Entre Mundos

12 CAP 12 A magia do amor está no ar


A vila estava calma, como sempre. Os moradores caminhavam tranquilamente, rumo aos seus afazeres. Na praça, alguns idosos, sentados ao redor de algumas mesas, brincavam com jogos de tabuleiro. O tilintar das peças se chocando no tampo das mesas formava uma música ritmada que enchia de vida aquele lugar.

A vida não poderia transcorrer mais suavemente. Então, uma jovem de beleza e delicadeza caminhava devagarinho pelo jardim em direção à pousada de Dona Laura. Junto a ela caminhavam, lado a lado, um jovem muito parecido com a moça e um homem que parecia ser o segurança, sempre em prontidão para qualquer coisa que pudesse ocorrer.

Como se fosse uma quebra na monotonia dos moradores, as pessoas observavam aquela caminhada magicamente envolvente. O silêncio tomou conta do ambiente. Ela sentia os olhares sobre si e engoliu em seco. Margha nunca tinha ido à vila, embora sempre tivesse muita vontade de conhecer as pessoas da localidade. Malcon, em contrapartida, estava totalmente eufórico ao ver as pessoas em seu dia a dia, e isso o deixava muito curioso. Porthos era o menos empolgado ao adentrar aquela comunidade; para ele, tudo ali parecia muito hostil e potencialmente perigoso.

A preocupação vinha das ameaças que a garota sofrera ao longo desses anos, e, ao que tudo indicava, ela nem se inquietava com isso. Alcançaram o local a que se propuseram ir. Ao entrarem no salão, onde pessoas comiam e conversavam tranquilamente, olharam tudo ao redor com alegria e curiosidade. A avó de Kelly reconheceu a menina de olhos de âmbar; teve a oportunidade de vê-la umas duas ou três vezes.

— Sejam bem-vindos! Vou servir algo refrescante para vocês. Hoje o dia está muito quente!

Porthos baixou um pouco a guarda ao sentir a bondade da senhora — e porque ela soube agradá-lo pelo estômago. Com isso, todos ali voltaram suas atenções ao grupo recém-chegado.

— Sentem-se, não se acanhem! — Laura tinha um sorriso sincero no rosto.

Todos aceitaram o convite. Os olhares dos presentes continuavam pousados sobre o trio, que conversava entre si discretamente.

Dona Laura, na tentativa de desviar a atenção dos moradores locais dos seus convidados, disse:

— Vamos, deixem de bobagem! Voltem a comer!

E assim todos voltaram suas atenções aos seus pratos, e o burburinho de conversas paralelas e o retinir de talheres nos pratos recomeçou. A senhora então adentrou a cozinha e chamou:

— Vamos, Kelly! Deixe de ler esse livro e vá levar um suco para seus amigos.

A garota tirou os olhos do livro, piscou algumas vezes, incrédula com o que acabara de ouvir. A mulher espanou migalhas invisíveis de seu avental e, impaciente com a lentidão da neta, repetiu:

— Está surda, menina? Não deixe seus amigos esperando.

— E Karl?

Dona Laura não entendeu aquela pergunta tão sem propósito.

— Deixe de bobagem e anda logo! Leve bebida geladinha e umas guloseimas para eles.

A menina pulou da poltrona em que estava e se apressou até a cozinha para arrumar as coisas para seus queridos companheiros de aventura. Mal podia acreditar que Margha estava ali para visitá-la.



A mesa estava repleta de coisas gostosas, o que deixou o espadachim muito satisfeito. O clima de fraternidade e cumplicidade era tangível a todos os que testemunhavam aquela cena tão agradável de se contemplar. A dona do local estava extremamente orgulhosa por receber pessoas tão importantes em seu estabelecimento. Os moradores do vilarejo ficaram admirados ao ver a garota que raramente saía de sua casa afastada.

Sua delicadeza era como a de um anjo, e seus movimentos pareciam uma poesia.

Enquanto isso, Malcon saboreava os alimentos com muita curiosidade. Os aromas preenchiam suas narinas, e ele soltava o ar com imensa satisfação.

— *Je te l'ai dit, mon garçon!*¹ A comida nesta ilha, c'est merveilleux² — dizia com a boca cheia, e as meninas riam daquela cena.

