Entre Nós
8 Remember Me as a Time of Day
Notas iniciais
“Dizes que brevemente
serás a metade de minha alma.
A metade?
Brevemente?
Não: já agora és,
não a metade, és toda.
Dou-te a minha alma inteira,
Deixe-me apenas uma pequena parte
para que eu posa existir por algum
tempo
e adorar-te.”
Nicola meio que sabia que eles não iriam sair na hora do recreio, por isso esperou sentada na própria carteira até todo mundo ter pego suas respectivas lancheiras, que ficavam penduradas do lado da porta, e sair para o pátio. Ela levantou, pegou a sua lancheira e a dos gêmeos e caminhou até onde eles ainda estavam sentados.
Antes de se aproximar reparou que Theo desenhava — não encontrou outra palavra de explicar o que via — algo no braço de Ange com o próprio dedo, fazendo curvas e finalizou com um ponto. Franziu as sobrancelhas. Que coisa mais estranha de se fazer. Viu Ange balançar a cabeça de modo negativo e então Theo tornou a segurar a mão da irmã que havia soltado, cruzando os dedinhos. Mesmo de longe Nicola ficou receosa. Parecia que ambos não queriam ser incomodados, mas ela não conseguiria ignorar a urgência que crescia dentro de si e terminou de marchar de modo decidido até parar em frente a carteira deles.
Primeiro depositou a lancheira dos gêmeos em frente a Theo e olhou para o amigo. Seus olhos estavam levemente inchados, lhe deixando um aspecto de sono, e finas linhas vermelhas pintavam sua parte branca.
Nicola engoliu seco, sentindo um leve tremor passar pela sua espinha. Depois olhou para Ange. Esta demorou longos segundos para levantar a cabeça e quando o fez, Nicola arregalou seus olhos e jogou sua lancheira sobre a carteira dos gêmeos, contornou a crteira que as separava e jogou os braços em volta da amiga. Nicola nunca mais esqueceria o olhar de assombro, tristeza e medo que enxergou refletida nas orbes dourada alaranjadas de Ange.
Ela não sabia o que tinha acontecido com eles. E agora mesmo não iria querer descobrir. Porque no presente momento não existia nada que ela pudesse fazer para ajudar os seus amigos. Se tinham passado por algo tão ruim ao ponto de Ange carregar aquele olhar mesmo depois de tantos dias, e Nicola não tinha feito ela não se perdoaria. Mesmo que não tivesse como saber. É claro que enche-los de abraços e carinhos também ajudaira, mas ela gostaria de ser mais útil do que isso.
Não sabendo o que havia acontecido meio que a fazia se perdoar.
Se ela tivesse sido chamada, ou tivesse ficado sabendo no momento em que tudo ocorria, sairia de casa no mesmo minuto para acudir os gêmeos. Mas agora? Depois que o pior já passou — porque pelo olhar da amiga só poderiam ter passar por algo ruim o suficiente para ser chamado de pior– ,pra quê saber? Só ia fazê-la chorar e sentir raiva de sí mesma.
E Nicola abraçou, abraçou e abraçou Ange e Theo até não poder mais.
* * *
– Não quer comer? — Lina perguntou quando reparou que só ela e Theo comiam.
Ange apenas meneou com a cabeça. Havia uma linha branca numa das suas bochechas, marca de uma machucado que começara a cicatrizar, e mesmo que a curiosidade fosse muita, Nicola se policiou e não perguntou nada. Quem sabe daqui uns dias.
– Tem certeza? O bolo ta muito gostoso. — Theo insistiu e novamente a menina negou. Ange levou um dedo até o antebraço do irmão e fez várias curvas e traços. Nicola observou tudo de testa franzida.
– O que foi?
– A garganta dela ainda tá doente. — Theo respondeu com a boca cheia de bolo.
– Ata...Você gripou G?
– Ela…Foi. Gripou. Ai a garganta também dói para comer e falar. — Theo respondeu rapidamente, aumentando um pouco a voz. Nicola levou um pequeno susto. Ele abriu um sorriso pedindo desculpas.
