Presente

Finalmente estava em casa novamente, podia ver minhas olheiras fundas no espelho. Analisando minha face no espelho por um segundo senti que nada do que vivi foi real e por um momento desejei não ter feito a promessa para a princesa dalia. Suspirei, deitei e comecei a fazer um mapa mental das coisas que precisava para levar para o passado.

1° Remédios para o coração do rei:

Ele está em estado crítico. Preciso ir à farmácia. Comprar com receita de um parente idoso?Mas quem? Acho que vou pedir ao meu tio... eu poderia inventar uma história, dizer que é uma emergência. O risco era alto, mas a vida do rei dependia disso. Minha promessa a dalia dependia disso.

A minha volta, ao mundo moderno se mostrava, cheio de tesouros. Eu não podia voltar despreparada.

2° Meu kit de sobrevivência.

Antibióticos: Uma caixa de cada. Na Idade Média, uma simples infecção podia ser uma sentença de morte. Analgésicos e Anti-inflamatórios: Alívio rápido para dores que eles tratavam com sanguessugas e rezas. Antisséptico: Um pequeno frasco de álcool 70% e iodo . Para limpar feridas. Itens de higiene: Sabonete antibacteriano. Pasta de dente e escovas extras. Absorventes higiênicos. Coisas básicas que eram um abismo de conforto entre a minha época e a deles. Ferramentas: um canivete pequeno. Agulhas e linhas. Fósforos à prova d'água guardados em um tubo plástico. Tudo isso seria visto como magia, mas para mim é a linha tênue entre a vida e a morte.

3° A Arma mais poderosa que vou precisar — O CONHECIMENTO

Me deitei de lado,abrindo os olhos para olhar a tela escura do meu laptop. Fiz uma pesquisa aprofundada sobre tudo: política, medicina, entre outros. Precisava parecer entender, ou pelo menos não desafiar abertamente seus métodos, enquanto introduzo os remédios modernos com discrição. Não bastava levar os remédios. Precisava anotar, em uma caligrafia que imitasse a da época, as dosagens exatas, os horários, os efeitos colaterais.


2 Horas Depois


O mapa mental estava completo. Me levantei da cama com o corpo pesado, mas a mente estava afiada. A minha viagem de volta não foi um descanso mas sim uma missão. E o primeiro passo começou ali, naquele apartamento silencioso, com o peso de uma promessa me observando no reflexo do espelho.

O coração batia forte no meu peito, um tambor de ansiedade que ecoava no barulho do ônibus.

Convencer o tio Ricardo tinha sido mais fácil do que imaginei. Usei a desculpa de que era para um amigo desesperado. Ele, distraído com os próprios problemas, apenas resmungou e me passou a receita para a salvação de um rei medieval.

Na farmácia, as minhas mãos suaram enquanto entregava o papel. Cada segundo que o farmacêutico digitava no sistema era uma eternidade. Quando ele finalmente me entregou os comprimidos embalados a vácuo, dentro de suas caixas, senti um alívio. A primeira parte da missão estava cumprida.

Foi no caminho de volta para casa, no ônibus parada em um sinal vermelho,que vi o cartaz. Pendurado em um poste antigo, com cores escuras e letras estilizadas: "ÉPOCAS PERDIDAS: Uma Jornada pela História".

Uma exposição de arte. Algo que, em qualquer outro dia, eu ignoraria completamente. É só uma curiosidade, pensei, enquanto o sinal ficava verde e eu, quase por um ato involuntário, apertei o botão para descer em direção ao antigo museu municipal. Pode haver algo útil.

O interior do museu era frio e silencioso, com aquele cheiro característico de poeira e madeira envernizada. Paguei o ingresso e entrei na sala principal, onde as pinturas estavam nas paredes cor de vinho. Caminhei devagar, meus tênis fazendo um ruído quase imperceptível no piso de mármore. Observei cavaleiros em armaduras brilhantes, damas com vestidos esvoaçantes, paisagens de castelos sob céus tempestuosos. Tudo era familiar de uma forma que agora doía.

E então, eu vi.

O quadro de um rei que de certa me parecia familiar, me fazia lembrar da princesa dalia. Ele estava sério, olhando firme para o artista, com uma autoridade que transcendia a tela e o tempo. Era como se ele estivesse ali, na minha frente, me julgando.

