Entre Livros E Maldições
19 Purgatório e Hustle
— Qual é a pior dimensão que você já visitou?
Mal olhou do imenso prato de ovos e bacon e olhou para Regina. Emma tomou um gole do suco de laranja e olhou para as duas.
— Por quê? – perguntou Mal confusa.
— Curiosidade. – respondeu a bruxa e tomou um gole de café.
— País das Maravilhas. Não é o seu também?
O País das Maravilhas conseguia ser a dimensão mais abominável para qualquer uma que não tenha nascido lá. O lugar estava num ponto entre o são e a loucura, o possível e o impossível, nada lá fazia sentido e até uma pedra poderia ser mortal. Mas, para o objetivo de Regina, aquilo não adiantava. O País das Maravilhas conseguiu ser derrotado por Cora mais de uma vez.
— Também. – respondeu num sussurro.
Mas era mentira.
Mal e Emma se olharam, mas ficaram em silêncio,
Certa vez, ela acompanhou Jefferson numa de suas viagens de negócios para Rumpel. Aparentemente, a dimensão que abrigava um objeto que Rumpel queria era demais até mesmo para o Dark One. Os dois perguntaram várias vezes se ela realmente queria ir e ela, estúpida, disse que sim. Rumpel não pareceu muito feliz com o fato, mas nada a convenceria do contrário na época. Jefferson tinha medo do local, mais até do que do País das Maravilhas e lhe confessou que o próprio Rumpel evitava ao máximo colocar os pés naquele local. Ela perguntou o porquê e seu mentor respondeu:
— “Porque nada vivo deveria pisar naquele local.”
O Purgatório era, de fato, um lugar terrível. Com uma magia pesada que deixou Regina com dores de cabeça por semana e enjôos constantes. Jefferson a apressou pelo caminho de areia e ela viu o porquê pouco tempo depois.
O Purgatório era uma dimensão de julgamentos, portanto enormes criaturas armadas vagavam pela dimensão em busca de almas para o julgamento. Se eles fossem capturados, eles seriam julgados e suas almas iriam para algum lugar. Mesmo estando vivos. Os guardas não os diferenciavam dos mortos, afinal alma é alma. Eles eram imunes a magia e imortais, além de incansáveis e não necessitavam de nenhum tipo de comida ou bebida. Eles poderiam caçar suas vítimas eternamente.
Felizmente, Jefferson achou um fragmento de alguma coisa que Rumpel queria e os dois voltaram para a Floresta Encantada, mas não antes de Regina supor que até a magia eterna do Dark One era imune aos guardas do Purgatório.
De acordo com suas pesquisas, o julgamento consistia em rever toda a sua vida, todas as suas escolhas e todas as consequências de seus atos por um tempo indeterminado até sua sentença sair.
E nem começamos a falar no caso da alma ir para o Mundo Inferior e aí as coisas ficavam interessantes.
Era para o Purgatório que Regina planejava transportar Cora, Zelena e Rumpel. Ela só precisava ter certeza de que a chave seria forte o suficiente para chegar lá, mas isso era fácil de resolver.
— Mal, é um bom dia para você ver algum daqueles livros que eu comentei.
A fada concordou terminando de comer.
— E você? O que vai fazer?
— Só finalizar alguns assuntos pendentes.
Mal queria perguntar, mas ao mesmo tempo, a resposta a assustava.
— Quando iremos para Nova York?
A chave de portal não funcionaria em Nova York.
Emma parou de comer e a olhou.
— Vocês vão para Nova York? Atrás deles?
Regina respirou fundo.
— Como eu disse, Mal. Eu tenho que finalizar alguns assuntos.
A fada pareceu entender.
— Okay, okay. Estarei na biblioteca. Algum título em especial que eu deveria dar atenção?
— Qualquer um do Seno.
— Seno?
Ela balançou os ombros.
— Eu gosto dos livros dele.
— Estamos falando de magia, certo?
— Seno foi um mago que viveu em torno de 5000 anos. Ele escreveu sobre todos os tipos de magia, inclusive de portais. Rumpel tinha diversos livros dele e eu acho que ele pode ter tido uma grande influência na Maldição Negra.
Mal empurrou o prato vazio para frente e se despediu, não antes de piscar para Emma.
As duas se olharam.
— Então – começou Emma – Nova York?
— Era uma ideia. Encontrá-los em Nova York e enfrentá-los enfraquecidos.
