Entre Nós
18 Não Encontre outro Amor
Notas iniciais
“Você se esquece de onde está.
O que é agora, o que era antes.
É tudo respiração, batimentos cardíacos e sangue fluindo.
Paz.”
— Não, sua burra. É pra colocar só quatro lugares. — Mouse tira um dos pratos da mesa e o devolve à pilha do armário com estrépito.
— Por quê? Ammon vai pro Burguer King de novo? — Willa modisca a ponta do polegar, nervosa, seus olhos grandes esquadrilhando a cozinha vazia, como se procurassem sinais de conflito.
— Hoje à noite a Ange vai sair com o namorado, sua burra!
Dou as costas ao fogão:
— Pare de chamar a Willa de burra. Ela é mais nova do que você, só isso. E como é que ela já fez a parte dela, e você ainda nem começou a sua?
— Não quero que Ange saia com o namorado — protesta Willa. — Se ela sair e o Ammon sair e o papai sair, vão ficar só três pessoas na família!
— Na verdade, duas, porque vou dormir na casa do Jaime. — Mouse informa a ela.
— Ah, como assim? — intervenho depressa. — Isso não foi discutido mocinho, a mãe do Jaime não ligou, e eu já te disse para não ficar se convidando, porque é falta de educação.
— Tudo bem, tudo bem. — fala Mouse. — Vou dizer a ela pra te ligar. Foi ela mesma quem me convidou, você vai ver só! — E sai pisando duro da cozinha no momento em que começo a servir o jantar.
— Mouse, volta aqui, o jantar está pronto!
Ela chega às sete e dez. Ange está uma pilha de nervos desde que voltou a escola. Passou a última hora no andar de cima, disputando o banheiro com Ammon. — que pelo jeito também vai sair. Mouse pula da cadeira, dando uma topada com o joelho na perna da mesa, em sua pressa de ser o primeiro a recebê-lo. Deixo que vá e então fecho depressa a porta da cozinha. Não quero me encontrar com ele.
Felizmente, Ange não o convida para entrar. Escuto seus pés na escada, vozes altas trocando cumprimentos, e então: Só preciso pegar uma coisa.
Ammon aparece, com ar impressionado, exclamando:
— Uau, ele é o cara. Já viu a grife que ele tá usando?
Ange entra na cozinha um tanto apressada.
— Obrigada. — Ela vem até mim e aperta meu braço daquele seu jeito irritante. Ela se tornou alguém irritante, hoje. — Eu passo o dia inteiro com ele amanhã, prometo.
— Não seja boba. — digo, afastando. — Divirta-se. E… — penso em completar mas mudo de ideia e abaixo a cabeça. Se ela está saindo com um cara, claramente está superando seu pânico. Só não sabia que já estava tão boa a ponto de sair com alguém.
— Beijinho. — Diz Willa, estendendo os braços.
Fico olhando enquanto ela abraça Willa, dá um beijo na testa de Mouse e um tapinha no ombro de Ammon, e então sorri de novo para mim. Faz menção de vir me dar um abraço mas muda de ideia e para no lugar.
Ela está usando um vestido que eu nunca tinha visto. Na verdade, parece totalmente diferente: batom rosinha claro, os longos cabelos ruivos soltos em grossos cachos (provavelmente feito por algum aparelho de modelar cabelo). Pequenos pingentes de prata pendem das orelhas. O vestido é vinho, curto e sexy de uma maneira sofisticada, solto e colado em lugares estratégicos — fazendo com que seja possível imaginar como é o seu corpor. E está usando um perfume com notas de pêssego.
— Me deseje boa sorte.
Retribuo o sorriso e dou um curto aceno.
— Boa sorte! — Mouse e Willa berram a plenos pulmões. Ange estremece e ri, saindo nervosa para o corredor.
Portas batidas, e então o ronco de um motor.
— Ele veio de carro? — pergunto a Ammon.
— Veio! Tô te dizendo, o cara é cheio da grana! Eu bem queria ter um carro aos dezessete.
— Dezoito — corrijo-o. — E espero que não esteja pretendendo beber.
— Você devia ter visto o cara — insiste. — Aquilo é que é ter classe.
— Ange parecia uma princesa! — exclama Willa, os olhos castanhos imensos. — E também parecia gente grande.
— Muito bem, quem quer mais batata?
— Talvez ela case com ele e vai ficar rica — intromete-se Mouse. — Se Ange vai ficar rica e eu sou irmão dela, isso quer dizer que eu também vou ficar rico?
