Entre Nós
11 Casa
Notas iniciais
“Do you think the universe fights for souls to be together?
Some things are too stranges and strong to be coincidences.”
— Para onde você foi? — Foi a primeira coisa que Ange escutou quando ela se virou e deu de cara com Maisie. Levou um pequeno susto, afinal não esperava encontrar ninguém naquelas escadas. Estava subindo para o telhado da escola, atrás de Theo. Ange sabia que lá era o local onde ele sempre passava os intervalos, era isolado e quieto. Eles não haviam tido a oportunidade de conversar desde que ela chegara — mais de uma semana -, e apesar de Theo não sentir a mesma falta que ela, Ange pensava assim, isso não a impedia de ir atrás dele. Provavelmente Theo estava com a cabeça cheia de preocupações, como sempre estava.
— Em?... — Maisie insistiu, colocando as mãos na sua cintura fina.
Ange suspirou alto e tentou quietar a ansiedade.
— Fiz uma viagem voluntária com a igreja. Visitamos os interiores do Estado ajudando as igrejas locais e os mais pobres. Fizemos sopas e tratamos de algumas crianças.
— Ah bom. — Foi tudo que Maisie respondeu.
Ange sabia que a amiga não tinha interesse nenhum em saber das coias que ela fazia na igreja, ou em qualquer coisa relacionada à igreja e a vida, nada, baladeira de Ange. Mas Maisie sempre fora mandona e controladora, querendo saber de tudo de todas as pessoas com quem convivia.
Apesar de terem tidos algumas desavenças quando crianças — na época do primário — eram pessoas totalmente diferentes agora. Ange pelo menos se sentia uma outra pessoa, mais firme, decidida e reservada. Não saia contando da sua vida pessoal para qualquer um que lhe dava um pouco de atenção, como acontecia com Maisie e tantas outras meninas da sua sala. Mas ela havia feito uma ou outra amizade saudável, e pretendia mantê-las até onde conseguisse.
— E aonde você está indo? — Maisie questionou, olhando de modo desconfiado para os dois sanduíches que Ange carregava. — Vai fazer o que lá em cima?
— Nada. Eu só estava indo para comer...Nada demais.
— Ué, porque não come com a gente?
— É...que...eu não tinha encontrado vocês… — Ela respondeu de modo vago. Maisie bufou e balançou uma das mãos no ar.
— Ah. Foi poque a Dani inventou que queria comer não sei o quê da cantina e ficamos presa naquela fila por quase meia hora. Nunca mais vou na onda daquela garota. No final, ela nem gostou do que comprou. — Maisie massageia as têmporas de modo dramático e no mesmo segundo prende um braço de Ange e começa a arrastá-la escada a baixo. — Vem, vamos. Agora você já me achou. As meninas devem estar me esperando. — Ela cantarolou.
Por todo o trajeto até o pátio da escola Ange escutou Maisie falar das suas férias curtas de verão, em como estava bronzeada e mais algumas coisas que levavam as palavras “noite” e “maravilhoso”, mas Ange já não escutava mais, se lamentava por mais uma oportunidade perdida que teria para aproveitar ao lado do irmão.
Quando chegaram na mesa, cada uma das três meninas que estavam sentadas na mesa lhe deram um abraço e perguntaram por onde ela andava.
Ange deu de ombros e explicou toda a viagem com delicadeza.
— Quando você vai me apresentar para ele? — Reclama Francie, chatedada. Era uma morena linda, com bochechas salientes e tranças de boxeadora, que a deixava com um ar sexy e perigoso ao mesmo tempo. A menina seguiu o olhar de Ange até as costas da figura solitária curvada na grade de proteção do terraço do prédio. Da posição de sempre que estavam, era possível enxergar todos que iam até o lado oeste do terraço, e se penduravam na grade da escola. Depois de constantes perguntas Ange finalmente soltou que era seu irmão a pessoa que ficava todos os dias ali, e de quem ela nunca tirava os olhos.
— Eu já disse: ele não é muito...namorador. — Respondeu sem saber que adjetivo dar sobre o comportamento nada interessado do irmão pelas garotas da escola.
— Ele ainda é solteiro?
