Entre Nós
10 Anos & Anos
Notas iniciais
“Traga-me um cigarro que hoje eu vou
sonhar;
traga-me um vinho que hoje eu vou
dançar na sala;
traga-me você.”
Ela não viajou mais conosco. Não participou dos piqueniques organizados pela mamãe. Dos aniversários. Dos churrascos que o papai fazia e aconteciam em casa, vez ou outra. Não participou da nossa ida pela primeira vez ao parque de diversões. E quando viajamos juntos, pela primeira vez, nas férias de verão, ela também não viu o mar.
Também nunca mais ouvi papai gritar comigo ou com a mamãe — se não fosse por ele estar pedindo outra garrafa de cerveja.
Toda festa de aniversário de vizinhos era uma desculpa por Ange não aparecer. Mamãe e eu nos revessávamos para inventar algo, e quando acontecia de nenhum dos dois conseguir pensar em alguma coisa, simplesmente ignorávamos a pergunta fazendo outra por cima. Algo de que a pessoa tinha interesse e logo todo mundo se esquecia de perguntar sobre a bela irmã mais velha dos Heavenlly. Deu certo por um tempo, e depois as pessoas simplesmente pararam de perguntar. Graças a Deus.
Deus.
Como rezei para Ele trazer ela de volta. Ou então que Ele desse um jeito de me mandar para lá, com ela. Qualquer coisa, qualquer jeito. Eu só queria que aquele vazio no coração, aquela saudade constante sumisse. Mamãe sempre disse que Deus sabe o que faz, e que ele escreve certo sobre linhas tortas. Mas as linhas das nossas vidas já devem estar dando nó sobre nó. Então só espero que ele esteja — de fato — escrevendo tudo certo. E rezo para que esse certo, seja o que eu quero.
Mamãe morreu. E o pior de tudo é que não me lembro de muitos detalhes. Tinha só doze anos na época, era uma criança. Mas ainda assim ela se foi e me deixou com três irmãos e uma alma quebrada. A alma estava quebrada porque a minha alma era Ange, e ela não morava mais conosco já havia muitos anos.
Eu sofri sem ela. E chorei bastante também.
Mamãe me abraçava todas as vezes, conversava comigo e tentava me recompensar de toda forma. É claro que eu compreendia porque Ange tinha partido, mas isso não diminuía a falta que eu sentia da pessoa que havia nascido — literalmente — comigo. Porém, como uma resposta divina das minhas preces, antes da mamãe morrer, ela voltou. Eu a ví no hospital, quando fui conhecer Willa. Nunca me esqueço de entrar na sala e encontrar uma onda dourada e alaranjada parada ao lado da mamãe, e de repente ela se virar como se tivesse me sentido chegar, e me fitar com dois pores do sol. Sim, pôr do sol. Porque isso foi a primeira coisa que pensei quando eu vi os seus olhos: num pôr do sol. Iluminado, quente e brilhante. Lindo, lindo. Porque mesmo sendo o final do dia, era mais dourada e brilhante do que o nascer ou o meio dia. E Ange sorriu e eu sorri de volta.
Ali mesmo eu podeira ter contado a ela como eu estava sofrendo em casa. Que mamãe havia começado a passar e lavar roupa para os outros, que Ammon, todo dia, entrava numa briga e Mouse corria pela casa o dia inteiro. De como eu não tinha mais tempo para estudar, que dividia o nosso quarto com Mouse e Ammon e que eu não tinha amigos, porque os minutos livres na escola eu precisava utilizar para estudar, ou então não passaria de ano e nem entraria na escola com ela. Eu sabia que Ange entraria para a escola mais disputada do Estado. Até porque era a escola que o governo pagava, e papai e mamãe, infelizmente, não tinham dinheiro para bancar cinco filhos. Eu sabia que Ange iria entrar naquela escola. Então eu precisaria entrar também.
E consegui. Mas foi por pouco.
Eu ajudava mamãe a carregar as roupas até as casas das clientes, depois buscava Mouse na creche e, quando acontecia, eu saia procurando por Ammon pelos becos, antes da mamãe sentir sua falta. Fazia o dever, fazia o jantar e colocava Mouse para dormir. Não antes de ajudar Mouse com o dever e lhe dar um banho. Com Ammon era outra história.
Mas eu consegui. Conseguia fazer tudo.
Mas não salvei mamãe. Minha própria mãe.
