Entre Paredes
8 Capítulo 8
Notas iniciais
O tempo passava depressa. O fim do ano estava se aproximando a galopes e há muito não trombava com Madara. Talvez por estar evitando contato, talvez por estar ocupado demais com seus cursos temporários e com seu emprego. Havia encontrado uma garçonete perfeita, muito responsável, que sabia que logo estaria longe, em um emprego que realmente lhe servisse. Era muito bonita, muito inteligente e dona de um lindo sorriso. Estava suprindo a falta do outro ao lidar com ela, sempre tão comunicativa e compreensiva. Talvez a esposa perfeita para cruzar a vida ao seu lado. Havia ligado para os pais alguns dias antes contando que havia encontrado uma namorada, que pretendia fazer com que durasse, coisas assim e fora completamente apoiado. Pudera ouvir a felicidade na voz de seu pai. No fundo, sabia que tinha que ser assim. Não havia realmente espaço para Madara em sua vida, assim como não houvera na dele espaço para que assumisse o relacionamento que outrora tiveram. Agora, enfim, acreditava em inferno ao se lembrar de tudo que havia passado.
Suspirou. As contas estavam feitas, só precisava ir embora. O local já havia sido fechado mais cedo, estava perfeito para outro dia de idas e vindas de pessoas esfomeadas e cheias de dinheiro. A porta da frente se abriu e seus olhos azuis foram até a silhueta pequena que entrava por ela.
— Kushina?
Indagou correndo até ela. Chorava. Os cabelos ruivos estavam desgrenhados, a roupa amassada e alguns hematomas pelo corpo.
— O que aconteceu?
Escandalizou-se ao pegá-la no colo antes que caísse feito um corpo inerte.
— R-roubaram... minha bolsa e... eu não queria deixar e... me bateram!
Desatou em lágrimas enquanto era confortada pelos braços fortes. Ele a levou até o balcão, deixando-a assentada sobre ele enquanto ia pegar gelo. Quando voltou, ela ainda chorava.
— Droga... Você não deveria estar trabalhando! É tão nova... E seus pais tem mais dinheiro do que pode ganhar se for dona disso aqui, de toda a rede pela cidade!
— Eu não tenho culpa! Ele queria um garoto, mas como nasci mulher, quer que eu seja boa e forte o bastante pra dar o orgulho que um filho homem daria! Eu não deveria nem ter nascido... ele vai acabar comigo quando ver que eu não consegui nem me defender de um assalto!
Chorava, enquanto ele colocava gelo num dos hematomas, no rosto da mesma. A abraçou, acolhendo.
— Vamos, venha comigo. Não vai voltar pra casa assim.
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Depois de trancar a loja, a levou para seu apartamento. Conversaram bastante por todo o caminho, a escutou se queixar, quis saber sobre sua vida... Parecia que, no mundo, não havia ninguém por ela, à não ser o dinheiro dos pais. E o tipo de amor que ela queria, de fato era impossível de se comprar. Talvez fosse só um mal entendido, e quando mais velha, pudesse entender de verdade os motivos do pai treiná-la tão arduamente para o mundo.
Quando entraram, a levou até seu quarto, e perdeu incontáveis horas cuidando dela. Cada sorriso, cada olhar sincero.. Tudo isso, o fazia querer apenas uma coisa: Estar ali por ela. Para sempre.
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Os dias foram passando, as semanas correndo... E Minato se pegou morando em outro apartamento, junto à ela, num bairro nobre da cidade, tendo ajuda de seu antigo patrão para montar seu próprio império. Havia aberto uma grande cafeteria duas ruas para frente de seu antigo trabalho. E sim, pensar que aquilo fora um presente de um atual concorrente o fazia rir, rir e lembrar que no mundo, ainda existiam pessoas como seu velho patrão, pessoas especiais. Era como se fosse um segundo pai, e a cada dia que passava por sua loja para tomar um de seus cafés, olhava orgulhoso para ele e Kushina. Tão jovens, tão juntos... E ela parecia tão apaixonada! Aos olhos de todos, era fato que o destino havia feito sua parte, colocando um no caminho do outro.