Ange olha para Francie, uma das amigas de Maisie que se tornou amiga dela também. Era uma menina boa, filha de pais separados, de origem Texana, que emanava uma espécie de energia inquieta, a adrenalina que é tão natural nos extrovertidos. Ange tentou imaginá-la saindo com seu irmão, tão quieto e contido. Quase impossível. — Como você sabe que gosta dele?
— Fala sério, né? É só olhar pra ele. Ele é um tremendo gato! — Exclama Francie, enfática. As outras meninas riem.
Balança a cabeça com um sorriso, sem conseguir se conter em pensar sobre o assunto e logo está concordando. Ele é lindo mesmo.
— Ainda acho que vocês dois não tem nada em comum. Juro.
— E o que você quer dizer com isso? — Francie pergunta num súbito ar magoado.
— Que ele só não tem nada comum com...ninguém — Ange responde apressadamente. — Theo é apenas...diferente. Ele não tem hábito de conversar...muito.
— É, foi o que ouvi dizer. Fechado como uma ostra. Na verdade teve uma menina que foi falar com ele, e ele a tratou como uma criança. Literalmente. Como se fosse uma criança, perguntou se estava tudo bem, se queria ajuda com a comida e sei lá mais o que… Que bizarro. — Francie joga os cabelos para trás. — Ele sofre de depressão?
— Não. — Ange respondo de modo imediato. — Em casa ele fala, conversa bastante. É só com as pessoas que ele não conhece, com as pessoas fora da família.
— Bom, tá mais para as garotas que ele não conhece.
— Ele é meio tímido sim.
— Seu irmão é doido isso sim. — Maisie se pronuncia de repente, chupando ruidosamente seu suco de caixinha. Todas se viram para a morena. — Nunca me esqueço do meu doce que ele jogou fora. Ingrato.
A essa altura, todas da roda já sabiam do passado de Ange, Theo e Maisie, e mesmo vez ou outra Maisie lembrando a ruiva de acontecimentos antigos, ela, e todas as garotas da roda, sabiam que era só o jeito de Maisie fazer piadinha.
— Ainda assim, ele não deveria senti vergonha de nada. Fala sério, ele se olha no espelho em casa? — Pergunta Francie.
Ange solta um risinho desprovido de alegria e sem saber o motivo. Essa conversa a está incomodando mais do que deveria, mas ela não consegue pensar em nenhum outro assunto que fará com que suas amigas deixem de falar sobre seu irm!ao gêmeo.
— Ele só é assim na presença das meninas. — Ange tenta explicar para elas mudarem logo de assunto. — Com as meninos ele conversa mais, mas está sempre estudando então não sobra muito tempo no fina…
— E pra quê estuda tanto? É burro por algum acaso? — Maisie questiona, lambendo um dos dedos cheio de chocolate.
— Ei, não mesmo. Ele só é esforçado. — Ange defende.
Francie solta um assobio, incrédula.
— E ele sempre foi assim?
— Burro? Com certeza. — Maisie responde antes de Ange conseguir abrir a boca. Ela se desvia de um tapa da amiga e corre para jogar no lixo seu lanche acabado. Francie ri alto e torna a olhar para Ange, esperando uma resposta. Ela sempre foi insistente.
— Não sei. — Ange responde depois de um tempo. Depois de refletir que era verdade: ela não sabia. Passou uma grande parte da vida sem o irmão, e quando tornou a morar com ele, ele já era uma pessoa totalmente formada, que com o passar dos anos apenas amadureceu. Então ela realmente não sabia. — Quando nós eramos menores fazíamos tudo juntos mas ai nossos pais se separam e eu...morrei longe dele. Por um tempo. Quando voltei já não era mais o mesmo Theo que eu conhecia. E ao mesmo tempo era. Mas ele sempre foi o meu melhor amigo do mundo. Ainda é.
Quando retorno para casa, parecia que assistia a uma visão repetida do dia anterior. Ammon estava, novamente, comendo sucrilhos direto da caixa, de vez em quando tentando acertar um na boca aberta de Willa do outro lado da sala.
— Ange, Ange, olha só o que o Ammon sabe fazer! — avisa, Willa, excitada, enquanto penduro o blazer e a gravata no cabideiro.