— Não. Quer dizer que ela vai te dar um pé na bunda porque você é um pentelho que nem sabe a tabuada direito. — Responde Ammon.
A boca de Mouse se abre e os olhos começam a ficar cheios.
— Você não é nem engraçado, sabia? — digo a Ammon.
— Eu nunca disse que era um comediante, só um realista. — Rebate ele.
Mouse começa a fungar e seca os olhos com as costas da mão.
— Não tô nem ai pro que você pensa, Ange nunca faria isso, e seja lá como for, eu vou ser o irmão dela até morrer.
— E nesse dia você vai direto para o inferno, e nunca mais vai ver ninguém. — Devolve Ammon.
— Se existe um inferno Ammon, pode crer que você vai estar nele. — Sinto que estou começando a perder a calma. — Agora quer calar a boca e terminar de jantar sem ficar atormentando os seus irmãos?
Ammon atira o garfo e a faca no prato meio comido com estardalhaço.
— Foda-se esse jantar. Eu vou sair.
— Às dez em casa, e nem um minuto a mais! — grito quando ele sai da cozinha.
— Vai sonhando, colega. — Responde ele, já no meio da escada.
Papai é o próximo a chegar, cheirando a perfume barato e acendendo um cigarro, já meio tonto e totalmente alheio ao que aconteceu. Ele está com uma calça jeans escura, botas imundas e uma camiseta xadrez com dois botôes faltando. Logo ele desaparece, cambaleando e gritando com Ammon por afanar seu último maço de cigarros.
Está assim desde o dia que chegou, mas avisou que vai partir hoje mesmo para mais uma de suas viagens que duram semanas. Fazia duas semanas que não o viamos e depois de quatro dias conosco ele já se sente satisfeito e no total direito de sumir por mais umês inteiro.
Mouse e Willa apenas balançam as mãozinhas quando Ammon sai com nosso pai e batem a porta.
Passo o resto da noite vendo tevê com Mouse e Willa, exausto e farto demais para tentar fazer qualquer coisa mais produtiva. Quando eles começam a discutir por causa de uma bobagem, resolvo prepará-los para ir dormir. Willa chora porque deixo cair xampu nos seus olhos e Mouse se esquece de puxar a cortina do box, alagando o banheiro. A hora de escovar os dentes parece se espichar em várias: o tubo de pasta infantil está quase no fim e então uso a minha, o que faz Mouse chorar e Willa ter ânsia de vômito na pia. Então Willa leva quinze minutos para escovar para escolher uma história, Mouse escapa de fininho para jogar Gameboy na sala, e quando digo que não pode, faz uma cena e diz que Ange sempre o deixa jogar emquanto lê para Willa. No momento em que eles se deitam, Willa resolve ficar com fome, e Mouse, não querendo ser desbancado, jura que está com sede, e quando o chororô finalmente termina, já são nove e meia e eu estou arrebentado.
No entanto, depois que eles dormem, a casa parece vazia e fantasmagórica. Sei que também deveria me deitar e tentar dormir mais cedo, mas me sinto cada vez mais agitado e nervoso. Digo a mim mesmo que preciso ficar acordado para ver se Graydon volta para casa com Ammon, mas no fundo sei que isso é só uma desculpa. Resolvo assistir a um filme de ação qualquer na tevê, mas não faço a menor ideia do enredo ou de quem está perseguindo quem. Nem consigo prestar atenção nos efeitos especiais — só consigo pensar em DiMarco. Já passa das dez: eles já devem ter terminado de jantar e saído do restaurante. O pai dele está sempre viajando a negócios — pelo menos é o que diz Nico, e não tenho nenhum motivo para duvidar dele. Ou seja, ele fica com a casa toda para si...Será que ele a levou para lá? Ou será que estão em algum estacionamento mal iluminado, ele com as mãos e os lábios colados nela? E como Ange estará reagindo a tudo isso? Começo a me sentir enjoado. Talvez seja porque não comi nada a noite inteira. Quero esperar acordado e ver com meus próprios olhos em que estado ela vai voltar para casa. De repente me ocorre que a maioria das meninas de dezessete anos tem hora para voltar. Mas sou apenas seu irmão gêmeo, não tenho autoridade para lhe impor um horário. Vivo dizendo a mim mesmo que Ange sempre foi muito sensata, muito responsável, muito madura, mas agora me lembro como estava vermelha quando entrou na cozinha para se despedir, o brilho no seu sorriso, a efervescência no seu olhar. E me dou conta de que ela ainda é só uma adolescente, não uma adulta, por mais que seja obrigada a se comportar como uma. Ela não tem mais uma mãe, e tem um pai que trás prostitutas para casa e não acha nada demais em transar no chão da sala enquanto os filhos dormem no andar de cima, que se gaba ao contar as histórias de em quem bateu. Que tipo de modelo Ange teve? Pela primeira vez na vida, ela está livre. Quem me garante que não vai se sentir tentada a aproveitar essa liberdade ao máximo?
