Entre Lágrimas e Sorrisos
4 A Garota Que Isaac Se Interessa
Notas iniciais
PRESENTE...
Acordo com essas lembranças do passado. Fazia tanto tempo que isso tinha acontecido, mas minha impressão é como se estivesse acontecido naquele momento. Naquela época Agatha gostava de mim, mas e agora? Essa pergunta me perturbava todo dia.
A primeira semana de aula passara rápido. Na segunda, já estávamos cheios de trabalhos e deveres de casa. Os professores estavam nos acabando, e como esperado, os alunos reclamavam a beça. Isaac ficara encantado com a menina gótica-asiática, que se deu o trabalho de decorar seu nome logo no primeiro dia de aula: Hanna Kitomoto. Ficamos a observando por um tempo – não era por menos, a cada movimento que a menina fazia Isaac me chamava à atenção – e notamos que ela não tinha amigos, pelo menos na escola, era calada e muito na dela. O porquê disso ninguém sabia, pois ninguém a conhecia.
E lá estava ela, sentada perto da parede, um pouco afastada dos outros alunos enquanto movia os dedos na tela de seu celular e os fones tendo o trabalho de tampar os seus ouvidos. O que levava uma pessoa a ser daquele jeito? Não pelo fato de ela ter uma aparência diferente dos outros, até curtia o seu jeito de vestir, mas... a sua atitude. De ficar calada, de não se enturmar, de se fechar em seu mundo. Será que ela sofria Bulling? Ou problemas na família? Seja qual fosse o motivo, eu estava começando a querer conversar com aquela menina, tentar trazê-la para o mundo real. Ou deixaria Isaac fazer isso, já que ele estava tão interessado nela.
– Bom dia gente. Vamos sentando que a aula já tá começando.
Saio de meus devaneios quanto o professor entra na sala e profere suas palavras. Logo após ouço cadeiras se arrastando, vejo alunos se sentando e cadernos sendo tirados da mochila, bem como o maldito livro de historia. Odeio essa matéria! Pra quê estudar o passado?
– Bem gente, hoje vocês irão fazer um trabalho baseado na Guerra Fria. Será em equipe, então vão logo se ajeitando e procurando a sua. O mínimo por equipe é três, o máximo é cinco.
Perfeito! Agora poderíamos chamar Hanna para a equipe e fazê-la ficar mais a vontade na escola! E tinha certeza absoluta que ela não iria recusar.
– Ei, nós podemos chamar a Hanna! – Fala Isaac.
Pelo visto ele pensara na mesma coisa que eu.
– Pode chamar ela.
Acompanho com o olhar Isaac se aproximar de Hanna e aguço ao máximo meus ouvidos a fim de ouvi-los.
– Oi. – Começa Isaac.
A garota ergue a cabeça, o olha e volta a focar o seu caderno agora já aberto.
– Errrr... Olha só, o trabalho é em grupo, e no nosso tá faltando mais uma pessoa. Você quer fazer mais a gente?
– Não, eu vou fazer sozinha.
– Mas o trabalho é em grupo.
– Porque você quer que eu faça parte de sua equipe?
– Porque... Só tem eu e meu amigo ali.
Hanna olha em minha direção, me fazendo desviar bruscamente o olhar que até então permanecia nos dois. Alguns segundos passam, e observo de relance Isaac se aproximar com um meio sorriso no rosto. Será que ele tinha conseguido? Tenho minha resposta assim que vejo Hanna acompanhado-o e sentando em uma cadeira próxima. Isaac permanece com o sorriso no rosto, como que estivesse satisfeito por ter pelo menos falado com ela.
O trabalho se resumia a perguntas e respostas, então seria ‘mamão com açúcar’. Se fizéssemos rápidos, com certeza acabaríamos antes de o sinal tocar e teríamos tempo para descansar.
– Bem, então vamos começar né?
[...]
Tinha sido do jeito que eu pensei. Acabamos o trabalho bem mais rápido que os outros e não precisamos ficar no intervalo fazendo o trabalho. Olho para o lanche da escola antes de ver Isaac se aproximando. Ele estava focando algumas mesas à frente, e fico curioso para saber o que estava chamando tanto a atenção dele.
– O que tá olhando? – Pergunto.
– Hanna. Ela sempre senta sozinha no refeitório. Porque ela não se enturma com ninguém?
– Sei lá, talvez porque ninguém vai lá falar com ela.
– Isso foi uma indireta pra mim?
– Talvez. Eu sei que tá com vontade de ir falar com ela.
– Eu mesmo não!
Olho-o com desdém.
– Tá bom, eu tô.
– Então vai lá!
– Falar o quê?
– A meu deus cara, tu não sabe puxar um assunto com uma menina não?
– E tu sabe?
– Deixa de ser mole e vai logo falar com ela antes que eu te dê um pescotapa!
– Tá, sei... Beleza, eu vou lá.
– Vai lá Romeu.
– Olha quem fala. – Isaac se levanta.
