Notas iniciais
Ho ho ho ;)

Regina não respondeu e Maleficent pressionou.

– Você acha que ele volta?

A bruxa tomou um longo gole do vinho tinto. Olhava para algum ponto imaginário do chão.

– Belle está aqui. – respondeu. – Ele não a deixaria.

– Ele já não está aqui. Talvez, o amor dele não seja tão puro assim.

– O dela é.

Maleficent terminou o vinho com um gole e pegou a garrafa.

– Amor unilateral. Dificilmente o suficiente para atrair o Dark One.

– O que sugere?

– Ir atrás dele.

– Num mundo com pouca magia?

– Eu sou uma fada. Transformar força vital em magia é algo fácil.

Regina balançou a cabeça negativamente.

– Então, será você com magia e eu e Rumpel fracos? Dois coelhos com uma cajadada só.

– O que posso dizer? Sou muito prática. – voltou a garrafa para a mesa e bebeu mais um longo gole. – Acha-lo lá fora pode ser melhor. Será mais fácil mata-lo sem o peso da maldição em nossas costas.

– Também pensei nessa possibilidade, mas o mundo é grande. Eu nem saberia por onde começar a procurar.

– É só seguir o cheiro de magia.

– E é por isso que eu precisava de você.

Maleficent se reclinou na cadeira e encarou Regina com seriedade.

– As consequências da morte dele podem ser devastadores, especialmente para essa cidade.

– Eu não me importo.

– Inclusive para a Salvadora.

Dessa vez foi Regina quem pegou a garrafa e não olhou para Maleficent quando respondeu.

– E daí? Deixe que Blue se preocupe com isso.

Maleficent a encarou por alguns segundos, depois prosseguiu com a conversa.

– Ela me pareceu mais velha. Quando eu era criança, eu jurava que ela seria a mesma pela eternidade.

– Nada é imutável.

As duas beberam longos goles.

– Iremos à procura dele então? – continuou Mal brincando com uma mecha de seus cabelos.

– Irei à loja dele amanhã novamente. Talvez, eu tenha perdido alguma coisa, alguma pista.

– Loja? Nunca imaginei que ele se submeteria ser a dono de loja.

– Eu não sei bem a situação. Jogaram um feitiço de memória na cidade. Ninguém consegue se lembrar de quem era prefeito nem de Gold claramente.

– Esperto.

– Você não faz ideia do quanto.

– Mas creio que ele não está sozinho.

Regina se levantou. A taça de vinho, vazia.

– Bem, nem nós.

E assim se retirou.

O dia tinha sido longo.

–-

– Eu tenho magia?! – não foi bem uma pergunta nem uma exclamação.

Blue suspirou.

– Sim. Você é fruto do Amor Verdadeiro. Acontece às vezes.

– Como Regina?

Blue negou, um pouco irritada.

– Regina não é fruto do Amor Verdadeiro. Apenas filha de alguém muito poderosa. Vocês são completamente diferentes. Para começar: a sua magia é branca, pura; a dela, negra e corrompida.

Emma queria dissecar aquela comparação. Ora, como ela tinha tanta certeza de que a magia de Emma era boa? Ela nem sabia que tinha! Mas engoliu seco e continuou a perguntar.

– E você sabia?! Por que nunca me disse?

– Por que eu me importo com você. – foi a resposta. – Há tantas coisas para serem resolvidas. A chegada da bruxa, as fendas, a nossa falta de memória, a sua aceitação de quem você é, imagina se eu somasse a tudo isso a probabilidade de você ter magia. Como você reagiria?

Mal. Muito mal. Emma provavelmente iria rir e depois sair correndo.

– E como eu controlo isso? – perguntou optando por não responder – O que eu faço?

– Eu posso te ajudar, mas você tem que confiar em mim.

Emma talvez conseguiria confiar em Blue na medida do estritamente necessário. Ou podia aprender a controlar ou ignorar. As duas opções pareciam muito válidas para ela.

– E eu só te peço uma coisa. – continuou Blue. Seus olhos, severos. – Você tem que ficar longe da bruxa e longe de Maleficent. Pode me prometer isso?

Emma a olhou e a resposta era muito óbvia.

–-

Maleficent ainda dormia.

Regina achava aquilo estranho. Imaginava que a última coisa que Mal queria era dormir, mas, bem, Mal era sempre uma caixa de surpresas para Regina.

A manhã prometia sol, embora o vento frio soprasse lá fora e balançasse as árvores com quase violência. Regina iria voltar à loja de Rumpel, lembrava-se do mapa de Nova York e das fotos que vira do rapaz de quem ela não se lembrava. Ora, a quantidade de fotos mostrava sua importância.

A família irá crescer.”

Tomou um gole do café amargo e se lembrou da foto do casal andando no Central Park, despreocupados e felizes com a vida. Com os braços ao redor do outro, como se pertencessem. Engoliu com dificuldade. Era uma ideia com que ela ainda tinha que se acostumar: Emma acharia seu amor verdadeiro. Era óbvio. Talvez fosse esse rapaz misterioso.

