Entre Memória Brancas
4 Capitulo 3 - Na Face Da Morte
Jean é um poeta nato! Disso ninguém pode duvidar.
Toda as palavras que saíram da boca de Larel continuavam batucando na cabeça do garoto.
Ele demorou a dormir, tinha sono leve.
“É normal em adolescentes” – ele pensava.
“Mas e se, talvez, a madrugada exista para pensar, e não dormir?”
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—Vamos, levantem! Temos uma longa viajem pela frente. – Jean definitivamente não gostou da experiência de ser acordado por um elfo mágico.
Abriu os olhos devagar, sua visão estava turva e embaçada, mas ele conseguiria reconhecer Grace até de olhos vendados.
—Bom dia, flor do dia – Ela riu – Levante-se, vamos desmontar o acampamento e partir. Temos uma longa história, pra uma longa viajem.
—Eu não vou. – todos miraram o olhar nele.
Ele estava receoso, a insônia da noite anterior o fez questionar sua estada ali. Pensou muito sobre sua antiga vida. Mesmo não recordando nada mais que imagens falhas, ele duvidara que seu final feliz se encontrasse na ilha.
—Como não? Vai ficar aqui? A mercê de animais selvagens? Com o risco de morrer de fome? –Exclamou Grace, indignada – Está louco?
—Eu louco? Olha oque está fazendo, qual prova você tem de que quando seguir ele estará segura? Você se lembra de alguma vez ter seguido um elfo por uma ilha desconhecida? Eu vou ficar aqui esperando ajuda e ponto!
As orelhas da garota ficaram quentes.
—Esse é o problema, Jean! Eu não me lembro de nada – seus olhos transbordaram lagrimas – essa é minha única chance.
—Chance?
—Minha chance de fazer a diferença e não apenas ficar aqui, e morrer na praia! — a garota adentrou na mata com as mãos no rosto molhado.
A pequena criatura se aproximou do garoto:
—Aventure-se, jogue tudo pro ar – Larel piscou – Confio em você. – Então seguiu atrás de Grace.
***
Jean ficou sentado na areia branca daquela praia calma observando o horizonte através do mar. Com areia entre os dedos, e a brisa nos cabelos.
Demorou a cair a ficha do que estava acontecendo, várias vezes ele tentou acordar de um sonho louco, e todas as tentativas não resultaram em nada. Ele pensava muito em como era sua vida antes dali, se ele era feliz, se havia alguém o procurando, se ele fazia alguma diferença.
Então uma onda subiu mais que a maré, molhando os calcanhares e a bermuda do garoto.
E ele notou que não precisa esperar um momento único para fazer a diferença, que a felicidade está nos momentos únicos acompanhado de boas pessoas.
Então ele ficou ali, observando a água e pensando em como o castanho dos olhos dela, são mais profundos que o azul do mar.
***
Jean levantou e recolheu suas bagunças, estava disposto a encontrar Grace e Larel. Agarrou sua adaga, algumas bananas, seu par de tênis e uma lança improvisada. Amarrou tudo na cintura com uma planta rasteira que estava nos arredores e seguiu caminho pela praia.
Andava com os pés arrastando, a cada passo dado, uma nuvem de areia era levada pelo vento.
Os raios de sol ardiam no pescoço pálido de Jean, devia ser horário de almoço, pois estava atordoado de fome. Sentou-se na areia branca, na sombra de uma arvore, com os olhos voltados para o mar.
Degustou cada mordida de suas duas ultimas bananas, o único alimento que teve desde que chegou.
Analisou seu trajeto, não tinha como ter tanta certeza da distancia percorrida, a paisagem é sempre igual:
Um oceano sem fim, mar calmo, uma praia deserta e o inicio da floresta.
Terminou a banana, enterrou-a num montinho de areia, posicionou-se em frente a uma arvore e pôs-se a urinar. O barulho do liquido batendo na madeira seca o fez pensar o quão silencioso estava, o barulho do mar, as folhas verdes batendo, e passos vindos do meio da mata.
Ele correu na direção do barulho, na esperança de ser Grace ou Larel, mas a cada metro que ele adentrava na mata o deixava mais confuso, o barulho vinha de todo lugar, a luz não passava na mata densa deixando o lugar cada vez mais sombrio. Jean corria eufórico atrás de risadas, a cada passo adentrava mais na mata e o barulho aumentava, já não era mais uma risada e sim varias, vindas de todo o lado, de todos os tons, de vários sotaques, penetravam e ardiam o ouvido do garoto. O pânico tomou conta do seu sistema nervoso e ele caiu no chão encolhido cobrindo os ouvidos com as mãos.
O barulho de passos voltou, cada vez mais alto, cada vez mais perto.
Jean não abria os olhos, mas sua espinha gelou e seu corpo arrepiou inteiro. A neblina tomou conta do lugar e o frio se dissipou. Sentiu tocar com firmeza uma ponta rígida no seu ombro nu, então abriu os olhos devagar e direcionou seu globo ocular para cima.
Em frente a ele havia um homem, seu corpo parecia magro por baixo das suas vestes negras, a superfície do seu rosto era pálida, e seus olhos tão negros quem Jean não conseguia ver o fim. Um capuz lhe cobria a cabeça e ele carregava um cajado bidente com o qual cutucou o menino.
—Então você é o herói da profecia? Confesso que esperava mais – gargalhou o homem – então é só isso? – olhou para os lados – só aniquilar esse pequeno animal e minha vitória esta certa?
Ele riu, mas quando Jean tentou se mover, ele não deu brecha. Prendeu-lhe a garganta entre a arma e o casco de uma arvore.
Forçava cada vez mais o pescoço já roxo do garoto, e o encarava com seus olhos obscuros. Jean não soube reagir, dentro das orbitas oculares vazias havia apenas caos, uma neblina negra e almas implorando por piedade. Essa seria a ultima visão do moribundo.
Jean via a cor se esvaindo das coisas, o resto de luz que estava ali se ia, e então, essa era a morte?
Um barulho surgiu de alguns metros na direita da ocasião, Grace atravessou uma cadeia de arvores conseguindo assim, presenciar a cena. Espantada a garota gritou, lagrimas escorreram dos seus olhos, seu berro em negação foi ensurdecedor, ela ergueu a mão na direção de Jean e caiu de joelhos. O homem pálido oscilou, a fumaça escura de seus olhos vazou e fugiu na mata, levando a carcaça magra consigo, e essa foi a ultima coisa que o garoto viu.
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