Ammon passou a obedecer menos e se rebelar mais. Mouse cresceu pouco e ganhei — mais — uma irmã. Não que eu esteja reclamando, nunca. Ficamos todos muito felizes quando mamãe anunciou a gravidez para nós. Mas ver Mouse brincando todos os dias na rua, só me fazia lembrar da saudade que sentia e fingia esquecer. E de quem eu sentia essa saudade gritante. E ver aquele barrigão da mamãe e saber que mais uma menina estava a caminho, só era motivo para me lembrar constantemente da menina que faltava nas nossas vidas. Nossa menina de olhos dourados.
Tudo começou a acontecer depois de uma briga feia com Graydon. Mamãe passou a mancar e a sentir dores na coluna. E, assim, de repente ela foi para o hospital. De repente numa tarde aleatória, Dona Eva entrou lá em casa e eu meio que já sabia: algo muito ruim tinha acontecido. Estava estampado nos seus olhos cheios de rugas. E quando eu pensei que ia desmoronar, ela também entrou pela porta, com os olhos vermelhos agarrando o vestidinho amarelo.
Ange.
Foi quando entendi o que mamãe dizia sobre Deus escrever certo sobre linhas tortas. Ela voltou. Ela tinha voltado para mim, para nós. Mesmo que mamãe tenha precisado ir para isso acontecer.
Ano de 2016 — Presente
Desvio os olhos da janela e tento me concentrar na teia de equações que enchem o quadro. Uma fina camada de suor cobre minha pele, grudando os fios de cabelo à testa, colando a camisa do uniforme ao corpo. Os punhos da camisa pendem frouxos em torno dos meus punhos, manchados de tinta e sujeira. A folha vazia me encara, branca de doer, enquanto resolvo as equações numa caligrafia quase ilegível. Levo um tempão para fazer as contas, inclinando a ponta da caneta que trava no papel e faz um leve som arranhado.
Quando os gritos da campainha finalmente ecoam no interior do prédio pela última vez, a turma se dissolve no caos. Fecho o livro com força, enfio-o na mochila, levanto e saio da sala depressa, mergulhando no turbilhão da hora das portas, aumentando a corrente humana, e eu lá levando mil esbarrões e pancadas nos ombros, cotovelos, mochilas, pés...Consigo descer um lance de escadas, depois outro, e já estou quase fora quando sinto alguém pousar a mão no meu ombro.
— Heavenlly! Espera! — É Maisie. A mesma que estudou comigo e com Ange quando estávamos no primário. Nunca entendi como Ange ficou amiga dessa menina. Ou se era Maisie quem perseguia minha irmã Ange mas nunca fui muitoccom a cara dela desde aquela época, e até hoje ainda sinto um certa antipatia. Me pergunto se Ange também não se sente assim.
Ange.
— Sua irmã não veio hoje?
— Hoje não. Ela ainda não chegou de viagem. — Respondo por cima do ombro. Eu só quero ir embora dali.
— Uai, e ela estava viajando? Para onde?
— Com a igreja…
— Igreja? E para onde ela foi? Ela viajou nas férias?
As pessoas à nossa volta nos empurram e olham feio. Estamos parados no meio do corredor apinhado de alunos querendo fugir para liberdade. Maisie sempre foi curiosa e faz perguntas demais. Se nunca tive saco para responder todas, não vai ser hoje que terei. Preciso sair da escola e ainda buscar os pequenos. Ela chega hoje.
Finjo que sou arrastado pela multidão e grito já de costas para ela. — Desculpa mas eu preciso mesmo ir. Depois você fala com ela…
E escapo. Corro até o portão da escola e me situo para saber que rua pegar. Cubro o rosto com uma das mãos, o sol está castigando hoje. Desço a avenida e pego a primeira a direita.
Em meia hora tenho Willa e Mouse de cada lado.
— Aonde ela foi? — Pergunta Willa, balançando para frente e para trás a sua lancheira.
— No cemitério, como sempre. — Responde Mouse.
— Porque a Ange sempre vai lá?
— Para fazer...para visitar… — Mouse não se lembra do motivo e olha para mim. Todo anos eles esquecem a razão de Ange nunca buscá-los na data de hoje. Não os culpo, afinal, eles mal conheceram ela. — Porque mesmo a Ange vai lá?
— Ela vai visitar uma amiga.
— Credo! E quem mora no cemitério?! — Willa pergunta horrorizada, arregalando os olhos. Ela sempre entende tudo ao pé da letra.