Apesar da sujeira de sucrilhos pisados no chão, não posso deixar de sorrir. Minha irmãzinha é a menina de cinco anos mais fofa do mundo. As bochechas, coradas de esforço, ainda são rechonchudas como as de um bebê, o rostinho iluminado por uma doce inocência. Desde que perdeu os dentes da frente, ela pegou a mania de enfiar a ponta da língua no espaço quando sorri. Os cabelos da mesma cor que os de Mouse — quase brancos de tão loiros — batem na cintura, finos e lisos como fios de ouro, a cor combinando com os brinquinhos nas orelhas furadas. Por baixo da franjinha que cresceu demais, seus olhos grandes exibem uma expressão permanente de susto, da cor castanho.
Ela já trocou de uniforme por um vestidinho de verão cor-de-rosa, com uma estampa floral, que eu mesma fiz para ela, e está pulando de um pé para outro, adorando as palhaçadas do irmão adolescente.
Olho para Ammon com um sorriso.
— Pelo visto vocês tiveram uma tarde muito produtiva. Espero que ainda lembrem onde fica o aspirador de pó.
Ammon atira mais um punhado de sucrilhos na direção de Willa, que solta um gritinho e roda, balançando seu vestido, e declara:
— Não é um jogo, é um exercício de pontaria. Papai não liga, ele sempre volta das viagens chumbado demais para notar. Só vai ver alguma coisa amanhã, e à noite.
Abro a boca para repreender Ammon pelo linguajar, mas Willa lhe dá corda, e vendo que ele não está aborrecido e nem se queixando, decido deixar de lado e sento no sofá. Meu irmão de treze anos mudou muito nos últimos meses — e mais ainda nesse um mês que estive longe. Um crescimento súbito durante o verão acentuou seu tipo já longilíneo — característico da família -, os cabelos negros compridos escondiam o brilhante falso que usa na orelha, e os olhos castanhos de mesma cor que Willa, endureceram. Alguma coisa no seu jeito também mudou. A criança ainda estava lá, mas enterrada sob uma dureza inédita: a mudança nos olhos, o queixo desafiador, a risada agressiva e sem humor, tudo isso lhe conferia um ar estranho, hostil. Mesmo assim, durante breves momentos espontâneos como esse, quando ele está apenas se divertindo, a máscara escorrega um pouco, e posso ver meu irmão de novo.
— Theo vai fazer o jantar hoje? — Pergunto.
— É óbvio, já que você não chegou.
— Tinha uma papelada para entregar na secretaria e justificar com os professores o motivo dos dias que faltai. Só isso.
— Jantar… — A mão de Willa corre à boca, alarmada. — Theo já chamou a gente e disse que não ia chamar de novo.
— Ele está blefando… — Ammon tenta interceptar Willa, mas ela já disparou pelo corredor em direção à cozinha, sempre ansiosa para agradar. Bocejo e Ammon começa a atirar sucrilhos na minha testa.
— Ei, não faz isso. É só o que vocês tem para o café da manhã. E duvido que você vá comer esses do chão. — Levanto do sofá, apontando para o chão. — Vamos lá. Vamos ver o que Theo fez para o jantar.
— Aquela porcaria de espaguete de novo. Quando é que ele faz outra coisa? — Ammon atira a caixa de sucrilhos aberta na poltrona, entornando metade do conteúdo nas almofadas, seu bom humor evaporando em um minuto.
— De repente você poderia aprender a cozinhar. Ai nós três poderíamos nos revezar. O que você acha? — Ammon me lança um olhar de desprezo e anda para a cozinha, num andar arrogante. Fico para trás para pegar a caixa de sucrilhos, tentando salvar o máximo possível, e catar os que entornaram sobre o sofá. Fecho a caixa, cato as almofadas do chão e vou para a cozinha.
— Não, Mouse. Eu já pedi para você tirar essa bola da cozinha. — Theo está segurando uma panela fumegante com uma das mãos e tentando imobilizar Mouse pela porta com a outra.
— Goool! — Berra Mouse, chutando a bola que ganhara de mim, para baixo da mesa. Eu a apanho, jogo-a no corredor e seguro Mouse quando ele tenta passar por mim. Aperto sua bochecha num beijo caloroso.
— Socorro, socorro, ela está me estrangulando!
Rio e vou manobrando-o até a cadeira.
— Pronto, agora fica ai. O Theo já vai servir.
Ao ver a comida ele obedece, pega o garfo e a faca e improvisa um rufar de tambor na mesa. Willa começa a rir e pega seus talheres para imitá-lo.
— Não senhora… — digo a ela em tom de advertência delicado.
