O dia parecia ter se determinado a testar cada milímetro do meu autocontrole.


A luz forte do sol do meio-dia atravessava o pátio central do colégio, mas a minha mente continuava presa na escuridão da estufa. Caminhávamos em direção ao refeitório quando a risada abafada da Jéssica ecoou ao meu lado, cortando a conversa que ela e o Jesse vinham mantendo sobre o meu surto recente.


— É uma pena, Adam — comentou Jesse, balançando a cabeça com um sorriso de canto, sem abandonar o tom descontraído. — Algumas daquelas mudas vão demorar mais de um mês pra nascer de novo. Você devastou o meu canteiro de lavandas.


— Você devia ter botado ele pra arrancar só as ervas daninhas, Jesse — Jéssica riu, cobrindo a boca com a mão ao olhar para o meu rosto fechado. — Aliás, nem isso! Com o humor que ele tava hoje, era capaz de ter arrancado a estufa inteira do chão.


Respirei fundo mantendo a cara mais emburrada do mundo enquanto aqueles dois riam da minha situação.


— Que bom que a minha tragédia pessoal diverte tanto vocês dois — resmunguei, cruzando os braços enquanto entrávamos no pavilhão barulhento do refeitório.


— Ah, qual é, Adam? Podia ter sido muito pior — disparou Jéssica, no seu eterno e irritante hábito de tentar enxergar o lado positivo de tudo. — Você podia ter sido expulso do programa de monitoria! Pelo menos o professor Henderson te deu mais uma chance, não é?


Soltei um suspiro teatral, soltando os braços e rolando os olhos ao entrar na fila dos pratos:


— É... talvez vocês estejam certos.


Mas o universo pareceu ouvir o meu momento de resignação e decidiu agir na hora.

Não estávamos na fila há nem dois minutos quando o barulho inconfundível de risadas escandalosas e empurrões anunciou a chegada do grupo do time de futebol. Eles vieram em bando, exalando aquela arrogância barulhenta de quem se acha dono de cada centímetro da escola, e simplesmente furaram a fila bem na nossa frente, ignorando todo mundo como se fôssemos invisíveis.


A minha paciência, que já estava por um fio, simplesmente arrebentou.


— Seus cachorros imundos! Estão furando a fila! — acusei em alto e bom som, a voz carregada de uma irritação afiada que fez alguns alunos ao redor se encolherem.


— Porque a gente pode — disse uma voz zombeteira bem atrás de mim.


Virando o corpo devagar, dei de cara com a figura odiosa do meu primo. John estava acompanhado de mais dois jogadores — caras altos, do tipo troglodita padrão, dos quais nem me dei ao trabalho de guardar os rostos ou nomes.


— Temos um jogo importante hoje à noite, então temos passe livre pra dia de rei, priminho — completou Johnny, esboçando aquele sorriso de canto canalha que me fazia ter vontade de quebrar um prato na cara dele.


— E o que nós temos a ver com a porcaria do seu jogo? Se quer comer, vá para o fim da fila! — mandei, firme, sem dar um passo para trás. — Estávamos aqui primeiro.


— Não seja tão egoísta, seu esfomeado de merda — John disparou, dando um passo à frente e me empurrando com o ombro sem a menor cerimônia ao passar na minha frente. Em seguida, o olhar dele caiu sobre a Jéssica, e a postura dele mudou para aquele charme barato de sempre: — E aí, gatinha? Beleza?


Jéssica vergonhosamente corou na mesma hora, desviando o olhar para o chão e ajeitando uma mecha de cabelo ruivo atrás da orelha. A reação dela só me irritou ainda mais.


— John... — cerrei os dentes com tanta força que senti a mandíbula estalar, a ponto de voar no pescoço dele ali mesmo. Ele me olhou com profundo desdém. — Sai. Daqui.


Eu normalmente não interagia com o Johnny na escola, na verdade em lugar nenhum. Fazia tempo que eu não pisava na casa dele, e em reuniões de família eu quase sempre ficava colado nos meus pais, mantendo uma distância de segurança. Mas quando o confronto era inevitável, a atmosfera ficava insuportável. Eu não suportava olhar para a cara dele, especialmente quando ele vestia esse personagem de rei do colégio.


— Como quiser — ele levantou as mãos em sinal de falsa rendição, soltando um riso debochado. — Abre espaço aí, gente! Deixa meu priminho passar, não queremos ver o gênio estressado.


Os idiotas do time deram risada e realmente abriram espaço, zombando com gestos dramáticos.


Trincando os dentes, passei junto com Jesse e Jéssica. Pegamos nossos pratos e nos servimos em silêncio, a tensão ainda pulsando no ar.