Seus pais vinham quase que toda semana, estavam gerenciando um novo negócio no interior e parecia que bons ventos sopravam cada vez mais em sua direção. A única coisa que o incomodava era a lembrança viva de Madara. Ainda podia dizer, mesmo que querendo se contestar, que vivia por ele, que respirava por ele. Várias vezes fora à boate com Kushina, só para olhar para os olhos negros, vê-los estreitar e lacrimejar. Mesmo que ele parecesse feliz e tão próspero quanto sua pessoa, sabia, a mesma falta e vazio que assolavam seu peito, assolavam o dele também. Não podia se culpar nem se achar exigente demais. Só queria as coisas certas, e podia entender que Madara também, mesmo não podendo se arriscar. Já não o culpava tanto. Já quase entendia, mesmo que tivesse ínfimas esperanças de que um dia fosse acordar e ele estaria na TV, declarando seu amor, numa das entrevistas para o qual sempre era convidado por ser o jovem empreendedor do momento.
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Estava ajeitando uma das máquinas de expresso, instantes antes de abrir, sozinho. O sol já começava a ficar um tanto quanto evidente, já passavam das cinco. Kushina havia ido ao médico com a mãe. Se sentia um tanto que estranha ultimamente, e a senhora Uzumaki fizera questão de acompanhar a filha. Talvez fosse o stress da faculdade, afinal, era uma garota. Trabalhar e estudar ao mesmo tempo poderia estar causando todo o mal-estar.
— Você achou mesmo que eu fosse esquecer de seu aniversário?
A voz rouca o surpreendeu. Sentiu-se estremecer e voltou-se ao outro lado do balcão.
— Madara?
Cenho franzido, indagou. O outro sorriu, um sorriso um tanto quanto triste.
— Mesmo que eu tenha te perdido para uma vida certa, eu... por mais que eu tente, não consigo... te tirar do meu coração e da minha mente.
Viu um brilho estranho nos olhos do outro. Ele não parecia estar muito são.
— Você está bem?
Perguntou, dando a volta e tocando o rosto pálido. Usava maquiagem, parecia uma linda estrela decadente.
— Não. Algo que acho muito ruim vai acontecer em poucos dias, eu sei, e pressinto. E não será apenas uma coisa... Eu só vim... Eu não sei pra que, talvez quisesse te ver, pedir perdão por ter sido um idiota.
Lacrimejou sorrindo. O outro o abraçou, puxando forte contra si, como se pudesse virar poeira no vento. Na verdade, Minato temia isso. Temia, de verdade.
— Não, não... Eu não estou com raiva, eu já te perdoei, já entendi.
— Diga que me perdoa, por favor.
Ele pediu, afastando-se.
Olhos nos olhos, o loiro o tomou a mão e disse:
— Eu te perdoo. Do fundo do meu coração.
Ele se aproximou, selando os lábios do loiro e afastando-se enquanto deixava sobre o balcão uma pequena caixa preta.
— Eu te amo. Eu nunca vou deixar de te amar. E posso dizer, nunca vou amar mais ninguém, nunca amei mais ninguém.
Os passos lentos foram levando-o cada vez mais longe.
— Madara... — Minato chamou, lacrimejando — Eu — apontou para o próprio peito, olhando nos olhos do outro — te amo. Para sempre.
Ele apenas sorriu enquanto uma porção de lágrimas se atirava face abaixo, lançou um beijo ao outro e deixou o local. O coração de Minato parecia estar sendo amassado, trucidado, dentro do peito. Sentia medo, medo de perdê-lo de verdade, medo do que pudesse fazer, ou talvez até mesmo do que profetizou acontecer.
Alcançou a caixa. A abriu e qual não foi sua surpresa ao encontrar um anel que mais parecia um tribal, provavelmente de ouro branco, cravejado em diamantes. Junto, havia um papel.
“Adeus. Vou me casar. Madara.”
Seu mundo girou de modo veloz, perdeu as forças nas pernas e quase não pôde respirar. Assentou-se numa das mesas. A confusão mental que se apoderara de seu ser foi tão grande que chegou a chorar feito criança, gritar. Sentia ódio do mundo, ódio das palavras dele. Por que é que viera, dissera o amar e então o deixara com um bilhete desses? Por que tudo isso? Por que tanto desejo por sofrimento?
Passou alguns instantes ali, digerindo, com o anel nas mãos, como se se tratasse de uma lembrança de alguém querido que se foi. E então, era isso. Madara havia partido.
