Entre Les Anges Et Les Démons
4 Contatos Imediatos do Terceiro Grau
“Se existe os céus, as trevas também devem existir.”
Ela saiu tarde do serviço, como já era esperado. O mercado fechou as portas as 22:14, porém o último cliente saiu quase uma hora depois. Ela nem trocou o uniforme, tratou de ir logo embora. As ruas de sua vila eram isoladas e perigosas, e em feriados como esses sempre aparecem aproveitadores.
Despediu-se de seus colegas de serviço com um Feliz Natal forçado, sinceramente era egoísta demais pra desejar isso pra eles. O mesmo podia ser dito deles.
Saiu pela porta dos fundos que dava no estacionamento do mercado. Abriu o portão de ferro, fechou-o, e encarou a escuridão a sua frente.
Sua casa não era longe, o problema era o caminho que tinha que seguir. A rua detrás do mercado era deserta e cheia de ferro velhos, e depósitos abandonados. Nem parecia. Quem via aquele \'Supermarket\' todo imponente nem imaginava a miséria que morava no fundo.
Seguiu o mais rápido que pode pela rua inabitada. Não podia ir muito longe com aqueles sapatos.
Machucaram-lhe o pé o dia inteiro. Isso é o que dava comprar sapatos baratos. Só compraria de marca de agora em diante.
Na esquina ela virou a esquerda, na Rua do Rio, como era conhecida, por causa do rio cheio de ratos que tinha no meio da avenida. Atravessou a pequena ponte para o outro lado da calçada e começou a pior parte do trajeto: o escadão.
Não era um escadão qualquer, era um IMENSO escadão, rodeado por terreno baldio cheio de mato, onde vagabundos e drogados costumavam ficar de bobeira. Não era qualquer um que se aventuraria por ali as 23:30 da noite, mas não tinha jeito. Ela não tinha outro lugar para ir.
Respirou fundo, e corajosamente começou a subir. Normalmente demoraria uns 20 minutos na subida, mas cansada do jeito que estava e com os pés machucados, mesmo com pressa, achava que iria demorar mais de meia hora.
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5… 10... 15 minutos...
Olhou para cima. Ainda estava longe. Continuou a subir.
-crash-
Ouviu um barulho a sua direita. Parou de andar e passou a observar. Provavelmente não era nada. Talvez ela mesma tenha feito o barulho mas...
-crash-
De novo, e dessa vez a sua esquerda. Balançou a cabeça em negativo, estava imaginando coisas. Estava impressionada com a atmosfera do lugar, o clima isolado...
-clash-
Só podia ser brincadeira! Isso! Era alguma brincadeira de mau gosto desses trombadinhas que moram pela redondeza.
Olhou ao redor procurando por alguem ou alguma coisa. Não achando nada, voltou a subir, dessa vez mais rápido.
-grrrr--
Assustada com o grunhido que lembrava algum animal começou a correr, porém seu salto enroscou na beirada do degrau da escadaria e ela caiu dando um mal jeito no tornozelo.
-grrrr--
Novamente o mesmo som. O que estava acontecendo? Até então ela tinha certeza que era alguma brincadeira de criança e agora...
-grrrr---
_Socorro. — ela sussurrou, sem coragem pra aumentar a voz. Mas ninguém a ouviu.
Parecia que a vila toda havia viajado para passar o Natal fora da cidade. Mas ela não tivera para onde ir. E agora estava naquela situação. Permaneceu sentada onde caíra, sem ter ideia alguma de como reagir a uma situação dessas. Qual é a regra nestes casos? “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come?” Por que se for ela estava encrencada.
Perdeu a noção de quanto tempo passou ali parada sem reação alguma, e nem conseguiu prestar atenção se a criatura (que outro nome chamar?) ainda estava por perto.
Lentamente resolveu se levantar. Como nada se manifestou, começou a subir o escadão de novo quando...
_Ai!
Uma pedra atingiu sua cabeça causando um pequeno corte. Sentiu um liquido quente escorrer pela sua testa. Uma gota de seu sangue caiu ao chão.
Já esgotada física e mentalmente, gritou para a escuridão que a assediava:
__Quem está ai? O que você quer? Da pra parar com iss...
--shhhhh----
E foi a ultima coisa que ela ouviu.
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