Entre Quatro Paredes
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Como lidar quando somos o oposto de tudo que é considerado certo, quero dizer, quando não nos encaixamos nos padrões de belezas imposto por uma sociedade hipócrita. Gostaria de uma sociedade mais justa, menos corrupta, com menos hipocrisia, mais digna, com mais amor ao próximo, menos preconceito, menos rancor e principalmente mais paz na alma. Isso não deveria nos afetar, mas eu fui só mais um dos milhares de reféns idiotas que fez disso para me afastar do que eu acreditava certo.
Me chamo Victor, tenho 16 anos, até acho que eu possa ser bonito, mas encoberto por 90k de pura gordura fica bem difícil afirmar isso, mesmo que eu tenha olhos castanhos e cabelos lisos pretos.
O primeiro ano do ensino médio na escola foi o pior de toda a minha vida, um ano que desejei esquecer. Aquele tipico ao em que você é transferido para uma escola onde é o único novato, onde todos a sua volta são absurdamente bonitos e você se torna o patinho feio no meio deles. Você se sente o estranho, como se fosse um pedaço de 90k de carne (o que não deixa de ser verdade) colocado em uma jaula de leões e leoas prontos para lhe devorar.
— Acorda Victor! — uma voz gritava, enquanto abria as cortinas do meu quarto para a luz entrar.
Tomei um susto, mas lentamente fui me acostumando com a claridade que batia em meu rosto.
— Vera, precisa disso tudo? — perguntei a minha empregada/mãe por acaso/melhor amiga.
Vera cuida de mim desde os meus oito anos de idade. A marca de roupas dos meus pais tinha acabado de ganhar fama e começado a ser reconhecida até no exterior, e como todos sabem fama transforma as pessoas e com eles não foi tão diferente. Fui cada dia ficando mais de lado e com um tempo esquecido de vez, passei a vê-los muito pouco, éramos quase que desconhecidos. Pelo menos no meu aniversário nunca esqueceram de mandar um cartãozinho barato. Então vera se tornou uma mãe pra mim.
— Meu filho, você vai se atrasar para o seu primeiro dia de aula. Se levante, vou pôr a mesa do café. — soou mais como uma ordem.
Me levantei, fiz minha higiene matinal e fui em busca no meu armário roupas que ainda me servissem, praticamente todas ficaram pequenas já. Me vesti com uma qualquer, depois peguei minha mochila e desci, claro que tudo com calma porque um gordo não consegue fazer as coisas com tanta maestria.
Como prometido a mesa estava posta, com tudo que eu amo comer,d e chocolates até panquecas com bacon. Comi um pouco de tudo.
— Café delicioso mãe Vera. — disse com a boca ainda cheia de comida.
— Não lhe ensinei esses modos! — me repreendeu.
Ri da forma como ela falou.
Terminei meu café, beijei sua testa e fui para a garagem onde Rodrigo ( filho da mãe Vera e meu motorista particular) me esperava para me levar a escola.
— Bom dia Victor. — mesmo que não fosse um bom dia, só aquele sorriso dele resolveria tudo.
— Bom dia Rôh (apelido carinhoso que dei a ele).
Rodrigo e eu crescemos praticamente juntos, quando Vera veio trabalhar aqui ela começou a traze-lo para me fazer companhia e depois de um tempo ela já era da família. Sempre fomos bem próximos, mesmo ele sendo sete anos mais velho que eu e com outras prioridades, ele sempre cuidou e me defendeu. Como se fosse um irmão mais velho mesmo. Lembrando hoje quando ele eramos menores não achei que ele fosse se tornar tão belo homem assim, digno de capa de revista e sonho de qualquer mulher. Cada centímetro do seu corpo parece ter sido esculpido por um anjo, forte, todo definido, tudo proporcional sem parecer aqueles "sorvetes" ( homens forte do tronco pra cima e fino nas pernas). Seu rosto másculo, barba por fazer, lindo par de olhos azuis, combinado com cabelos loiros. Tem como não dizer que ele é um deus grego?!
