Entre Linhas

3 O Colar e a Porta


Notas iniciais
limiar (ponto que constitui um limite, geralmente inicial)

No Castelo

A jovem senhorita correu os dedos sobre o colar prateado que encontrara entre as rosas — sua corrente fina ainda guardava o calor do pescoço da desconhecida. As pérolas azuis cintilavam à luz do entardecer, tão estranhas quanto a mulher de vestido vermelho que desaparecera como fumaça.

Alguém deve tê-la visto... — murmurou, insistindo com os servos.

— Alguém viu uma mulher de vestido vermelho no jardim hoje? — perguntou a um servo, que apenas balançou a cabeça, confuso.

Mas cada cabeça que negava aumentava o frio em sua nuca. Como uma mulher inteira poderia sumir sem deixar rastros? A não ser que...

Ninguém lembrava. Ninguém sabia.

O colar em sua palma provava o contrário. Com cuidado, escondeu-o no bolso de seu vestido, prometendo a si mesma que um dia devolveria o pertence àquela figura enigmática.

Quem quer que você seja, pensou, espero que esteja a salvo.

Na Taverna Cervo Dormente

Quando a porta se abriu, todos os olhos se voltaram para a figura esfarrapada na entrada — uma mulher com vestido vermelho, cabelos emaranhados e olhos selvagens. A taverna Cervo Dormente cheirava a pão queimado e cerveja velha.

Meus pés ensanguentados deixavam marcas no chão de madeira da taverna. Os olhares dos frequentadores perfuravam minha pele suja, meu vestido esfarrapado que, mesmo em frangalhos, ainda era demasiado revelador para os padrões deste lugar.

Um lugar para ficar... por favor — minha voz soou mais frágil do que pretendia.

O dono da taverna, um homem de ombros largos e sobrancelhas cerradas, examinou-me como se eu fosse um animal doente.

Sem dinheiro, sem teto — resmungou, limpando um copo manchado. — Que garantias me dá?

Minhas mãos — as estendi, tremendo. — Posso esfregar, limpar, servir...

Foi então que ela apareceu — Celeste, com seu rosto redondo iluminado por uma candeia.

Oh, pobre criatura! — exclamou, afastando o marido com um empurrão suave. — Olhe para ela, Jacques! Parece ter caído direto do céu.

Enquanto Celeste me observava com curiosidade, comentou:

— Seu vestido... é diferente. Como os que usamos para dormir, mas mais ousado.

Sorri, puxando o tecido solto.

— Onde eu venho, as mulheres tem mais liberdade.

Ela riu, como se eu tivesse feito uma piada.

O banho que me ofereceram foi o primeiro milagre. A água quente levou embora não apenas a sujeira, mas também parte do terror que me ossificava. Enquanto Celeste me vestia com roupas emprestadas — camadas e mais camadas de tecido que me sufocavam gentilmente — me senti pela primeira vez invisível, e portanto, segura.

O Livro e a Porta

Na solidão do quarto emprestado, abri minha bolsa e espalhei meus pertences sobre a cama: meu celular , um pacote de balas derretidas,Pausa Procurei e não encontrei o meu colar .- balas de hortelã, um grampo de cabelo, e o livro — aquele maldito livro que me trouxera até este pesadelo encantado.

"Guia para Viajar Através do Tempo" agora parecia menos uma curiosidade e mais um manual de sobrevivência. Folheei as páginas até encontrar a passagem sobre portas:

"As portas são limiares entre os tempos. Para voltar, visualize seu lar ao atravessar uma. Mas cuidado — o tempo raramente devolve o que rouba."

Fiquei diante da porta do quarto, o livro pressionado contra meu peito como um escudo. Fechei os olhos e invoquei cada detalhe de meu apartamento: o cheiro de café da manhã, o barulho do tráfego lá fora,A cafeteira azul, a mancha de umidade no teto que parecia um mapa da Islândia...

Avancei em direção à porta do quarto, o coração batendo como um tambor...

Me leve para casa — supliquei, e dei um passo à frente.

O ar não se partiu. Nenhuma luz dourada me envolveu. Apenas o olhar estupefato do Sr.Jacques, que segurava um balde de água suja e me observava como se eu tivesse enlouquecido.

A... a senhora está bem? — gaguejou ele, recuando.

Sorri, embora cada músculo do meu rosto doesse.

Perfeitamente — menti, enquanto por dentro, algo em mim se quebrava.

Não funcionou.

— quantas tentativas preciso fazer até eu desaparecer de vez?