Entre Livros E Maldições
8 Poker Night III
Notas iniciais
Quando campainha tocou, Regina suspirou aliviada. A discussão estava ficando profunda demais para ela. Nunca se incomodara com as interpretações dos amigos, na verdade, ela ansiava por uma visão diferente da dela sobre certos aspectos de sua escrita. Dickon, em especial, era o melhor dos críticos e não poupava os sentimentos de ninguém. Neil também, o antigo jornalista adorava buscar paralelos e analisar tacitamente cada personagem e ele não falhava em surpreender a Rainha.
- Estamos esperando mais alguém? – indagou Marco olhando ao redor da mesa.
- Não que eu saiba. – respondeu Regina se levantando. Olhou para August – Você chegou a contatar a Xerife?
Os olhos azuis do escritor se arregalaram. Ele tinha esquecido completamente.
- Ótimo. – ela disse sarcástica. – Já sabemos quem está na porta.
E sem explicações, saiu da sala. Os outros sussurram.
- Ela parece mais arredia com esse conto do que eu esperava. – comentou Charlotte.
- Eu disse que ela não aceitaria discutir do conto facilmente. – respondeu Neil – Meu mentor era assim também.
- É diferente. – disse Dickon – Aquele conto do Bobby era especial, dedicado a bruxa que tinha lhe arrancado a alma.
Marco soltou uma risada.
- Uma bruxa? Ora, ora, ele só a amava demais para o bem da própria sanidade. – passou as mãos pelos cabelos brancos – Mas será que é tão diferente assim?
Aquilo atraiu a atenção de August.
- Como assim?
Neil quem respondeu.
- É normal, um escritor se sentir protetor de suas obras. Mas é anormal se sentir com tamanha dor e desconforto, especialmente quando Regina sempre gostou de nossas opiniões sobre seus outros trabalhos. Lembro que discutíamos muito sobre o “Children of the damned”.
- Ahh! – exclamou Alamir – Eu li esse! Era doloroso ler, mas não menos viciante.
August também já lera o “Children of the damned” e ele o amara tanto quando odiara. O livro abria uma ferida no peito dos leitores e a cada palavra era como uma mão cruel apertando seus corações. A história se focava na vida de três crianças, todas em situações desesperadoras de abuso.
- Então, você acha que a situação de Bobby e da Regina é semelhante? – indagou Charlotte.
- Você não? – respondeu Neil.
- Talvez seja, talvez não. – interrompeu Dickon– Ela não vai admitir.
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- Xerife Swan. – disse Regina sorrindo ao abrir a porta.
A loira levantou uma sobrancelha.
- Em que posso ajudar? – indagou.
Emma estava sozinha e isso surpreendeu a Rainha. A loira abriu um sorrisinho.
- August não entrou em contato. – disse Emma. Podia escutar os risos dentro da casa.
- Ele está bem. Estamos jogando pôquer. – respondeu com o tom mais inocente que podia.
Emma apertou os olhos, não muito crente.
- Não se importaria se eu entrasse então.
- Na verdade, eu me importaria sim.
As duas se encararam. Era um desafio para Emma tentar entender o que se passava na mente da Rainha. Será que era um prazer para a bruxa contrariar a Xerife? Ela fazia isso de propósito?
Emma sorriu, olhou para as próprias botas, colocou as mãos no bolso da jaqueta de couro vermelho e voltou a olhar para Regina.
- Não saio daqui até eu ver com meus próprios olhos que August está bem.
- E se eu te deixar aqui a noite inteira?
- Eu ficaria tocando a campainha sem parar. – foi a resposta inocente.
Regina lambeu os próprios lábios enquanto pensava. Poderia deixar Emma entrar na mansão, não havia nada que Regina precisasse esconder no momento, mas a vontade de contrariar a loira era mais forte. Olhando no rosto de Emma e vendo que os olhos verdes brilhavam com o desafio, a Rainha soube que se fechasse aquela porta, a loira realmente passaria a noite inteira na bendita campainha.
Forçou um sorriso.
- Isso seria muito infantil da sua parte.
Emma deu um sorriso maroto.