— Precisa de ajuda?
— Não, eu e Mal somos o suficiente. – mentiu. Teria que arranjar alguma desculpa para convencer Mal a deixá-los se aproximar de Storybrooke.
A chave de portal só poderia se utilizada uma vez. Uma viagem e a chave voltaria a ser um objeto normal. Uma viagem e Emma, Mal e Henry estariam protegidos dos seus maiores inimigos.
Uma vida é um preço pequeno a se pagar, especialmente se era a vida dela.
— Eu tenho que fazer algumas ligações. – disse Regina deixando a xícara na pia. – Tantas coisas a fazer, tão pouco tempo.
Emma não se levantou e Regina a olhou com confusão.
— Há algo mais que gostaria de conversar, xerife?
A loira balançou a cabeça positivamente e se levantou.
— Eu acho que temos que conversar.
— Sobre?
— Sobre ontem.
Ah, Regina realmente não queria ter aquela conversa. Não terminaria bem.
— Bem, eu não sei se há muito o quê conversar.
— É claro que há. Eu não beijo qualquer um... Pelo menos não do jeito-
Regina a interrompeu com um suspiro cansado.
— Emma. Eu não vou sair dessa confusão viva. Você tem que entender isso. – se aproximou de Emma e continuou – Discutir o que isso significa é irrelevante! Daqui a algumas semanas, isso aqui, e eu, seremos apenas memórias distantes.
A loira franziu as sobrancelhas e cruzou os braços.
— Sabe uma coisa que eu não gosto? Quando alguém acha que sabe mais sobre os meus sentimentos do que eu. Quem é você para me falar o que eu vou sentir daqui a algumas semanas ou o que eu sinto agora ou o que eu deveria sentir? A verdade é que eu estou confusa, tudo isso é confuso, eu sinto como se eu estivesse sonhando ou muito drogada, mas eu gostei de te beijar, era algo que eu queria fazer há muito tempo e que eu gostaria de fazer de novo, mas você não vai tomar decisões por mim!
Regina ficou surpresa e até deu um passo para trás.
— Eu estou tentando te proteger.
— Não tente.
— Emma-!
— Não e não. Olha, eu sei que você esteve me ajudando durante esses anos, e eu aprecio isso de verdade, mas, pode parar. Eu tomo as minhas próprias decisões.
Regina ficou em silêncio e Emma continuou.
— Se você não quiser isso ou a mim, tudo bem, eu aceito isso, mas se a sua razão é para me proteger, é estúpido e eu não consigo aceitar.
— Emma.
— Eu não gosto desse tom.
Regina pensou em como podia explicar para Emma que ela era praticamente uma mulher morta... E não se entra em relacionamentos com pessoas mortas. Pelo menos, ninguém deveria.
— Você está certa. Eu não deveria supor os seus sentimentos.
— Bom.
— Mas, Emma, você não está entendendo. Eu não vou sobreviver.
— Não sabemos disso.
— Eu sei disso!
— Eu ainda não conversei com Blue! – argumentou Emma – Se ela aceitar, será 3 contra 3,1!
— 3,1?
— É, bem, eu posso ajudar.
— Você é o 0,1?!
— Bem, não é como se alguém tivesse me ensinado magia.
— Blue?
— Ah, não deu certo.
Regina queria perguntar mais sobre isso, mas decidiu não mudar muito o assunto.
— Blue não vai ajudar e mesma se ela ajudar, a vitória está longe de garantida. Eu estou fraca e não tenho idéia de como Zelena e a minha mãe estão.
— Eu não disse que seria fácil.
— Eu vou morrer, Emma. Eu sou uma mulher morta. Você não pode se apegar a mim ou qualquer coisa do tipo.
Emma abriu a boca para falar, mas Regina prosseguiu.
— Você está confusa com o que eu disse sobre te proteger e eu agi errado em te beijar naquele momento-!
— Não se atreva a falar o que eu estou ou não sentido! Eu fiz o que eu quis. Minha decisão!
— Emma.
— Você não vai morrer.
— Emma-!
— Eu tenho certeza disso.
Para Regina, era óbvio que Emma não fazia idéia do perigo que Rumpel e Cora representavam. E como deveria? A loira viveu num mundo sem magia desde sempre, ela não fazia idéia do que dois bruxos poderosos são capazes.
— E Graham? August?
— O que têm eles?