Nesse momento, um rapaz entrou no restaurante carregando seu equipamento fotográfico. Tudo que desejava era se livrar daquele peso nos ombros e, como se fosse um ritual, colocou tudo perto do balcão, onde Laura lia seu jornal e conversava com os clientes.

Cumprimentou a mulher, que acenou com a cabeça e sorriu amigavelmente. Ele seguiu para sua mesa, mas ao perceber que havia pessoas sentadas nela, estremeceu. Eram pessoas que conhecia. Mais do que isso: ali estava a garota que povoava seus sonhos e seus pensamentos ao longo de todos esses dias.

Os olhos de âmbar se ergueram delicadamente e se encontraram com os dele. Uma emoção intensa tomou conta dos dois corpos. O rubor deixou as bochechas de Margha quentes. Porthos notou a mudança na jovem e virou-se para ver o que havia chamado sua atenção. Viu o rapaz parado, hipnotizado, olhando para a garota.

Porthos bufou tão alto que tirou o rapaz de seus devaneios. Karl ficou desconcertado ao perceber que também estava sendo observado. Porthos o olhava com uma sobrancelha arqueada, enquanto Malcon conteve um sorriso ao achar graça daquele cuidado protetor. Pigarreou e disse:

— Venha, Karl, sente-se conosco! — Sua voz soava sincera e acolhedora.

A garota ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha para disfarçar a timidez. O rapaz aproximou-se e sentou-se à frente dela, pensando: Por que ela tem que ser tão linda?

— Bom dia a todos!

O grupo respondeu animadamente.

Porthos lembrou dos conselhos de Dona Mae: ser prudente e observar os movimentos do rapaz, mantendo sempre uma postura amistosa.

— Eu vou buscar mais coisas para nós — disse Kelly, levantando-se.

Margha segurou a mão da amiga, como se não quisesse que ela se afastasse. Kelly sorriu:

— Volto num instante.

— Eu vim mesmo é te ver, Kelly. Precisamos conversar, afinal ficamos muito tempo longe um do outro.

Nesse momento, Dona Laura aproximou-se com uma bandeja cheia de guloseimas.

— Querida, por que você não leva sua amiga para conhecer seu quarto e suas coisas?

Porthos não gostou muito da ideia de Margha se afastar, mas achou melhor ela sair dali do que ficar tão próxima do rapaz que lhe inspirava tantas suspeitas. Margha olhou para ele em busca de aprovação. Ele acenou com a cabeça, e as duas subiram animadas.

Karl olhou para os dois que ficaram à mesa e sentiu um nó na garganta. Tentando manter a calma, perguntou:

— Então… qual é o seu nome?

— Malcon Holt — sorriu ele ao responder.

— É parente de Margha? — lembrou-se do sobrenome.

— Eu sou…

— *Beaucoup de questions.*³ — Interrompeu Porthos, arqueando a sobrancelha.

— Desculpe, eu só quero conversar — sorriu ele, sem jeito.

— Então, Karl, qual é o seu sobrenome? De onde você é? — Porthos fez uma série de perguntas. Karl engoliu em seco, bebeu um gole de sua bebida, respirou fundo e respondeu:

— Sou Karl Ekdahl. Moro em Londres. Minha mãe é inglesa e meu pai é russo, mas eu não o conheci. — Uma sombra passou por seu semblante. Parecia desconfortável e completou: — Com licença, se não se importam, acho que vou me retirar. Não estou me sentindo muito bem.

Porthos coçou o queixo, desconfiado. Algo naquele rapaz o incomodava, mas ainda não tinha certeza do que era. Acenou com a cabeça, permitindo que ele se retirasse.

Karl recolheu seu equipamento e se afastou.

Malcon olhou para Porthos, confuso. Sempre tão brincalhão e acessível, ali estava tão sério e reservado.

— O que você tem contra Karl? — perguntou, curioso.

— *Jusqu'à présent, rien!*⁴ Mas é bom manter os olhos abertos — sorriu por um instante, e logo seu rosto voltou a seriedade. — Vamos, terminem de comer.

