Entre Nós

14 Fato Feio da Vida


Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Estou muito feliz com a repercussão de Entre Nós. Não sei mais quantos capítulos a fic terá, mas vou fazer com que tenha o melhor final possível. Desculpe pelo atraso dos comentários. Vou tentar responder todos hoje mesmo. Essa música é muito amorzinho ♥ https://www.youtube.com/watch?v=y2h9d98d1f4 (Vocês gostam das múscias que coloco aqui? Alguém as escuta?)

“Mas se o destino insistir em nos separar

Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas

Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos

Profetas, sinopses, espelhos, conselhos

Se dane o evangelho e todos os orixás

Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz.”



— Como será poder fazer tudo o que quiser? — Francie perguntou para ninguém em específico, no intervalo.

— Sei lá. — Maisie responde de modo impaciente e toma seu suco de caixinha.

— Você vai ser a primeira de nós a fazer dezoito anos, querida. Dãr. — Responde Dani.

Ange apenas da de ombros. Uma mecha da sua trança se solta, caindo sobre um dos seus olhos e, aproveitando a oportunidade, de modo discreto, ela rapidamente passa os olhos sobre a parte mais alta da escola, especificamente num ponto onde sempre há bastante sombra e um mesmo aluno. Ela sorri ao encontrar Theo e abaixa a vista.

— Você também pode convidar seu irmão, viu Ange? — Francie comenta e quando Ange olha para a amiga a encontra fitando o ponto onde Theo está sentado, lendo. Ange não foi tão discreta quanto acreditou.

— Ah...Eu não sei se ele vai querer ir. E alguém tem que cuidar dos meus irmãos mais novos.

— Você não disse que seu pai chegou? — Pergunta Maisie.

— Ele chegou.

— Então problema resolvido! Você deixa os pirralhos em casa com o seu pai, e vai você e o Theo! — Francie abre os braços e sorri.

Ange suspira e balançar a cabeça, entristecendo ao se dar conta de que sempre terá que mentir para as amigas. Nunca pode contar a sua verdadeira realidade. Pai ausente e violento. Irmão do meio rebelde. Irmãos mais novos impossíveis. Matriarca de família. Dona de casa desde os doze anos de idade. Ela nem se lembra da última vez em que dormiu até as dez da noite, ou de alguma tarde inteira livre.

— Eu posso até tentar, mas não sei não… — Ela tenta sorrir mas acaba dando uma mordida no salgado em mãos. Ela nem chegou na metade mas já perdeu a fome.

— Se for para vocês saírem correndo do restaurante que nem da última vez, melhor então nem chamar. Que mico! — Maisie balança as mãos acima da cabeça e depois solta um risinho.

— Maisie! — Dani protesta.

— Nossa, sua grossa. — Francie lhe dá um tapa. Maisie apenas rí e antes de sair para ir ao banheiro diz:

— Se ela for vai ser um milagre.

Ange sente o sangue começar a ferver em suas veias mas logo lembra a sí mesma de que aquela é Maisie, e por isso deveria apenas respirar fundo e ignorar. Maisie nunca mudaria e nunca teria de ser tão...Maisie. Não valia a pena passar a raiva. Com isso em mente Ange apenas lhe mostra uma careta de descaso e torna a prometer para Francie que irá se encontrar com elas.

— Ai, vai ser tão bom! — Francie bate palmas e solta um gritinho. — E depois vamos todas comer no Outback com uns amigos.

— O que? — Pergunta Ange.

— Convidei uns amigos do meu inglês e do prédio onde moro. Vocês vão adorar conhecer todo mundo! Principalmente a Dani!

— Uai, eu? — Dani pergunta apontando para si.

— Dãr. Você não né, sua boba. Outra Daniella. — Francie enfatiza a palavra e começa um discurso sobre como elas se conheceram a narra algumas das muitas aventuras por quais passaram juntas.