Quando terminei de me servir e segurei a bandeja pesada com meu prato de macarrão ao molho vermelho, me virei para caminhar até a mesa.


Foi no milésimo de segundo em que dei o primeiro passo que senti o pé firme de John se projetar no meu caminho.


Não tive tempo de reação.

Tranquei a perna e caí com tudo no chão de azulejo. O barulho do metal da bandeja se chocando contra o piso ecoou por todo o refeitório, seguido pelo som abafado do prato se estilhaçando e o molho quente de tomate se espalhando inteiro pela minha camisa, pelas minhas calças e pelas minhas mãos.


Um segundo de silêncio absoluto tomou conta do pavilhão. E então, como se tivessem combinado, uma chuva de risadas estridentes e vaias explodiu de todos os lados.


— Nossa... que sujeira — disse a voz de John, vindo de cima. Ele me encarava com as mãos nos bolsos e um sorriso cruel estampado no rosto. — Devia limpar isso, priminho...


A raiva me cegou de tal forma que o sangue pareceu ferver nas minhas têmporas. Eu estava a ponto de me levantar, voar no pescoço dele e fazê-lo engolir cada grama daquele macarrão que cobria o chão. Apoiei as palmas das mãos no piso besuntado de molho para me impulsionar, mas o braço escorregou e eu caí de novo, batendo o cotovelo e provocando uma nova onda de gargalhadas do bando ao redor.


— Qual é? Precisava disso? — uma voz grave e firme cortou a barulheira, vindo do lado do John, mas no meio do pânico e da humilhação eu não identifiquei de quem era. — Aqui, deixa eu te ajudar...


Antes que eu pudesse entender, senti duas mãos fortes me segurando com firmeza pelos braços e me pondo em pé.


Assim que me firmei sobre os dois pés, olhei para a frente. O cara que tinha acabado de me puxar era um dos jogadores do bando do John — um cara alto, encorpado, de cabelo castanho-dourado e olhos atentos que me encaravam com algo que parecia preocupação.


Me movi por instinto puro. Tomei a raiva acumulada por John, pelo colégio e pelo meu dia miserável e a direcionei inteira para aquele sujeito.


Em um gesto brusco, dei um tapa violento na mão dele, afastando o contato como se a pele dele queimasse a minha. Olhei para aquele rapaz com todo o ódio e a repulsa que estavam entalados na minha garganta.


— Tire a mão de mim, au-au! — disparei, a voz baixa, rasgada e carregada do mais puro e tóxico desprezo, usando a mesma ofensa com que me referia aos cachorros do time.


O rapaz que tinha acabado de me ajudar congelou no lugar. Ele ficou completamente estático, os braços parados no ar, me encarando com os olhos levemente arregalados, sem saber o que dizer ou como reagir àquela explosão desmedida.


— Viu como ele é? — John zombou ao lado, cruzando os braços e aproveitando a oportunidade para alimentar o espetáculo. — Você tenta ajudar o esquisito e ele ainda acha ruim!


— Vem, Adam. Vamos limpar isso no banheiro — disse Jesse, aparecendo do meu lado com a expressão séria. Ele me pegou firme pelo braço, puxando-me para longe do centro das atenções.


Dei as costas, pisando pesado e tremendo de raiva enquanto o molho escorria pela minha camisa. De longe, Jéssica assistia a tudo parada ao lado da fila, com os olhos arregalados e as mãos cobrindo a boca, sem saber o que fazer.


— Qual é, priminho? Volta aqui! Não vai comer a sua comida? — a voz alta de John ecoou pelas minhas costas, acompanhada por mais gargalhadas que só sumiram quando a porta do banheiro masculino se bateu atrás de mim e do Jesse.


O barulho abafado da água caindo da torneira e o som do papel-toalha rasgando eram as únicas coisas que preenchiam o silêncio tenso do banheiro masculino.

Eu estava inclinado sobre a pia, esfregando o tecido da minha camisa com água fria. O molho de tomate já tinha deixado uma mancha alaranjada horrível no pano claro, mas o que me queimava de verdade era o peito e as lágrimas raivosas que insistiam em fugir dos meus olhos. A sensação do piso frio, os risos ecoando, a cara de deboche do Johnny... e aquele garoto estendendo a mão para mim como se eu fosse um coitado desvalido.


— Adam, respira fundo.— disse Jesse, encostado na parede ao meu lado. Ele limpava uma mancha de molho que tinha respingado no meu antebraço com um pedaço de papel úmido. — Se você continuar esfregando essa camisa assim, vai rasgar o pano.


