Entre Nós

4 Catástrofe e Cura


Notas iniciais
Olá, Espero que gostem. Por favor não deixem de comentar. Música: https://www.youtube.com/watch?v=-oCPAO3bp4Q

“Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu ris e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.”



Corrine sempre fora uma mulher independente então não estava lidando bem com o fato de depender de Dona Eva para pedir as coisas. Havia recebido alta à três dias e ainda não admitia ter que chamar por alguém para ajudá-la a subir as escadas ou catar algo que caíra no chão.

Diferente da Senhora que sempre estava lá para ajudá-la, Graydon partiu para uma viagem de três meses logo no segundo dia em que Corrine retornou para casa. Estavam jantando quando ele contou à esposa que precisaria fazer uma viagem mas que, dessa vez, demoraria um tempo maior para voltar. Ele não poderia ter escolhido uma época melhor para viajar, e Corrine agradeceu mentalmente. No dia em que ele foi embora ela e Dona Eva começaram uma novena e, toda noite, rezavam juntas, com Theo e Ange tentando imitar o que as duas faziam.

Dona Eva passou a freqüentar mais a casa da amiga do que ela própria, e Ange e Theo começaram a se perguntar quando a Senhora se mudaria logo.

— Eu volto amanhã, crianças. O papai de vocês não gosta de pessoas estranhas dormindo aqui. – Dona Eva explicou quando Ange a questionou por ela precisar ir embora. E Theo ofereceu seu lado da cama que dividia com a irmã.

— Mas o papai não está em casa. Ele vai demorar pra’ voltar. – Ange reclamou.

— E você não é uma “pessoa estranha”, vovó. – Theo lembrou.

— Mas quando ele voltar eu não posso estar aqui. Ele não vai gostar. – A Senhora sorriu para os pequeninos e fez um carinho no rosto de cada. – E eu moro lá, bem pertinho de vocês. Qualquer coisa é só me chamarem. – Explicou Dona Eva, apontando para a sua casa de muro amarelo desbotado, no fim da rua, uma casa antes da esquina.

Os gêmeos concordaram com a cabeça e naquela noite dormiram na cama de casal com a mãe. Ange e Theo observaram a mãe procurar por uma posição confortável, em que não machucasse sua barriga, e que não comprimisse ainda mais sua bexiga. Apesar de terem se passado poucos meses sua barriga já estava grande, e ela temia que soubesse o motivo.



— Não, eu não quero ir! – Ange grita e cruza os braços com força. Theo já havia vestido o seu uniforme e estava sentado na cama, assistindo a irmã fazer birra.

— Vamos Ange. Levante as mãos para colocar a blusa. Olha como seu irmão já está pronto. – Dona Eva pediu, apontando com a cabeça para Theo. Ange o olhou pelo canto do olho mas continuou de braços cruzados.

— Não, não quero. Ele só ta’ pronto porque a Maisie dá’ bombom pra’ ele.

— O que? – Dona Eva perguntou levantando as sobrancelhas.

— É mentira. – Theo grita, ficando de pé. Ele tinha os olhos assustados tanto quanto os de Dona Eva. – Ela está mentindo vovó.

— Então porque você sempre espera por ela na porta da sala, na hora do recreio? – Ange aperta os delicados olhinhos azuis na direção do irmão, que começava a ficar vermelho.

— É mentira! – Theo grita e empurra Ange.

— Porque você me empurrou? O que eu fiz?! – Ange pergunta, ofendida. Seus olhos começam a marejar.

— Fica mentindo para a vovó!

— Mas é verdade sim! Eu sei!

— Não! – Ele responde e a senhora interfere na briga.

— Não, não faça isso Theo. Peça desculpas para sua irmã. – Dona Eva o repreende de modo firme, mas quando se vira para procurar por Ange ela não mais no recinto.

— Ange! Ange! – A senhora chama pela menina de olhinhos azuis mas esta não responde. E como não há tempo para procurá-la, decide conversar com Theo e mandá-lo, sozinho, para a escola. Ela tranca a casa e caminha de modo apressado, com Theo segurando sua mão. Por sorte havia uma ótima creche, bem próximo da casa de Corrine, e mesmo com a mensalidade não tendo o preço que ela gostaria, a mãe os matriculou lá. Era possível enxergar o parquinho da escola dos fundos da casa.