Quando o sinal bate, acusando o final do intervalo, Ange caminha para a sala de aula calada, ponderando as horas e pensando numa forma de contar a Theo de que vai sair hoje. É sexta feira então tanto ela como os pequenos saem mais cedo da escola. Menos Theo que tem educação física, e demora mais duas horas na escola. Nesse dia ela sempre fica responsável de pegar Mouse e Willa na creche, e cuidar de tudo até o final da tarde. Mas Graydon está na cidade e sempre que isso acontece fica combinado dele ir buscar seus irmãos mais novos. Ela ainda deixou um bilhete sobre a mesa da cozinha com o número da escola e o horário para ir buscá-los, garantindo que isso aconteceria. Um problema resolvido. Mas Ange não se encontrará com Theo, se tentar ligar ele só vai atender quando a aula terminar, ou seja muito em cima da hora para que ela consiga sair de casa e se encontrar com as amigas no shopping, a tempo. Quem sabe deixa um bilhete...

A menos de uma quadra do supermercado Ange escuta o som do seu aparelho e o sente vibrar no bolso da sua saia, e instantaneamente ela percebe que algo deu errado. Poucas pessoas tem seu número e ainda assim ela só recebe chamada da escola ou de Theo, e sempre para receber notícias ruins. Quase nunca Maisie, Francie ou até mesmo Dani ligam para ela. Todas preferem se comunicar por mensagens, então sempre que Ange recebe alguma ligação ela logo atende tensa.

— Alô?

— Angeline Heavenly? — Pergunta uma voz de mulher.

— Sim, quem é?

— Aqui é a Diretora Azley. Seu pai está atrasado, mais uma vez, devo lembrar, para buscar os seus irmãos. E ligo no seu celular e na sua casa e em nenhum dos dois telefones conseguo localizá-lo. A senhorita pode dizer ao seu pai que a escola está para fechar e ele ainda tem duas crianças para buscar? — Fala a diretora da creche onde Mouse e Willa estudam, curta e grossa. Ela não está nem um pouco feliz e Ange treme ao ouvir seu tom. No mesmo segundo dá meia volta e pega o caminho da creche, dando rápidas passadas. Olha as horas no seu relógio de pulso e calcula que está quarenta e sete minutos atrasadas.

— Ah...Claro! Claro, Diretora. Na verdade ele está aqui comigo. Estamos no supermercado e acabamos nos atrasando. Mil desculpas. — Ange diz a primeira ideia que lhe vem em mente.

— Ótimo. Poderia passar o telefone para ele, por favor?

— É que...ele não está perto de mim agora. Mas assim que ele aparecer eu passo o recado.

— Bom, então obrigado Angeline. Espero que cheguem a tempo ou vou ser obrigada a adverti-lo.

— Não se preocupe. Nós vamos sair daqui agora mesmo.

— Bom. Que bom. — E desliga.

Nisso Ange começa a correr e tem a sorte de pegar o ônibus que para na esquina da escola de Mouse e Willa. O trânsito não coopera e a medida que os minutos passam Ange tem vontade de descer e ziguezaguear entre os carros a pé.

Quando finalmente chega ao destino, antes de entrar na escola adota um andar calmo digno, ajeitando as roupas e respirando fundo várias vezes para se acalmar. A Diretora Azley, assim como uma secretária da escola estão em pé na porta, de braços cruzados com um olhar indignado.

— Aonde está seu pai? — É primeira coisa que a diretora nota.

Ange começa a contar que preferiu sair sozinha do mercado para não deixá-las esperando por mais tempo enquanto o pai terminava as compras. Ambas as professoras lhe olham feio. Ela sente que está respirando com força e que está começando a ficar muito nervosa e as mãos tremerem. Depois de vários atritos com figuras em posições de autoridade, aprendeu que se você começar a ficar irritado ou nervoso, eles te tratam como uma criança e exigem falar com seus pais. Ela colocou a bolsa em apenas um lado do corpo, tirou a gravata e o blazer e soltou suas tranças, prendendo o cabelo num coque firme. Tudo para tentar disfarça o fato de que ainda é uma adolescente.

— Bom, ainda assim eu gostaria muito de falar com seu pai. Ter uma conversa séria sobre a pontualidade. Entenda Senhorita Heavenly, isso não é algo que ocorreu vez ou outra. Eu sei que seu pai é um homem muito atarefado e entendo que tudo recaiu sobre ele quando a mãe de vocês partiu.