— Todo mundo sabe que Graham é louco com você e bem, August não é muito discreto com os sentimentos dele.
— Eu não sou louca com o Graham e August só fala, ele não me quer.
— O Graham quer.
— Onde você quer chegar? – disse com um suspiro.
— Emma, eu vou morrer e não sou uma boa pessoa. Muito pelo contrário. As coisas que eu já fiz, que eu permiti que fossem feitas... O que eu fiz com Snow! A Maldição Negra! Já o Graham é... bem decente. O que ele fez de ruim, em geral, foram sob minhas ordens.
— É, você ferrou com a vida de muita gente.
— Então!
— Mas, você cuidou de mim. Eu nem quero pensar sobre como seria a minha vida sem você lá para me apoiar, mesmo a distância, mesmo que eu não soubesse. Eu não sei quem você era há 28 anos, mas eu gosto de quem você é hoje. Você é arrogante, estúpida, não escuta ninguém, é egoísta e me deixa louca, mas você se importa e eu gosto disso. Você não fica com dó de me falar a verdade ou me trata diferente por causa dos meus pais. E Henry te adora. August te adora. Os seus amigos escritores tem adoram. – respirou fundo. – Graham é ótimo. Sinceramente. Mas, ele não me faz sentir metade do que você me faz sentir.
— E o que eu te faço sentir?
Emma se aproximou e abriu um sorriso.
— Muitas coisas. Nem todas são boas. Eu já te disse: você é arrogante, egoísta e às vezes, eu tenho vontade de gritar. Mas...
— Mas?
Elas estavam perto agora. Muito perto. Do tipo que só o vento conseguia passar entre seus corpos.
— Mas eu me sinto protegida com você por perto e eu sei que sempre posso contar com você.
— Eu não teria tanta certeza assim.
— Você nunca me deixou na mão até agora.
Verdade.
— E te mais uma coisa. – continuou Emma.
Regina engoliu com dificuldade.
— O que é?
Emma sorriu.
— Eu realmente gosto de te beijar.
—-
Emma foi tentar convencer Blue e Regina ficou sozinha mansão.
Ela ficou parada um tempo na cozinha, olhando para o nada e tocando em seus lábios. Pelo menos, seus desejos da noite anterior foram realizados: beijara Emma uma última vez antes do fim.
Estava calma, quase pacifica e um sorriso bobo enfeitava seus lábios. Ah, as possibilidades! Ah, o que ela poderia ter com Emma se seu destino não estivesse escrito em sangue. Beijar Emma tinha esse efeito pacifico que renovava suas forças e a lembrava do quê deveria fazer. Talvez fosse sortuda o suficiente para beija-la mais uma vez antes de ativar a chave.
Ah, a chave.
Saiu de seu estupor e foi até o telefone. Discou um número que tinha decorado há muitos anos e esperou.
— Quem é? – veio o forte acento irlandês de Jonah. Ele não queria atender ao telefone e isso era óbvio pelo seu tom.
— Educado como sempre, Jonah.
Silêncio.
— Quem é que tá falando?!— ele perguntou quase gritando.
Ela riu. Jonah tinha um temperamento horrível, muito pior que o dela e Hustle combinados.
— É Regina. Lembra-se de mim?
— Aquela Regina?
— A Regina que te deixou muito bêbado e fez com que você cuspisse todos os segredos de Hustle. Sim, é ela.
— Ah, como estão as coisas aí em Nova York? Cara, Hustle ficou puto comigo. Achei que fosse me matar... Eu ainda acho. Mas aqui, não adianta me ligar, eu vou ficar em silêncio dessa vez, é, você não vai me convencer a falar nada.
Ela riu de novo.
— Eu quero falar com Hustle. É sobre o presente que ele me mandou.
— Olha, eu vou ver se ele quer atender. Ele tá furioso hoje.
Silêncio. Regina respirou fundo e se preparou para enfrentar Hustle.
— Ah, minha querida Rainha. – veio a voz doce de Hustle, doce demais para ser honesta.
— Hustle. Eu tenho uma dúvida a respeito do seu presente.
— Ah sim, Ülther fez um bom trabalho. Eu recebi uma ligação de Blue mais cedo e ela me assegurou que o problema causado por Storybrooke será resolvido. E eu estou muito satisfeito.
— Imagino que sim. Agora, com relação à chave de portal...
— Sim?
— Ela abrange o Purgatório?