— Não. Ninguém mora no cemitério. — Respondo parando na esquina. Estamos na metade do caminho. Mais dois sinais, virar à esquerda e depois a direita e chegaremos em casa. O dia está próximo do fim, mas o sol ainda está muito forte. Aperto meus olhos para enxergar a cor do sinal. Verde. — Quando digo que Ange vai visitar uma amiga, é porque ela vai ver o túmulo da pessoa. O local onde a pessoa foi enterrada. Ai levamos flores, dizemos algumas palavras e depois vamos embora. Só isso.
— Ata. — Meus irmãos mais novos respondem num uníssono.
— Ela vai demorar? — Willa questiona no mesmo temo em que Mouse pergunta:
— Porque ela não foi nos buscar?
Inspiro e depois solto o ar pela boca. Eles sempre se esqueciam.
— Não Willa, Ange não vai demorar.. Acho até que ela vai chegar em casa antes da gente. — E no momento que termino de falar uma repentina ansiedade cobre meu estômago. Sinto vontade de andar mais rápido. — E ela não foi buscar vocês, Mouse, porque ela precisou ir visitar o túmulo dessa amiga, antes de voltar para casa.
— Mas estou com saudades da Ange. Ela já está viajando a muito tempo. — Willa diz indignada, como se a irmã mais velha não devesse passar três semanas viajando.
— É verdade! — Como sempre Mouse concordando com tudo que Willa diz, quando ela fala num tom de raiva. Acho que ele mais faz isso pela expectativa de ver alguma bagunça acontecer. Mouse adora jogar lenha na fogueira.
— Eu sei. Também estou com saudades. Mas a Ange já está chegando. — É a única coisa que posso responder.
Os pequenos não falam mais nada e eu agradeço mentalmente. Willa balançam a sua lancheira e Mouse aponta para todo objeto colorido, e canta sozinho. Num minuto estamos subindo a rua da nossa casa e permito soltá-los para deixar que corram até a casa com a porta laranja desbotada, com um portão baixo enferrujado. Eles me esperam parados ao lado da porta e quando me aproximo vejo que tem alguém sentado no chão.
Ammon.
— Obrigado pelo chá de espera. — Ele diz me fuzilando com seus olhos castanhos. Seu cabelo — como sempre — muito comprido e negro está batendo nos ombros e cobrindo metade do seu rosto. — Achei que iria ter que quebrar uma janela para entrar na minha própria casa.
— Chá? Que chá é esse? — Willa comenta, olhando de Ammon para mim.
— Quebrar nossa janela? Porque? Você não pode fazer isso. — Mouse grita espantado com a possibilidade do próprio irmão vandalizar nosso lar. Infelizmente para mim isso não seria nenhuma surpresa, e, ao pensar nisso, meu coração aperta de tristeza.
Suspiro.
— Nossa, cala a boca, Willa. — Ammon responde irritado. Ele nunca teve paciência com Willa.
— Ei. Chega, não fale assim com ela Ammon. Por favor. — Peço num tom firme. Gritar só o deixaria nervoso e não dizer nada só o faria continuar. Mas pedir para que ele pare só faz com que sua atenção migre de Willa para mim. Então, no final das contas nunca temos muita opção se tratando de Ammon. Se Ange estivesse aqui ela saberia o que fazer.
— Porque vocês demoraram?! Estou esperando já vai fazer quase uma hora! A Ange não ia chegar mais cedo?! Cadê ela, porra?! Fiquei sentado aqui nesse chão sujo!
— Ei, não precisa xingar Ammon. Já deu. Nós já chegamos, me desculpa pela demora. Eu fui buscar os pequenos na creche, vocês sabe disso. — Coloco um braço entre nós e os pequenos e os empurro para trás. Sempre que Ammon fica nervoso também se torna um pouco violento. — E a Ange está no cemitério, você também sabe disso. Todo ano ela vai lá nessa data.
— Eu não sei para quê! Aquela velha já morreu tem tanto tempo! — Ele levanta as mãos no ar e as balança. Ammon está começando a ficar vermelho.
— É a amiga dela, Ammon… — Mouse diz baixinho, atrás de mim, e Ammon o fuzila com seus olhos. Porque Mouse não pode ficar calado?
— Foda-se. Eu. Quero. Entrar. Na. Minha. Casa! — Ele grita.