Ange quase sente vontade de rir ao ouvir isso.

— Mas esta já é a quarta vez em dois meses. Praticamente ocorreu toda sexta feira! Entende isso não é mesmo?

— Sim, claro. Perfeitamente. — Ela responde de modo mais sério que consegue. — Mas como a senhora mesmo disse, meu pai tem feito o melhor que pode para criar a mim e meus irmãos depois que minha mãe… — Ange não termina a frase. Porque não quer, por não gostar de pensar sobre isso, e depois aproveita para respirar fundo e tentar se mostrar fragilizada ao tocar no assunto. O que não é totalmente mentira. Existem algumas dores que nunca saram.

Porém a diretora se mantém firme e não se solidariza com a cena e torna a adverti-la, dizendo que na próxima vez terá que chamar a polícia, e que provavelmente eles vão querer falar com os pais da criança. Por fim, a diretora pede à secretária para ir buscar os irmãos, se despede de Ange e a deixa sozinha.

Do lado de fora do prédio, onde ninguém pode vê-la, Ange se encosta numa parede e aperta os lábios com as costas da mão. Polícia quer dizer autoridades. Autoridades quer dizer Agência de Serviço Social. Suas pernas estão ficando cada vez mais bambas, por isso se senta no parapeito da escada e fecha as mãos em punhos para controlar o tremor.

Quando eles finalmente atravessam as portas da escola, Mouse está soprando bolas cor-de-rosa, a boca cheia de chiclete, e Willa brande um pirulito:

— Olha só o que eu ganhei!

Nenhum dos dois faz ideia de que algo errado aconteceu, por isso Ange se controla para não chorar. E porque a secretária está logo ali e vai, no mínimo, achar muito estranho. Ela também não consegue deixar de pensar que se sua mãe estivesse ali nada disso teria acontecido. Mas infelizmente ela não está.

Ange agradece a secretária e enquanto atravessam o pátio, ela segura as mãos de Mouse e Willa com força, tentando ao máximo participar do ti-ti-ti dos dois sobre o intervalo e a notícia de que o novo parque de diversões da cidade agora tem montanha russa. Assim que saem da escola, Mouse tenta se soltar de Ange, procurando por algo na sarjeta para chutar e driblar pela rua afora. Ange promete jogar Batalha Naval com ele durante meia hora se segurar sua mão até em casa. Para sua surpresa ele concorda, e pula para cima e para baixo feito um iôiô na ponta do seu braço, ameaçando deslocá-lo. Mas Ange não se importa. Desde que ele continue segurando sua mão.



Encontro a casa mergulhada em silêncio ao voltar da escola. Um som na sala me leva a girar nos calcanhares. Volto pelo corredor, vendo as sardas de sol pontilhando as superfícies empoeiradas.

Encontro papai olhando para mim do sofá, com ar abatido, com um pano molhado cobrindo a testa e um balde no chão. Levo um susto. Um cheiro repugnante invade meu nariz e eu dou um passo para trás, franzindo o rosto. Tapo o nariz com uma mão.

Fico olhando para ele.

— O que foi que houve?

— Shh! Fala baixo, que estou com dor de cabeça. — Diz ele, de modo ríspido.

— O que aconteceu? — Insisto.

Seu olhar azul se apaga e volta a se acender, como a chama de um fósforo oscilando no escuro. Está bêbado?

— Ah, pelo amor de Deus. Eu estou com dor de cabeça! Será que você não escutou?! Cala a boca Angeline!

— Você está de ressaca? — Pergunto com espanto sincero. Meu pai bebe muito, e todos os dia. Achei que esse tipo de coisa — ficar de ressaca — não acontecia mais com ele.

— Sim, e daí?! Graças a Deus as crianças estão na escola!

— Não, pai. Não estão. São quatro e meia. Eu já as peguei da escola. E não fale o nome Dele em vão. — Peço num sussurro.

Meu pai olha para mim com a expressão enfurecida.

— Ótimo.

Não consigo me conter e explodo.