— Ansioso para o primeiro dia de aula? — ele e olhava do retrovisor traseiro, já que eu estava no banco de trás.
— Nenhum pouco. — falei com desprezo. — Você deveria ter pena de mim e me lagar em algum fast food desses da vida. — fiz cara de pidão, o que não funcionou.
— Estudos em primeiro lugar, lembra o que combinamos?
"Se você for bem na escola, no final do ano eu te levo para conhecer minha cidade natal com você sempre quis" — pensei .
— E mais uma coisa senhor Victor, para de comer tantas porcarias. — ele me observava enquanto comia uma barra de chocolate.
Não sei oque aconteceu comigo, tudo que eu sinto em qualquer situação, a unica coisa que me acalma é a comida, sou dependente dela.
— Me poupe do sermão papai. — bufei.
— Beleza, não falo mais. E só pra avisar chegamos. — ele estaciona o carro em frente a escola.
Olhei pelo vidro fumê do carro, aquilo parecia mais um castelo-prisão, do que uma escola, Todos uniformemente fardados, menos eu que o uniforme para o meu tamanho ainda não tinha chegado.
— Qualquer coisa me liga, beleza? — escutei ele gritar logo que sai do carro.
Tratei de descobrir logo onde era a minha sala, que para a minha grande sorte ficava no terceiro andar e não tem elevador. Claro que quando cheguei na sala estava morto e todo suado. Só de pensar que terei que subir isso todos os dias eu penso em fugir.
Todos olhavam para mim quando fui em direção ao fundo para me sentar, ouvi risadas, cochichos e não era difícil de imaginar qual seria o motivo dessa agitação toda.
Me sentei na ultima cadeira, queria ser o menos notável possível, apesar do meu tamanho não facilitar as coisas.
— Bom dia turma. — um professor bigodudo de oculos entrou na sala saudando a todos.
A sala respondeu em coro:
— Bom dia Professor Carlos.
— Fiquei sabendo que temos um aluno novo. Cadê ele pessoal ?
Fiquei torcendo para que ele não estivesse falando de mim, o quão bobo eu sou não é mesmo?
— Queira se levantar e se apresentar a turma por favor. — ele apontou para mim.
Com toda má vontade eu me levantei. Todos olhavam e riam de mim.
— Me chamo Victor Santiago. — me sentei em seguida. Fui seco e curto.
— Seja bem-vindo balofo. — escutei alguém da frente gritando.
Engoli o choro e fingi não ter escutado.
— Sr. Mendonça queira ir para a diretoria agora. — agora era o professor quem falava.
Todos zoavam o garoto, que saiu da sala com um olhar mortal para mim.
O resto das aulas foram apenas de introdução a matéria, entre trocas de professores e muitas piadinhas sobre mim. No intervalo fiquei em sala mesmo ( trouxe algumas guloseimas na bolsa e tive que me conter com isso ), fora a escada que teria que enfrentar, tortura total. Até pensei em ligar para o Rodrigo me pegar, mas prometi a mim que aguentaria esse dia de aula.
No final da aula foi um dos piores momento da minha vida, todos gritavam "mata a baleia!, em primeiro momento fiquei sem reação e deixei apenas as lagrimas caírem. Só depois percebi que precisava sair dali o mais rápido possível, ai vocês imaginam um gordo correndo e todos rindo e vaiando você. Eu não consigo explicar em palavras oque eu senti naquele momento. Raiva, Dor, Ódio, Tristeza...
Quando me aproximei do carro, limpei as lagrimas para Rodrigo não perceber nada. Fomos o caminho todo em silencio, ele até tentou puxar assunto, mas eu não estava afim no momento. Me senti um pouco mal em tratar ele daquela forma. Ao chegar em casa, corri para o meu quarto e me tranquei o resto do dia.
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