Jogou o resto do café da pia. Sentia enjoo. Respirou fundo e tentou se acalmar. Era óbvio, ainda assim... Maldição. Ela era uma pessoa egoísta, mais egoísta do que ela achava se em alguma parte de sua mente ela ansiava por ser algo para Emma. Qual parte de ‘missão suicida’ seu coração estúpido não entendia?

Emma merecia ser feliz, merecia o melhor e infelizmente, Regina sabia que ela não era o melhor para ninguém. Talvez o melhor monstro, talvez o melhor inimigo, mas jamais O Melhor para alguém.

– Que expressão é essa? Pensando em Daniel?

A voz de Maleficent quase a fez pular no lugar onde estava, em frente a pia. O resto do liquido escuro ainda manchava o alumínio, mas ela respirou fundo e lavou sua xícara.

– Não. – respondeu apenas.

Mal não desistiu.

– Sua expressão era a de alguém que perdeu algo valioso. Só consigo pensar numa pessoa que te deixaria assim. – pausou e olhou fixamente para o perfil da Rainha – Ou talvez duas.

Regina a olhou rapidamente.

– Não gosto do seu tom. – respondeu – E não te interessa o que eu estava pensando.

Colocou a xícara de cabeça para baixo na pia e enxugou as mãos.

– Vou ver o que eu consigo salvar na loja de Rumpel. Me lembrei de umas pistas interessantes que achei lá.

– Tipo?

– Um mapa e algumas fotos. Acho que é um lugar para começarmos a procurar.

Mal soltou um suspiro dramático e se sentou numa das cadeiras.

– Se tivéssemos um feitiço de localização...

– Não adiantaria. Precisaríamos de algo de Rumpel para isso e eu duvido que ele deixou a adaga aqui.

– Temos Belle.

Regina pausou e olhou para Maleficent. A expressão sombria sumiu e Mal se pegou analisando o rosto de Regina, procurando por alguma indicação do que ela pensava mais cedo.

– Você acha que é possível usar o Amor Verdadeiro de alguém para ativar um feitiço de localização?

– Eu usei isso uma vez.

– Funcionou?

– Relativamente.

– E o que isso quer dizer?

– Que não é totalmente certo, mas funciona relativamente, ou seja, nos dará uma bela noção de onde ele está.

– Eu tenho um mapa de provável localização dele. Não dá no mesmo?

– Com o feitiço, teremos certeza.

– Ela não vai querer chegar perto de você.

– Ela não tem que querer nada. – revirou os olhos — Você realmente mudou. Isso tem a ver com os anos nesse mundo ou com uma Salvador?... Talvez com os dois?

Regina só revirou os olhos.

– Tem comida nos armários. Sirva-se. Eu vou pegar o que eu puder na loja de Rumpel.

– Vou começar o feitiço então. Só precisaremos de uma gota de sangue de Belle.

No caminho, Regina pensou sobre como convenceria Belle a ir até a mansão. Poderia mentir, poderia sequestra-la, poderia até falar a verdade. Tantas possibilidades, tão pouco tempo. Ela decidiu pegar o que pudesse primeiro e depois, dependendo da situação, jogaria Belle dentro do carro e colheria as consequências depois.

Apertou o volante do carro e ignorou o bug amarelo parado em frente a Granny’s.

–-

Henry devorava o livro e ignorada as panquecas na mesa da lanchonete. Ele bocejava, coçava os olhos e voltavam a encarar o livro.

Emma só observada. Tinha tempo desde que o vira tão apaixonado com um livro antes, mas ela entendia e ficava em silêncio. Bebericava seu chocolate e olhava pensativa para a rua. Viu o jaguar de Regina passar pela rua em direção a loja e antes que pudesse pensar já estava de pé.

– Mãe?

Ela não respondeu, só saiu correndo e gritou para Granny ficar de olho nele. Henry balançou os ombros e voltou a ler o livro. Estava na metade do segundo livro da Torre e simplesmente não conseguia parar.

Entrou no bug e seguiu o jaguar sem pensar duas vezes.

O pedido de Blue ainda estava fresco em sua mente.

Você tem que ficar longe da bruxa e longe de Maleficent. Pode me prometer isso?

E a resposta ainda estava fresca em sua língua.

Não.

O jaguar estava torto e parado em frente a loja de Gold. A porta estava aberta.

Emma parou o bug logo atrás do jaguar e correu para dentro da loja, onde vozes discutiam e uma delas era muito familiar.

– Me dê esses arquivos, Belle.

Regina estava de costas para a porta enquanto Belle estava no meio da loja abraçada a uma pasta negra. A bruxa estava furiosa e Belle, pálida.

– Os arquivos, Belle. – estendeu uma mão e conjurou uma bola de fogo. A bibliotecária se encolheu.

Ela não respondeu, só se abraçou mais à pasta.

Belle. – grunhiu.

Emma escolheu esse momento para interferir. Entrou na frente de Regina, cuja expressão suavizou.

– O que está acontecendo aqui?

Regina apontou para Belle.

– Ela achou alguma coisa sobre o Rumpel e não quer dividir.

Emma olhou para a bibliotecária, que pareceu ter se encolhido mais.