— Ótimo?! Pai, sempre que você chega de viagem fica responsável por buscar os pequenos. Sabe disso! — Grito. — Mas você não os buscou. Esqueceu de Mouse e Willa mais uma vez! A própria diretora ligou no meu celular! Quase não consigo trazê-los para casa. Já imaginou se eles chamam a polícia? O que acha que fariam com a gente? O que você fez com o telefone daqui de casa? — Disparo a falar, ignorando a carranca do meu pai que piora à cada frase.

— Ah, pelo amor de Deus! Não estou escutando isso! Eu não estou escutando isso Angeline! Acabei de dizer que estou com dor de cabeça! — Ele grita ainda mais alto e se põe de pé.

Me assusto e num ato de covardia me viro e saio correndo da sala.

Sinto vontade de pular no meu pai e socá-lo. Mas sei que de nada adiantaria e eu é quem acabaria apanhando. Em vez disso, corro para o telefone. Ele desligou a campainha, mas a luz vermelha da secretária eletrônica pisca sem parar, acusadora. Quatro mensagens da escola, a última curta e grossa, insinuando que essa não é a primeira vez que o Sr. Heavenlly se atrasa tanto. Apago tudo enfurecida, e caminho para o quarto.

Tiro o uniforme de Mouse e Willa e os visto com blusa e shorts azuis idênticos. Os arrasto para o banheiro e escovamos os dentes juntos. Mouse joga pasta de dente no chão, molha a blusa inteira e Willa escorrega no piso molhado e bate a cabeça na banheira. Enquanto ela chora Mouse aproveita para terminar de escovar os dentes de qualquer jeito e sai correndo do banheiro. Alguns minutos mais tarde aparece calçando seu par de tênis gastos e me avisa que vai jogar bola com o vizinho. Só tenho tempo de gritar para que tome cuidado antes de Willa abrir o berreiro mais uma vez.

Desço para a cozinha segurando-a no colo, e enrolo alguns cubos de gelo num pano de prato e coloco sobre o seu machucado, o que a faz chorar ainda mais e papai começa a berrar, da sala, mandando-a calar a boca. Demoro quase meia hora mas consigo acalmá-la. Nisso papai já apareceu na cozinha duas vezes e quando o escuto se aproximar pela terceira vez, agarro Willa e corro porta afora antes de ele nos alcançar.

Willa finalmente cala e ficamos assistindo Mouse fazer gols até que ela se cansa e entra correndo para casa. Willa vê nossa pai, ainda meio desmaiado no sofá e corre para lhe abraçar. Graydon — numa mudança súbita de humor — descobre o rosto, senta e ri, abraçando-a com força. Uma pequena pontinha de ciúmes ameaça crescer dentro de mim, mas logo a abafo. Não é justo eu senti r isso pela minha irmãzinha inocente e pura.

Alguém passa por mim e dá um encontrão no meu ombro. Me desequilibro e quase caio, olhando atônica para Ammon, que se quer vira o rosto para mim. Ele vai direto para aonde nosso pai está e larga a mochila no chão e tira os tênis com os pés.

Fico parada na porta, o contorno afiado do batente machucando o ombro, vendo essa pequena cena se desenrolar em silêncio. Willa tentando convencer papai a jogar uma partida de “Adivinha Quem?”, Ammon contando sobre uma briga que testemunhou hoje na escola e nosso pai tentando assistir ao programa da televisão. Demoro um momento até garantir que Willa e Ammon não vão brigar e parto para o quarto.

Troco de roupa, cato todas as peças de uniforme que encontro pelo caminho e vou direto para a cozinha. Faço o melhor que posso ali e caminho satisfeita para a área de serviço. Em vista da situação em que a havíamos deixa pela manhã, até aparenta ser a cozinha de uma família decente.

Lavo sapatos, uniformes, meias, peças de roupas e panos de prato e de chão. Jogo calças jeans e algumas blusas na máquina de lavar e quando viro a caixa de sabão em pó, ela está vazia. Me lembro que havia prometido ir ao supermercado assim que saísse da escola hoje, mas depois de toda a confusão de Mouse e Willa me esqueci completamente. Deixo tudo do jeito que está e retorno para a cozinha, à caminho do meu quarto.