– Nossa, que gripe forte. Mas você não ta doente. — Nicola observou olhando de Theo para Ange.
– Ah, não eu não. Só a Ange que gripou.
– Engraçado. Vocês sempre adoecem juntos...Isso é diferente! — Disse sorrindo.
Theo ouviu a amiga soltar um risinho enquanto pegava mais um pedaço de bolo e tomava um gole do seu suco de caixinha ao mesmo tempo. Pela primeira vez reparou que ela e a irmã estariam com o mesmo corte de cabelo, na altura dos ombros, se Nicola não tivesse cortado uma franjinha uma semana atrás.
Enquanto em Ange o cabelo curto a deixava com um ar inocente, como alguém feito de porcelana e que todo movimento deveria ser feito sem pressa e com cuidado. Em Nicola suas grossas mechas cor chocolate transmitia um ar de travessura, a deixando com o aspecto de que estava sempre pronta para o que der e vier. Não havia longas mechas com a qual se preocupar, bastava levantar e ir para aonde precisasse pois estava pronta. Mas Nicola sempre fora estalo e pimenta, e agora mais do que numa parecia um belo girassol, enorme, amarelo e brilhoso.
Como se tivesse lido a mente de Theo de repente Nicola solta uma exclamação e diz:
– Ei! Estamos com o cabelo igual! Ange, olha. — Ela abria seus olhos amendoados o máximo que podia e havia largado o pedaço de bolo pela metade, e sua caixinha de suco no chão para levantar algumas mechas do próprio cabelo.
Theo soltou um risinho pois Nicola estava igual à imagem de um espantalho que ele e Ange viram num livro da escola, semanas atrás. Ele sentiu a irmã apertar sua mãozinha levemente e quando virou o rosto viu que ela fitava Nicola. Ange não abriu um sorriso, mas pelo olhar percebeu que ela se lembrou da mesma imagem que ele.
– Nicola tá igual um espantalho. — Falou, apontando um dedo. Os dois soltaram um riso, com Ange alargando o lábios.
Depois disso Ange pegou um pedaço de bolo e Theo cedeu seu suco para a irmã conseguir engolir.
Nicola viu Ange utilizar novamente o dedo para fazer curvas e traços no braço de Theo, mas dessa vez ela foi mais breve e quando terminou Theo lhe mostrou um enorme sorriso de dentes.
Isso foi outra coisa que Lina precisou se segurar para não perguntar, porque meio que sentia que estava atravessando uma linha da qual não devia. Quem sabe um outro dia.
* * *
No final da aula Theo foi surpreendido por um puxão na blusa do seu uniforme e rapidamente olhou para o local. Ange agarrava o tecido da blusa com força e quando ele subiu o olhar, sua irmã o fitava apavorada. Ele chagou a abrir a boca para perguntar o que havia acontecido, e foi que notou uma figura parada ao lado da irmã.
Um coleguinha da sala.
Se ele soubesse xingar teria pensado em algo, mas só fez saltar da carteira num pulo e contornar a irmã, se colocando entre ela e o colega de sala. O menino tomou um susto e meio que deu um passo para trás se esquivando e caindo.
– Ange? — Ele olhou para a menina com o rosto franzindo, sem entender nada. Segurava uma folha branca cheia de linhas, junto com um lápis amarelo. Ele subiu o olhar e fitou Theo, esperando uma resposta.
– Ah...Ela ta com dor de garganta.
– Eu sei. Mas essa é a chamada. Ou ela também não pode escrever? — O menino balançou a folha e lançou mais um olhar irritado para Ange, que havia virado quase que totalmente de costas para o menino.
– Eu assino. Pode deixar. — Theo pegou a folha das mãos do menino e agradeceu, mas ao invés de retornar para a carteira continuou entre ele e a irmã, fitando-o. O menino entendeu a deixa e sussurrou algo sobre eles serem estranhos antes de se virar e ir embora.
Theo suspirou alto e voltou para o seu lugar. Ange havia congelado na posição meio que de costas e meio de lado, quando ela puxou a blusa do seu irmão, e agora suas mãos agarravam a lateral da sua carteira e ele via o pequeno tremor que fazia seus ombros balançarem.