Mas é uma absurdo pensar assim. Ange já tem bastante idade para fazer suas próprias escolhas. Muitas meninas da sua idade já dormem com os namorados. Se não for dessa vez, vai ser na próxima, ou da outra, ou da outra. Mais cedo ou mais tarde, vai acontecer. O problema é que é impossível para mim. Não tenho condições de enfrentar isso. A simples ideia me faz ter vontade de bater com a cabeça na parede e sair por aí quebrando as coisas. A ideia de DiMarco, ou qualquer um, abraçando, tocando, beijando Ange…
Uma pancada ensurdecedora, uma explosão violenta, um raio de dor percorrendo meu braço antes de eu entender que dei um soco na parede com todas as minha forças: pedaços de tinta e reboco se desprendem da impressão deixada pelo punho acima do sofá. Curvado em dois, aperto a mão direita com a esquerda, trincando os dentes para não emitir nenhum som. Por um momento tudo fica escuro e acho que vou desmaiar, mas então a dor me atinge em ondas pulsantes, chocantes e apavorantes. Na verdade não sei o que dói mais, se a mão ou a cabeça. A hipótese que tanto temi e contra a qual lutei durante esses últimos dias — a perda total de controle sobre a mente — já é uma realidade, e não tenho mais condições de lutar contra ela. Fecho os olhos e sinto a loucura e enrolar pela coluna e rastejar para o cérebro. Vejo-o explodir como o sol. Então é isso, é essa a sensação depois de uma longa e sofrida luta — perder a batalha e finalmente enlouquecer.
Primeiro eu preciso fechar os olhos e contar até vinte para então minha respiração regularizar. Depois finjo que gosto de uma música qualquer que está tocando no rádio e aumento o volume, só para ocupar o silêncio que ficou entre nós. Graças a Deus o restaurante é perto, então logo descemos do carro e coloco uma distancia amigável entre nós. DiMarco percebe que sempre me retraio quando ele tenta me tocar então começa a andar com as mãos nos bolsos da calça — não questiona e nem faz cara feia.
Milagrosamente a mesa do lugar é comprida o suficiente para que nossas pernas não se toquem por baixo, e nosso braços ficam distantes. O local é bem iluminado — nada à meia luz, como ficam os restaurantes no dia dos namorados — e tem poucas pessoas em volta. Fico surpresa ao entender que o motivo da calma que sinto gradativamente é que, seu eu tiver um ataque de pânico, a plataia é pequena.
Mas nada disso acontece.
Ficamos conversando um tempão. DiMarco me conta da sua família de imigrantes, de como sofreu bullying quando era criança, por ter sangue latina, mas que hoje está tudo bem. De como, às vezes, ainda se perder em alguma palavras do idioma e nessa hora eu rio.
Dividimos a pizza e ele ainda pede uma pequena de chocolate com morango. Eu prefiro de banana com canela, mas a de chocolate estava uma delícia e fazia anos que eu não comia uma. Na verdade, a última vez que comi foi quando Willa fez três aninhos e saímos para comemorar na pizzaria que tinha na esquina de casa. Não era tão gostosa como é a desse restaurante granfino, mas foi a primeira vez que comi e eu amei cada pedaço.
Não conto as horas, mas de repente só estamos eu e DiMarco, sentados no restaurante.Todos se foram e eu nem vi. Insisto em dividir a conta e não entendo quando ele me olha confuso. Não era o mínimo? Não é assim que se faz?
Levantamos da mesa e vejo ele andar mais para perto de mim. Tento me desviar, porém ele me segue e de repente coloca uma mão nas minhas costas. O toque é mínimo, mas eu sinto. Já vi várias cenas de filmes onde o casal caminha lado a lado, dessa mesma maneira. Mas comigo isso não funciona, não vai funcionar, e sentir os dedos de DiMarco me tocando desencadeia uma série de tremor.