Dona Eva entregou Theo para a professora e explicou – mais ou menos – a ausência de Ange, e retornou para a casa apressadamente.

Quando ela chegou, conferiu se Corrine ainda dormia no quarto e partiu em busca de Ange. Encontrá-la sempre era uma tarefa difícil, a pequenina sempre se escondia nos lugares mais inusitados e improváveis, mas Dona Eva escutava o fungar de alguém vir de baixo da cama em que ambos dormiam.

Dona Eva se abaixou e lá estava ela, encolhida no canto da parede.

— Vem cá, Ange querida. Sai daí, está tudo imundo. – Dona Eva pediu, estendendo a mão para a menina, que não se mexeu. – O que aconteceu, meu bem? Porque está chorando?

— Eu não fiz nada. E ele brigou comigo. E até me empurrou...Ele nem conhece a Maisie... – Ange falou entre os soluços, deixando algumas lágrimas pingarem no chão.

Dona Eva suspirou.

— É que seu irmão ficou com vergonha, Ange. E acabou agindo de modo muito errado. ãs vezes, nós agimos sem pensar quando ficamos de cabeça quente. – Ela tentou acalmar a menininha.

— Mas não coloquei nada na cabeça dele! – Ange argumentou, aumentando a voz. E apesar da sua inocência ser fofa, não era o momento adequado para uma risada então Dona Eva precisou segurar seu riso.

A Senhora decidiu também se juntar à Ange e deitou no chão, ficando de frente para a menininha que estava encolhida contra a parede.

— Não, querida. Eu quis dizer que, quando ficamos com raiva, nervosos, irritados e até com vergonha, agimos por impulso. Fazemos as coisas sem pensar direito, e às vezes machucamos alguém. Mas não é por mal. É quando estamos de “cabeça quente”, entendeu agora? Theo não tinha nada quente sobre a cabeça, mas ficou com tanta vergonha que empurrou você sem pensar que poderia deixá-la triste... Ele não fez por mal, só agiu sem pensar. Tenho certeza de que agora mesmo ele já está arrependido. – Dona Eva dissertou do modo mais compreensível que acreditava que uma criança daquela idade conseguiria entender. E quando viu Ange diminuir os soluços, relaxou e suspirou, feliz por conseguir fazê-la compreender algo tão complexo.

— Quer sair daí agora? – Ela tentou mais uma vez e esticou a mão. E dessa vez a menininha não demorou para agarrá-la.

Dona Eva pegou Ange no colo e a levou até o banheiro, a colocando delicadamente sobre a pia. Limpou seu rosto, seus olhinhos e depois os enxugou com delicadeza.

— Quer água? – A Senhora ofereceu e Ange concordou timidamente com a cabeça.

Caminharam juntas, de mão dadas, até a cozinha e enquanto Dona Eva enchia um copo com água, Ange, com um pouco de dificuldade, se sentou numa das cadeiras da mesa em que faziam todas as refeições. Dona Eva lhe entregou sua xícara de plástico laranja e puxou uma cadeira para ao lado da menininha.

Ange bebeu alguns goles e depois fitou a Senhora ao seu lado.

— Está mais calma? – Ela perguntou e a menina de olhinhos azuis concordou com a cabeça.

— Estou.

— Agora, me explica, meu bem. Porque você disse que Theo não conhece Maisie? Não é a coleguinha que estuda com vocês desde o primeiro ano? O que Theo não conhece que você conhece?

Ange, novamente concordou com a cabeça e fitou suas próprias mãozinhas. Ficou em silêncio até Dona Eva insistir para que ela dissesse algo.

— Porque ela não é minha amiga. Ela não gosta de mim... – Sua voz ameaçou falhar e Dona Eva rapidamente fez um carinho em sua cabeça, tentando acalentá-la.

— É claro que ela gosta, Ange. Todo mundo gosta de você.

— Mas ela não, vovó. A Maisie é malvada! – Ange grita e fita a Senhora, com seus olhinhos azuis já marejados.

— Porque diz isso, Ange? Ela fez alguma coisa para você?