– Ange. Ei, calma. Ele já foi. — Theo colocou sua mão sobre a da irmã e viu ela relaxar sutilmente os ombros. Mas seus olhos ainda estavam bem abertos e seu peito subia e descia violentamente.
– Tudo bem. Fica calma. — Continuou e ele viu ela levantar uma mão de cada vez e agarrar a frente do seu uniforme.
Ange não havia se mexido mas o tremores cessaram.
Dona Eva já havia conversado com Theo sobre como ele precisaria ajudar e ter paciência com a sua irmã. Ela havia passado por uma situação horrível e provavelmente ficaria com alguns traumas. Ele ainda ouviu algo sobre assistentes sociais que separavam famílias e pais que iam pressos por baterem nas próprias mulheres, mas ele só fez questão de guardar o final: “Você e Ange iriam ser separados pela assistente social, e eu nunca mais os veria. Não deixe isso acontecer.” e “Qualquer um pode denunciar.”
E ele não deixaria isso acontecer. Prometeu não deixar ninguém ver o quanto Ange se assustava com qualquer presença masculina — exceto a dele — e o quanto ainda estava estressada. Prometeu a Dona Eva que nunca contaria nada a ninguém sobre o que acontecia em casa e que ajudaria Ange mais do que tudo. Theo poderia não saber o peso que estava começando a carregar nas costas, mas o que ele sabia era que tudo valia a pena se no fim ele continuaria a ter Ange ao seu lado.
– Me dá. Eu entrego para a professora. — Era Nicola, que havia assistido tudo de longe e tinha se dirigido para o lado do gêmeo, sem ele perceber. Theo mostrou um pequeno sorriso e lhe entregou a folha, tornando a sussurrar algo no ouvido da irmã.
Foi preciso mais alguns segundos até conseguir fazer Ange soltá-lo e levantar da carteira. Nisso, Nicola já havia guardado o seu material e ajudado Theo a guardar o dele e de Ange. Saíram da sala e cruzaram o pátio; com Ange cabisbaixa e calada, agarrando a mão do irmão, e Nicola olhando preocupada para aquela cena.
Quando chegaram ao portão e Theo agradeceu a amiga antes de virar as costas e caminhar até a esquina da rua, puxando Ange. A morena tinha uma bateria de perguntas pressa na sua garganta, e até pensou em gritar por Theo e exigir a resposta de todas, ali mesmo. Mas quando olhou mais a frente, viu Dona Eva parada na esquina da rua, segurando um guarda-chuva. Não chovia mas ela sabia que as vovós faziam aquilo para se proteger do sol.
Ela balançou as duas mãos num aceno caloroso e recebeu um sorriso tão caloroso quanto da Dona Eva.
As respostas das suas perguntas e a notícia que tinha para dar as gêmeos ficaria para outro dia.
– Quem vai querer me ajudar a organizar as flores? — Dona Eva perguntou enquanto caminhavam de volta para casa. Ela já havia tentado fazer Ange pronunciar qualquer palavra desde que saíram da escola, mas a menina se mantinha calada. Ao menos não estava mais cabisbaixa, apenas calada.
Fitava o céu e o sol refletia nas suas orbes douradas, fazendo com que parecesse duas bolas de fogo.
– Eu vou! — Theo respondeu esbanjando entusiamos. — Vamos Ange?
A menina parecia estar sonhando acordada, e quando escutou seu nome, virou o rosto para o irmão vagarosamente. Meio que balançou a cabeça concordando mesmo, claramente, não saber o que estava acontecendo. E Dona Eva suspirou alto, tremendo o corpo num espasmo de medo.
Ange havia estado assim desde do ocorrido. Primeiro acordou chorando e depois ficou quase um dia inteiro sem comer nada. Theo não saiu do seu lado, e quando o fez a menina correu e se jogou nas suas pernas, agarrando os tornozelos do irmão, tremendo violentamente e chorando. Dona Eva quase não acreditou na cena.