— Preciso ir ao banheiro. — Digo sem me virar para ele e saio correndo em direção aonde tem uma placa indicando. Irrompo no banheiro e corro para a torneira. Lavo minhas mãos, jogo uma água no rosto e conto até dez. Minha respiração está se extinguindo e meu joelhos batem tão forte um contra o outro que preciso me sentar no chão. De repente sinto uma ânsia e vomito e levanto aos tropeços até a privada mais próxima, mas nada vem. Eu fico lá, tossindo e soltando sons horríveis mas meu estômago está tão embrulhado que é um milagre eu conseguir manter a comida ainda dentro de mim. Vou até a pia e bebo água da torneira. Não estou nem ai.
Devo ter demorado porque um garçom bate na porta e pergunta se está tudo bem. Eu consigo soltar um “Sim” audível e ele vai embora. Me coloco de pé com certa dificuldade e me olho no espelho. Droga, estou terrível. Como sou burra. Como sou estúpida! Nunca deveria ter feito nada disso, nunca deveria ter dado ouvidos à Francie, nunca deveria ter dados ouvidos à mim mesma e saído com Nico. Como fui inocente em achar que sair com um garoto poderia me ajudar me alguma coisa nessa minha vida…
Demoro mais alguns minutos e quando saio só minhas mãos tremem, mas eu seguro bem firme minha bolsa, para disfarçar, e Nico não percebe nada. Tento fazer a mesma coisa na volta para casa, aumento o volume do som do carro dele e minto que essa é minha música preferida, mas a estação interrompe a programação para transmitirem um programa de entrevistas e Nico desliga o rádio.
Ele tenta puxar assunto e mas eu o encho de perguntas bobas — as primeiras — que aparecem na minha mente e me concentro em respirar. Conto as ruas que faltam, os minutos que os semáforos demoram para abrir e quantos carros passam por nós. Quando ele estaciona em frente à minha casa desço antes mesmo de ele estacionar e agradeço o jantar.
— Espera, eu...te levo até a porta. — Nico desce rapidamente e me acompanha até o outro lado da rua. Não sei porque faz isso. Acredita mesmo que não tenho capacidade de chegar até a porta da minha casa? Guardo a pergunta no fundo da minha mente e dou passos mais rápido. Eu só quero entrar em casa e me deitar ao lado de Willa.
Paro em frente a porta e pego as chaves na minha bolsa, girando a fechadura.
— Então até segunda. — Digo sem me virar mas quando empurro a porta ela não abre. Franzo a sobrancelha e é então que percebo uma mão segurando a fechadura. A mão de Nico. Meu sangue gela nas minhas veias no mesmo segundo.
— Eu só queria...saber se nós...vamos poder repetir o jantar amanhã. — Sua voz está nervosa e ele parece receoso, mas tenho certeza de que estou mais nervosa do que ele. Na verdade estou começando a entrar em pânico. Me viro e DiMarco dá um passo na minha direção. No mesmo segundo eu dou outro para trás, rapidamente, e me choco de forma violenta contra a porta, fazendo um barulho abafado. Eu e ele tomamos um susto.
Preciso sair daqui. Preciso mandar ele embora. Porque aceitei sair com esse menina? Porque dei corda para a situação se estender até aqui? Porque? Porque?
— Olha...Nico. — começo com a voz mais trêmula de todas. Ele ainda está com as mãos na maçaneta e eu levanto as minhas, como em rendição. — Você...você é um cara muito...legal...sério. Mas é que...eu...só quero amizade entre nós...pode ser?
Ele deve estar percebendo como estou nervosa e em como estou tremendo. Muito! Eu sinto meu olhos tremerem, a ponta dos meus dedos, meus joelhos. Ele deve estar vendo isso também.
— Ah… — Seu tom é surpreso e um pouco magoado. Nico solta a maçaneta e eu abro a porta logo em seguida, colocando meio corpo para dentro da segurança da casa. — Tudo bem. Mas foi legal. Tchau. — Ela acena e eu entro.
Eu me encosto na porta e respiro fundo. Nunca me senti tão envergonha e vulnerável na vida. Porque passei por isso? Porque dei corda para Francie? Porque eu fiz isso? Porque você é uma guerreira, Ange. E porque você é burra. Porque você é forte, e não quer passar o resta da vida à margem da sociedade. Porque você queria tanto que desse certo, queria tão desesperadamente que desse certo, que se obrigou a acreditar que as coisas estavam mesmo indo bem, que sair com esse garoto iria resolver algo na sua vida. Até que se deu conta de que tocar, beijar ou abraçar Nico ou qualquer cara em quem possa pensar, não era absolutamente o que você queria.
