa de Ikki.
—----------------------- Fim do Flashback ---------------------
— Rápido, Ikki, precisamos fugir, eu, você e o Shun! Eu trouxe muito dinheiro, dá pra gente ir até para outro país, quem sabe, mas precisamos arrumar as coisas antes que ele chegue até aqui... – Disse Esmeralda se soltando dos braços do rapaz muito assustada e desesperada, já entrando na casa.
— Esmeralda, eu estou um pouco confuso, você precisa se acalmar e me contar direito tudo isso, meu amor! – No fundo ele estava começando a ter medo da situação, mas tentava agir friamente como de costume.
Depois de ela explicar o acontecido, ambos começaram a raciocinar um pouco e elaborar um plano de fuga. Ikki acordou Shun e não lhe deu muitas explicações, apenas que deveria ajudá-los a organizar as bagagens e que eles iriam se mudar, juntos.
Por volta das 6:00 horas da manhã eles terminaram, obviamente não podendo levar tudo, mas o suficiente. Chamaram um táxi e foram até a rodoviária para que de lá seguissem até a capital a fim de embarcar em algum avião com destino incerto.
Chegaram lá junto com Megumi, um primo mais velho de Ikki que morava na casa próxima a dele, que já sabia de toda história e estava disposto a ajudar os dois.
— Não acho certo, cara, que se meta nessa por causa de mim...
— Ikki, somos uma família, eu faço qualquer coisa por vocês! Confie em mim, eu sei de uma pessoa que pode nos ajudar. – Disse o garoto enquanto tocava nos ombros do primo.
— Você sabe que esse cara é mafioso, não quero que ele te mate também!
— Eu dou um jeito depois, quem sabe a gente até se encontre, mas agora quem precisa fugir são vocês, e rápido.
Os quatro já haviam comprado as passagens e esperavam angustiadamente pela saída do ônibus que só seria às 9:00 horas.
Enquanto isso, Guilty ao perceber a ausência de Esmeralda deduziu que ela havia fugido com Ikki e por isso tinha reunido seus capangas para irem atrás dela . Todos estavam fortemente armados. O pai já imaginava para onde a filha havia ido, a rodoviária, afinal para fugir era preciso passar por lá.
Quando já se aproximava a hora do embarque, Esmeralda estava aflita, ela sentia que algo podia dar muito errado naquele dia, e de vez em quando se segurava para não chorar. Megumi contava algumas piadas para tentar animar os demais, e Shun ainda estava um pouco confuso e assustado.
De repente um estrondo foi ouvido: Eram os capangas atirando para o alto. As pessoas começaram a correr e, de longe, Esmeralda conseguiu reconhecer um deles. Os jovens se apressaram para chegar mais perto do ônibus e tentar se esconder entre as pessoas que ali estavam.
— Esmeralda, me dê sua bolsa, está pesada e pode te atrapalhar agora! – Disse Ikki.
— Tudo bem... Ikki, eu estou com medo de te perder. — Então ela começou a chorar.
— Isso nunca vai acontecer, vai dar tudo certo, e ainda que... – Gaguejou ele antes de prosseguir com a voz um pouco embargada. – Ainda que sejamos separados, voltaremos a nos ver outra vez, eu prometo, minha Esmeralda!
Os capangas de Guilty procuravam por todos os lugares, deixando as pessoas amedrontadas, pois não havia policiamento no local para detê-los, a cidade era muito pequena e praticamente dominada pela criminalidade.
O ônibus abriu a porta e as pessoas começaram a subir, como estavam com medo, quase se atropelavam. Os jovens começavam a ficar nervosos e Ikki se irritava com as pessoas à sua frente, pedindo que apressassem mais a situação.
Shun seria o primeiro a subir, enquanto o primo colocava as bagagens dos jovens na mala do ônibus.
Esmeralda olhava para o namorado, e uma felicidade súbita começava a tomar conta dos dois, eles sabiam que pegando aquele veículo partiriam para uma vida nova, muito melhor, onde seriam livres.