Ele soltou um risinho ansioso.
— Sim! – exclamou – Purgatório, Mundo Inferior, Mundo Superior. É só pensar no lugar que a chave te levará.
— Ótimo.
Com a última dúvida resolvida, ela se permitiu respirar com alívio. Finalmente.
— Isso quer dizer que me perdoa?
— Eu nunca te perdoarei. – respondeu com um sorriso, mesmo que ele não pudesse ver – Eu guardo muito rancor.
— Claro que guarda. – respondeu Hustle com muito bom humor para alguém cuja desculpa não foi aceita – Deveríamos conversar pessoalmente. Essa disputa sua com Xi Wangmu deve chegar a um final. Pense em tudo que estamos perdendo! Com sua magia de volta, oh! Eu me arrepio só de pensar no que nosso poder combinado pode fazer!
— A minha magia é confinada à Storybrooke.
Hustle soltou uma gargalhada e Regina sentiu a tensão subindo pelo seu corpo novamente.
— Não! – ele exclamou depois de se acalmar – É como falar que a minha magia está confinada à Irlanda ou à Dimensão Esquecida. Não mesmo. Você estava sem magia por que a maldição de Storybrooke exigia muito. Com a maldição quebrada, toda a magia sugada para deixar a cidade congelada e a memória de todos apagada voltou para você.
— Não, eu estava sem magia! Eu fiquei sem magia ao seu lado.
— Mas não no jardim de Xi Wangmu.
— Porque é um lugar mágico.
— Porque é um lugar abundante de magia. Ela não te deu magia lá, ela apenas te carregou o suficiente para a maldição não te exaurir.
Regina ficou um minuto em silêncio.
— A minha magia alimentava a maldição.
— Exato.
— Ele usou a minha magia para se sustentar aqui?
— Aparentemente. Cruel, huh?
— Como você sabe disso, Hustle?
Ele riu.
— O que eu não sei, minha rainha? Sou um viajante. Já me encontrei com o Dark One em ocasiões... E conheço a Maldição Negra, que nem é tão original assim. Posso recitar, de cabeça, mais uma seis ou sete que seguem os mesmos preceitos.
— Como você sabe que é a minha magia?
— É óbvio! Storybrooke tem o seu cheiro. Foi Ülther quem comprovou a minha teoria. Imagine a minha surpresa quando eu percebi que você não estava completamente exausta!
— Não faz sentido.
— O que você sentiu a primeira vez que pisou em Storybrooke?
Poder. Ela se sentiu poderosa pela primeira vez em anos.
— Mais poderosa? Mais disposta? Mais cheia de energia? É claro que sim. Afinal, você estava rodeada pela sua própria magia... Ou restos de sua magia. Com a maldição quebrada, ou pelo menos parte dela quebrada, a sua magia parou de ser sugada. Logo, energia em excesso!
Ou seja, Rumpel, Zelena e Cora estavam com poder total já que eles nunca foram sugados pela maldição.
— Mas esse é um mundo sem magia!
— Correção: esse é um mundo com magia adormecida. Há pessoas com magia, são minorias, realmente, mas existem.
— Então, por que esse mundo?!
— Ah, é uma ótima pergunta, não é? Por que não indaga ao Dark One? Ele sim sabe o motivo.
Regina ficou em silêncio por um tempo. Hustle não era um mentiroso. Ele era um mestre das palavras, mas ele sabia das coisas.
Certo?
— E por que você falaria a verdade agora, Hustle? Por que não antes?
— E mudaria alguma coisa? A maldição ainda existiria e você ainda não teria seu poder total. Qual seria a diferente de te falar agora ou antes?
— Eu não confio em você.
— Ótimo! Por isso você seria uma incrível aliada. Agora, se você tentar se desculpar com Xi Wangmu seria ainda mais perfeito...
Então, a chave de portal era a única solução possível para aquele dilema.
— Eu sou uma mulher morta, Hustle. O meu problema com Xi Wangmu é irrelevante.
— Não se você fugir.
— Explique-se.
— Pegue um avião ou transporte-se, não ligo e venha para cá. Jure lealdade a mim e eu te protejo dos seus inimigos.
Ela sabia que ele exigiria lealdade. Ela sabia!
— E o resto da cidade? Você irá protegê-los também?
— Não. Só você. Talvez mais uma ou duas pessoas. Não mais.
- Não.