Ainda soluçando, prometeu-se tentar esquecê-lo, prometeu-se um enterro digno do mesmo nos confins de sua mente. Era hora de fazer uma vida de verdade, uma vida com a qual pudesse manter sua sanidade para não morrer com a lembrança dele, pouco a pouco.
Guardou o anel embrulhado no bilhete, dentro da caixinha, no bolso. O guardaria em algum lugar, em algum de seus pertences, para tentar nunca mais encontrar, para nunca perder, porque sabia, séculos poderiam transcorrer, mas, de verdade, nunca iria esquecer.
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Era a segunda vez no dia de seu aniversário que o universo conspirava para tirá-lo do chão com um choque. Enquanto fora até uma joalheria buscar certa encomenda, deparou-se com ele, sendo entrevistado como o empresário-revelação, contando sobre seu futuro casamento, sendo exibido naquelas telas imensas pela cidade afora. Conteve-se.
Entrou onde pretendia entrar, e dentre as três opções preparadas pelo ourives, ficou com a mais cara, a mais esplendorosa. Se sentia toda aquela dor no peito, tentaria afoga-la dando a maior felicidade possível aos outros. E seu primeiro alvo, era sua então namorada.
Telefonou para a mesma, dizendo que não a queria no trabalho, dizendo para que avisasse aos pais que iria jantar e tratar de um assunto importante com o pai da mesma, e mentiu, dizendo que se tratava da proposta de abrir uma outra cafeteria.
Ela, ainda que um tanto indignada por não poder ir trabalhar — parecia estranha, muito necessitada de algo —, concordou. E assim, ajudou o dia a transcorrer um pouco mais depressa.
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A noite caiu sobre a cidade. Minato saia de casa, preparado para o acontecimento de sua vida. Tudo mudaria a partir de então. Podia sentir, podia enxergar. Respirou fundo e tomou coragem, como se fosse saltar de um navio durante uma tempestade para tentar se salvar.
Não soube quanto demorou, não soube nem ao menos se havia sido bonito, mas uma coisa gravou em sua mente: Os olhos dela. Brilharam, mais do que qualquer estrela. O pai a abraçou, a mãe a abraçou, logo depois dela ter dito que aceitava. Queria um filho com aqueles olhos, ou pelo menos o jeito verdadeiro deles.
E então, mais uma forte rajada de bons-ventos soprou sobre sua vida nos próximos meses. Seus pais estavam quase morando na cidade, já havia aberto a terceira cafeteria, visto seu velho patrão expandir em categoria nacional, visto o casamento de Madara na TV...
E agora se via no altar, beijando-a. Haviam se casado. Todos olhavam, fotografavam... Seus olhos ardiam, estava emocionado, mas ainda conseguia se conter. O que não durou muito, porque antes de jogar o buquê, no meio da festa, ela gritou:
— Eu e meu bebê vamos jogar o buquê!
Mais uma vez em sua vida, foi o centro das atenções ao lado dela, sentia seu rosto num sorriso mais largo que o possível, a via lacrimejante, como se fosse uma rainha dentre todos ali. E ele, só podia agradecer. Teria um filho, teria um herdeiro, alguém para cuidar tão bem quanto cuidaria dela... Sentia-se quase completo. E quando soube que na verdade, só faltavam seis meses, sentiu-se há pouquíssimo tempo de distância de seu paraíso pessoal. Fato que seria difícil administrar trabalho, estudos... e um bebê, mas a ajudaria, faria tudo, de então em diante, ao lado dela, para que pudessem dar tudo de melhor ao futuro membro da família. Decerto, nem mesmo precisaria mais perder tempo pensando em suas dores. A alegria era muito maior, muito mais forte...
Sabia, talvez fraquejasse em algum momento, mas sentia que esta era sua vida, esta era a chance de começar o que de fato jamais teria um fim... Era sua chance de recomeçar o amor, de poder compartilhá-lo e aprender com ele de modo bom, alegre. De então em diante, sua vida era a vida dela e de seu bebê, assim como seu destino. Não sabia o que viria pela frente, mas teve certeza de uma coisa: Jamais se separariam. Apertou a mão dela com a sua enquanto a mesma jogava o buquê, e então, deram o primeiro passo ao futuro...
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