Isaac passa por umas mesas, alguns alunos que riam alto e finda na mesa onde Hanna estava, quieta como uma estátua. Isaac me contara como foi a conversa, já que eu estava longe e não podia ouvir, obviamente.
– Oi Hanna. – Começa Isaac.
– Oi. – Fala Hanna friamente.
– posso me sentar com você?
– Tanto faz.
Isaac senta, ajeita os óculos, oberva-a, olha ao redor e continua.
– Você é nova na escola?
– Olha só, dá pra parar de tentar ser legal comigo? Porque está fazendo isso?
Isaac se surpreende, mas se recompõe.
– Porque quero ser seu amigo. Eu vi que você é tão sozinha, tão calada. Aí eu pensei que você não tivesse amigos.
– Ninguém quer ser meu amigo.
– Eu quero.
– Por quê?
– Porque eu acredito que dentro dessa coisa dark e misteriosa exista uma menina meiga e amável, pronta para ser descoberta.
– Você não me conhece.
– Mas tô disposto a conhecer.
– Você sabe que se começar a andar comigo vão falar coisas ruins sobre você.
– E quem disse que eu ligo? Já falam muita coisa ruim sobre mim, acredite. Sou gordo, feio, cara de nerd, quer mais o quê? Só faltam me pintar de verde e me chamar de Sherk!
Hanna ri.
– Você não é feio. – Fala Hanna. – Olha só, me desculpe se eu pareci uma otária agora, é que... Mudança de escola sempre me deixam estressada, e minha família não tá colaborando nem um pouco. E nunca me saí bem em fazer amigos. Mas você parece um cara legal.
– Viu! Eu tinha razão!
– Em quê?
– Que você não é quem aparenta ser.
Isaac olha para seu lanche.
– Droga, esfriou. Bem, o que não mata, engorda né?
Hanna ri novamente, fazendo o orgulho subir no peito de Isaac. Missão cumprida. Ele finalmente conseguiu fazer aquela menina quieta e calada conversar com ele.
O intervalo acabara rápido – como sempre – e logo nos encontramos na sala de aula. Isaac me falou de como foi a conversa com Hanna, o que particularmente achei impressionante. A conversa fora tão boa que ele até descobriu onde ela morava – não muito longe de nosso bairro, na verdade uns dois quarteirões a frente – e marcaram de ir junto com a galera. Então, quando a aula terminou, lá estava ela nos esperando do lado de fora.
Nos dirigimos para o grande portão de saída, onde Agatha e Cássio nos esperavam, possivelmente conversando sobre algo. Hanna estava entretida nas palavras de Isaac, que por sua vez falava pelos cotovelos, coisa que só acontecia quando estava feliz ou empolgado com algo. E com certeza ele estava muito feliz, e teria continuado a falar se não tivesse sido interrompido.
– E ai gente, como foi a aula? – Pergunto ao chegar perto de Cássio e Agatha.
– Chata como sempre. – Responde Cássio, revirando os olhos.
– Eu gostei! – Se expressa Agatha – Amiga nova?
– Ah, sim. Gente, essa é Hanna.
– Você é japonesa? – Pergunta Agatha.
– Sim.
Senti uma sensação como se Hanna estivesse se preparando para falar algo arrogante se Agatha fizesse piada de sua nacionalidade, mas o que Agatha fala a deixa surpresa e envergonhada ao mesmo tempo.
– Serio? – Se anima Agatha – E como é o Japão? É bonito como nas fotos? E os meninos?
– Ah... Eu não sei muito bem... Praticamente só nasci lá, passei meus dois primeiros anos antes de vim para o Brasil... Se interessa tanto assim pelo Japão?
– Tá brincando? Eu amo a sua cultura, suas comidas, apesar de nunca ter comido comida japonesa. Meu sonho é ir lá, algum dia.
– Gente, num é por nada não, mas vamos andando. – Interrompo – Tô morrendo de fome.
Começamos a andar.
– Ei Anthony – Continua Agatha – Eu tava pensando se a gente não podia ir ver um filme lá em casa, tipo, nesse final de semana, o que acha?
– É uma boa idéia.
– Você pode ir também Hanna.
– Perai, vocês mal me conhecem e já estão me chamando pra sair? – Retruca Hanna.
– E qual é o problema? Nós agora somos amigos, não somos?
– É que... – Hanna abaixa a cabeça – As pessoas se machucam quando ficam perto de mim – Fala quase como um sussurro.
– Não se preocupe, ninguém vai se machucar. – Falo – Eu te prometo.
Hanna se surpreende, mas logo acena, abrindo um sorriso. Aquele não era um sorriso qualquer. Era um sorriso sincero, do fundo do coração, como se tudo de ruim eu acontecera com ela – seja lá o que tenha sido – estivesse desaparecido, acabado. Era um sorriso de total confiança e segurança. E daquele dia em diante, Hanna passou a andar conosco. A ser uma de nós.
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