Seu sorriso se desfaz, e por um momento ela parece humilhada. Sinto uma pontada de culpa. Willa é meiga e dócil, enquanto Mouse está sempre estourando de energia e louco para aprontar. Ando apressada de um lado para o outro da cozinha, distribuindo os pratos, sirvo água e guardando os ingredientes, ainda daquela manhã, nos seus respectivos lugares.
— Ok...Pronto Theo. Manda a ver. — Quatro pratos e uma tigela azul com desenho de nuvem estão postas sobre a bancada, ao lado do fogão. Theo serve cada uma e eu as coloco em frente aos seus respectivos donos. Macarrão com queijo derretido, macarrão com queijo derretido e molho de tomate, macarrão com molho de tomate mas sem queijo derretido, com brócolis — que Ammon e Mouse se recusaram a comer — escondido com jeito dos lados.
— Oi. — Encosto no seu ombro quando ele retorna para o fogão, e sorrio. — Você está bem?
— Estou em casa há duas horas e eles já pintaram o diabo. — Ele me dá um sorriso torto e no mesmo segundo arregala os olhos, quando se dá conta do que falou e para quem disse. Vou a igreja e rezo todo domingo mas não sou fanática nem nada do tipo. — Ops...Desculpa, eu…
Sorrio para tranquilizá-lo e aperto a lateral do seu corpo, para mostrar que não me importo, o que funciona.
— Você lembrou de comprar leite?
Ele faz que sim.
— Lembrei, mas a gente precisa fazer uma compra maior.
— Eu vou ao mercado amanhã depois da aula. — Digo. Theo vira o corpo a tempo de interceptar Mouse, que já saltava para a porta. — Ei, mocinho!
— Eu já acabei, eu já acabei! Não estou mais com fome!
— Mouse, senta e termina de comer direito.
— Mas os pais do Ben e do Jaime só vão deixar eles jogarem hoje! — protesta Mouse aos gritos, o rosto escarlate debaixo dos cachos louro quase branco.
— Mouse, você não vai mais sair para jogar agora à noite. — Theo está começando a levantar a voz. Me sento na mesa e começo a comer.
Mouse se atira na cadeira, furioso, braços cruzados, joelhos no peito.
— Isso não é justo. Eu te odeio!
Theo tem o bom senso de ignorar a manha de Mouse e, em vez disso, se dirige a Willa, que desistiu de tentar usar o garfo e está comendo com os dedos, a cabeça inclinada para trás, chupando cada fio pela ponta.
— Olha aqui. — Theo mostra a ela. — Você enrola assim…
— Mas ele fica caindo do garfo.
— É só pegar um pouquinho de cada vez.
— Eu não consigo — choraminga ela. — Theo, corta para mim?
— Willa, você tem que aprender…
— Mas com os dedos é mais fácil!
O lugar de Ammon continua vazio enquanto ele circula pela cozinha, abrindo e batendo portas de armários. Isso me irrita.
— Ammon, deixa eu te poupar tempo: a única comida que sobrou é a que está em cima da mesa. — informo, pegando o seu garfo. — E eu tenho certeza de que Theo não colocou arsênico nela, então é improvável que ela vá te matar. Logo, você pode comer.
Ammon sempre faz pouco caso da comida de Theo, que além de ser deliciosa ele sempre tem o cuidado de agradar o paladar de todos. Ammon sempre fez questão de menosprezar tudo que Theo faz para nós e para ele.
— Que ótimo. Então agora estou mais tranquilo por saber que todos vão sobreviver. Nunca se sabe quando Theo vai decidir me matar não é mesmo?
Engolindo a comida, Theo consegue atrair o meu olhar e faz um aceno de cabeça quase imperceptível. Ammon está se preparando para uma briga, e Theo parece cansado e tenso, ele não quer brigar. Mas eu quero. Sempre fui a mais nervosa entre nós dois. Estou caminhando cegamente para uma colisão e apesar de ter conhecimento disso, continuo indo reto. Ammon bate a porta do último armário com tanta força que todos se assustam.
Theo fecha os olhos e eu inspiro alto.
A coisa toda não terminou boa.
