Entre Janelas e Confusões
1 Fogo Preso
A janela de madeira rangeu e se abriu de novo naquela mesma noite.
Desta vez, Lucy sequer se deu ao trabalho de se assustar. O estalo do trinco já havia se tornado um marcador de tempo previsível em sua rotina.
— Você bateu o seu próprio recorde hoje — comentou ela, mantendo-se sentada no centro da cama enquanto fechava o livro devagar, acomodando-o sobre os lençóis. — Duas invasões de domicílio no mesmo dia.
Natsu passou uma perna pelo parapeito, depois a outra, equilibrando-se com a agilidade que lhe era peculiar antes de saltar para o tapete do quarto.
— A primeira não conta — ele respondeu, endireitando o corpo. — Eu estava com o Happy.
— Ainda conta — ela rebateu imediatamente, arqueando uma das sobrancelhas e cruzando os braços. — Vocês dois entrando sem permissão pela minha janela continua sendo uma invasão.
— Tá, mas agora eu vim sozinho — ele disse.
O tom de sua voz saiu sério demais, despido daquela leveza infantil que costumava ditar suas interrupções. Aquela sutil mudança na frequência dele fez com que Lucy tensionasse os ombros, prestando atenção de verdade.
Natsu empurrou a janela atrás de si, isolando o quarto do vento noturno de Magnolia, mas não ostentou nenhum de seus sorrisos característicos. Ele começou a caminhar pelo espaço limitado do aposento, inquieto, a mão direita subindo para coçar a nuca num tique nervoso. Seus passos eram curtos, contidos demais para alguém que carregava energia suficiente para incinerar uma floresta. Ele parecia um dragão enclausurado em um território pequeno demais para sua própria natureza.
— Lucy… isso está uma bagunça do caramba — soltou ele de repente, parando os pés à beira do tapete. — Na minha cabeça. No meu peito. Em tudo.
Ela piscou, desarmada pela crueza das palavras dele.
— Do que você está falando, Natsu?
— De você! — ele respondeu rápido demais, os olhos escuros fixando-se nos dela com uma intensidade quase agressiva. — E de mim. E daquele negócio… daquele beijo no seu quarto. E do outro na biblioteca. E do Gray enchendo a porcaria do meu saco na guilda! Droga!
Lucy sentiu um calor imediato atingir a linha do pescoço e subir pelas bochechas.
— Natsu, respira um pouco…
— Não dá! — ele passou os dedos pelos fios rosados, desalinhando-os ainda mais. — Eu não sei o que é isso, mas fica travado bem aqui — ele bateu contra o centro do próprio peito com o punho fechado, um baque surdo que ecoou pelo quarto silencioso. — É idêntico a fogo preso. É irritante pra cacete!
Ela engoliu em seco, esforçando-se para manter a voz sob controle, em um tom didático e manso que contrastava com a ebulição dele.
— O que você está sentindo não é algo ruim, Natsu… — explicou, escolhendo as palavras com extrema cautela. — É apenas confusão. É afeto. É…
— É vontade — ele cortou, sem qualquer tipo de filtro ou hesitação social. — É uma vontade absurda de chegar perto. De repetir. De fazer de novo sem fazer a menor ideia de como pedir por isso. Isso por acaso é normal?!
Enquanto despejava as palavras, ele avançava em direção à cama sem perceber. Um passo firme. Depois outro.
Lucy recuou instintivamente até sentir a estrutura de madeira do colchão pressionar a parte de trás de suas pernas.
— Natsu…
— Eu fico pensando nisso o tempo todo — ele continuou, a voz reduzindo o volume conforme a distância entre eles evaporava. — E isso está me deixando maluco!
Quando ela deu por si, estava completamente encurralada. Natsu havia plantado as duas mãos espalmadas sobre os lençóis, uma de cada lado dos quadris dela, inclinando o torso robusto sobre o corpo dela. O rosto dele estava perto demais. Próximo o suficiente para que Lucy sentisse o hálito quente contra os próprios lábios e o som da respiração dele, curta e acelerada quase no mesmo ritmo desordenado em que o seu próprio coração martelava.
Lucy abriu a boca para falar. Queria organizar a situação, explicar os conceitos, estabelecer uma linha segura. Mas Natsu nunca fora um indivíduo moldado para esperar por explicações textuais.
O impulso puramente instintivo venceu a barreira da hesitação.
Ele inclinou o rosto o restante que faltava e roubou o beijo.