— Eu te amo tanto Ikki! Não vejo a hora de nos casarmos e termo nossos filhos bem longe daqui. – Disse ela enquanto o abraçava muito forte.
— Você é a minha vida, minha joia preciosa, vamos construir tudo isso juntos. – Nesse momento ele a beijou profundamente, enquanto esperavam o andamento da fila.
Chegou a vez do embarque, Shun subiu com Megumi, enquanto as pessoas que estavam atrás deles o empurravam e diziam vários xingamentos.
— Andem mais rápido, garotos lerdos!- Disse um senhor irritado, que empurrou Ikki para frente, o forçando a subir e fazendo com que ele soltasse a mão de Esmeralda. Esse mesmo senhor passou na frente dela, que ficou um pouco para trás.
Quando a jovem pisou no primeiro degrau do veículo, ela sentiu braços fortes segurando sua cintura. Nesse momento sua visão embaçou, era como se todos os momentos que tive com Ikki passassem pela sua mente. Ela sabia de quem se tratavam aqueles braços. Foi pega por um capanga de seu pai!
— Ikki! – Gritou histericamente quando retomou a consciência.
— Seu pai vai me dar uma boa gratificação por isso, cadelinha fugitiva! – Disse o bandido sorrindo.
Rapidamente as pessoas perceberam que se acercavam vários homens armados, então começaram a invadir o ônibus umas por cima das outras, temendo que houvesse ali um tiroteio.
Ikki foi engolido pelo tanto de gente que o empurrava, ele sequer pode resgatar Esmeralda, apenas havia olhado nos seus olhos azuis por uma última vez enquanto ela gritava seu nome, e ele nada pudera fazer.
O ônibus deu partida. O rosto do jovem se encheu de lágrimas, ele havia perdido o amor de sua vida, talvez pra sempre, pois não sabia o que o pai dela poderia fazer dali em diante.
A viagem durou algumas horas, enquanto os jovens permaneciam chocados e perdidos. Até que chegaram a capital, especificamente ao aeroporto.
— Eu a deixei escapar, nunca vou me perdoar por isso. – Lamentava Ikki aos prantos.
— Primo isso é muito triste, mas agora você não pode mais voltar, estará arriscando sua vida e a do Shun. Por favor, Ikki, precisa seguir o que eu vou te dizer, e eu prometo que procurarei saber da Esmeralda.
— E o que você me propõe agora? – Falou enquanto de recompunha.
— Não sei se você lembra, mas os nossos pais tinham um amigo, amigo de verdade, que passou muito tempo nos ajudando aqui depois da tragédia, mas que infelizmente teve de ir embora. Ele me disse que se precisássemos poderíamos contar com ele...
— Fala logo quem é! – Gritou impaciente, com as mãos na cintura.
— O Sr. Takashi! – Disse Megumi.
— O velho Takashi, claro que me lembro dele, não faz muito tempo que foi embora, sempre nos ajudou! Isso quer dizer que...
— Quer dizer que vocês terão de ir para o Londres, agora!
“If I tell you
Will you listen?
Will you stay?
Will you be here forever?
Never go away?
Never thought things would change
Hold me tight
Please don't say again
That you have to go
A bitter thought
I had it all
But I just let it go
Hold your silence
It's so violent since you're gone...
All my thoughts are with you forever
Till the day we'll be back together
I will be waiting for you”
(Within Temptation – Bittersweet)
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Berlim, Alemanha.
— Tio, eu estava muito estressada, precisava sair um pouco, então a Sarah me chamou, e então ficamos até agora conversando, acredita?!- Dizia Pandora na tentativa de fazer Thanatos acreditar.
— Eu sei bem com quem você estava. Espiei quando chegaram.- O homem distendeu os lábios mostrando um sorriso cínico. – Vi aquele vagabundo do Radamanthys de Wyvern com você! Qualquer dia desses você aparece grávida por aí e ele te larga...Agora se aproxime!