Então Ange parou de falar. Não pronunciou uma sílaba se quer e apenas Theo, de algum modo, dizia a Dona Eva o que a menina queria e sentia. Ele explicou que a garganta dela doía muito o quando foi levada ao hospital público o médico informou ser uma forte irritação na garganta e nas cordas vocais.
– Ela costuma gritar muito? Suas cordas vocais estão incrivelmente irritadas. — O doutor concluiu e não foi preciso de mais nada para Dona Eva entender que Ange havia gritado até, literalmente, perder a voz. No caminho de volta pararam na farmácia e comprara um xarope e uma pomada super hidratante. A pele da região do bumbum ainda estava dolorida e Ange quase não sentava.
Naquele mesmo dia, depois de uma longa conversa, Corrine decidiu decidiu afastar sua menina do próprio marido. Não havia muito que ela podia fazer, mas se existia um mínimo ela faria. Corrine encheu uma mala de mudas de roupas da filha e levou para a casa da Dona Eva. Levou também alguns brinquedos e produtos. Temporariamente — assim ambas acreditavam — Ange moraria com a Dona Eva, e apesar de Theo ter achado um absurdo num primeiro momento passou a aceitar a situação. Compreendeu que com o medo de pessoas do sexo masculino que Ange havia desenvolvido, ficava meio que impossível ela morar junto com ele e os irmãos.
Porém havia a hora de dormir.
Quando Ange se descobriu sozinha na cama de casal do quarto de hóspede de Dona Eva, chorou e emitiu ruídos doloridos do fundo da garganta. Dona Eva se desesperou e ligou para Corrine, que apareceu de camisola mesmo, com Theo ao seu lado. Quando Ange o viu, se acalmou e adormeceu agarrada à uma das mãos do irmão. Ambas mãe e a vó postiça se olharam e, por aquela noite, Corrine deixou o pequeno dormir na casa da Dona Eva. Mas logo pela manhã Graydon sentiu a falta do menino, e exigiu que ele voltasse para casa, e Ange o assistiu ir embora da janela com lágrimas nos olhos. Ela não comeu nada naquele dia e nem dormiu nas duas noites que Theo não apareceu para visitá-la. Quando ele ficou sabendo disso passou a esperar todos da casa dormir, para sair escondido e encontrar Dona Eva na porta da sua casa. Pela manhã, Corrine sempre acordava mais cedo para buscá-lo e, juntos, retornarem rapidamente para casa antes de Graydon sentir sua ausência.
Vinham fazendo isso desde então.
Também ficou combinado de Dona Eva os buscar na escola, e os três almoçavam na mesa redonda e amarela que ficava no meio do jardim. As borboletas sempre cercavam Ange, enquanto Theo tinha que espantar os gafanhotos do seu prato.Graydon nunca almoçava em casa e Ammon fazia era agradecer a ausência do irmão. O coração de Corrine chorava silenciosamente toda vez que olhava para o espaço vazio dos gêmeos, mas ela sabia que estava fazendo o melhor para os filhos — esses que mais precisavam de cuidado.
Depois, os gêmeos se sentavam na mesa baixa da sala, para fazer o dever, e quando terminavam corriam para a garagem observar as pessoas entrarem e saírem da floricultura improvisada da Dona Eva.
Diariamente ela os ensinava sobre qual era mais cheirosa, qual podiam misturar com a comida e quais folhas serviam para fazer chá. Ange ficou no caixa e aprendeu a fazer contas com mais facilidade enquanto Theo ajudava Dona Eva com os clientes. A maioria se assustava ao ver um garotinho de nove anos dando dicas sobre as flores que mais combinavam num arranjo e para um buquê. Mas todos ficavam encantados, principalmente as vovós e mulheres, e as vendas aumentaram um pouco.