- Eu sou infantil. – balançou os ombros – E tenho um filho de 10 anos. Você ficaria surpresa com as coisas que aprendemos deles.
A rainha sorriu.
- Como quiser, senhorita Swan. – disse e abriu a porta.
Emma sorriu e suprimiu a vontade de gritar: “Ganhei!”. Entrou na casa e andou em direção às vozes. Regina andava logo atrás.
Assim como Grumpy dissera, a sala estava cheia de pessoas que Emma nunca vira antes. August abriu um sorriso e acenou para ela e tudo que a loira quis fazer era lhe dar um soco, mas se contentou em lhe jogar um olhar irritado.
- Então, eu voto pelo strip-poker também! – exclamou Dickon, o que despertou gargalhada na mesa.
- Essa é a xerife da cidade. – disse Regina passando por Emma e voltando ao seu lugar. – Ela veio conversar com o namorado. – provocou voltando os olhos para Emma.
- O que?! – exclamou Charlotte olhando para August, fingindo surpresa. – Você estava me iludindo durante todo esse tempo?!
Mais gargalhadas. Emma levantou uma sobrancelha.
- Junte-se a nós! – disse Marco levantando um copo. – Quanto mais melhor, é o que eu digo.
- August está perdendo feio, talvez você possa ajudar o rapaz! – exclamou Dickon rindo.
- Eu não tenho nada contra. – disse August se levantando da cadeira.
Regina decidiu intervir.
- Ela é a xerife. – a última coisa que precisava era Emma ali. – E como tal, ela tem muitas coisas para fazer.
- Na verdade. – começou Emma atraindo os olhares de todos na sala – Eu adoro pôquer.
Regina suspirou quando os outros exclamaram. August, que aproveitou a distração para sair da sala, voltou com uma cadeira extra e a colocou ao lado dele. Charlotte não ficou muito feliz.
- Ah, você é esperto, Auggie! – exclamou Alamir com um sorriso zombador – Charlotte de um lado, a xerife do outro!
Dickon provocou mais um pouco, enquanto a Rainha preferiu o silêncio. O olhar curioso de Neil estava fixo nela e Regina sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
- Vamos continuar com a discussão do conto? – indagou August mostrando as cartas para Emma.
- Não. – respondeu Regina rapidamente.
Emma levantou uma sobrancelha. Os olhares curiosos de todos na mesa faziam Regina querer sair correndo.
- Eu gostaria da opinião de vocês sobre uma ideia que tive esses dias. – acobertou-se e feliz viu uma curiosidade diferente brilhar nos olhares dos escritores.
- Ora, tem um tempo desde que discutimos suas ideas a mesa. – disse Marco mastigando amendoins. – Diga, diga!
A bruxa abaixou as cartas dizendo que estava fora e depois começou a narrar. Talvez, não fosse a melhor hora, mas quando seria?
- Bem, a história é sobre uma bruxa. Uma mulher bela, mas furiosa e com o coração partido em mais pedaços do que se é possível contar. – pausou um momento e logo continuou. Seus olhos foram para Emma. – Seu maior desejo era vingança, e ela estava disposta a destruir todo o mundo, toda a felicidade se isso significasse vingar a morte daquele que seria o seu verdadeiro amor. O ódio era tanto. A dor era tanta. Ela seria capaz de tudo, até de usar de uma terrível maldição que ameaçaria não só a vida e o destino de todos, mas a sua própria alma. – um sorriso amargo — Acontece que essa mulher não acreditava ter uma alma. Ela acreditava que não existia algo que merecesse ser salvo dentro dela. – parou por um momento. Os olhos da mesa estavam fixos nela. – A resposta aos sonhos de vingança dessa bruxa era uma maldição. – olhou para Dickon – Ainda não decidi exatamente o que será essa maldição, mas será cruel. – voltou o olhar para Emma. – Enfim, tal maldição exigiria o coração da pessoa que ela mais amava no mundo: seu velho pai. O desespero e o vazio eram tantos que ela iria fazer. Toda poção estava preparada e ela só precisava de um coração, só isso. Mas, na hora H, no momento de matar o homem e pegar o último ingrediente para a maldição, ela não conseguiria, por um momento ela se lembraria de tudo, de todo passado e ela hesitaria. – Por um momento, só existiu o olhar verde cheio de perguntas – Um momento de hesitação foi tudo que os traidores precisavam e ela não poderia fazer nada quando seu salão de feitiços fosse invadido por mais bruxas do que ela podia contar, e seus dois maiores inimigos fizeram aquilo que ela hesitou. Seria tudo muito rápido e no fim, a maldição seria lançada, o pai morto e ela, abandonada num mundo novo, com as memórias intactas. Acho que o maior sofrimento do mundo é aquele que passamos presos em nossa própria mente.