Pandora estremeceu, ela imaginava o que estava por vir, era sempre assim quando desobedecia a seu tio. Mesmo assim engoliu seco e foi até ele, tentando desviar seus pensamentos para outro lugar.
Naquele momento Thanatos pediu que ela retirasse a roupa e pegou um chicote velho. A garota sentou no chão, por cima das pernas, com os joelhos flexionados esperando com angústia o golpe que estava por vir.
O homem tornou-se possesso, levantou a mão e bateu com todas as forças nas costas da sobrinha que estava segurando o máximo possível para não gritar.
— Muito bem, gosto quando não faz barulho, sua...sua mal educada! – Dizia enquanto a chicoteava várias vezes.
Os olhos de Pandora de enchiam de lágrimas até que ela soltou um grito muito alto, fazendo com que seu irmão Alone se acordasse assustado. O garoto saiu do quarto e ficou espiando no parapeito do andar superior, aturdido e com medo de ser flagrado pelo tio.
Thanatos percebia-se fora de si, ele tinha um prazer imenso em espancar e humilhar, sentia-se poderoso sobre a vida, como se tivesse poderes para ser um Deus da Morte. Quando se cansou do que fazia virou-se e foi dormir, dando ordens à sobrinha:
— Te levanta e se veste. Esqueça o que aconteceu, mas lembre-se bem da lição. Nunca mais saia sem a minha permissão, principalmente com aquele cara, eu vou pensar bem se aceito esse casinho de vocês, ao menos ele é rico, vale de algo.
A bela jovem, muito machucada, obedeceu àquelas ordens. Em sua mente se passavam várias imagens, de quando era feliz com seus pais, era uma menina livre e muito amada, jamais imaginara que sua vida mudaria tanto.
—---------------------------------- Flashback -------------------------------
A família Heinstein era uma das mais poderosas da Alemanha, donos de muitas propriedades, inclusive um castelo que ficava no interior do país. Pandora foi a primogênita, até os nove anos viveu com sua família, às vezes na capital, às vezes no castelo, onde seu pai cuidava de seus negócios agrícolas.
No dia em que sua vida começou a muda, a senhora Heinstein estava com sete meses de gestação, era uma noite chuvosa e eles estavam no interior. Logo houve uma agitação por toda a parte, várias empregadas apreensivas. A pequena Pandora estava apreensiva, mas muito alegre, seu irmãozinho Alone estava prestes às nascer! Era tudo que ela queria: um irmão!
Tudo corria bem, até que as horas foram passando e nada do garoto vir ao mundo. O senhor dava voltas próximo ao quarto onde estava sua esposa, e a menina não parava de fazer perguntas.
— Quando irei ver meu irmão, papai? Está demorando muito... Eu posso entrar no quarto? – Dizia a garotinha de nove anos.
— Senhor, é preciso que venha aqui imediatamente!- Interrompeu uma das empregadas, muito nervosa.
Depois de minutos dentro do quarto, homem abriu a porta e encarou a filha que lhe fitava com os belos olhos quase violeta. Seu semblante era dos piores, o rosto alvo estava encarnado, como se houvera chorado por toda a sua existência.
Pandora não entendeu a situação, mas no seu coração sentia que algo não ia bem. Ela passou correndo pelo seu pai e entrou no quarto, estancando próximo à cama que sua mãe se encontrava, e começou a dar passos lentos até que se aproximou da jovem senhora.
Olhou para o lado e viu o bebê, seu irmão tão aguardado. Mas naquele momento só conseguia pensar em sua mãe, ela já tinha idade para compreender o que estava se passando, e seus olhos volveram-se em lágrimas quando ela encarou a senhora Heinstein completamente sem vida.
Passado alguns meses daquele fatídico dia, seu pai veio a falecer misteriosamente, envenenado. As hipóteses convergiam todas para o suicídio.