— Que rasgue — rosnei, sem olhar para ele. — Eu odeio ele, Jesse. Eu odeio aquele imbecil e todo mundo que orbita ao redor dele.


— Eu sei, cara — Jesse suspirou, pegando mais papel. — O John é um babaca. Sempre foi. Mas você não precisava ter descontado naquele outro garoto. Ele só tentou te levantar.


— Ele é um deles! — levantei a cabeça, encarando o espelho com a pele do rosto em chamas e os olhos verdes faiscando de raiva. — Um daqueles cachorros adestrados que correm atrás do John fazendo tudo o que ele manda. Qualquer um que anda com o meu primo é farinha do mesmo saco. Não preciso da pena de nenhum deles.


Jesse me olhou pelo espelho por longos segundos. Ele conhecia bem demais as minhas feridas para tentar discutir quando eu estava naquele estado, mas soltou uma frase simples antes de jogar o papel no lixo:

— Às vezes sua armadura corta as pessoas erradas, Adam.


Tirei a camisa ensopada, joguei no lixo do banheiro e vesti o casaco do colégio direto sobre a pele, puxando o zíper até o queixo.


- Ele vai ver só uma coisa, só espera! — Peguei meu celular começando a fazer algumas ligações. — Quem rir por último, ri muito melhor.


Enquanto isso, no refeitório, o tumulto já tinha começado a se dissipar, mas o clima na mesa do time continuava estranho.


Matt continuava parado no mesmo lugar onde Adam o havia repelido. Ele encarava a própria mão — a mesma mão que tinha levado um tapa seco e áspero alguns minutos atrás. Ele não se demorou muito para sentar juntos dos outros caras. A sensação da pele fria do garoto e aquele olhar de ódio puro que viera acompanhado do insulto "au-au" ainda ressoavam na sua cabeça.


— Fala sério... que garoto maluco — resmungou Tyler, um dos jogadores, sentando-se e abrindo um refrigerante. — O cara é um surtado. Você foi ajudar e quase levou uma mordeira.


— Eu te avisei, Novaes — John deu uma risada curta, sentando-se à mesa e pegando um pedaço de pão. — Meu primo é um caso perdido. O garoto é amargurado com o mundo, vive com o nariz em pé achando que é melhor que todo mundo só porque lê uns livros velhos. Não vale a pena ter pena.


Acabei não falando nada, muito menos rindo da situação. Aquela situação toda fora desnecessária e incômoda para Matt.


Na cabeça de Matt, aquele rapaz não parecia a de um garoto "arrogante". Quando ele segurou Adam pelos braços para levantá-lo, sentiu o quanto ele estava tremendo. Viu a humilhação nos olhos verdes antes do ódio assumir o controle. Não parecia soberba; parecia um animal ferido atacando por puro desespero para não ser tocado.


— E aí, Novaes? Tá no mundo da lua? — John deu um tapa fraco no ombro dele. — Esquece esse esquisito. A gente tem jogo importante hoje.


— É... tô ligado — Matt respondeu curto, cutucando a comida no prato sem fome alguma.


Dei uma olhada rápida na direção da porta do banheiro, vendo quando uma garota ruiva — se aproximou do garoto que entrou no banheiro com o primo de John assim que eles saíram. A expressão dela era de pura preocupação, Ela e o Rapaz engataram cada um no braço dele, cujo o mesmo Adam lançou um olhar mortal na direção de John passando os dedos pelo pescoço em sinal de degolar, deixando bem claro de que faria algo pra se vingar.


Pela primeira vez durante aquela situação toda, Mat quis rir. Não porque achou graça, mas porque o garoto não parecia ser daqueles que abaixam a cabeça, e depois dessa ameaça velada, John não perdia por esperar.


Matt franziu o cenho. Lembrou-se subitamente da conversa que tivera no vestiário mais cedo com o treinador e com o John.


"O treinador disse que vai me arrumar um tutor de reforço..."


"Se não me engano, o Adam faz parte desse grupo aí da monitoria..."


Um arrepio desconfortável passou pela espinha de Matt. Ele olhou para o garoto de casaco sumindo pelo corredor do refeitório e engoliu em seco.

Se o tal tutor que o treinador falou que iam me designar fosse realmente o Adam... o primeiro encontro deles na biblioteca no dia seguinte seria nada menos que um desastre anunciado.

Notas finais
Não sei se espero as pessoas lerem para postar o próximo, estou ansiosa para compartilhar essa história que se apaixonem pelos personagens como eu sou apaixonada. Se estiverem gostando, por favor comentem! Até o próximo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.