Entre Mundos
9 CAP 08 – Lições Valiosas
Notas iniciais
Sentada à beira da cama, observava a janela larga que dava acesso a um mezanino e contemplava aquele local tão parecido com o seu, mas ao mesmo tempo tão diferente. Levantou-se suavemente e foi até a varanda; o ambiente era realmente muito agradável. Sentia um consolo em saber que não estava mais sozinha e que seu irmão, há tanto perdido, estava tão próximo dela.
A paisagem estava toda banhada pelo brilho prateado da lua cheia; as silhuetas das árvores cintilavam com os reflexos que o orvalho refratava do luar. Aspirou o ar fresco da noite, sentiu o cheiro adocicado dos pinheiros, encheu os pulmões de ar puro e o soltou lentamente pela boca. Fazia isso de olhos fechados, esvaziando a mente; aos poucos, sua mente foi se aquietando e se tornando leve.
Sua consciência viajou até a sua casa e viu tudo com clareza: Dona Mae e Kelly estavam na cozinha, sentadas à mesa, tomando chá. Conversavam sobre ela e sobre seu desaparecimento; sentia a preocupação das duas, que estavam muito tristes com aquela ausência. Ouviu sua babá consolar a amiga, dizendo que sua menina estava com Porthos e que ele a protegeria, e que ela possuía os dons da mãe para auxiliá-la no que fosse preciso. Em seguida, viu a amiga se despedir e caminhar pela praia em direção à sua casa na aldeia. Acompanhou seu trajeto até a pousada da avó de Kelly, quando a imagem de um rapaz conversando com ela a desequilibrou e despertou de seu transe. Abriu os olhos de imediato e pronunciou em voz alta:
— Karl?!
Assustou-se com uma batida na porta do quarto. Pensou que fosse seu amigo e sorriu ao abrir, mas surpreendeu-se com quem estava ali diante dela, que perguntou:
— Posso entrar?
A jovem, ainda aturdida, acenou com a cabeça e o jovem de olhos cor de mel entrou no aposento. Ela ainda estava imersa no que acabara de ver em sua viagem astral. Como seria possível que aquele rapaz estivesse em Solveig? E como contaria isso ao seu amigo espadachim? Nesse instante, o irmão perguntou com tom atento:
— Algo a preocupa? Posso ajudar?
A garota olhou para ele como se despertasse de um sonho lúcido — e era exatamente isso que havia acontecido. Olhou para ele demoradamente, tentando compreender o que se passava em seu coração; então, com um gesto de cautela, negou com a cabeça e disse:
— Não foi nada, pode ficar tranquilo. E se precisar de ajuda, pode ter certeza de que não hesitarei em pedir. — Sorriu com ternura, e ele retribuiu o sorriso. Caminhou até a beira da cama e, de costas para ela, continuou:
— Fico feliz em saber disso! — Respirou fundo e virou-se para a irmã, com os olhos marejados e a voz suave: — Estou aqui porque nutri a esperança de encontrar minha irmã por muitos anos. Este é um momento que esperei por toda a minha vida. Já imaginava tantas coisas que gostaria de te dizer… e agora você está aqui, diante de mim. — Uma lágrima rolou por sua bochecha; ele a enxugou com o dorso da mão e prosseguiu, emocionado: — Não sei bem o que dizer.
Ela sentiu a emoção do irmão como se fosse sua própria. Caminhou até ele, olhou-o com ternura e o abraçou. Ficaram assim, abraçados, em lágrimas; finalmente, a busca de ambos havia terminado. Já não estavam mais sós no mundo — estavam completos.
Então Margha começou a perguntar como havia sido a vida dele durante todos aqueles anos. Conversaram sobre os costumes daquele lugar e daquela época, rindo muito ao lembrar das travessuras que Malcon fazia e que deixavam Theophrastus de cabelos em pé — embora o velho bruxo sempre o tivesse acolhido e amado como a um filho.
Ele também queria saber tudo sobre a vida da irmã, num tempo tão diferente do seu. Ela falou com carinho de sua preceptora, que também a criou e amou como uma filha, e de como suas travessuras a deixavam às vezes atarefada. Ele ouvia tudo com grande interesse. Contou-lhe sobre a casa junto ao mar, sobre as tardes de verão em que caminhava pela praia colhendo conchinhas com sua amiga Kelly. Malcon ouvia com curiosidade; nunca havia convivido com pessoas de fora, apenas com Theo e, ocasionalmente, com outros bruxos.
Admirava que ela tivesse conhecido pessoas comuns e queria ouvir mais sobre aquelas experiências. Ela continuou falando de seu fiel amigo Porthos, de como o havia trazido à vida e de todas as aventuras que viveram juntos.
Também falou sobre os momentos mais difíceis, baixando o olhar ao lembrar dos ataques que sofrera e dos perigos que enfrentara; sentia alívio ao saber que Porthos sempre estivera ao seu lado para protegê-la. De repente, a imagem de Karl sorrindo-lhe veio à mente; virou o rosto para que o irmão não notasse seu rubor e, em seguida, disse com entusiasmo:
— Você precisa conhecer Solveig! É uma ilha linda, tenho certeza de que vai adorar. — Sorriu animadamente.
— E vou conhecer Kelly também? — Perguntou ele, com um brilho nos olhos e um leve rubor.
— Claro que sim! Vou te apresentar a todos os meus amigos. — Riram juntos, e a conversa continuou animada até que a noite já ia alta e ambos adormeceram, tranquilos e felizes.