A partir de então Pandora e o pequeno Alone ficaram sob a tutela de Thanatos, o irmão de seu pai, que no entanto estava afastado da família há muitos anos, mas que no momento era o parente mais próximo das crianças. Sendo assim, ele ficou responsável por administrar todos os bens da família até que Pandora completasse dezoito anos.
—---------------------------- Fim do Flashback------------------------------
Ela entrou no quarto, ferida, sofrendo, sem ter a quem recorrer naquele momento. Deitou-se de frente para a cama, já que suas costas ardiam como brasa, e afundou seu rosto no travesseiro para abafar o choro e os soluços.
— Seria diferente se vocês não tivessem morrido. – Pensava enquanto lembrava de seus pais e de tudo que havia ocorrido naqueles oito anos.
A jovem pegou o celular e resolveu mandar uma mensagem para a única pessoa que naquele momento poderia lhe entender.
“Sinto sua falta...estou tão triste, queria conversar agora, mas sei que está dormindo. Quando ler essa mensagem, por favor, me responda, preciso muito conversar com alguém, com você! Te amo. Pan.”
“My soul feels empty
I'm drowning in my tears
It's pain, I'm learning
My heart is aching
Got poison in my veins
In hell, I'm burning
Save my life
Save my life
Let these tears be our secret
You and I
You and I
Once we were so close
Save my life”
(Xandria – Save my life)
—------------------------- Em outro ponto da cidade ------------------------
O dia amanheceu em Berlim, cinzento, mas o clima estava agradável. Radamanthys levantou com preguiça, havia se cansado bastante no dia anterior, mas se lembrou que tinha algumas coisas do seu pai para resolver. Foi então que pegou o celular para desligar o despertador e percebeu que havia uma mensagem de Pandora.
Ele não pensou duas vezes e respondeu:
“Minha querida, também sinto sua falta! O que aconteceu? Liga pra mim quando acordar.”
Rapidamente o telefone tocou, ela era:
— Hello! – Disse o rapaz.
— Oi, que bom que me atendeu... – Houve um pouco de silêncio.
— Minha querida, pela mensagem e agora com esse seu tom de voz estou ficando preocupado, você parecia tão feliz ontem. Diga-me o que passa, aliás, porque já está acordada a essa hora?. – Ele perguntou aflito.
— Por telefone não vai dar, Rada, a gente precisa se encontrar, tenho muita coisa pra te dizer, e-eu nem sei por onde começar!- Ela gaguejava um pouco.
— Tudo bem, diga a hora.
— Dez horas, em frente ao meu curso de harpa!
Antes de responder ele pensou um pouco, se lembrando de que tinha compromissos com o seu pai pela manhã, mas era um pedido dela, ele jamais poderia negar algo àquela garota, pois a obedecia como um cão fiel.
— Certo minha querida, estarei la!
Os dois se rumaram ao local marcado. Pandora sempre ia aos sábados para aquele lugar onde aprimorava seus conhecimentos em harpa, era desejo dos seus pais que ela continuasse estudando o instrumento, por isso Thanatos não inspecionou sobre sua saída.
Quando ele estacionou a moto, lá estava a linda jovem, trajando um sobretudo preto, meias pretas e uma sapatilha discreta. Como ventava muito naquele momento, os cabelos negros e sedosos da garota voavam bastante, ainda que ela tentasse contê-los.
Ele não demorou e a apertou contra si num caloroso abraço, depois encarou um pouco os olhos um pouco mais húmidos do que o normal de Pandora e percebeu que estavam carregados de muita tristeza.
— Vamos pra outro lugar, eu quero me sentar e conversar contigo, e... – Ela foi interrompida por um beijo carinhoso, que então lhe trouxe um pouco de paz em meio ao turbilhão de emoções que estava sentido. Sentia-se segura com ele.