Uma força magnética me puxou para mais perto, meus passos ecoando no mármore. Meus olhos, então, desceram para a pequena placa de latão ao lado da moldura.

E li.

"Rei Maximus II, 'O Justiceiro'

Nasc. c. 1165 — Morte em 1223

Governou o Reino de Sirius por 25 anos. Historiadores dizem que a causa da morte foi de uma doença cardio vascular , deixou cinco herdeiros, cujo a disputa pelo trono mergulhou a região em uma guerra de sucessão que durou décadas."

Morte em 1223.

A promessa queimou na minha alma como ferro em brasa. A imagem de Dalia, seu rosto marcado pela dor não apenas da perda, mas do colapso de todo o seu mundo, invadiu minha mente.

O ar faltou. Eu não tinha mais tempo para preparativos meticulosos. Não havia mais espaço para duvidas ou medo.

Preciso voltar. Agora.

Me virando, quase corri em direção a saída. A viagem não era mais uma escolha. Era uma corrida contra a morte.

O apartamento pareceu um casulo vazio quando eu entrei, ofegante, a chave caindo de minhas mãos no chão. Não havia tempo a perder. Cada segundo era um grão de areia escorrendo na ampulheta do Rei Maximus. Corri até o quarto, meus olhos fixos na minha "bolsa de sobrevivência" que era quase uma mala.

Em seguida, agarrei o livro. A capa de couro estava fria ao toque, mas parecia pulsar com uma energia latente. Não havia tempo para cerimônias ou despedidas. Sentei no chão da sala, coloque a bolsa no ombro, e abri o livro no colo. Suas linhas precisas capturando uma grandeza que eu conhecia. "Por favor," sussurrei, um fio de som no vazio do apartamento. "Me leve de volta. Agora."

Concentrei meus pensamentos, mas precisamente nos detalhes sensoriais : o piso frio sobre os pés descalços, o eco de vozes sob os corredores do palácio, e o temor que impregnava os aposentos reais.

Por um momento, nada aconteceu. Apenas o silêncio do meu apartamento. Então, uma sensação de calor começou a emanar do livro, queimando através das minhas palmas. Um zumbido cresceu nos meus ouvidos, enchendo minha cabeça até que não houvesse espaço para outro pensamento.

E então... a luz.

Não era uma luz suave, mas uma explosão de branco puro e absoluto que apagou o mundo. Era como ser arrancada da própria realidade, cada partícula de mim sendo desfeita e puxada para um turbilhão.

Dessa vez a sensação foi violenta e nauseante.

Quando a luz branca se dissipou tão rápido quanto surgiu, a primeira coisa que me atingiu não foi a visão, mas um som.

Um choro.

Um choro baixo, rouco, feminino. Era o som do desespero que não tinha mais palavras, o lamento de um coração partido ao meio.

Eu estava no corredor. O corredor frio e escuro que levava aos aposentos do rei. A pesada porta de carvalho estava entreaberta, e aquele som vinha de lá.

Tentei me levantar, mas minhas pernas ainda estavam tremulas da viagem. Minha mão se apoiou na parede áspera e fria para me equilibrar. Foi quando meus olhos, ainda se ajustando à escuridão, encontraram os dela.

A Rainha estava encolhida no chão, ao lado da porta, como se suas pernas tivessem simplesmente se recusado a levantar. Seu olhar vago passou por mim primeiro, sem registrar. Eu era apenas mais uma sombra em seu campo de visão repleto de pesadelos. Mas então, seus olhos, da cor de um céu nublado, focaram. A dor deu lugar a um clarão, e então a um lampejo de algo tão frágil que mal ousava se formar: esperança.

Ela esticou o braço, seus dedos finos e gelados envolvendo meu pulso com um desespero que surpreendeu. "Você voltou," ela chorou, sua voz soou como um fio quebrado de alívio e desespero.

Ela não questionou. Não perguntou de onde eu vinha ou como eu aparecera ali naquele exato momento. Naquele instante, eu não era uma estranha. Eu era a promessa. A única salvação em um mar de escuridão.

"Entre" ela suplicou, me segurando com uma urgência desesperada. Sua força era surpreendente, me puxando para a escuridão do aposento. "Por favor, entre. Ele... ele não tem muito tempo."

Para onde a sombra da morte se agachava, espessa e impaciente, a beira do leito do Rei Maximus.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.