E apesar dos meninos da rua transformarem isso num motivo de piada, Theo tinha coisas mais importantes para fazer e preferia cuidar do que tinha que ser feito do que dar ouvidos aos que os meninos da rua diziam. Ele já era naturalmente um tanto quanto lerdo e desligado, ignorar isso nunca foi algo complicado para ele. E logo agora que tinha uma nova rotina — almoçar na Dona Eva, fazer o dever, cuidar dos machucados da Ange, cuidar da floricultura e atender os clientes, requeria todo o seu tempo. Quase não tinha mais espaço para brincar nas ruas com os amigos.
Theo podia não ligar, mas Ange estava convicta de que, na verdade, ele fingia não se importar. Gradativamente ele ficou ausente entre as brincadeiras dos amigos e passava todo as horas do seu dia ao lado dela, lembrando-a para comer devagar e não beber nada gelado. A hora da pomada e sempre era ele quem entregava a toalha à Dona Eva. Ange ainda sentia muitas dores na garganta então, além de tudo, era seu porta voz e só ele compreendia a “código” que ambos haviam criado. Mais um motivo pelo qual ele não saia do seu lado. Theo era responsável demais e Ange sabia disso, mas ela precisava liberá-lo.
E toda vez que ela via os meninos da rua o chamando de “mulherzinha” seu sangue fervia nas verias. Na primeira vez que isso aconteceu ela quase não acreditou, mas quando aconteceu na segunda vez, Ange encheu a mão de adubo e arremessou na cara do gordinho que enchia o saco. Ele voltou para casa chorando, mas ninguém apareceu para repreendê-la. Theo ficou abismado e ficava olhando para a sua mãe suja, para o menino que se afastava chorando e para seu rosto. Ange simplesmente deu de ombros e entrou para casa para lavar as mãos.
Mais tarde escreveu no antebraço do irmão: “Ele tava me incomodando.”
– Não quer entrar?
– Obrigado Eva, mas não posso. Estou com um frango no forno. — Corrine soltou um riso numa mistura de embaraço com pedido de desculpas, o canto dos seus olhos enrugando lindamente. — Atrasei para começar o jantar hoje e...Graydon está chegando.
– Ah sim, claro. Bom, tudo bem. Boa noite querida. Qualquer coisa me liga, sim? — Dona Eva abriu os braços e Corrine se encaixou neles como se fosse uma menininha.
– Claro. Sempre.
Ambas trocaram sorrisos e afagos no rosto. Corrine se agachou para ficar na altura dos olhos da menina que agarrou o seu pescoço, num forte aperto. Hoje Ange cheirava a lavanda e terra fresca.
– Boa noite meu amor. Dorme com Deus. E não esquece de rezar, viu? — Corrine sentiu Ange concordar com a cabeça ainda agarrada ao seu pescoço. Quando se desvencilharam, Corrine lhe deu um selinho e ficou de pé.
– Vamos meu amor. — Chamou por Theo e acenou para Dona Eva, antes de se virar e começar a andar. Dona Eva acenou para as costas da amiga e fez um carinho na cabeça de Theo antes de caminhar para sua floricultura.
Theo suspirou alto e abraçou Ange. Mesmo ambos sabendo que ele voltaria à noite, era horrível terem que se despedir. Era uma sensação estranha, saber que precisavam se separar. Para duas pessoas que dividiram uma mesma barriga, placenta e nove meses na barriga da mãe, vidas, horas e nove anos de vida, era algo distinto de tudo que conheciam e provavelmente se acostumariam menos ainda, quando o motivo pelo qual tinham que se separar era de todas as maneiras o jeito errado de lidar com a situação.
Theo não sabia bem o que pensar e Ange só queria saber porque seu coração ficava apertado quando escutava sua mãe chamando pelo seu irmão.
– Tchau. — Theo sussurrou antes de se soltar.
Hoje ninguém mais tinha os olhos inchados e nem linhas vermelhas manchavam as partes brancas dos olhos. Ange melhorava a amargura do olhar aos poucos e sorria mais. Theo não estava totalmente satisfeito mas não podia exigir uma melhora imediata da irmã, assim como não podia bater de frente com o pai e nem se mudar para a Dona Eva, e deixar Corrine e Mouse. Ele já havia se apegado imensamente ao irmãozinho.