— Estava com saudade dos seus beijos, do seu rosto tão lindo de princesa. Vou te salvar um pouco do que está acontecendo como bom servo fiel que sou, milady!
— Adoro seu cavalheirismo inglês- Disse ela sorrindo, desfazendo por um momento dos pensamentos tristes. – Me abraça de novo e me leva daqui!
Os dois subiram na moto e foram para uma parque muito tranquilo. Enquanto chegavam, Pandora respirava um pouco aliviada, observando a paisagem, deixando o vento tocar seu rosto. Quando se aproximavam daquele lugar tão arborizado ela dos momentos que teve no interior, naquele castelo rodeado pela bela floresta. Era como voltar ao passado, em câmara lenta, aspirando o perfume daquele a quem amava e era agora sua fortaleza emocional.
— Pronto, minha linda, pode me dizer tudo. – Dizia ele quanto tocava o rosto delicado e com uma maquiagem um pouco carregada da jovem.
— E-eu nem sei por onde começar, acho melhor sentarmos na grama.
Foram para a grama. Pandora estava nervosa, ela nunca havia contado o lado sombrio de sua história para ninguém até então, somente ela e Alone se confidenciavam, mas naquele dia ela tinha plena certeza de que Radamanthys era o amor de sua vida e que nele poderia confiar, pois nunca passou por sua vida alguém que a desse tanto amor.
Há três anos eram namorados, desde que os pais deles se mudaram para Berlim por questões de negócios, os dois frequentavam a mesma escola. Ele havia se formado no ano anterior e ela estava no terceiro ano, mas mesmo há tanto tempo juntos ele não sabia dos seus segredos familiares.
— Rada, isso tudo começou há muito tempo, desde que fiquei órfã. Você sabe que quando eu falo sobre o meu tio, que ele é um monstro... Sabe que eu não digo isso brincando, é tudo muito sério!- Falava ela assustada, enquanto o rapaz se encontrava extremamente concentrado no assunto fixando os olhos profundamente azuis nos dela.
Então ela começou a narrativa sem interrupções:
— Quando eu e alone ficamos sozinhos, tadinho, era só um bebê – Ela enrugou as sobrancelhas e sentiu a voz falhar. – O juizado deu a nossa guarda para Thanatos, o irmão do meu pai que apareceu do nada, como um corvo procurando por carniça! Passou-se um tempo de acomodação até que as assistentes sociais deixaram de nos visitar. Foi ai que ele decidiu se mudar conosco pra cá...no começo eu gostei da ideia, queria mesmo esquecer um pouco do que tinha acontecido. Mas então começou a pior parte da minha vida. – Ela desviou o olhar e fraquejou um pouco, veio a dúvida se realmente deveria revelar tudo aquilo.
— Continue, querida, pode confiar em mim, sei que está com medo. – Radamanthys a puxou para perto de si a abraçando por trás, o que para ela foi ótimo, pois não queria continuar contando aquela história olhando nos olhos dele, certamente não conseguira terminar.
— Quando fiz doze anos foi a primeira vez que-que ele me fez mal. Era de tarde, eu brincava um pouco com meu irmão, mas ele começou a chorar. Meu tio odiava o choro do Alone, dizia várias palavras feias quando isso acontecia, mas naquele dia ele se virou contra mim...Foi então que eu o enfrentei e disse que ele não era nosso pai pra ter tanta autoridade.
— Que coragem...- Disse enquanto beijava os cabelos dela.
— Ele me puxou pelo braço e me levou até o meu quarto. Meus braços ficaram bem vermelhos por causa da brutalidade. Mas o pior começou quando ele me deu um tapa no rosto, depois deu outro, e mais outro... Até que olhou pra mim dentro dos meus olhos e disse: Acho que você já aguenta! Ele foi até o quarto dele e voltou com um chicote em mãos. Ele me bateu tanto, até hoje dói no corpo e na alma. E isso voltou a acontecer várias vezes, não só comigo...também com o Alone! O coitado às vezes tentava me ajudar, mas acabava sendo agredido também.
