Entre Lágrimas e Sorrisos
3 8 Anos No Passado
Notas iniciais
PASSADO. ANTHONY AOS 9 ANOS
Minha cabeça não conseguia se concentrar em um assunto só. Também, o que eu tinha ouvido naquela tarde tinha mexido completamente com meus sentimentos. A minha nova vizinha era demais, logo na noite que se mudaram — que foi a alguns dias atrás — ela veio me visitar juntos com seus pais. Descobrimos que gostávamos das mesmas coisas, das mesmas músicas, dos mesmos filmes. Peguei rapidamente uma forte amizade com ela, e logo íamos juntos para qualquer lugar que fossemos. Cássio, Isaac e Eliezer sempre iam juntos, é claro, e assim nos tornamos uma espécie de ‘Irmandade’. Mas o que eu sentia por Agatha – a vizinha de que estou falando — era mais do que uma simples amizade, mas eu não consigo identificar o que é. E naquela tarde, esse sentimento se intensificou. Um sorriso forma em meus lábios no momento que lembro de suas palavras: ‘E daí que ele é meu namorado! Você não tem nada a ver com isso!’ Se realmente isso fosse verdade! Apesar de que não sei o que os namorados fazem. Antes de pensar em algo mais, ouço a voz de minha mãe chamando.
– Anthony, a Agatha tá aqui pra falar contigo!
Meu coração acelera, sinto-o bater forte em meu peito. O que ela queria comigo? Pulo da cama — ao qual estava deitado — mais rápido que um gafanhoto e corro pelos cômodos da casa até findar na sala. Lá, Agatha me espera enquanto olha uma fotografia de minha família na parede.
– Oi, queria falar comigo? – Começo.
– Sim. Tá ocupado?
– Na verdade não. Só estava deitado pensando em você... Digo, Não em você, no que aconteceu esta tarde, daqueles meninos ter...
– A gente pode ir para a base? – Ela me interrompe.
– Ah, é claro!
Atravessamos a sala e findamos no quintal, onde logo se podia ver um Cajueiro grande o suficiente. Andamos mais um pouco, um silencio predominando entre nós. Agatha estava muito calada, o que era estranho, já que ela era muito falante, na verdade falava pelos cotovelos, porém naquela tarde parecia que um gato tinha engolido sua língua. Eu desejava ansiosamente saber o que estava passando pela cabeça dela naquele momento, queria realmente ter o poder de ler mentes, mas como não o tinha, me divertia deduzindo. Será que ela estava pensando em mim? Ou no que aconteceu naquela tarde na escola? O que ela queria falar comigo, afinal? Livro-me de meus pensamentos quando percebo que Agatha começa a subir a grande Mangueira, segurando firme nos galhos para não cair. Arregalo os olhos quando vejo que ela usava um vestido, e como ela estava subindo, consigo ver completamente sua calcinha branca, porém logo desvio o olhar, sentindo minhas bochechas arderem.
– Você não vem? – Ela fala.
– Ah, s-sim.
Começo a subir, tentando desviar meu olhar de Agatha, mas confesso que ainda dei umas olhadas. Era estranho, nunca tinha sentido atração por qualquer garota, geralmente a gente desprezava-as, mas com Agatha... Era diferente.
Finalmente chego na base, o que era uma espécie de casa na árvore feita pelo meu pai, e ao entrar, abro a janela improvisada a fim de ventilar o local e iluminar. Agatha se encontrava em um canto da base, meio encolhida, e por um momento a analiso. Ela vestia um vestido com bolas coloridas, parte de seus cabelos negros presos com uma espécie de presilha enquanto o restante voava com o vento. Sua pele era branca como a neve e fina como um tecido. É impressionante como fico encantado ao contemplá-la.
– Então... O que queria falar comigo? – Começo meio receoso.
– Queria falar sobre o que aconteceu hoje. – Ela fala, me fitando.
– Ah, sobre isso? Não esquenta, eu sei que você queria me proteger, por isso falou que... Era minha namorada. Erick está nos perturbando desde que viu você e eu juntos... Eu ia apanhar feio se você não tivesse se intrometido. – Dou uma risada forçada – Mas nada a ver a gente namorar!
– Eu sou tão ruim assim?
– Não! Não foi isso que eu quis dizer! Você é maravilhosa!
Sinto novamente uma queimação em minhas bochechas quando Agatha me fita, olhando-me com os olhos espantados, porém abrindo um angelical sorriso.
– E bonita. — Continuo – Bonita não, linda. Você é linda, e legal, e corajosa... Você é especial pra mim.