Desta vez, não houve a delicadeza contida dos encontros anteriores. Não foi um toque perfeito ou ensaiado; foi uma colisão intensa, urgente, carregada com o peso de tudo aquilo que ele não possuía vocabulário para nomear. Foi um contato que roubou o oxigênio dos pulmões de Lucy no primeiro milissegundo. Por puro reflexo e em busca de equilíbrio, os dedos dela fecharam-se contra o tecido da camisa dele, apertando-o enquanto sua mente tentava processar o turbilhão de sensações.
Quando ele finalmente recuou a cabeça, ambos partilhavam de uma respiração visivelmente ofegante.
— Eu… — Natsu quebrou o contato visual, desviando os olhos para a lateral da colcha, a pele do rosto inteiramente banhada em um tom escarlate. — Eu não sabia o que fazer. Então eu só fiz.
O silêncio que se instalou em seguida foi denso, quase palpável, mas vivo. Lucy pressionou a palma da mão contra o esterno, sentindo a própria caixa torácica subir e descer com rapidez.
— Natsu… — ela chamou em um sussurro. — Isso… isso também faz parte do que você está sentindo.
Ela ergueu o queixo, sustentando o olhar dele com um sorriso que misturava nervosismo e uma sinceridade desarmante.
— E, a partir de agora, você vai ter que aprender a lidar com isso. Com calma.
Ele engoliu em seco, os nós dos dedos ainda pressionados contra os lençóis.
— Droga… — murmurou ele, a voz ligeiramente rouca. — Isso é bem mais difícil do que enfrentar uma guilda das trevas inteira.
Lucy posicionou as mãos espalmadas contra o peito largo dele, aplicando uma pressão suave para afastá-lo minimamente.
— Espera — disse ela, ainda tentando recuperar o fôlego integralmente. — Nós precisamos conversar.
Ele franziu o cenho, claramente contrariado pela interrupção lógica.
— Conversar… agora?
— Agora — ela confirmou com firmeza. — Porque se nós não fizermos isso do jeito certo, vai virar uma confusão generalizada.
Natsu cessou o movimento de avanço, mas recusou-se a recuar o corpo. Permaneceu ali, quebrando a distância social comum.
— Fala — respondeu baixo.
Lucy engoliu em seco mais uma vez. O olhar dele exibia uma nuance totalmente nova; era atento demais, focado demais, quente de uma forma que a intimidava e a atraía na mesma proporção.
— O que aconteceu entre nós… foi bom — começou ela, medindo o peso de cada termo. — Mas nós precisamos de regras, Natsu.
Antes mesmo que ela pudesse ditar o primeiro item da lista, o Dragon Slayer moveu a mão direita. Seus dedos espalmaram-se contra a curva da cintura de Lucy, um toque firme, deliberado, como se ele estivesse estabelecendo a demarcação exata de onde ela deveria ficar. O corpo de Lucy experimentou um calafrio que reagiu antes mesmo de sua racionalidade.
— Natsu… — ela verbalizou uma advertência, mas não removeu a mão dele. — Nada disso em público. Nada quando houver outras pessoas por perto. E se eu pedir para você parar…
Ele inclinou o rosto devagar. O primeiro toque de seus lábios ocorreu na linha do queixo dela, um roçar lento, quase analítico, como se estivesse testando a resistência física de um limite — tanto o dela quanto o seu próprio.
Lucy cerrou as pálpebras por um breve segundo, mas recusou-se a emudecer.
— …você para.
Outro toque lábio-pele sucedeu-se, um pouco mais abaixo, encontrando a curva macia do pescoço. O polegar dele aplicou uma pressão ligeiramente maior contra o tecido de sua cintura, carregado de uma intenção óbvia.
— Entendi — ele murmurou contra a pele dela. A voz saiu em um tom grave, denso demais para alguém que alegava apenas estar compreendendo uma instrução.
O beijo seguinte encontrou o osso proeminente da clavícula esquerda. Foi um toque demorado, intencional. Não havia a urgência caótica de antes; era uma exploração puramente sensorial. Lucy segurou o antebraço dele, não com a força necessária para empurrá-lo, mas como um ponto de ancoragem para conter a si mesma.
— Apenas quando formos apenas nós dois — ela completou, a voz fraquejando sutilmente enquanto buscava o ar. — Como agora.
Natsu estagnou o movimento, mas permaneceu com o rosto colado à pele dela, mantendo o aperto firme em sua cintura.
— Aqui somos apenas nós dois — ele confirmou, repetindo as palavras como se estivesse catalogando uma diretriz nova em sua mente de caçador.
— É… — ela respondeu em um fio de voz. — Mas você ainda precisa me deixar terminar de falar quando eu solicitar.
