Entre Les Anges Et Les Démons

3 Quando acaba a esperança o que se faz?


“Eu não espero muita coisa de mim. Espero que vocês também não”

24 de dezembro de 1998

_Não eu não vou poder ir. — eu dizia ao telefone.

_Por que? — do outro lado a voz me questionava.

_Eu já expliquei que eu troquei de turno com a outra caixa, eu vou ficar até o mercado fechar, não vai dar pra chegar ai tempo, mãe.

Dizer pra minha mãe que era mais um natal que eu ia passar longe era um tormento. Ela sofria com minha ausência, eu sei. Mas se eu fosse seria bem pior. Eu já estava cansada disso.

_Mãe, agora vou precisar desligar, outra hora a gente se fala, tchau.

_Esta bem, minha filha, fique com Deus, beijo.

_Tá. — disse e pus o telefone no gancho.

_Que mania de colocar Deus em tudo. Mas que chatice. Hoje eu tenho um longo dia.

Joguei uma almofada na cara da Jakeline, que estava meio adormecida no sofá.

_Eh, Hoje é Véspera de Natal. — disse ela ainda meio sonolenta.

_Hum. Grande coisa. Para mim é mais um dia normal de trabalho, só que começa mais tarde.

_Por que?

_A Mikaely queria viajar para o interior ainda esta tarde então troquei de horário com ela. Pra mim não tinha problema nenhum já que eu não tenho pra onde ir.

Ela olhou pra mim e riu.

_Sua mãe acabou de te convidar.

_É, mas não conta.

_E por que não?

Respirei fundo mas não consegui dar uma resposta a ela. Jakeline e eu não eramos grandes amigas ou coisa do tipo, na verdade eu não tinha ninguém a quem pudesse chamar de melhor amigo. Mas gostava de conversar com ela de vez em quando. Assuntos bobos casuais, nada muito profundo.

Dei o meu melhor sorriso de boba.

_Preciso ir, to atrasada.

O mercado hoje estava fervendo. Também, a data mais importante do ano (será?). São panetones, chesteres (como se escreve isso?), peru, frango, castanha, uva, limão, azeite, amêndoas, tudo isso e todo o resto que se come no natal ( se é que se come isso que eu citei, isso é porque trabalho em um mercado, nem sei o que vendo). São pessoas desesperadas comprando presentes para amigos e parentes e comida (pra si próprio?). E onde se encontra tudo em um só lugar? Mercado. E sobra pra caixa lerda. É claro que a caixa registradora ou o idoso com dois carrinhos lotados não têm nada a ver com isso. O problema sou eu. Meu trabalho é muito estressante.

Eu queria tanto sair daqui. Ir pra qualquer outro lugar. E eu não falo somente de emprego, eu estou falando... Eu não sei do que estou falando. Por que eu não sei pra onde eu quero ir.