Malcon concordou e voltou a saborear as delícias à mesa.



Margha estava maravilhada no quarto da amiga. Tudo ali era tão acolhedor. Kelly mal cabia em si de empolgação. A convidada passava os dedos pelas fotografias e lembranças da amiga, sentindo toda a ternura que emanava daqueles objetos.

O quarto era belo, decorado com flores pequeninas e delicadas que davam a impressão de um bosque encantado. As janelas eram grandes e enchiam o ambiente de luz natural. Uma cama com colcha rosa-clara, uma escrivaninha com livros e um porta-retratos mostrando Kelly abraçada aos pais, todos sorrindo.

— Como você está? — perguntou Margha, olhando a fotografia.

— Sinto um vazio, mas preciso ser forte por mim e pela minha avó — suspirou Kelly.

— Você passou por tudo isso tão sozinha… amiga, sinto tanto — aproximou-se e a abraçou com ternura.

— Não sinta pena. Você não podia saber — sorriu Kelly. — E não estive sozinha. Graças a você…

— Graças a mim?

— Fiz um novo amigo. E quero retribuir tudo que você fez por mim.

Margha ouvia sem entender onde aquela conversa chegaria. Kelly sentou-se na cama e puxou a amiga para sentar ao seu lado.

— Você é minha melhor amiga. Sempre me apoiou e me mostrou coisas maravilhosas… — suspirou. — E acho que está na minha vez de te ajudar.

— Me ajudar? — sorriu Margha.

— Não me interrompa — brincou Kelly. — Estou fazendo um discurso! — Riram juntas. — Acho que você precisa se divertir mais. E acho que alguém gosta de você também.

— Kelly, pelo amor de Deus… não diga bobagens! — Margha desviou o olhar, mas suas bochechas denunciavam sua timidez.

— Não se acanhe! Gostar de alguém é algo muito bonito. E ele também sente o mesmo por você. — Olhou fundo nos olhos da amiga. — E eu vou ajudar vocês a ficarem a sós.

— Acho que não é uma boa ideia. Bô não ficaria contente se descobrisse.

— E se ela não souber? É só uma conversa entre amigos. Nada de mais!

— Porthos com certeza descobriria e não aprovaria. Ele me protegeria demais para deixar isso acontecer.

— Hum… ele é mesmo um obstáculo — sorriu Kelly, pensativa. — Mas tenho um plano!

— Que plano? — sorriu Margha, curiosa.

— Você dorme aqui comigo hoje à noite! Peço à minha avó que peça permissão à Dona Mae. E eu deixo um bilhete para Karl se encontrar com você na praia. Ninguém precisa saber!

Margha hesitou, mas a ideia de vê-lo novamente fazia seu coração bater mais forte. Algo a puxava naquela direção, mais forte que seu medo. Aceitou.

O plano funcionou: Dona Laura concordou, Dona Mae concordou, Malcon achou divertido. Apenas Porthos aceitou com muita relutância, mas Dona Mae o acalmou, dizendo que Margha precisava viver seus próprios momentos e aprender a tomar suas próprias decisões.

Kelly estava radiante. Escreveu o bilhete com cuidado e sorriu, imaginando o encontro.



Margha caminhava pela areia, olhando as ondas quebravam suavemente. O céu se tornava alaranjado e rosado com o entardecer. Sentiu uma mistura de nervosismo e alegria.

— O que eu estou fazendo? — sussurrou para si mesma. — Porthos iria me dar um sermão! Mas…

Sorriu para o mar. Talvez existisse uma magia especial entre eles. Uma conexão que ia além do que os olhos podiam ver. E esperou, com o coração batendo forte, pelo momento em que o veria chegar.



Notas:

¹ Je te l'ai dit, mon garçon! — Eu já te disse, meu rapaz!

² c'est merveilleux — é maravilhoso

³ Beaucoup de questions. — Muitas perguntas.

⁴ Jusqu'à présent, rien! — Até agora, nada!

Notas finais
Obrigada pelo apoio e carinho desculpem os errinhos que eventualmente passem NOTA: ¹ Eu te disse meu garoto. ² É maravilhosa ³ Muitas Perguntas. 4 Até agora nada!