Ficaram mais alguns segundos se encarando — cada um bebendo da presença um do outro. Ange começou a esticar o pescoço em direção ao rosto do irmão, fazendo um beicinho com os lábios. Theo sabia o que vinha e apenas esperou.
– THEO. — Gritaram e algo no seu tom de voz fez Theo virar o rosto bruscamente e ficar em alerta. Ange levou um susto e desequelibrou, tombando sobre o irmão e acabou por beijar seu ombro. Theo a firmou procurando quem o havia gritado. Era Dona Eva, que olhava além deles, para o final da rua. Os gêmeos viraram a cabeça ao mesmo tempo e viram a caminhote azul escuro do pai estacionando na garagem da casa.
Ele precisava ir e logo.
– Tchau mana. — Theo se despediu depositando um beijo na cabeleira loira alaranjada da irmã e partiu sem olhá-la nos olhos uma ultima vez.
Ange suspirou e ficou observando o irmão correr de volta para a casa amarela do final da rua. Ela viu Graydon descer do carro segurando uma mala preta de pano, que agora só tinha uma alça. Ele vestia uma camiseta cinza e bermudas, expondo totalmente sua perna mecânica. Ange estremeceu e se abraçou, escondendo o corpo contra o parapeito da porta. Graydon fumava o final de um cigarro e antes de entrar em casa deu uma ultima tragada.
Não viu Theo se aproximando e quando ia fechar a porta, quase acertou o rosto do seu gêmeo. Theo levou um susto e deu um passo para trás antes que isso acontecesse. Quando ele entrou e a rua ficou tranquila, Dona Eva retornou.
– Vamos jantar? — Perguntou e Ange concordou com a cabeça. Mas antes de entrar fitou uma última vez aquele jardim e aquela casa e sussurrou.
– Tchau. — Mas ninguém estava lá para escutar.
– Porque temos que ir? Tem certeza? — Ela perguntou pela quinta vez, em meio aos soluços. Seu rosto brilhando pelas lágrimas.
– Sim, minha filha. Me desculpa eu...seu pai e eu não podemos mais ficar. E nem você.
– Mas eu não queria ir. — Nicola choramingou.
– Eu sei… — Sua mãe lhe afagou o rosto e fungou. Estava a ponto de chorar também. Ela puxou Nicola para um abarço que enfiou o rosto contra seus seios fartos.
A Sr. Capuleto afagou a cabeça da filha e levantou o rosto para o seu marido. Ambos estavam igualmente arrasados. Haviam se estabelecido bem na cidade, ambos conseguiram um emprego muito bom e Nicola havia feito amigos. Bem diferente da última cidade que moraram, com os vizinhos lhes lançando olhares tortos e tomate em Nicola. Já estavam fixos no lugar havia mais de quatro anos e Nicola nunca mais chegou machucada ou roxa, e nenhuma vez haviam recebido telefone algum falando que sua filha havia brigado na escola. Por serem imigrantes, os locais nunca o recebiam bem mesmo sendo boas pessoas. Mas o Governo os havia descoberto e agora precisavam voltar para a cidade natal de Prato, Itália. Mas não sabiam por quanto tempo. E ninguém queria ir embora.
O pai ia perder o restaurante improvisado que gradualmente crescia, a mãe já tinha pedido demissão do salão que trabalhava e a casa já tinha caixas de papelão espalhadas pela sala, prontas para serem preenchidas.
O pai de Nicola se agachou para ficar na mesma altura dos seus olhos. Ela ainda estava abraçava à mãe. Ambas estavam sentadas na cama de casal do quarto dos pais de Nicola. Ele colocou uma mão sobre o pequeno ombrinho e chamou pela filha de modo doce.
Nicola se desvencilhou da mãe relutante e fungando.
– Desculpe filha, nós também não queremos ir. Mas… Indo agora, poderemos voltar depois. E se ficarmos, o governo vai nos expulsar. Ai não poderemos voltar nunca mais. Muito pior não acha?
Demorou mas ela balançou a cabeça de modo afirmativo.
Como detestava não poder mudar as coisas.
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