Após a pergunta, Dona Eva nota uma mudança na expressão da pequena, como se tivesse sido pega em flagrante, e franze o cenho.

— Não.

— Ange, se ela lhe faz algum mal você deve contar à mim ou à sua mãe, se lembra? Esconder é feio. – Dona Eva a repreende começando a compreender toda a situação.

A pequena Ange começa a olhar para os lados, para as próprias mãos, para o teto, incapaz de encarar a Senhora que está na sua frente. Ela fica inquieta, entrelaçando os dedinhos da mão.

— Ange? – Dona Eva a chama.

Ela levanta seus olhos azuis e fita a Senhora, ainda em silêncio.

— Bom, se ela não lhe fez nada, então porque não são amigas? Querida, todos gostam de você, você é linda, educada... – Dona Eva é interrompida repentinamente.

— Mas ela não, vovó. Maisie é malvada comigo! Ela joga meu lanche no chão e me deixa sozinha. – Ange dispara a falar, fazendo algumas lágrimas rolarem pela sua bochecha rosada. Ela fecha suas mãos em punho e as balança no ar, agitada de tão nervosa.

— E porque ela faz isso? – Dona Eva a pega no colo.

— Eu não sei, vovó. Não sei. Mas fico triste. – E começa a chorar descontroladamente. Dona Eva a balança no colo e acaricia sua cabeça. – Eu nunca fiz nada.

— É por isso que falou que Theo não a conhece?

Ange funga e desencosta o rosto do ombro de Dona Eva, endireitando seu tronco. Ela limpa os olhos com as próprias mãos antes de dizer ainda soluçando:

— É. Ele acha que ela é legal, porque ela dá bombom pra’ ele, mas comigo ela é malvada.

— E porque não contou isso para Theo? – Dona Eva a questionou e Ange não soube o que responder. – Eu acho que você deveria. Pense, ele é o seu irmão gêmeo. Vieram da mesma mamãe, ficaram juntos na mesma barriga. Quase foram a mesma pessoa. Vocês devem contar tudo um para o outro, coisas boas ou ruins. E ele vai entender, e te ajudar. Sempre. Mas não tem como Theo adivinhar o que Maisie faz com você, então você tem que contar a ele. Entendeu?

Ange assimila tudo que foi dito pela Senhora e balança com a cabeça. Apesar de ainda muito nova, tudo que era dito tanto por Corrine quanto por Dona Eva, Ange escutava com atenção e guardava todos os ensinamentos num cantinho especial dos seus pensamentos.

E ela sabia o que fazer quando Theo voltasse da escola.



— Me desculpa. – A pequena Ange tomou um susto quando escutou seu irmão se pronunciar nas suas costas. Ela brincava com suas bonecas no jardim da Dona Eva.

Ela torce o pescoço e o encarou de cima. Ele estava de pé e ela sentada sobre o gramado.

Ventava bastante naquele dia e Ange vestia um casaquinho sobre seu vestido simples azul marinho, fazendo com que o azul dos seus olhos ficassem mais vívidos. E mais intimidantes. Quando Theo foi fitado por seus olhos, engoliu seco. Estavam incrivelmente grandes e ele ficou sem reação.

— Tudo bem. – Ela simplesmente responde e torna a brincar com suas bonecas.

Theo fica sem saber o que dizer então fica alguns segundos em silêncio, até que decide se sentar ao lado da sua irmã.

Não haviam brinquedos “de meninos” mas ele não se importou em pegar uma das bonecas de Ange e imaginá-la voando com roupas de super-herói.

Ange continuou em silêncio mas então se lembrou das palavras de Dona Eva, “Você deveria contar à ele.”, e solta o ar, apreensiva. Ela olha o irmão pelo canto do olho e o observa segurar sua Barbie com pouco interesse. Ange corre os olhinhos por sobre seu uniforme que consiste numa calça social azul marinho, cinto e a camiseta branca que já estava meio amarelada com o símbolo da escola. Só faltando o casaco que ele, provavelmente, havia deixado em casa. Seus sapatinhos estavam meio gastos mas ainda bem cuidados. Então ela reparou que camiseta dele estava intacta, sem nenhuma sujeira. Ange estranhou.

