Entre Mundos
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
A tarde caía em tons de laranja e rosa, como fogo no horizonte. Enquanto contemplava aquele espetáculo de cores, com o mar tranquilo numa calmaria incomum, sentia o coração apertado. Por mais que pensasse em tudo o que havia vivido, sentia que tudo poderia ter sido diferente… Uma voz, então, a tirou de seu estado hipnótico.
— Margha! — Ela se virou em direção ao som que interrompeu sua contemplação.
Quem a chamava era seu mais fiel amigo. Porthos a olhava com um brilho nos olhos castanhos e uma alegria contagiante. Era um homem velho, corpulento e alto, mas ainda muito vigoroso. Fora um grande espadachim em seus tempos áureos e agora era professor dessa arte. Sempre estivera ao lado dela, como um protetor. Chamou-a novamente.
— Margha, por que estás aí sozinha? Vamos lá para dentro aproveitar a festa e comemorar o teu aniversário!
Ela deu um sorriso fraco para esconder suas preocupações e seus temores, mas sabia que não conseguiria ocultá-los dele. Também não conseguia afastar aquele sentimento que lhe tomava a alma… Retribuiu-lhe o olhar terno e respondeu:
— Sim, vamos entrar.
Os dois caminharam lado a lado em direção à casa, cheia de animação e de pessoas eufóricas, envolvidas na agitação própria de uma comemoração.
Ela olhou ao redor e percebeu que seu filho não estava mais na festa. David era um rapaz vivaz, de olhos azuis como um mar límpido e cabelos negros. Alto, com porte de guerreiro e beleza incomum, tinha uma docilidade encantadora no trato com as pessoas. Margha sentia imenso orgulho de seu rebento, mas sabia que uma fera habitava o interior do filho, ainda adormecida. Faria de tudo para mantê-la assim e preservar seu bebê de todos os males que o despertar daquele monstro poderia acarretar. Precisava estar sempre atenta a qualquer mudança.
Então, viu um rapaz de sorriso gentil vindo em sua direção. Era seu amado filho, que trazia uma caixa embrulhada nas mãos. Ele se inclinou para ficar mais próximo dela e disse:
— Mãe! — O rapaz estendeu o embrulho para ela e beijou-lhe carinhosamente a face. — Isto é para a senhora, a mãe mais bonita do mundo!
E Margha, sem dúvida, era. Embora fosse mãe de três filhos, tinha uma beleza divina. Seus cabelos negros, como os do filho, eram ondulados e caíam em cascata até os ombros. Seus olhos castanho-amarelados eram muito diferentes; não era muito alta, mas tinha um corpo esguio e bonito. Seus gestos eram delicados, e sua voz doce encantava qualquer um. Havia nela um encanto que enfeitiçava todos à sua volta. Naquele momento, todos olharam para os dois, admirando a ligação única entre mãe e filho. Era algo profundo e comovente; realmente, eles eram incomuns.
A vida deles estava prestes a
mudar.
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