— Tá, tudo bem. Eu já cheguei. Então posso abrir a porta? — Pergunto desesperado para fazê-lo para de xingar tanto na frente dos pequenos. De todos nós, Ammon foi quem pegou esse péssimo costume do papai. E não pretendo deixar que influencie Mouse ou Willa.
Ammon solta lufadas de ar pela boca, como se fosse um animal, e dá um passo para o lado permitindo eu me aproximar da porta.
Pego as chaves que estão no meu bolso da calça e no momento em que a viro, e ouve-se o estalo da tranca sendo aberta, Ammon me empurra para o lado com o seu ombro e entra de supetão. Preciso me apoiar na parede para não cair no chão.
Solto um longo suspiro. Tenho quase certeza de que se Ange estivesse aqui nada disso teria acontecido. Olho em volta para me ver se algum vizinho assistiu nossa discussão, e respiro aliviado quando não encontro ninguém na rua ou olhando pela janela.
Mouse e Willa passam por mim correndo e rindo, já tirando os sapatos e casacos, e largando tudo pelo chão. Inspiro fundo, cato a mochila do Mouse e a lancheira da Willa, que foram esquecidos do lado de fora da porta, e também entro.
Mas antes de fechar a porta, olho para o céu. O sol já está se ponto e eu sinto meu corpo relaxar. A imagem que vejo é bonita demais para não me sentir transformado, o céu manchado em tons de rosa, laranja, amarelo e dourado. As nuvens contornadas pelos últimos feixes de luz de um sol lindo.
Sorrio, porque ver aquilo é muito bonito e me preenche de paz, mas, principalmente, porque pores do sol me lembra alguém.
Levando o rosto e fito o céu. Pôr do sol. Está na hora de ir embora. Deposito um beijo na lápide fria e termino de ajeitar os lírios amarelos.
— Tchau Dona Eva. Até depois. — Me despeço.
Desço a colina, atravesso os portões do cemitério e me dirijo para a avenida principal. Acabaram de dar cinco horas, mas o sol ainda está castigando, a luz branca e brilhante batendo na lataria dos carros que a reflete em raios desconexos, o calor cintilando sobre o asfalto. A rua é dominada pelo trânsito, fumaça de canos de descarga, berreiro de buzinas, crianças saindo de escolas e uma balhureira generalizada. Estou esperando por esse momento desde que o despertador me arrancou do sono de hoje de manhã, me colocou no ônibus da igreja e me trouxe de volta para a cidade. Três longas semanas viajando pelos interiores do Estado, ajudando os necessitados. Faço isso desde que Dona Eva se foi, a um ano atrás. Ela dizia que mesmo tendo pouco, existiam outros que tinham bem menos, ou que não tinham nada, e por isso ela fazia questão de ajudar. Todo ano ela viajava com a igreja nesse trabalho voluntário, e quando retornava estava sem metade das roupas na mala, sem nenhuma bijuteria e calçando apenas a sandália dos pés, mas afirmando que estava novinha em folha, e cheia de energia.
Ela sempre foi muito boa. Boa demais para mim. Dona Eva me salvou, e por isso fiz seu último desejo. Ví com meus próprios olhos toda a experiência enriquecedora de ajudar o próximo. Coisa que ela sempre me narrava com riqueza de detalhes, e prometia que iria me levar um dia. Não estamos mais juntas, mas ainda assim me senti na obrigação e fui. Ela era boa demais para esse mundo. Será por isso que Deus a levou tão rápido?
Caminhando pela rua, ziguezagueando pela multidão, e tentando não esmagar os dedos dos pés das pessoas com minha mala, penso em como ela estaria feliz agora me vendo lá de cima. Sorrio. Sinto uma felicidade me invadir e de repente sinto vontade de sair correndo. Viro a esquina e entro na ruela estreia que conheço tão bem, com suas longas fileiras de casinhas de tijolo gastos que vão se inclinando gradualmente, na inclinação da ladeira.
É a rua em que moro a cinco anos. Só nos mudamos para a casa paga pelo governo depois que mamãe morreu, e passamos a depender da pensão recebida pelo papai. Porém Graydon não tem uma das pernas — perdeu na época em que servia para o exército — e por isso o governo nos deu uma casa, para ele se preocupar apenas em bancar os filhos. Ele pode até nos alimentar, mas também é a única coisa que faz. Quando mamãe era viva, conseguia trazer um pouco mais de dinheiro para dentro de casa, e apesar de nunca ser muito, as coisas eram mais fáceis sob muitos aspectos. Mas isso já faz muito, muito tempo. Nossa casa agora é a de número 65: um cafofo de dois andares, cinco cômodos, de alvenaria cinza, espremido entre uma longa fileira de casas geminadas, com garrafas de Coca-Cola e latas de cerveja brotando das ervas daninhas entre o portão quebrado e a porta laranja desbotada.