Ainda subindo as escadas escuto o toque do meu celular e sei que é Theo. Subo os últimos degraus correndo e atendo a chamada antes de finalizar.

— Oi.

— Ange?! Pelo amor de Deus, me diz que eles estão em casa e que estão bem. — Theo está eufórico e muito nervoso.

— Sim, eles já estão em casa e estão bem.

— Tinha duas ligações da escola no meu celular. Mas quando eu retornei não souberam me dizer aonde Willa ou Mouse estavam e só me disseram algo sobre papai estar atrasado para ir buscá-los. — Ele diz muito rápido, quase não dando tempo para respirar.

— Foi isso mesmo, mas calma. A diretora também me ligou. Deu tudo certo, Mouse e Willa já estão aqui em casa. Eu mesma os busquei. — Digo.

— Graças a Deus… — O escuto suspirar alto e fico alguns instantes em silêncio, escutando sua respiração diminuir aos poucos. — E aonde estava o papai?

Engulo seco antes de responder. Sei que Theo ficará furioso mas não posso esconder. E a medida que narro o estado em que encontrei nosso pai, sinto a tensão na sua voz. Ele fica calado por um tempo até que pergunto.

— Aonde você está?

— No banheiro masculino. Ainda estou na escola. Porque? Está tudo bem?

— Está. É que eu ia faze as compras mas com essa confusão não deu tempo. Tem algum problema você dá uma passada no mercado? Acho que vamos ter sérios problemas envolvendo papel higiênico.

Escuto meu irmão rir do outro lado da linha, o que me faz abrir um sorriso.

— Claro. Tudo bem. Você quer alguma coisa?

— Não, valeu.

— Bom...então vou fazer supermercado. Chego ai às sete. — E desliga.

Demoro alguns segundos para processar que, o que Theo acabou de dizer acaba com todo e qualquer plano que eu tinha para sair hoje. Não terei tempo de me arrumar para sair e encontrar com a Maisie e Francie e agora perdi toda a coragem de contar para Theo. Ele teria que sair correndo da escola, fazer as compras numa velocidade sobre humana e só sobraria vinte minutos para chegar em casa, a tempo de seu sair e me encontrar com as minhas amigas. Sem contar que mesmo vindo de ônibus ele nunca chegaria a tempo de eu sair de casa num horário em que não me atrasaria para o tal jantar.

Suspiro exausta. Penso em ligar mas não estou com vontade de escutar sermão então simplesmente mando uma mensagem para Francie, me desculpando e dizendo que nem eu ou Theo teremos como ir para seu aniversário.

Sou uma péssima pessoa e uma péssima amiga. Eu deveria estar me sentindo um pouco pior mas sei que mais tarde não terei remorso. Será que eu seria uma pessoa diferente se cuidar da casa e dos meus irmãos não fosse minha prioridade?



Quando Theo chega em casa, avisa em alto e bom som, chamando pelos pequenos. Ele agarra Willa e lhe dá um abraço apertado, abraçando-a e beijando-a, tando mantê-la em seus braços. Ele está com um braço em volta de Mouse, que se contorce, aos risos, tentando se libertar.

Abro um sorriso ao ver a cena e cato as sacolas de compras dos seus braços. Trocamos um olhar de boas vindas e carrego metade das sacolas para a cozinha, com Theo vindo atrás de mim. Começamos a separar os alimentos dos produtos de limpeza.

— Espero não ter esquecido de nada. A lista que eu tinha era a da semana passada. — Ele diz.

Solto um risinho.

— Acho que comprou tudo. Principalmente o papel higiênico. — Abraço o enorme pacote o que faz Theo rir. Ele olha para trás e passa os olhos pela cozinha e sobre Willa e Mouse, que nos seguiram até ali.

— Está tudo bem por aqui? — Pergunta.

— Sim. Consegui fazer o dever com a Willa e só metade com Mouse. Jogamos Batalha Naval e perdi. Só Ammon que não saiu do quarto o dia inteiro. Não sei o que ele tem.