— Pandora, isso é muito sério, por que...por que você não denunciou esse cara?! – Ele se mostrava muito irritado com a situação.
— Porque eu não podia! Thanatos, numa das vezes que me bateu, na pior das vezes, aliás, disse que se eu o denunciasse nós iriámos para um abrigo de menores, eu não queria isso! Dava-me calafrios em pensar na ideia, e ele também me disse que eu seria separada de meu irmão. Tive que aguentar tudo, até aquele dia... – Nesse momento ela começou a chorar como nunca antes tinha feito, afinal era um desabafo guardado de tanto tempo.
— O que houve nesse dia? – O jovem percebeu que ela soluçava muito, e a envolveu ainda mais no seu abraço.- Pan, não precisa me contar se não estiver mais aguentando, eu vou entender.
— Ele abusou de mim, na frente do Alone! – Ela levou as mãos até as orelhas e as tapou, balançando a cabeça como se quisesse sumir naquele momento, pois aquela memória era seu pior fantasma.
Radamanthys sentiu seu sangue ferver, tudo o que ele sentia agora era ódio, não podia aceitar aquilo que estava ouvindo, mas mesmo assim se manteve firme para esperar a garota concluir seu desabafo.
— Quando aconteceu isso? – Disse ele sério.
— Quando eu tinha treze anos... E não foi a única vez.
— Maldito!- O jovem fechou o punho.
— Além disso, ele também me fazia de empregada quando dava festinhas privadas com um amigo, que ele chama de Hypnos. Não sei o que pensar dele, sempre me olhou com certo desprezo, mas nunca chegou a me fazer mal, eu apenas tinha que preparar e casa e servir as bebidas e comidas na festa, mas meu tio, quer dizer, o monstro sempre fazia questão de me apresentar a todos e dizer que eu sou muito linda... o que me enojava! – Disse ela gritando. Então eu te chamei pra te contar isso porque ontem ele me bateu outra vez, pois eu saí escondida.
— Perdão, a culpa foi toda minha! Nossa, eu não podia imaginar que era assim sua vida, já sabia que ele te tratava mal, mas agora estou chocado. Eu tenho tanto ódio desse homem que sou capaz de matá-lo, de decepar parte por parte do corpo dele! – O rapaz se encontrava colérico.
— Não, não faça nada, por favor! Esse ano eu farei dezoito anos e então me livrarei desse cara para sempre, e nós ficaremos juntos. É essa esperança que me move!
O rapaz saiu da posição que estava, se virou de frente para ela percebendo o quanto ela havia chorado. Ele enxugou as lágrimas da garota enquanto a confortava com palavras.
— Tudo vai mudar quando chegar seu aniversário, minha princesa!
— Então me acorde quando setembro acabar... – Referiu-se ela ao mês de seu aniversário.
Os dois deitaram-se na grama verde e aconchegante do parque e pararam um pouco para olhar fixamente o céu. Naquele momento nada mais importava, Pandora virou-se um pouco e repousou sua cabeça sobre o peito do seu amado, enquanto suspirava aliviada. Os dois podiam escutar a respiração do outro e não precisavam dizer qualquer palavra para que se entendessem.
A garota deitou-se sobre ele e lhe deu um beijo rápido, mas ele a puxou de volta e correspondeu intensamente, depois rolaram sobre a grama até que pararam e sorriram juntos, felizes.
— Obrigada por confiar em mim, milady.
— Obrigada por me amar tanto!
“I'm dying to catch my breath
Oh why don't I ever learn?
I've lost all my trust though I've surely tried to turn it around.
Can you still see the heart of me?
All my agony fades away
When you hold me in your embrace...
Don't tear me down for all I need
Make my heart a better place
Give me something I can believe
Don't tear it down, what's left of me
Make my heart a better place”
(All I need – Within Temptation)
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