Com um pouco de dificuldade alcanço a casa e minha chave emperra na fechadura de novo. Xingo baixinho e dou um chute na porta, como sempre. No momento em que saio do sol do fim de tarde para o corredor escuro, sinto que as coisas já estão meio fora dos eixos. Como previsto, a sala está um caos — sacos de batatas fritas, mochilas de livros, cartas de escola e deveres de casa abandonados no carpete. Ammon está comendo sucrilhos direto da caixa, de vez em quando tentando acertar um na boca aberta de Willa do outro lado da sala. Quando ela me vê solta um gritinho e corre na minha direção com seus bracinhos abertos.
A pego no colo e rodamos no lugar.
— Ange, Ange, Ange!
Um ninho de cachos dourados aparece no topo de escada.
— Ange?! A Ange voltou! — anuncia Mouse, avançando para me abraçar, abrindo um enorme sorriso. — Theo! A Ange voltou! Theo!
Largo Willa e me abaixo para abraçar Mouse. Seus cachinhos estão encharcados, assim como partes da sua camiseta e ele não veste calças.
— Mouse, volta aqui! Sua sandália está trocada! — Gritam do topo da escada, e soltou Mouse para olhar para cima.
Ele preencheu a visão dela; era tudo que ela conseguia enxergar. Por um momento ninguém se mexe, mas então Ange abre um largo sorriso e Theo começa a descer os degraus de dois em dois. Colidiram no meio do corredor, e ela jogou os braços em volta dele.
— Theo. — Ela disse, mas o som foi abafado pelo ombro dele enquanto ele retribuía o abraço. Ela pôde ouvir ele sussurrar seu nome enquanto respirava o seu cheiro familiar: desodorante, sabão e casa. Casa. Por um momento, os braços dele ficaram tão apertados em volta dela que Ange mal conseguiu respirar. Então ele a soltou e deu um passo para trás. Ange quase se desequilibrou. Ela não esperava um abraço tão apertado nem um empurrão tão rápido.
Ele também parecia diferente. A mente dela não conseguiu assimilar.
— Pensei que fosse chegar mais cedo. — De repente Ammon comentou do canto do sofá em que estava largado. Não havia movido um músculo se quer para ir recebê-la. Ange não achou ruim, Ammon sempre fora assim.
— Sim, mas precisei ir num lugar antes. Desculpe. — Ela respondeu de modo doce, como sempre fazia com Ammon. Isso o deixava sem jeito e logo ele desfez a cara mal humorado que tinha e se levantou, caminhando até ela.
Por alguns instantes, tudo se tornou um burburinho: perguntas, mais abraços e risos. Willa exclamava para tudo que Ange dizia, Mouse fazia uma pergunta atrás da outra e Ammon queria saber quanto de dinheiro ela havia ganhado — muito pouco — e se Ange tinha visto alguém sem uma perna ou um braço — não. Theo levou todos para a sala e tirou a mala de Ange da porta, colocando-a no canto.
— Ah, sim. Eu trouxe presentes!
— Oba! Oba! — Gritaram, e Ange abriu sua única mala ali mesmo, no meio do cômodo. Mouse começou a correr por entre os armários com sua bola, Willa pulou, gritou e abraçou o telescópio de plásticio e Ammon esboçou um sorriso quando viu o tênis que Ange trouxera para ele. A casa ficou preenchida pelas exclamações de todos.
Ange olhou pra Theo. Ele observava a família, com expressão concentrada. Como se tivesse se esquecido de que ela estava ali. E naquele momento sua mente pareceu acordar repentinamente e lhe apresentar um catálogo dos modos pelos quais ele parecia diferente.
Ele sempre teve cabelos curtos e práticos, mas deve ter esquecido de cortá-los enquanto ela esteve fora: tinham crescido lisos brilhantes e cheios. As pontas estavam na metade das orelhas. Ele estava precisando tomar um sol e não é que ela não soubesse a cor dos olhos dele, mas agora pareciam, ao mesmo tempo, mais brilhantes e escuros. O formato do rosto também tinha mudado, moldando linhas mais adultas, perdendo a suavidade da infância, revelando a mandíbula que destacava seu queixo ligeiramente pontudo.