A manhã chegou com o sol aquecendo tudo ao redor. As árvores balançavam suavemente com o vento fresco da manhã e os pássaros cantavam do lado de fora da janela. O aroma de eucaliptos invadiu o quarto e Margha despertou de um salto. Olhou ao redor — seu irmão já não estava ali. Espreguiçou-se, esticando o corpo todo, e levantou-se para se arrumar. Sorriu ao ver os vestuários que ali estavam: lindos vestidos longos, de mangas compridas e tecidos que caíam com elegância.
Escolheu um de cor verde-prússia, em camurça. Trançou os cabelos negros num penteado que a fazia sentir-se muito bela, guardou suas próprias roupas dobradas com cuidado na prateleira e terminou de se arrumar. Alguém bateu à porta.
— Pode entrar, mon ami.
Porthos entrou com um sorriso largo no rosto. Notou que suas roupas eram diferentes agora, mais parecidas com as daquela época, e que ela parecia radiante. Estava feliz — havia reencontrado o irmão, e isso a completava.
Malcon entrou logo depois, trazendo algo nas mãos que chamou a atenção do espadachim, que observava com certa cautela. O jovem, que também possuía dons de ver além das aparências, adiantou-se e entregou o objeto à irmã. Margha olhou com curiosidade e ele disse:
— Quero que fique comigo… quero que fique com você. É meu diário, desde que eu era pequeno. Nele estão escritas minhas memórias e tudo o que senti ao longo dos anos. — Sorriu com ternura.
Ela abriu o livro com cuidado, mas de repente, olhou para ele com os olhos úmidos. Ele notou e perguntou preocupado:
— O que foi? Por que está triste?
— Não é nada. — Virou-se de costas para esconder as lágrimas.
Ele aproximou-se e pousou as mãos sobre os ombros dela:
— Fiz algo de errado?
— De forma alguma, Malcon. Pelo contrário, isso é muito especial. — Virou-se e o abraçou.
— O que significa ‘especial’? — Perguntou ele, curioso.
Ela sorriu, lembrando que ele crescera num tempo bem diferente do seu, assim como acontecera com Porthos, e explicou:
— Quer dizer que você é muito gentil e isso me emocionou. Só não tenho nada para te dar em troca desta lembrança tão bonita.
Nesse momento, Theophrastus apareceu à porta e sorriu ao vê-los tão próximos. Tinha orgulho de como os dois aprendiam a usar sua magia juntos. Pigarreou e disse com voz amável:
— Bom dia a todos! Que tal irmos à sala de jantar tomar o desjejum?
— Ah! Mon Dieu, enfin! — Exclamou Porthos, e todos riram, caminhando juntos para o café da manhã.
Mais tarde, na biblioteca, estavam reunidos ouvindo atentamente as explicações do Mago. Ele contava detalhadamente a história da família dos irmãos e sobre o legado mágico que carregavam. O livro deixado por sua mãe preenchia as lacunas: o amor que ela sentira por Sören, a forma como ele a havia conquistado com palavras doces, e como a ambição pelo poder havia sufocado qualquer sentimento que ele pudesse ter tido um dia. A gravidez fora difícil e perigosa; a qualquer momento ele poderia encontrá-la. Por isso, Hécate escolhera Solveig, no ano de 1977 d.C., como seu refúgio seguro.
Escolhera aquele período porque conhecia bem o coração de Sören; sabia que ele desprezava aquela época e os seres humanos. Era o lugar perfeito para se esconder entre as pessoas comuns. E ali, finalmente, ela conseguiu algum alívio e a esperança de proteger os filhos.
Margha, muito atenta, perguntou como deveriam usar as Pedras Sjarmere caso precisassem se defender. Malcon acenou com a cabeça — também queria saber. Theophrastus olhou para eles com calma:
— As pedras já funcionam em perfeita sintonia. O que precisam aprender é a unir suas vontades. Pois lembrem-se: o verdadeiro poder…
— …está na união dos corações! — Completaram os dois em uníssono. O ancião sorriu e acenou com aprovação.
Os dias passaram e se tornaram meses. Margha e Porthos sentiam-se parte daquela família. Por vezes, quase se esquecia de Kelly, da ilha e de tudo o que havia deixado para trás. Dona Mae, porém, sabia onde ela estava e guardava aquele segredo para protegê-los. Embora desejasse muito conhecer Malcon, sabia que o momento certo ainda não havia chegado — a segurança dos gêmeos vinha sempre em primeiro lugar.
A brisa do mar soprava morna e salgada. Kelly fitava o horizonte com lágrimas nos olhos. O telegrama em suas mãos pesava como chumbo. O fim do verão trouxera consigo um inverno em seu coração. Mal conseguia acreditar no que lia. Nesse instante, uma voz suave a chamou:
— Saiu correndo assim que recebeu a notícia… o que aconteceu? Sua avó está preocupada. São notícias ruins?
Kelly virou-se e abraçou-o, chorando com mais força. Nos últimos dias, haviam se tornado grandes amigos. Ele afastou-se um pouco, enxugou-lhe as lágrimas e esperou que ela falasse. Ela soluçou:
— Todos que eu amo parecem se afastar de mim… — Ele não entendeu de imediato. — Meus pais… sofreram um acidente de avião. Não tenho mais ninguém, a não ser minha avó. — E voltou a chorar.
Ele puxou-a para perto, abraçou-a com carinho e sussurrou:
— Você não está sozinha. Tem a sua avó… e tem a minha amizade. Sempre.
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