Ammon mais uma vez ficou violento e partiu para cima de Ange. Minha irmã gêmea, magra e delicada. No momento em que a vi gritar de medo, e seu rosto se contorcer naquela expressão de pavor, não pensei duas vezes. Eu nunca penso muito quando se refere a Ange. Primeiro porque ela é minha irmã gêmea que fora afastada de mim por tantos anos — até, finalmente, retornar — e depois por eu saber que ela nunca estaria totalmente curada do papai. Ange ainda sofre de traumas causados na infância, por conta do que Graydon fez a ela.
Mas apesar de Ange ter se tornado uma mulher meio briguenta, bastava alguém do sexo masculino ir para cima dela, ou tentar entrar no seu espaço que ela logo se retraia e tinha um ataque de pânico. Passamos por vários, até eu entender o motivo e saber o que precisava fazer para protegê-la: impedir que qualquer homem a tocasse. E isso incluía Ammon. Ela nunca precisou me dizer nada disso, mas nos conhecemos demais.
E Ange nunca pensou muito quando brigava com Ammon. Ou seja, se esquecia do lado violento que ele herdara do nosso pai. E quando ele partiu para cima dela, ela levou um susto e seu ataque de pânico começou.
Levantei da cadeira no mesmo minuto. O problema é que em momentos assim eu também meio que saia de mim, e não sei o que faço. Se antes eu estava salvando Ange, agora era ela quem me salvava. Foi preciso de muitos gritos dela para eu me dar conta do que acontecia. O som vou retornando aos poucos, junto com a visão, e a dor. Tirei minhas mãos do colarinho de Ammon, que caiu pesadamente no chão, meio que sem acreditar que o enforcava. Ange me abraçou por trás.
— Babaca. — Foi tudo o que disse, e se levantou do chão, partindo para o quarto.
Mouse está em silêncio, mastigando devagar, os olhos ressabidos. Willa observa Ange e a mim, dando puxões nervosos na orelha, o jantar esquecido. Ange olha para a porta pela qual Ammon acabou de sair. Ela me solta e vejo que está respirando alto e descompassado, seu peito subindo e descendo de modo acelerado. Coloca uma mão na cabeça e solta um longo suspiro para se acalmar antes de se virar para Mouse e Willa.
— Vamos terminar o jantar, sim? — Sua voz treme de falsa animação.
Mouse a fita com um olhar de dúvida mas, graças a Deus, não comenta nada e recomeça a jantar. Willa não diz nada, chupando os dedos um por um com toda a seriedade, seus olhos irradiando um ressentimento silencioso.
Concordo com a cabeça e passo uma mão pelo cabelo. Inspiro fundo e me sento. Ange não volta a sentar. Parece perdida, mordendo o canto do lábio, seu rosto contraído. Eu me recosto na cadeira e chamo seu nome. Ela se vira mas não olha nos meus olhos.
— Você se importa de terminar isso? — Pergunta.
— Claro que não.
— Obrigado. — Ela me dá um sorriso que sei ser forçado, para me tranquilizar, e sai da cozinha. Momentos depois, ouço a porta do banheiro bater.
Eu sei porque ela ficou assim. Inspiro e apresso os pequenos para terminarem de comer. Guardo o prato quase intacto de Ange na geladeira, lavo a louça, dou banho em Willa e, ignorando os protestos de Mouse, obrigo-o a entrar no chuveiro. Decido que dormir mais cedo não lhes faria mal algum, e então me faço de surdo para os protestos furiosos de Mouse. Dando um beijo nos dois quando já estão deitados no beliche. Ange não está no quarto que divide com eles, então a procura por todos os outros cômodos da casa. A música de Ammon está reduzida a um baixo e monótono som quando passo pela porta do porão.
Ótimo, a casa está finalmente quieta.
Depois de passar o aspirador de pó na sala subo para o meu quarto e ao abrir a porta tenho uma surpresa. Ange se encontra dormindo, sentada, na minha escrivaninha. Há um livro escolar pesado, aberto, e folhas sob o carpete cobertas de cálculos que eu tentava resolver. Seu longo cabelo ruivo, espalhado sobre tudo. Pego o cobertor da minha cama e a cubro. Ela já tomou banho e está de camiseta, calça e chinelos.
Então, sento na cama e encosto as costas na parede, apoiando os braços nos joelhos dobrados, vendo-a dormir sob a suave luminosidade laranja do único abajur do meu quarto. Sinto uma movimentação no estômago e logo um dejavú invade minha cabeça. Lembranças de quando eu e Ange dormíamos juntos na mesma cama, dividindo um quarto.