Ela desviou o olhar. Para sua surpresa, o coração batia acelerado, como se ela estivesse nervosa. Afobada, Ange se abaixou para fechar a mala.
— Eu amei mana! Obrigado! — Agradeceu Mouse, tentando fazer embaixadinhas.
— De nada. Só não pode jogar bola aqui dentro. Tem que ser lá fora, na rua. — falou Ange, se levantando. Sentiu um leve toque no ombro.
Era Theo. Como dedo ele começou a traçar palavras na pele dela — era algo que sempre fizeram, desde que perceberam que precisavam de uma maneira para se comunicar silenciosamente durante as aulas ou quando já haviam sido postos para dormir, mas nenhum dos dois tinha sono. V-O-C-Ê-E-S-T-Á-B-E-M?
Ela acenou com a cabeça para ele. Theo olhava para ela com uma ligeira preocupação, o que foi um alívio. Pareceu familiar. Será que ele realmente estava tão diferente? Estava menos magro, mais musculoso, apesar de ser um músculo meio magro. E continuava usando a mesma pulseira de couro, com miçangas pendurada. As mãos continuavam cheirando a sabão em pó com as unhas roídas. Ele continuava sendo Theo.
Ouviram um barulho de algo duro batendo no chão. Ambos viraram o rosto ao mesmo tempo e virão Mouse segurar o cabideiro que ficava estrategicamente atrás da porta.
— Ok, chega dessa bola. — Theo anuncia e Mouse solta o cabideiro com um suspiro. Logo todos são instruídos a guardar seus presentes porque o jantar está quase pronto. Willa, Mouse e Ammon correm escada a cima, e Theo fica para subir a mala de Ange.
— Gostou da viagem? — Ele pergunta de costas para ela.
— Sim. Foi revigorante. — Ela responde sorrindo para sí mesma. Quando chegam na porta do quarto que Ange divide com Willa e Mouse, Theo deposita a mala no chão e começa a se afastar.
Ange agarra deu braço. Ela sente ele ficar tenso mas logo seu irmão relaxa ao toque.
— Ei, eu também te trouxe um presente. Não me esqueci de você. — Ange diz sorrindo para Theo, que a fita mudo. Por um momento eles ficam calados, apenas se encarando, e Ange sente seu sorriso diminuir. Ela nunca vira seus olhos tão...intensos.
Willa e Mouse passam correndo pela porta, e empurrão Ange que solta Theo.
— Comida, comida, comida! — Descem gritando e socando o ar.
— Tudo bem, você me entrega depois. — Ele passa por ela de cabeça baixa e desce a escada de dois em dois.
Ange desfaz a mala, toma um banho e já veste o pijama.
Quando vai na cozinha, todos já comeram e estão na sala assistindo televisão. Ammon já subiu para o porão, que ele fez de quarto, e está escutando música num som terrivelmente alto. Ange cata algumas sandálias e peças de roupas que estão jogadas pelos corredores até chegar na cozinha. Deixa-as na área de serviço com a promessa de lavar tudo mais tarde e se senta na mesa.
Theo pega o único prato limpo da mesa e serve o que está dentro da panela.
— Todos já comeram? — Ange pergunta espantada. Normalmente as refeições são eventos um pouco complicados, uma vez que cada um gosta e desgosta de algo, e alguém sempre tem uma opinião para dar sobre o prato que estão comendo. — Ou fui eu que demorei demais no banho?
Ange solta um risinho mas Theo não a acompanha e nem responde. Ange cata os pratos, talheres e copo e coloca tudo dentro da pia.
— Pode deixar que eu lavo. — Theo anuncia.
— O que...? — Normalmente todas as obrigações da casa eram divididas entre eles e Ammon — quando conseguiam convencê-lo a fazer algo, mas normalmente isso era bem raro de acontecer.
— Vem. Senta e come. Hoje é surpresa.
— Como assim? — Ange perguntou já sorrindo e correndo para a mesa.
Theo havia feito lasanha de frango com muito molho. Ange adorava quando Theo fazia o prato que lembrava sua mãe. Ela abriu um sorriso e agradeceu, comendo tudo e depois repetindo.
Ele ainda era o mesmo Theo. Não havia nada com que Ange deveria se preocupar.
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