Eu não sabia o que estava falando. As palavras simplesmente estavam saindo de minha boca. Desvio meu olhar de Agatha, com vergonha do que acabo de falar.
– Anthony, eu gosto de você. Gosto muito. – Fico surpreso e a fito – Gosto mais do que um amigo. – Minha garganta seca. — ... Que tal... Que tal a gente namorar de verdade? – Meu coração dispara – Não agora, claro, mas quando a gente tiver no ensino médio, sei lá... Você quer namorar comigo?
– Tá falando sério?
– Sim, porque, não quer?
– Q-quero, mas... O que os namorados fazem?
– Eu não sei. Acho que vamos descobrir quando crescer... Ah, eu sei de uma coisa que os namorados fazem!
– o que é?
– Eles se beijam!
– Se beijam?! ... É verdade, já vi isso nos filmes e novelas, mas não é nojento?
– Acho que não, quer dizer, se os adultos fazem é porque é bom.
– Tem razão.
O silêncio predomina novamente. Eu não sabia o que estava passando na mente de Agatha, e sinceramente, nem eu mesmo sabia o que estava passando pela minha. Aquele pedido de namoro – seja lá o que significasse – tinha sido surpreendentemente rápido, e me atingira como um soco no estômago.
– Anthony, você quer me beijar? – Pergunta Agatha subitamente, suas bochechas corando.
– Te beijar? Aqui, agora? – Falo sem reação.
– Sim, e porque não? Quer ou não?
– ... Eu não sei.
– Vamos lá Anthony. Vamos ver se é bom. Se for, quando começarmos a namorar fazemos de novo, e se não for, não fazemos.
Fico receoso e pensativo. Tudo estava indo rápido demais, era muita informação para uma pequena cabeça de criança.
– Tudo bem. – Respondo finalmente.
Agatha aproxima-se de mim. Consigo sentir o seu cheiro e o seu calor enquanto ela me olha de um jeito manhoso. Quando seu rosto fica bem próximo do meu, ela fecha os olhos, e como não sei o que fazer, simplesmente a imito. Antes de fechar meus olhos por completo, ainda consigo ver seus lábios se descolando um do outro, um pequeno barulho ressoando em meu ouvido, e um segundo depois, sinto uma coisa macia encostar-se aos meus lábios. Os lábios de Agatha pressionam o meu, eu sentindo sua respiração entrar em minhas narinas. Meu coração está tão acelerado que podia ouvi-lo, como que batesse em meus tímpanos, sentindo-o pressionar a carne de meu peito, enquanto meu corpo formiga. Sinto agora ela pressionar os lábios mais forte, desta vez abrindo espaço em minha boca, enquanto sinto um pouco de seu doce gosto. Eu não conseguia ouvir mais nada, era como se tivesse flutuando no espaço sem som, somente sentindo a boca de Agatha na minha.
Os lábios de Agatha descolam dos meus, a ao abri-los, percebo que ela recuava, porém com os olhos ainda fechados. Ao abrir os olhos, ela me olha diretamente, percebendo que ainda a contemplo e deixando escapar uma expressão envergonhada, suas bochechas tomando uma cor rosada, porém abrindo o sorriso encantador que eu gostava tanto de ver. De repente, a voz de minha mãe preenche a base.
– Agatha, tua mãe tá chamando!
– Já tô indo!
Apressadamente Agatha alcança a porta e começa a descer da árvore, me deixando somente com minha própria sombra. Eu estava tentando entender o que realmente fora aquilo: Aquela sensação de que nada existia, de que meu corpo flutuava ao céu,do gosto da boca de Agatha. Quando finalmente acordo, percebo que estou só, e corro o mais rápido pelo pequeno espaço, procurando pela porta com o olhar Agatha, que agora descia rapidamente pela árvore, segurando firmemente nos galhos.
– Agatha! – A chamo.
Ela ergue a cabeça e olha para mim.
– Foi bom né? Eu achei bom! Vamos fazer de novo quando crescermos!
– Certo!
Agatha abre um angelical sorriso e continua a descer da árvore, tocando o chão com os pés e correndo pelo meu quintal arenoso até desaparecer quando entra em minha casa. Daquele momento em diante, eu tive a certeza que iria ficar junto de Agatha, e que nunca nos separaríamos, não importasse o que acontecesse. A promessa de Agatha tinha ficado marcado em minha mente, e eu estava ansioso para começar a cursar o ensino médio, afinal de contas, seria nessa época que ela se tornaria minha namorada.
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