Desde sempre minha casa é essa zona, mas ultimamente a coisa anda até controlada. Quando eu e minha irmã éramos crianças, minha mãe diz, era impossível ter paz em seu precioso lar.

Alicia e eu, Sam, somos gêmeas. Idênticas por fora, mas por dentro a única coisa em comum é a rebeldia. Enquanto mamãe conseguia nos controlar usávamos as roupas iguais, os mesmos sapatos, até os penteados eram mesmos. Só que agora, dez anos depois, eu assumi minha própria identidade, enquanto Alicia usa suas roupas rosa e faz balé eu prefiro curtir com minha banda por ai e jamais usaria rosa, um preto básico está ótimo.

No entanto, apesar de todas as diferenças eu e Alicia éramos parceiras de guerra, como dizíamos. Sempre brigávamos e ainda brigamos, mas nos amamos e essas brigas não duram muito. Quando aprontava alguma coisa Alicia sempre contava com minha ajuda pra acoberta-la e vice versa. Mãe sempre dizia “Como consegui gerar dois seres tão terríveis assim ao mesmo tempo. Não podia acertar pelo menos em uma?!”. Mas nós sabíamos que ela nos amava mais que tudo.

Papai morreu quando tínhamos dez anos. A reação de Alicia foi fechar-se em seu próprio mundinho e não se apegar a ninguém pra nunca mais sofrer a perda de uma pessoa como sofreu com papai. Isso foi o que a psicóloga disse. A minha... Acho que foi o contrario. Gostava de conhecer pessoas e fazer novos amigos, penso que talvez seja para suprir a falta que meu pai me faz.

Mamãe sofreu muito a perda do marido, mas como a mulher forte que sempre foi tratou logo de nos dar muito carinho e tentar preencher todos os vazios que papai deixou. Ela tem feito um ótimo trabalho.

Mas voltemos a nossa discussão inicial. Minha casa é uma zona!

Alicia simplesmente passa uma hora inteira no banheiro se embelezando e por mais que eu grite e chute a porta, ela não sai. Mamãe parece acordar falando no celular, tudo bem que ela é uma grande empresária, mas falar com Judie, sua secretária durante o café da manhã já é exagero.

Depois que Alicia finalmente sai do banheiro e eu posso usá-lo, tem de ser muito rápido. E ainda tenho que aguentar ela reclamando que não tem roupa nenhuma, sendo que tem um closet trasbordando delas.

Finalmente quando vamos tomar o café da manhã, temos que ouvir mamãe lutando com a torradeira e fazendo, aos gritos, a única coisa que sabe cozinhar: ovos mexidos. Então o noivo da mamãe, Jerry, chega.

Jerry é um cara legal. Ele é dono de um grande restaurante da cidade e isso é o que eu mais adoro nele. Sempre que está em casa temos algo descente para comer e não a gororoba que mamãe faz.

Então essa é minha vida e hoje, infelizmente, nada estava diferente. Pra variar eu estava atrasada e a culpa era da Alicia.

Estava apenas de jeans e sutiã procurando uma camisa quando minha digníssima irmã entra em meu quarto usando uma blusa vermelha muito escandalosa e calcinha.

- Sim, você pode entrar. – eu disse sem nem olha-la.

- Preciso daquela sua calça clara – respondeu sem ligar para o que eu disse.

- Não! Usa as suas roupas.

- Nenhuma está combinando, quero sua calça agora!

- Não.

Alicia foi até minha estante e pegou algo quando se virou tinha um sorrisinho diabólico na cara.

- Ou me dá a calça ou quebro isso. – ameaçou segurando minha mini guitarra de vidro que papai me dera quando fiz oito anos.

- Me devolve isso! – respondi com raiva, pegando um sapato.

- A calça... – pediu estendendo a mão.

- Devolve!

Alicia saiu correndo porta a fora com minha miniatura e eu fui atrás dela, ainda com o sapato na mão.

- Vou arrancar sua cabeça fora! – gritei seguindo-a escada abaixo.

- Me dá a calça!

Já estávamos atravessando a sala quando tentei acerta-la com o sapato, no mesmo instante Alicia abaixou-se e atrás dela apareceu Jerry, que levou uma sapatada no peito.

- Merda. – dissemos parando uma ao lado da outra.

Jerry olhou para o sapato no chão e depois para nós duas.

- Acho melhor subirem garotas. A mãe de vocês não vai gostar nada da sessão de nudismo. – disse rindo de nós duas.

Finalmente nos olhamos, Alicia gritou ao se ver vestida daquele jeito na frente de Jerry.

- A calça está na primeira porta á direita. – disse eu para Alicia.

Ela me entregou a miniatura e já estávamos no meio da escada quando Jerry me chamou.

- Sam, acho que isso é seu. – jogou o sapato para mim.

- Vale Jerry... – peguei o sapato e subi correndo para o quarto com Alicia.

Terminamos de nos trocar. Coloquei uma blusinha branca e uma camisa vinho por cima; nos pés meus inseparáveis all star branco.

Estava descendo a escada quando Alicia apareceu com minha calça e um sapato vermelho de salto alto.

Encontramos mamãe na sala de estar ao telefone. Quando terminamos o café da manhã, mamãe esperava no carro para nos levar a escola. Estávamos de castigo, isso queria dizer sem carro. Ela simplesmente raptou nossas chaves só porque interditamos o banheiro da escola com bombinhas de gás.

Estávamos quase chegando à escola quando Alicia resolveu me encher o saco.

- Quando é que vai começar a pentear essa coisa? – perguntou, puxando meu cabelo.

- No mesmo dia que você começar a cuidar da sua vida, Barbie.

- Está me chamando de enxerida? – como dei risada de sua cara, ela jogou a bolsa na minha cabeça, então peguei a bolsa e ameacei jogar pela janela.

Alicia, escandalosa como era, começou a gritar.

- Chega! – gritou mamãe. – Devolva a bolsa Sam – joguei a bolsa no banco traseiro. – Agora vocês duas vão descer desse carro como duas irmãs civilizadas e sem dar um piu!

Sai do carro com minha mochila pendurada em um ombro só. Alicia parou do meu lado e nos despedimos de mamãe.

- Nada de bombas no banheiro, ok. – Mamãe disse com um olhar apreensivo.

- Relaxa mamãe, as bombas foram semana passada. – Respondi rindo da cara dela.

- É. E nós não gostamos de repetir. – Completou Alicia debochada.

Acenamos para ela e seguimos para dentro da escola. No caminho ainda ouvimos mamãe dizendo.

- Essas duas ainda são expulsas desse colégio.

Entramos na escola rindo. Alicia foi para o seu grupinho de Barbies e eu sai a procura dos meus amigos antes de começar as aulas.