— Se ficar aí, seu futuro é a morte.
— Não ligo. Eu não irei me subjugar a você pela eternidade, Hustle. Jamais!
— Eu sou um senhor muito generoso.
Foi Regina quem soltou uma gargalhada dessa vez.
— Você quer que eu escolha entre minha vida e minha liberdade? Não há diferença. Seguir suas ordens e morrer, para mim, é a mesma coisa. – respirou fundo. – Obrigada pelas informações e pela chave de portal. Minha disputa com Xi Wagmu será inútil, logo.
— Eu sou um senhor generoso. Eu não tiraria sua liberdade.
— Você já está tentando. Adeus, Hustle.
O tom dele era satisfeito.
— Não se pode dizer que eu não tentei. Espero que com a chave tenhamos resolvido os nossos problemas.
— Conte o que eu fiz com Jorah no meu enterro.
— Oh, irei. Irei. Onde já te viu maior desperdício? Eu estarei de luto eternamente pelo seu potencial.
— Mais uma coisa.
— O quê?
— Um acordo. Você deixa Storybrooke e todos conectados a mim em paz e em troca...
— Em troca?
— Eu te darei o meu livro de poções.
Hustle nem pensou duas vezes.
— Fechado!
Regina sorriu maliciosamente quando desligou o telefone. Hustle em sua animação não percebeu que ela não exatamente especificara qual era o livro de poções... E ela tinha dois. Um deles, Regina começou a escrever no começo do seu treinamento e possuía poções simples e rápidas: remédios, antídotos, algumas poções da verdade, três poções do amor, uma poção da sorte e alguns pensamentos que lhe vinha no decorrer das lições. O segundo, Regina escreveu como Rainha e tinha as piores poções que podia criar: venenos, antídotos para poções ditas mortais, uma poção da verdade que durava horas e doía a cada verdade dita, uma poção fortíssima de amor – uma gota era o suficiente para deixar alguém perdidamente apaixonado por décadas, mais de uma gota fazia alguém morrer de amor, literalmente –uma poção da sorte (que nunca funcionou para ela) e feitiços, principalmente de tortura.
Ela comentou para Hustle sobre o segundo livro e ele sempre demonstrou um interesse surreal nele. Tudo que tinha que fazer era mandar o primeiro. Pena que não estaria ali para ver a reação dele, mas valeria a pena.
Eram as únicas coisas que sobrou da Floresta Encantada quando ela apareceu na barreira de Storybrooke. Os livros eram enfeitiçados para irem até sua mestra ( para evitar ladrões). Para protegê-los, ela os enterrou no limite da barreira, no mesmo lugar que ela acordara anos atrás. Não pensou duas vezes em ser envolvida por uma fumaça roxa e reaparecer debaixo de uma árvore no meio da floresta. Com um simples movimento do seu braço direito, os dois livros se ergueram do chão, ambos envoltos numa manta marrom de couro, depois voltou para a mansão.
Sentou-se no sofá e folheou os livros sem pensar muito. Era nostálgico ler o primeiro livro... Cheio de pequenos desenhos nas bordas das páginas e com pequenas notas, delicadas para não ‘ficar muito grosseiro’. Já o segundo era mais sombrio, com escritas grossas e rabiscos em partes que ela achava serem desnecessárias. Evitou propositalmente a parte de feitiços, mas parou na página rabiscada da poção da sorte.
Ela refez a poção diversas vezes e testou em diversas pessoas. Funcionou todas as vezes, exceto quando foi ela quem tomou. Certa vez, ela se fantasiou de uma velha e entregou a poção para um rapaz muito pobre, depois observou os efeitos. A poção funciona no decorrer de horas, mas aqueles eventos ficavam ‘contagiados’ de sorte e se reproduziam. No mesmo dia, o rapaz salvou a filha de um homem muito rico, que como agradecimento lhe deu algumas moedas de ouro. Guiado pela sorte, o rapaz decidiu jogar num grande bordel que tinha na cidade, que coincidentemente recebia comerciantes riquíssimos para jogar. O rapaz ganhou todas as partidas e saiu do bordel rico. Até então, a poção parou de surtir efeito, mas os acontecimentos continuaram. Com o dinheiro recebido, ele investiu em comércio e decidiu seguir uma rota que todos os outros comerciantes evitavam, mas que funcionou. A rota era mais rápida, econômica e uma vez que ele conseguiu comprar a ajuda dos nativos que circulavam a passagem, ele tornou-se monopolista do caminho. Três anos depois, quando uma guerra civil bloqueou a rota mais usada pelos outros comerciantes, o rapaz começou a cobrar pela passagem. Ficou tão rico, que comprou títulos de nobreza em uma corte e logo, casou-se com a princesa.
