Entre Revoluções

16 Entre a dama e o ferreiro


Não havia muita coisa decidida sobre o destino de Arya quando ela finalmente chegou à maioridade. Se fosse uma mocinha comum, uma dama convertida às convenções da alta sociedade, deveria ficar noiva em breve, de um bom pretendente que seus pais escolhessem. Embora muitos ainda seguissem essas regras, os tempos estavam mudando e regras nunca se aplicavam totalmente a Arya.

Os pais dela sabiam como ela era, que não adiantaria lhe impôr um casamento forçado, ela não aceitaria ser uma dama cuidadora do lar, Arya achava que isso não combinava com ela. Assim, enquanto ela mesma decidia o que fazer na sua vida adulta, seu pai lhe confiou uma tarefa que ele tinha certeza que lhe caberia muito bem.

Os Stark, principalmente Ned, eram quem coordenavam as questões militares no Norte, enquanto a guerra contra o Sul continuava se estendendo. Ned pediu que área buscasse mais ferreiros, mais homens que pudessem forjar mais armas. Era horrível pensar numa função assim, e a que finalidade ela servia, mas era algo extremamente necessário.

Focada em sua missão, Arya desceu a região, procurando alguém que aceitasse aquela empreitada. Chegou até o extremo limite da região Sul, sendo esperta o suficiente para não se fazer aparecer em pleno território inimigo. A filha de Eddard Stark estaria morta se pisasse em Porto Real.

Sua primeira parada, que não importasse que caminho tomasse, passaria pelas ruas bagunçadas e agitadas da capital. Não importava o conflito que acontecia do lado de fora, não havia muitos danos à cidade e seu ritmo, havia atrasos de mercadorias e más notícias aqui e ali, mas a capital estava de pé, com todas as suas características de metrópole, o que incluía uma ferraria.

O homem trabalhava com afinco, moldando o metal sobre a bigorna acesa, batendo com um enorme martelo, fazendo a ferramenta parecer leve por alguns momentos. Sua habilidade chamou a atenção de Arya.

Gendry geralmente detestava quando ficavam o olhando trabalhar, havia um certo quê de crítica e desprezo em fazer isso, mas não foi o que ele percebeu da moça que já estava à porta de sua forja por um bom tempo. Ela era uma aristocrata, vestia boas roupas, mais bem pouco ortodoxas para uma senhora da alta sociedade. Era um vestido prático, que a ajudava a se movimentar e montar num cavalo, caso fosse necessário. Parecia que ela era meio descuidada também, havia lama na barra do vestido, mas mesmo assim, ela parecia não notar ou não se importar. Só por aquele pequeno detalhe, ele percebeu que ela era diferente.

—Bom dia, senhora, há algo que eu possa fazer por você? — ele interrompeu o trabalho e foi atendê-la.

—Bom dia, senhor, sou Arya Stark e estou interessada em seus serviços — ela foi direta e prática como Gendry tinha deduzido que ela era.

—Eu sou um ferreiro, como pode ver, o que gostaria de encomendar? — Gendry quis saber mais especificamente.

—Na verdade, é muito mais do que o senhor imagina — ela continuou fazendo certo mistério — ouvi dizer que é um dos melhores de Porto Real, antes que possamos fazer negócio, preciso saber da sua posição sobre a guerra.

—A guerra? Bom, srta. Stark, não a apoio de forma nenhuma, só trouxe sofrimento a todo mundo, especialmente a quem não tem nada a ver com isso — ele não se importou que a família dela fosse um dos lados opostos no conflito — mas pra ser sincero, admiro a coragem dos seus parentes.

—Meus parentes? — Arya ficou intrigada, mas logo entendeu — ah claro, eu disse meu nome. Eu sou filha de Eddard Stark, e foi ele quem me enviou, precisamos de uma parceria para reabastecer nosso armamento, é por isso que estou aqui.

—É mesmo? Então quer que eu faça armas para os soldados do Norte, eu deveria saber — Gendry ponderou sobre a proposta.

—Então aceita a parceria comigo? Pelo visto você é a nosso favor — Arya esperava que ele dissesse sim.

—É, entre o Sul e o Norte, eu prefiro que o Norte vença, se Cersei e os Lannister continuarem no poder, não sei se muitos ainda aguentariam o jugo deles — o ferreiro continuou sendo sincero — se é desse jeito que eu posso ajudar a terminar com esse conflito, então sim, srta. Stark, farei suas armas.

—Ótimo, foi bom fazer negócios com você — ela apertou a mão dele firmemente, o que o surpreendeu um pouco.

—Nós mal começamos o trabalho, senhorita — Gendry deu um sorriso genuíno, disposto a fazer seu melhor por esse trabalho e pela dama a sua frente.

Assim, eles se transformaram numa verdadeira equipe, Arya recebia os pedidos do pai, conhecendo bem armas tanto quanto o General Stark, descrevia a Gendry o que precisava, e o ferreiro se empenhava ao máximo para atender o pedido dela. Eles conviveram um com um outro durante um longo tempo, se tornando bons amigos, até que todas as encomendas de Eddard cessaram, e Arya foi requisitada de volta a Winterfell.

—Eu agradeço por todos seus serviços, Gendry, mas agora eu realmente preciso partir — ela disse, relutante em fazer isso, não queria deixá-lo na perigosa Porto Real.

—Entendo, Arya, sabia que esse dia chegaria, foi um prazer conhecê-la e... se não for pedir demais, me envie uma carta ou outra, se se lembrar desse humilde ferreiro — Gendry tinha travessura na voz, aparecendo na frente de sua tristeza.

Comovida, Arya não se restringiu e o beijou, surpreendendo o ferreiro.

—Acho que isso significa que eu nunca vou te esquecer — ela foi categórica ao falar.

—Mesmo assim, não acho... não é que não a ame, eu falei sério quando disse que era um humilde ferreiro — Gendry ponderou.

—Acha mesmo que eu gostaria de me casar com um nobre de outra família importante como a minha? — ela riu, o que o deixou confuso — não, a princípio eu nem gostaria de me casar, mas acho que posso me acostumar a viver pra sempre com você, não sou exigente, e muito menos você, quanto a mim.

—Que quer dizer, Arya? Não se menospreze, você ainda é uma dama — ele rebateu.

—Uma dama sem hábitos de dama — ela corrigiu — admita, eu não sou como outras mocinhas delicadas.

—Não é, realmente não é, é uma das coisas que me faz gostar de você — admitiu o ferreiro.

—Então, sr. Waters, espero que assuma um compromisso comigo, porque eu estou disposta a isso — ela olhou bem nos olhos dele, determinada.

—Está bem — ele viu que aquela chance não se repetiria — falarei com seu pai assim que for possível, espero que ele me aceite.

—Ele vai te aceitar porque eu já te escolhi — Arya afirmou com toda certeza.

Assim, eles se despediram e Gendry, alguns dias depois, reunindo o que tinha, fez uma corajosa viagem até Winterfell.