Ela parou, balançou a cabeça como se estivesse acordando de um sonho, ou melhor, um pesadelo e tomou um gole da sidra. A mesa ficou em silêncio e Emma voltou a respirar, não tinha percebido que prendera a respiração.
Foi Neil quem quebrou o silêncio.
- Eu espero ansiosamente por essa história.
- Eu acho que vou chorar. – disse Charlotte.
- Potente e trágico. – disse Dickon sorrindo. – Essa é a nossa Rainha do Macabro, senhoras e senhores.
Alamir concordou, assentindo furiosamente.
- Tem tudo me deixar desesperado durante a leitura.
- Não é?! – exclamou Marco. – Brilhante, brilhante!
Regina abriu um sorrisinho.
- Eu só tenho essa ideia na cabeça ainda. Não bolei mais sobre a maldição ou mesmo sobre os outros personagens.
- O que vai acontecer com ela? – indagou Emma.
Regina a olhou, confusa.
- Quando ela veio... Quer dizer, foi para o mundo sem magia.
A bruxa balançou os ombros.
- Coisas ruins, coisas boas. Na maioria, ruins.
- Mas era o esperado. – disse Alamir – Busca por vingança, principalmente na literatura, nunca acaba bem.
Regina suspirou e levantou os olhos. Lá estava Emma a olhando, procurando por algo, tentando entender. Teria sido aquela história o que aconteceu de verdade? Pela tristeza nos olhos castanhos, Emma imaginava que era verdade. Os dois desconhecidos procurados pela cidade, o homem e a mulher, tinham sido os responsáveis pela maldição, usando do desespero da Rainha Má? Se sim... Engoliu seco.
Quando August soltou um gritinho e seu rosto avermelhou, toda a mesa começou a rir. Dali em diante, a gargalhada predominou na mansão velha da Rainha Má.
Regina não conseguiu evitar o sorriso ao olhar para aquelas pessoas que a encontraram na pior fase de sua vida e a ajudaram. Seja com palavras sábias seja com um olhar gentil. Ela conseguia rir com eles. Depois daquele dia, ela declararia guerra não só contra a xerife naquela mesa, mas também contra os dois traidores. Aquela paz acabaria e ela não era tola, Regina sabia muito bem que havia uma possibilidade imensa de que ela não sobreviveria. Se ela tivesse um pouco de sanidade, a escritora daria às costas àquela cidade e viveria o resto de sua vida no mundo que conquistou para si mesma. Não envelhecera durante 28 anos e usava pouco de magia que lhe restava para fazer um feitiço de glamour e enganar os olhos de todos que a conheciam há mais tempo.
A razão de ter convidado Alamir, Dickon, Marco, Neil e Charlotte era que talvez nunca mais os visse, portanto quis fazer algo diferente para que ela pudesse sempre se lembrar deles. Quando os cinco escritores atravessassem a barreira saindo de Storybrooke, eles se esqueceriam de tudo que transpirou naquela noite. Eles voltariam para suas casas em segurança e não pensariam nela por muito e muito tempo.
O mundo sempre se lembraria da Rainha do Macabro, mas escritores que fazem sucesso e somem são mais comuns do que Regina gostaria e logo, ela seria só mais uma que se escondeu numa cidade pequena vivendo de glórias antigas, ou pelo menos, era assim que ela preferia ser lembrada. Viva, em algum lugar, e feliz.
No decorrer da noite, Emma e Regina discutiram por absolutamente tudo. Quando Emma levou uma rodada, a Rainha não aceitou e as duas começaram a discutir sobre quem tinha roubado. Charlotte, então, fez um comentário que congelou o sangue das duas:
- Vocês deveriam se beijar logo.