– Belle, é verdade?

Ela pareceu ficar ainda mais pálida e gaguejou.

– Nós não somos seus inimigos.

– Fale por você, xerife. – disse Regina avançando.

Emma se virou para ela e a impediu de continuar.

– Eu não posso te deixar machuca-la.

– Ela só tem que me dar os arquivos!

Incrivelmente, Emma não estava com medo. A bruxa tinha uma bola de fogo em suas mãos, mas em nenhum momento avançou contra ela. Não tinha medo, só não queria que Regina machucasse alguém... As palavras de Blue ainda ecoavam em seus ouvidos.

As duas se encararam e Emma se recusou a desviar o olhar. Regina a olhava com intensidade, olhos castanhos furiosos. Como o fogo, pensou Emma, Regina era como o fogo. Intenso, perigoso, tentador, quente, com habilidade para destruir tudo e também para ajudar. O fogo só é ruim quando usado com tal fim...

Um barulho e as duas olharam imediatamente para onde Belle estava. Estava. Passado.

– Ela fugiu! – exclamou Regina.

Emma não pensou duas vezes antes de correr atrás dela.

Belle saiu pela porta traseira e corria com tudo que podia. Emma a perseguia pelas ruas da cidade e pensava no que diabos estava acontecendo. Não deveria ser assim, deveria? Todos diziam para ter cuidado com Regina, mas não era Regina fugindo com possíveis informações sobre o paradeiro dos seus inimigos. Era Belle. Belle.

– Merda! – gritou com raiva. – Belle!

Belle olhou para trás rapidamente e cheia de pânico continuou correndo. Emma ouviu o barulho do caminhão antes de vê-lo e gritou.

– Belle!

O caminhão buzinou e Belle pareceu congelar no meio da rua. Seus olhos se fixaram na imensa besta de metal se aproximando e buzinando. Iria morrer. Emma não pensou e ordenou suas pernas a irem mais rápido. O mundo pareceu prosseguir em câmera lenta. Emma viu Belle e quase conseguiu tocá-la, mas o cheiro de borracha queimada e fumaça estavam ainda mais perto. Ela e Belle trocaram olhares.

Emma pensou em Henry.

O resto foi rápido demais para Emma entender. Num momento, ela tinha certeza de que morreria. Ela e Belle. O caminhão estava muito próximo e era muito grande. Mesmo se conseguisse empurrar Belle, ela não teria tempo o suficiente para escapar. Grande Salvadora ela era.

No outro momento, ela estava na calçada e Regina gritava com ela. A bruxa gritava, furiosa como Emma nunca a viu antes, seu rosto estava avermelhado e ela gesticulava loucamente. Emma não conseguia ouvir suas palavras.

Havia muitas pessoas ao redor. O caminhão estava todo torto na pista e o motorista desceu desorientado. Procurou por Belle com os olhos e a viu no braços de Mal do outro lado da rua.

As duas se olharam. Tinham quase morrido. Belle desmaiou e Mal olhou para a xerife, levantou uma sobrancelha e apontou com a cabeça para a mulher furiosa que ainda gritava.

– Você está me ouvindo?! – a voz de Regina fez as coisas voltarem ao normal.

Ela começou a ouvir os cochichos ao redor, as buzinas e Regina.

– Emma!

Emma a olhou.

– Qual é o seu problema?! – vociferou Regina. – Entrar em frente a um caminhão? Você tem algum desejo suicida?! Você sabe quão perto você esteve da morte?! Me responda!

– Eu... Eu não pensei...

– É óbvio que você não pensou! – continuou a bruxa. – Você nunca pensa! O que eu faria se você tivesse se machucado?!

E incrivelmente, Emma estava calma. Talvez, ela nunca esteve tão calma em toda a sua vida. Por um momento, pensou que realmente, talvez, tivesse algum problema seríssimo que precisava ser tratado.

– Henry. – disse Emma. Regina parou de falar. – Você quis dizer ‘o que Henry faria se eu tivesse me machucado’.

A bruxa recuou, pega de surpresa e engoliu seco. A veia em sua testa parecia sumir aos poucos.

– É, isso.

Barulhos de sirenes e Emma fez a coisa mais estúpida que podia fazer, mas dane-se, ela tinha quase morrido, quase perdido todas as chances de fazer o que ela queria. Naquele momento, era quase óbvio o que ela queria fazer. O que ela quis fazer durante semanas.

Agarrou o blazer de Regina e a puxou. O barulho ao redor pareceu sumir no momento que seus lábios se tocaram. Emma fechou os olhos e se deixou aproveitar o momento rapidamente. Depois, soltou a bruxa e não pôde evitar a pontada de orgulho ao ver olhos castanhos arregalados e perdidos.

– Obrigada.

E com as pernas ainda bambas, ela cruzou a rua e foi lentamente até a lanchonete. Já fizera uma das coisas que não queria morrer sem fazer, agora queria ver Henry.

Regina ainda estava no mesmo lugar e olhava ao redor, ainda em choque. Mal, do outro lado, ria histericamente.

Belle ainda estava desacordada.