O que isso significa, então — que eu estou com medo? Com medo da intimidade física? Isso é óbvio, mas só porque você não permite descobrir e entender que o que seu pai fez é algo totalmente diferente do que uma pessoa que te ama faz, quando te toca. Uma pessoa que te ama. Mas eu nem sei se Nico me ama. Eu sei que não o amo, ele pode ser simpático e talvez eu goste dele, mas não amar. Eu não o amo. Eu já amo outra pessoa. Não é qualquer cara, não é como se o lugar estivesse vazio, como se não tivesse ninguém. Tem alguém. E qualquer cara, mesmo que imaginário, pareceria um segundo colocado. Mas segundo colocado em relação a quem? Nem mesmo tenho ideal de um namorado. Só sei que deve existir. Porque eu tenho todos os sentimentos — de amor, de desejo, de querer ser tocada sim, de sonhar, de beijar -, e ainda assim ninguém em quem concentrá-los. Isso me faz ter vontade de gritar de frustração. Me faz sentir como uma aberração. Mas pior do que isso, eu me sinto mortalmente decepcionada. Porque internamente — bem lá no fundo — eu passei a noite inteira acreditando que Nico era o cara certo, que ele poderia ser o cara a me tocar. E então, quando ele tentou me segurar, eu me dei conta, com a mais absoluta e esmagadora convicção, de que isso jamais faria sentido. Nem com ele nem com qualquer outro. Nunca.
Suspiro e caminho para dentro, largando as sandálias pelo corredor. Porque eu não podia ter me forçado a beijá-lo? Talvez não fosse ser tão ruim. Não é o que dizem: às vezes só precisamos de um empurrãozinho?... As luzes da sala ainda estão acesas. Dou uma olhada no relógio: quinze para as onze. Ah, não, por favor, uma briga entre papai e Theo, não… Mas a casa está como uma tumba gigantesca, não emite um som. Sigo em silenciosos passos de seda pelo corredor até a sala para apagar a luz. Só quero ir para a cama e esquecer essa noite infeliz, iludida.
Levo um susto ao ver o vulto sentado na beirada do sofá. Theo está curvado para frente, a cabeça clara entre as mãos.
— Cheguei…
Nada.
— Ammon e papai ainda não chegaram? — pergunto, angustiada, com medo de que saia mais um escândalo.
— Eles chegaram tem uns cinco minutos. — Theo sequer levanta o rosto. Que simpático. De repente uma raiva aparece dentro de mim e começo a ficar irritada. Mas faço o máximo para não deixá-la transparecer e inspiro fundo. Me viro para ir embora mas não tenho a oportunidade de terminar o movimento.
— Vocês só foram jantar? — Bruscamente ele levanta a cabeça e me lança um olhar penetrante.
— Só. — respondo com voz arrastada. — Por quê?
— Vocês saíram às oito. São quase onze.
Não posso acreditar no que Theo está falando.
— Está dizendo que tenho hora para chegar em casa? — Minha voz se eleva.
— É claro que não. — responde ele, irritado. — Só estou surpreso. Três horas é tempo demais para se passar jantando.
Fecho a porta da sala, já sentindo a pressão sanguínea subir.
— Não foram três horas. Se descontar o tempo que levamos até chegar quase ao outro lado da cidade até estacionar o carro, até vagar uma mesa… Nós só conversamos… Ele é muito educado e agradável.
Assim que as palavras saem da minha boca, Theo se levanta de um salto, caminha em passos largos até a janela, e então se vira com ar feroz.
— Estou pouco me lixando para a educação desse menino. O que estou achando difícil de entender é por que você está inventando que só foi jantar, quando passou três horas na rua!
Isso não pode estar acontecendo. Theo enlouqueceu. Ele nunca falou comigo assim na vida. Nunca o vi tão furiosos comigo antes.
— Está me dizendo que eu tenho que dar satisfações de tudo que faço, nos menores detalhes? Está mesmo exigindo um relato passo a passo de tudo que aconteceu durante a noite inteira? — Minha voz continua a se elevar.
— Não! Só quero que você pare de mentir para mim! — Theo começa a gritar.