— Provavelmente nada. Deve estar dormindo. — Ele dá de ombros.

Guardo os produtos de limpeza e Theo fica guardando as coisas na geladeira e na despensa, longe do alcance dos pequenos e escondido de Ammon. Coloco sabão em pó na máquina e deixo a roupa batendo.

Olho para o relógio e confirmo o que já sabia: eu nunca chegaria a tempo. Mesmo sabendo disso acabei passando rímel e coloquei os brincos de pérola da mamãe, num ato de última esperança.

Subo, entro no quarto, tiro os sapatos, lavo o rosto e me jogo na cama, esgotada.

Devo ter pegado no sono, porque quando escuto Mouse gritando Jantar!, sento na cama com um sobressalto e descubro uma luz azulada enchendo o quarto. Tirando os fios de cabelo que se soltaram da minha trança imbutida, dos olhos, desço as escadas sonolenta.

A atmosfera na cozinha é totalmente destoante. Papai se metarmofoseou: olhos brilhando, camisa xadrez azul, jeans limpos e sapato social. Ele tomou banho e fez a barba, pelo visto já tendo se recuperado da suposta enxaqueca. O maço de notas que enfia no bolso da calça o entrega; obviamente não vai ficar em casa para assistir à novela. Alguém preparou sei lá que prato com feijão e as salsichas que sobraram, que Ammon está remexendo com o garfo, um ar de pouco caso. Willa e Mouse sentam lado a lado, balançando as pernas e tentando acertar chutes um no outro por baixo da mesa, as bocas exibindo reveladoras manchas de chocolate, ignorando a asquerosa mistura que lhes foi servida.

— Isso não é comida. — Com a cabeça apoiada na mão, Ammon olha de cara feia para o prato, remexendo os pedaços de salsicha de um lado para o outro. — Posso sair?

— Cala a boca e come. — rebate Theo com uma rispidez atípica, procurando copos no armário. Ammon está prestes a responder, mas então parece mudar de ideia e volta a cutucar a comida. O tom de Theo sugere que não é hora para discussões.

— Comam meninos. — Diz papai, num tom calma que quase nunca o escutei se referir a nos. Ele está estranhamente calmo, o que me preocupa.

Ammon bufa, resmungando algo inaudível. Willa espeta um único caroço de feijão com um dente do garfo e, sem a menor vontade, o leva à boca, dando uma cautelosa lambida nele. Com ar de mártir, Mouse leva uma garfada de salsichas à boca e então faz uma careta, os olhos se enchendo de lágrimas, prestes a vomitar ou cuspir a comida. Eu me apresso a levar a jarra d’água e encher os copos. Finalmente Theo senta. Ainda está vestido com o uniforme e cheira a suor e fumaça, os cabelos claros despeados num contraste gritante com o rosto pálido. Noto os músculos retesados do queixo, o olhar de fúria, e sinto a tensão irradiar do seu corpo como se estivesse incandescente.

— Vai sair agora de noite, papai? — Pergunta Willa, dando mordidinhas minúsculas num pedaço de salsicha.

— Sim, Willa. Eu vou. — Ele responde da onde está; parado no canto da cozinha. Tem uma lata de cerveja em mãos.

— Eu queria ir. — Choraminga Mouse.

— Quem sabe daqui uns anos.

— É. Você ainda é muito pirralho. — Provoca Ammon e eu lhe olho feio.

— Filho você vai comer isso ou não? Se não vai, vamos logo embora. Já estão me esperando. — De repente papai diz e Ammon levanta da mesa num pulo.

— O Ammon vai sair com o papai? — Mouse pergunta tão supreso quanto eu, levantando as sobrancelhas.

— Não, não vai. — Diz Theo num tom alto e firme, sem levantar os olhos. Por baixo da mesa, dou uma cutucada no seu pé em questionamento. O que está acontecendo?

Papai para no lugar e se vira vagarosamente em direção ao meu irmão gêmeo.

— O que você disse Theodor?

Então Theo fita meu pai nos olhos e repete:

— Eu disse que Ammon não vai sair hoje. Ele não sair com você para lugar nenhum.