Faz tempo. Sempre foi assim, até Ange sair da minha vida. E quando ela retornou durou menos do que eu gostaria — só até nos mudarmos para essa casa paga pelo governo e eu passar a dividir o quarto com Ammon. O que também só durou até ano passado, quando Ammon ficou se lamuriando e eu ajudei Ange a tirar do sotão nunca usado todo o entulho que os donos anteriores deixaram. Embora o espaço seja tão pequeno que mal dê para ficar em pé, é a toca de Ammon, o canto dele, onde passa a maior parte do tempo quando está em casa, as paredes inclinadas, pintadas de vinho, cheias de fotos de gangues, as tábuas secas e rachadas cobertas por um tapete persa que Ange desencavou em algum bazar de caridade. Isolado do resto da casa por aquela escadinha inclinada que Mouse e Willa já foram expressamente proibidos de subir, é o esconderijo perfeito para alguém como Ammon.
Quando olho para o passado, com meus dezessete anos e meio, Ange sempre esteve nele. Indo para a escola ao meu lado, me empurrando num carrinho de supermercado a toda velocidade por um estacionamento vazio, me defendendo de uma rebelião que provoquei quando joguei fora o doce da queridinha da turma. Me defendendo do papai. Ainda me lembro dela parada lá, com os punhos apertados, uma expressão atipicamente feroz. Talvez se eu tivesse reparado mais nela, já encontraria traços da mulher forte em que ela se tornaria. Porque mesmo distantes ela sempre esteve presente, me incentivando a seguir em frente, a conseguir e lutar pelas coisas. Nunca teria me esforçado com tanto afinco para entrar na escola, por exemplo, se não soubesse que minha gêmea também entraria. E de repente me dou conta de que, enquanto eu tivesse Ange, nada e ninguém jamais poderia me fazer mal ou a qualquer dos pequenos. Mas eu tinha doze anos na época. Amadureci muito desde aqueles dias. Agora sei que Ange nem sempre vai estar aqui, que não poderei protegê-la eternamente. Nunca antes imaginei minha vida sem ela; como essa casa, ela é o meu único ponto de referência em meio a uma existência difícil, em meio a um mundo instável e assustador. A ideia de ela ir embora de novo me faz sentir um terror tão extremo que chego a ficar sem fôlego.
Dormindo, Ange parece uma menina novamente — unhas compridas esquecidas de serem cortadas, cabelo nunca escovado, camiseta amarrotada, calça cinza puída e pés com chinelos trocados. Apesar de sermoss gêmeos ela custou a entrar na puberdade, por um tempo sendo bem mais baixa do que eu, o que me levou a ficar implicando com ela sem dó nem piedade, chamando-a de “minha pequena”, num tempo em que ainda achava graça nesse tipo de coisa. Ela resistiu bem, como sempre com tudo.
Mas nos últimos tempos as coisas começaram a mudar — principalmente quando Dona Eva faleceu. Seu rosto é tão bem moldado que sinto aliviar consideravelmente o mau estado dessa casa. Seus cabelos ruivos, caramelo e meio róseo, batem na cintura, longos e lisos como os de Willa. Minúsculas sardas pontilham seus ombros e colos, acentuando a palidez natural da pele — nem tanta agora. E por conta disso está com a bochechas e a ponta do nariz constantemente rosadas. Mesmo quando está séria, seus olhos com aquela coloração dourada sempre têm um brilho que sugere que ela está prestes a sorrir. Uma beleza que arde brilhante, extraordinária. Sempre foi diferente de tudo que vi na vida. Durante o último ano ela passou de bonita a linda, uma beleza incomum, presente, frágil e perturbadora. Os caras dão em cima dela o tempo todo, é um horror.
As pessoas dizem que ela lembra mamãe. Eu não sei dizer. As vezes o barulho de uma das risada da Ange me faz lembrar dela. O brilho de entusiasmo dos olhos de Willa também. O contorno dos cachos do Mouse e até o franzir de sobrancelhas do Ammon. Seu sempre vou sentir saudades da minha mãe.
Procuro o calendário gasto e amarelado pendurado atrás da minha porta e conto os dias. Falta pouco. Todo ano eu e Ange vamos ao túmulo da mamãe levar flores, e a data se aproxima.