— Ela não levou bombom hoje? – Perguntou.

Theo responde sem levantar os olhos do brinquedo.

— Levou.

— Então ela não te deu?

— Deu. Mas eu que não quis o bombom.

— Porque?! – Ange pergunta surpresa. Theo adorava os docinhos que ganhava, gostava tanto que quase não dividia com ela. Ange não entendia o porque da recusa.

Theo coloca a boneca no chão e encara a irmã. Seus pequeninos olhos tinham um brilho intenso, intimidante, que transmitia um forte sentimento de dever, cobertos por uma convicção que já era característica do homem que ele viria a ser um dia, assim como algo à mais que Ange não souber explicar, mas que a faz amá-lo ainda mais. A menina soltou o ar surpresa.

— Porque você me disse que eu não conheço a Maisie? Ela brigou com você?

— O...que...?

Ange levanta as sobrancelhas claras e deixa a boca pender, aberta.

Theo conhecia a irmã que tinha (até bem demais) e quando escutou-a proferir tal acusação sobre Maisie soube que algo não estava certo. Que Maisie não estava certo. Theo sabia que Ange não era fresca e nem mimada a ponto de apontar o dedo por futilidades, havia, de fato, algo acontecendo.

Ange não precisou pedir. Theo confiou nela no momento em que escutou suas palavras, ele nem precisava verificar nem conferir nada. Talvez, ainda pela idade, não sabia o que era aquilo que sentia, nem conseguia explicar ou nomear mas sentia isso para com ela. Totalmente entregue e devoto para com a menininha de olhos claros à sua frente.

— O que ela fez Ange? – Theo insistiu.

Ange fechou a boca e antes mesmo de pronunciar qualquer palavra lágrimas já escorriam pela sua bochechinha.

— Ela pega meu lanche. E me deixa sozinha.

Theo arregala os olhos e fica boquiaberto.

Nunca conseguiria imaginar Maisie fazer aquilo com sua irmã gêmea, tratá-la de modo tão mal. Maisie, que sempre foi legal com ele e com seus amiguinhos parecia ser muito tranquila. Era verdade que estudavam na mesma turma – os três – mas, no horário do recreio, Ange e Theo se separavam – num dos raros momentos dos gêmeos – então Theo não sabia o que acontecia com sua gêmea.

— E os meninos da sala riem de mim. – Ange começa a chorar a abaixa a cabeça, cobrindo o rosto com as mãos.

— Porque não me contou antes, mana?! – Theo exige saber.

— Porque ela diz que vai rasgar meu caderno se eu contar. – Ange explicou, com a voz falha.

— Mas eu sempre vou te proteger Ange, e ficar do seu lado. Pode me contar sim!

— Eu não queria que eles rissem de você também... – Ange se acalma mas ainda soluça baixinho. Ela fita o irmão – que ainda está com aquele olhar – e se aproxima dele.

— Mas eles tão´ rindo de você. E eu não gosto disso. E se tão´ rindo de você, tão rindo de mim também, lembra? – Theo pega uma das mãos da irmã e entrelaça seu dedo mindinho ao dela, mostrando-lhe o ato de união que sempre faziam para demonstrar que eram um só.

Ange olha para os seus dedinhos e suspira alto, agora, totalmente calma.

— Promete que vai me contar tudo, agora? – Pede.

— Mas isso não é legal de contar.- Ange pensa nas muitas história felizes e engraçadas que já escutara sua mãe contar. Ela não gostaria de ter que narrar coisas ruins, apenas acontecimentos coloridos e cheios de balões.

— Mas eu sou seu irmão. E quero sempre saber quando alguém está te machucando. – Ele diz com uma firmeza que uma criança da sua idade não deveria conseguiria expressar. E isso assusta Ange, mas de uma boa forma, e ela sorri abertamente.

Theo a puxa para um abraço.

Eles tornam a brincar, e mesmo Theo não gostando muito de ser a Senhora Rosa, uma Barbie loira, aceita participar da brincadeira da irmã.

Quando o jantar fica pronto retornam para casa de mãos dadas.

Notas finais
Cadê os comentários? Gostaria de saber o que estão achando até agora! XOXO