A sorte contagiou a vida dele.
Ela tentou em várias outras pessoas e os resultados eram semelhantes: sorte, sorte e mais sorte. Amor, dinheiro, guerra, posses, conflitos, tudo, era resolvido facilmente por meio da sorte.
Exceto para ela.
Furiosa, mais do que o normal para a época, ela desenhou um imenso X na página e ignorou a poção. Tinha medo de produzir mais e, por algum motivo, Snow se apossar da sorte. Na época, ela sentiu medo genuíno dos resultados da combinação.
Passou a mão na página e pensou em Emma. Era o mínimo que podia fazer, certo? Se a magia existia como Hustle disse, então a poção faria efeito. A vida de Emma e Henry seria muito melhor.
Levantou-se e decidiu ir à biblioteca.
Mal pareceu não se importar com a nuvem roxa que se manifestou ao seu lado, tanto que nem levantou o rosto para Regina.
— Demorou.
Belle, arrumando alguns livros na prateleira, fingiu que não prestava atenção na conversa das duas.
— Que tipo de ingredientes você tem lá embaixo?
Mal a olhou e levantou uma sobrancelha.
— Do que você está falando?
— Quero fazer uma poção, só que eu preciso de algumas coisas peculiares.
— Tipo?
— Muitas coisas.
As duas se olharam. Mal decidiu não comentar sobre o livro velho que Regina segurava.
— Tenho algumas coisas.
Belle, em silêncio, olhou para Regina entrando no buraco e no velho elevador de serviço. Mal, por sua vez, voltou seus olhos para os livros.
—-
Blue não a recebeu e Emma foi para a delegacia se sentindo derrotada.
Aparentemente, Blue estava muito ocupada reerguendo a barreira e Emma tentou várias vezes, mas a fada nunca estava disponível.
Cansada de ser ignorada, Emma foi diretamente para as minas, onde os anões acharam os pós de fada. Eles estavam trabalhando com concentração e nem prestaram atenção na presença de Emma rondando o local.
Havia anões trabalhando e nenhum sinal de Blue. Ela continuou andando.
O processo de adquirir pó de fada era o seguinte: os anões tiravam os cristais do chão, levavam-no para outro setor, que quebravam os cristais em pedaços menores, que por sua vez eram transportados para o último setor que transformavam os pedaços menores em pó.
— Tínhamos máquinas para fazer isso.- disse Leroy para Emma, que pulou de sustou. – Mas não os temos aqui, então tem que ser nos braços mesmo.
— Máquinas?
— Transformavam os cristais em pó. Tudo que tínhamos que fazer era extrai-los, por isso vai demorar um pouco para termos uma quantidade maior de pó, já que temos que nos dividir nos setores.
Emma concordou e olhou ao redor um pouco surpresa.
— Onde está Blue?
— Pegou um pouco de pó e sumiu com as fadas. Acho que foi fechar as fendas.
— Ela volta?
— Eu lá tenho cara que secretária? Sei lá como está a agenda dela.
Só então Emma percebeu a picareta que ele carregava.
— Eu só sei uma coisa, salvadora, e isso é extrair cristais e quebra-los.
Emma pensou um pouco e abriu um sorriso.
— Duas coisas.
— O quê?
— Extrair e quebrar. São duas coisas.
Leroy a olhou com irritação.
— Está passando tempo demais com a bruxa.
Emma decidiu desconversar. Sabia que iria abrir um sorriso bobo se tivesse que falar sobre Regina e isso não cairia bem com Leroy.
— O quão fundo é essa mina?
Ele balançou os ombros.
— Nunca quis saber.
— Ninguém explorou?
Ele negou novamente, depois apontou para a escuridão que cobria o resto da mina.
— Está escuro, logo não tem cristais.
— Tem cristais no começo, mas não no fim. Isso não faz muito sentido.
E com isso tomou a lanterna de Leroy e se aventurou no interior da mina. O anão foi logo atrás resmungando.
— Não tem cristais aí. Para que vamos perder tempo?