O motor de um carro dá um estouro na rua, me arrancando dos meus pensamentos. Ange solta um gemido e se levanta às pressas, desorientada.
— Você pegou no sono. — Explico a ela. — Acho que a gente podia comercializar as fórmulas de trigonometria como um novo tratamento contra a insônia.
— Que horas são? — Ela parece perdida por um momento, olhando em volta e piscando para mim, como se não soubesse como havia chegado ali e nem onde estava. Esfrega o rosto.
— Nove e pouco.
— E quando às… — Ange entra em pânico, passando os dedos pelos cabelos, ajeitando a sandália nos pés e ficando de pé.
— Mouse e Willa já estão dormindo e Ammon...bom, está sendo o Ammon de sempre
— Ah. — Ela relaxa um pouco, esfregando os olhos com as laterais das mãos e piscando com ar de sono, olhos rondando meu quarto. Por um momento sinto uma pontada de vergonha, e fico tenso esperando por qualquer coisa, qualquer comentário.
Ange torna a sentar na cadeira e eu jogo meu corpo para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, soltando um bocejo.
— Você deveria dormir. Está cansado.
Não é uma pergunta. Ela não tem dúvida, ela tem certeza. Porque ela me conhece e sabe quando meus olhos ficam vermelhos por sono, alergia ou por motivo nenhum. Quando meu bocejo é de cansaço ou preguiça e das épocas em que linhas aparecem embaixo dos meus olhos — na época de provas. Ela sabe disso tudo porque eu também a conheço como a mim mesmo.
— Não, eu estou bem. De todo modo, tenho que terminar de repassar tudo isso antes da prova de amanhã. — Me levanto, esticando os braços e começo a catas as folhas do chão.
— O quê? Você devia ter me dito que tinha uma prova. Eu teria dado um jeito de chegar mais cedo para fazer o jantar e… — Ela dispara a dizer, e a me seguir.
— Ei, está udo bem. Sem problemas. — Respondo para tranquilizá-la. Pelo olhar sei que não ficou satisfeita por eu ter feito tudo e deixado-a ‘descansar’. No fim é trabalhoso para nós dois, mas Ange sempre se esforçou em fazer o máximo de tudo, diz que é a forma que encontrou de recompensar os anos em que tive que me virar sozinho. Lhe mostro um sorriso.
Seu rosto suaviza e ela olha para as folhas que seguro.
Uma ideia vem ai.
— Talvez de agora em diante seja melhor a gente deixar o jantar do Ammon numa bandeja diante da escada. Como um serviço de quarto. E aí quem sabe a gente pode ter um pouco de sossego.
Um sorriso muito tênue se esboça em seus lábios, mas então ela vira a cabeça, olhando para a vidraça nua, e ficamos em silêncio.
Respiro fundo. Ange nunca soube lidar com Ammon.
— Ele se comportou muito mal, Theo. Mais uma vez. E eu não sei...
Vejo que ela fechou as mãos em punhos e franziu as sobrancelhas. Sei o que vai dizer, e não precisa repetir.
— Eu sei. — Respondo sem esperar que conclua e Ange levanta o olhar para mim. Somos quase da mesma altura agora, com poucos centímetros de diferença. Seus olhos estão enormes e brilhantes, como duas estrelas. Como duas estrelas com brilho próprio, dizia mamãe. Há um fio de cabelo presso no seu lábio e levanto uma das mãos para tirá-lo, no mesmo momento em que Ange levanta uma das mãos e para a meio caminho.
Ela parece paralisada. Quase posso ver sua mandíbula se retesar. Ela se tornou uma estátua.
Solto minhas folhas que fazem barulho ao cair no chão, acordando-a. Ange pisca e dá um passo para trás, olhando para o chão.
— Bom, então deixa eu te ajudar com a matéria pelo menos.
— Não. Está tudo bem, não precisa…
— Theo. Por favor. — Ela me corta, pedindo de modo firme.
Ange precisa disso para tirar a suposta culpa que sente no peito. E eu cedo. Sentamos na minha cama e dividimos algumas folhas limpas onde Ange resolve mais e mais exercícios com uma facilidade que nunca alcançarei.
Depois de um tempo ela está com as feições do rosto mais suaves e de repente sorri, covinhas se formando nos cantos da boca, afastando o cabelo do rosto.
É impossível não sorrir de volta.
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