A cena foi cômica: as duas, com os olhos arregalados, se voltaram para Charlotte com uma expressão de pânico e de vergonha.
- O que?! – indagaram ao mesmo tempo.
- Se beijar. – repetiu Charlotte como se fosse a coisa mais óbvio do mundo.
Emma ainda estava tentando entender o significado da frase, enquanto Regina olhava para a amiga com os olhos arregalados e a boca meio-aberta, completamente surpresa.
Dickon começou a rir junto com os outros. August olhava, surpreso, para as três mulheres, não se atrevendo a falar, mas Neil não seguiu seu exemplo.
- Ela está certa.
Regina o olhou como se Neil a tivesse traído. Dickon estava vermelho de tanto rir.
- Vocês duas me lembram Charlotte e o Dickon. Discutem o tempo todo por qualquer besteira e se recusam a ver que dão um belo casal. Acho que é química entre os dois e vocês duas é palpável.
Dickon levantou e começou a discutir com Neil. Charlotte seguiu seu exemplo.
- Como pode comparar as duas situações?! – exclamou Charlotte.
- Acho que é obvio. – respondeu Neil achando aquilo engraçado. Alamir e Marco riam sem parar.
- Acho que você está louco. – disse Emma encontrando sua voz. – O que eu e ela temos... Com toda certeza não é “química”.
- Eu duvido que um “beijo” resolveria qualquer coisa entre nós. – disse Regina. Emma assentiu.
Neil e Charlotte se entreolharam.
- Vocês têm razão. – disse Charlotte. – Um beijo só não seria o suficiente, mas eu tenho a melhor solução: sexo. Isso sim resolveria.
Emma e Regina começaram a falar ao mesmo tempo, tentando convencer Charlotte de que ela era louca até que, por alguma razão, que ninguém sabe qual, elas começaram a discutir entre si. Dickon não deixou a discussão com Neil morrer, mas como aconteceu com Emma e Regina, ele e Charlotte também começaram a discutir entre si. No fim, Alamir, Marco e August ficaram admirando os quatro idiotas discutindo.
- Então. – começou August.
Neil balançou os ombros. Marco comeu mais amendoins e Alamir suspirou.
- Eles são tão casados. – disse.
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Já era tarde quando Emma decidiu ir embora. Henry estava aos cuidados de Granny, Ruby, Snow e Charming, então não temia muito por ele, mas mãe é mãe. August decidiu segui-la.
Alamir, Neil, Marco e Charlotte também se prepararam para ir. Emma descobriu que a razão de todos estarem em Storybrooke era um congresso que estava acontecendo em Boston, onde todos eles, com a exceção de Regina, dariam palestras. Eles simplesmente uniram o útil ao agradável.
Quando Emma saiu da mansão, ela se surpreendeu quando notou seu bom humor. August soltava algumas risadas e a seguia. A xerife se sentia bem. Aquelas eram boas pessoas.
O grupo se despediu. Emma parou de repente e August passou por ela, indo em direção ao bug amarelo. A loira se virou para Regina, que na varanda da casa sorria para o grupo de escritores entrando na van. Alamir era o único que não bebera álcool, então a missão de levar todos de volta a Boston era dele.
Regina se virou automaticamente para Emma.
- A reunião será amanhã. – disse a loira.
- Estarei lá. – respondeu Regina com um pequeno sorriso.
A xerife assentiu e foi correndo até o bug. Regina só ficou olhando o pequeno carro amarelo sumir nas pequenas ruas de storybrooke.
Neil foi o último a sair da casa e ele assistiu a pequena troca de palavras.
- Eu falei sério. – disse e Regina se enrijeceu. – Vocês formam um bom casal. São diferentes e iguais demais. – e antes que ela pudesse gritar com ele. Neil deu um pulo e correu até a van, que só esperava por ele. – Ah, te espero no lançamento do meu livro.
E com um sorriso, Neil entrou no veículo.
Regina sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Talvez, aquela seria a última vez a ver cada um deles e isso, ela pensou, doía mais do que devia ser possível.
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