Pego Willa e Mouse pelas mãos e os arrasto dali. Coisa boa não vai vir e não quero que eles participem de mais uma briga nossa. Ignoro seus protestos até chegarmos ao quarto. Mouse briga comigo e Willa reclama que ainda está com fome mas tento explicar que papai e Theo precisam ter uma conversa séria, e que era melhor deixá-los a vontade. Mas Mouse continua a querer descer e quando os gritos começam sinto vontade de trancá-los no quarto e descer para a cozinha e ficar ao lado do meu irmão. Mas nada do que eu falo ou ofereço os acalma, até que libero jogarem gameboy.

É quando um estrondo e pratos sendo quebrados vem do andar de baixo e saio correndo, fechando a porta. Desço as escadas de dois em dois e tropeço nos últimos degraus, me arrastando até ficar de pé.

Quando chego na cozinha, a cena é horrível. Theo corre até papai, o que me dá um enorme susto. Reparo que tem uma linha fina de sangue saindo do canto da sua boca. Graydon o pega pela cintura, parando-o no lugar, lhe dá duas joelhadas no estômago. Theo tosse sangue e é jogado no chão, gemendo de dor, abraçando a barriga. Nosso pai já foi do exército.

Segue-se um silêncio perplexo.

— Vamos Ammon. — Graydon simplesmente diz e se vira. Ammon ainda demora alguns segundos encarando Theo, em estado de choque, mas quando a porta da frente se fecha num estrondo ele sai correndo atrás de nosso pai.

Também fico alguns segundos em choque. A imagem do meu irmão se contorcendo é demais para mim. Mas de repente ele para e fica inerte no chão da nossa cozinha e todo o calor do meu corpo some. Tropeço até onde Theo está e me agacho do lado do corpo.

— Theo? — Chamo baixinho. Não sei o que fazer.

Chorando e tremendo aliso as costas de Theo e viro seu rosto para mim. Não ver nenhum corte ou roxo me tranquiliza mas não me acalma totalmente. Ele não está morto, está? Não consigo parar de chorar e nem de tremer. Não sei quando comecei só sei que minha visão está muito turva por conta das lágrimas e apesar de limpar meus olhos constantemente não melhora em nada. Minhas mãos tremem tanto que não consigo firmar Theo e quando fico em pé meus joelhos estão tão moles que chegar na escada demora longos minutos.

Mouse e Willa aparecem e acabam me ajudando. Não consigo entender o que perguntam e nem formular resposta alguma. Coloco Theo na minha cama mesmo e vou ao banheiro para lavar o rosto e tomar um banho.

Retorno para o quarto e respiro fundo. Ficar nervosa não vai ajudar em nada Theo. Preciso manter a calma por Mouse e Willa. Preciso manter a calma.

Fico repetindo isso enquanto tiro a louça da cozinha, corto frutas para Mouse e Willa e quando os coloco para dormir. Tento as manchas de sangue mas acabo vomitando e decido deixar o chão manchado de rosa. Ao invés disso pego alguns itens de primeiros socorros e subo para o quarto. Me sento ao lado de Theo e desabo a chorar baixinho.

Tiro sua camisa e ele tem apenas alguns arranhões, mas sei que por dentro deve estar cheio de dor. Faço três compressas de gelo e as coloco onde a pele já está ficando avermelhada e onde acho que ele se bateu.

Choro. Choro de medo, tristeza, decepção e tantos outros sentimentos. Choro porque queria minha mãe, choro porque queria um pai não violento, choro porque nunca fizemos nada para merecer tal maus tratos e lá pela madrugada choro mais ainda por um medo que me toma o corpo. Um medo de perda. Eu quase perdi meu irmão. Theo poderia ter morrido. Theo ainda pode morrer. Que chances ele tem contra um ex-militar? Como eu viveria se Theo morresse? O que seria de mim sem Theo?

Vê-lo inerte sobre minha cama me enche o peito de medo e choro ainda mais. Me deito sobre um de seus braços e rezo incontáveis vezes. Não vejo quando adormeço de cansaço.

Notas finais
MEREÇO RECOMENDAÇÃO???♥ XO