— O que eu faço ou deixo de fazer quando saio com um cara não é da sua conta! — rebato, gritando também. Isso não é verdade, porque compartilho tudo com Theo, mas estou nervosa demais e sinto vontade de lembrá-lo que ele não é meu dono.
— Mas por que tem que ser um segredo? Não dá para apenas ser honesta?
— Eu estou sendo honesta! Só fomos jantar, ficamos conversando, ele me trouxe para casa, e ponto final!
— Você acha mesmo que eu sou tão ingênuo assim?
É a gota d’água. Uma briga com Theo depois de uma semana sendo ignorada. A única coisa que eu queria quando cheguei era ir para a cama e apagar da cabeça essa noite terrível. Em vez disso, sou submetida a esse suplício.
Começo a andar de costas para a porta, levantando as mãos, num gesto de rendição:
— Theo, não sei qual é o problema, mas você está sendo extremamento injusto comigo. O que está acontecendo com você? Chego em casa esperando que você me pergunte se eu me divertir, e em vez disso você me faz um interrogatório, e ainda por cima me acusa de mentir! Eu nunca menti para você. E ainda assim você não acha que eu tenho o direito de não querer te contar tudo?
E me viro para a porta, mas DiMarco — recomeça ele, sem entonação. — Como as putas que papai trás aqui pra casa.
Suas palavras cortam o silêncio entre nós como uma faca. Minha mão se paralisa na fria maçaneta de metal. Com extrema lentidão, com extremo esforço, eu torno a me virar para ele.
— Quê?
Ele está parado em sua camiseta verde e jeans desbotados, apertando os nós dos dedos da mão direita com a palma da esquerda, de costas para a gigantesca fatia da noite. E eu me vejo diante de um estrano. Pela primeira vez sinto que não conheço meu irmão.Seu rosto exibe uma curiosa aparência avermelhada, como se ele tivesse chorado, mas o fogo em seus olhos queimam meu rosto. Ele é meu irmão e, ainda assim, parece um estranho diante de mim.
— Não posso acreditar que você disse isso. — Minha voz, puro tremor de incredulidade, emana de um ser que mal reconheço: esmagado, ferido. — Sempre pensei em você como a única pessoa… — um suspiro para me acalmar — ...que nunca, nunca me magoaria.
Ele parece desolado, seu rosto espelhando a dor e a incredulidade que sinto.
— Ange, eu...não estou me sentindo bem. Aquilo foi...imperdoável. Não sei mais o que estou dizendo. — Sua voz sai trêmula, tão horrorizada quanto a minha. Ele pressiona as mãos no rosto, tentando recuperar o fôlego, e me dá as costas, andando de um lado para o outro, seu olhar desvairado, quase insano.
— Eu só preciso saber...por favor, entenda...eu tenho que saber, ou vou perder a cabeça, Ange! — Fecha os olhos com força, a respiração irregular. Nunca, em toda minha vida vi Theo tão descontrolado. Ele perdeu a cabeça.
— Não aconteceu nada! — levanto a voz, a raiva dando lugar ao medo. Estou começando a ficar apavorada. — Não aconteceu nada. Porque você não acredita em mim? — Seguro-o pelos ombros. — Não aconteceu nada, Theodor. Nada! Nada! — Estou praticamente gritando, mas não me importo. Preciso acalmar meu irmão. Não estou entendendo o que está acontecendo com ele. O que está acontecendo comigo.
— Mas ele beijou você. — Sua voz sai apática, sem qualquer emoção. Afastando-se de mim, ele se agacha no tapete. — Ele beijou você, Ange, ele beijou você. — Agora seus olhos estão quase fechados, o rosto sem expressão, como se estivesse tão esgotado que não tem mais forças para reagir.
— Não, Theo. Ele não me beijou! — grito, sacudindo-o pelos braços para ressuscitá-lo. O que está acontecendo com Theo? — Ele tentou, mas eu não deixei! E sabe por quê? Quer saber a razão? Quer realmente saber a razão? — Ainda segurando com as ambas as mãos, eu me inclino para frente, ofegante, com lágrimas quentes e pesadas escorrendo pelo rosto. — Foi...por isso… — Chorando, beijo seu rosto. — Foi por isso… — Com um soluço abafado, beijo o canto de seus lábios. É quando percebo um pouco de vida pintar seu rosto. — Foi por isso…!
Fechando os olhos, finalmente beijo sua boca.
A boca de Theo.
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