Emma não respondeu, só continuou andando. Havia alguma coisa muito errada ali. Ela conseguiu sentir os cabelos da sua nuca arrepiando e enjoo. Só se sentiu tão estranha assim quando estava na caverna de Mal, que era recheada de magia.
— Você está suando?
E ela estava... Só não sabia por quê.
— Tem algo muito errado aqui, Leroy.
O túnel escuro os levou até o final da mina, que era uma enorme cratera, com cristais com uma substância negra fincados nas paredes de pedra que os cercavam.
— Você disse que não tinha cristais aqui. – disse Emma iluminando ao redor.
— E não devia ter. – disse Leroy. – Essas coisas não são cristais de fada.
— E o que são?
Leroy não soube responder.
— Vamos sair daqui e chamar Blue. Esse lugar não me cheira bem literalmente.
Emma concordou. Estava arrepiada e uma vozinha em sua cabeça – que estranhamente tinha a voz de Regina –a mandava sair dali correndo e nunca olhar para trás.
— Socor-!
Leroy e Emma se olharam.
— O que foi isso?
A voz repetiu, ainda fraca e baixa.
— Socorro. Por favor!
Leroy pegou a lanterna e começou a procurar a origem do som. O homem – era uma voz obviamente masculina – pediu novamente por socorro e quando a luz da lanterna o achou, Emma e Leroy tiveram vontade de vomitar.
O homem – um habitante de Storybrooke desaparecido – estava pálido e esquelético, com os cabelos negros e ralos caiam sobre sua testa. Mas o que deixou Emma e Leroy enjoados foi o que acontecia com o resto do corpo dele.
— Meu deus... – murmurou Emma apalpando suas jeans atrás do celular.
Metade do corpo dele estava cristalizada e no seu interior estava a estranha substância preta.
— Me ajudem. – implorou o homem.
Leroy empurrou a lanterna para Emma e ergueu a picareta. O primeiro golpe nem arranhou o cristal, mas o anão continuou tentando.
— Quem foi o responsável por isso? Onde estão os outros?
— Estavam aqui. – respondeu com a voz fraca – mas um a um, eles foram ficando em silêncio... Até que só eu continuava a gritar.
Emma iluminou ao redor do cristal do homem e o que viu foram outros cristais – exatamente como os que estavam espalhados pelas paredes, só que maiores – com a substância negra dentro. Engoliu com dificuldade.
O som da picareta colidindo com o cristal ecoava na mina.
— Quem fez isso com vocês? – perguntou Emma novamente. Sentia nojo e raiva subindo pelas suas veias. Estava furiosa e queria punir os responsáveis por aquilo.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Eu não sei. Foi muito rápido! Num momento estávamos patrulhando e no outro... Estávamos aqui. Por favor! Me ajude!
Leroy começou a bater mais forte, mas o cristal resistia. Ele parou de bater a olhou.
— O que vamos fazer?
— Vamos buscar ajuda. – disse Emma engolindo nojo. – Chame os outros anões, eu vou ligar para Regina.
Ela achou que Leroy fosse argumentar, mas ele só concordou e prometeu para o homem que voltaria logo.
— Nós vamos te tirar daqui. – prometeu Emma.
Ela e Leroy correram o túnel escuro até chegar onde os outros anões estavam. Leroy mandou todos pararem, pegarem as picaretas e segui-lo. Emma correu fora da mina, tirou o celular do bolso e discou para Regina, implorando para ser atendida. Tremia um pouco e o enjoo simplesmente não passava.
Assim que Regina atendeu, Emma disse:
— Você precisa vir até a mina. Agora.
— Qual é a urgência, xerife? Você está machucada?
— Não. Achamos um patrulheiro perdido.
— Oh, eu te disse que eles estavam bem, não disse?
Emma engoliu seco.
— Por favor, venha o mais rápido possível.
Regina ficou em silêncio por alguns segundos e concordou.
— Irei buscar Mal na biblioteca e vamos para aí.
— Ótimo. Obrigada.
— Emma?
— Sim?
- Cuidado.
Emma guardou o celular e levantou a cabeça. Respirou fundo e decidiu ignorar o sentimento horrível que sentia. Depois, voltou correndo para a mina, pegou uma marreta e foi correndo ajudar os anões. Ela reconheceu o som da picareta se chocando com o cristal e logo, ela estava ao lado de Leroy batendo repetidas vezes no cristal negro quem não cedia.
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