Ele ergueu o rosto minimamente, observando as feições dela por alguns instantes. Analisou o ritmo de sua respiração, a dilatação das pupilas, o tom trêmulo da voz. Então, cedendo um pouco, relaxou a pressão dos dedos em sua cintura.
— Difícil — admitiu ele, a teimosia brilhando nos olhos. — Mas eu vou tentar.
Lucy soltou o ar dos pulmões, experimentando uma onda sutil de alívio por acreditar que havia conseguido estabelecer os termos. Foi exatamente nesse milésimo de segundo de calmaria que ela sentiu a pressão rápida de um beijo depositado diretamente no início do colo, logo acima do tecido leve de sua roupa de dormir.
A maga travou instantaneamente na cama.
— Natsu!
— Depois — ele se defendeu de imediato, piscando com uma inocência que beirava o absurdo. — Você já tinha terminado de falar.
Lucy levou as duas mãos ao rosto, sentindo a pele arder em um vermelho absoluto.
— Você é simplesmente impossível.
— Mas eu estou aprendendo rápido — ele retrucou com toda a seriedade do mundo. — E você não usou a palavra para parar.
Antes que qualquer resposta pudesse ser articulada, o som nítido e cortante de asas batendo contra o vento invadiu o ambiente através do vão que restara.
— LUCYYYY!
O grito estridente ecoou no mesmo instante em que as folhas da janela foram escancaradas por completo. Em um reflexo puro de pânico, Lucy aplicou toda a força de que era capaz contra o peito de Natsu.
— AI! — o rosado soltou um baque alto, caindo de costas direto no assoalho de madeira, completamente pego de surpresa pelo empurrão.
— Voltei! Vocês não vão acreditar no que eu… — Happy pairou no centro do quarto, as asas batendo rapidamente enquanto seus olhos grandes piscavam, alternando entre a postura excessivamente rígida de Lucy na cama e o Dragon Slayer estendido no chão. — Ué… O que foi isso?!
— NADA! — Lucy respondeu em um tom de voz agudo e rápido demais, ajeitando a postura e puxando a colcha até os joelhos. — Absolutamente nada!
Happy estreitou os olhos felinos, a desconfiança pairando no ar junto com ele.
— Por que o Natsu está aí embaixo jogado no chão?
— Treinando! — Lucy disparou a primeira mentira que sua mente desesperada conseguiu formular.
— Caí — Natsu completou a justificativa da forma mais monossilábica possível, a mão espalmada na nuca enquanto encarava o teto, ainda meio tonto pela queda abrupta.
O exceed semicerrou os olhos um pouco mais.
— Estranho…
Lucy sustentou um sorriso amarelo e visivelmente forçado.
— Muito estranho mesmo, Happy.
Natsu permaneceu imóvel na madeira fria, os olhos fixos nas vigas do teto, tentando processar duas conclusões distintas ao mesmo tempo: a primeira, de que era surpreendentemente divertido provocar aquele tipo de reação em Lucy; a segunda, de que ser arremessado de costas no chão parecia um preço incrivelmente baixo a se pagar por aqueles minutos anteriores.
Alguns minutos mais tarde, a atmosfera havia se estabilizado em uma normalidade caótica. Os três encontravam-se sentados em círculo no chão do quarto. Lucy havia providenciado uma porção de comida simples, distribuída às pressas em pratos improvisados sobre um pano. Happy devorava seu peixe com uma satisfação alheia a qualquer tensão, completamente focado na refeição. Natsu também comia, mas sua atenção operava em um canal dividido.
Ele mastigava e observava.
Lucy mantinha-se sentada ao lado dele, com as pernas dobradas de lado e a coluna excessivamente ereta, uma rigidez corporal evidente de quem tentava a todo custo parecer comum. Normal até demais.
Natsu engoliu o pedaço de carne. Olhou de soslaio. Pensou por um segundo. Então, utilizando a lentidão de quem executa uma estratégia de aproximação, inclinou o torso na direção dela.
— Natsu… — Lucy sussurrou sem desviar os olhos de seu próprio prato, os dentes cerrados. — Nem pense nisso.
— Pensar em quê? — ele respondeu, adotando um tom de voz que considerava o ápice da inocência.
Ele encurtou a distância por mais um único centímetro, permitindo que a lateral de seu rosto quase roçasse o tecido do ombro dela. Lucy desferiu uma cotovelada discreta, mas firme, contra as costelas dele.
— Para.
— Mas você não estava falando nada agora — ele murmurou de volta, mantendo a posição. — Então eu não estou interrompendo nenhuma conversa.
— Isso não é uma brecha na regra, seu idiota! — ela rebateu em um sussurro apressado e tenso.
Happy ergueu a cabeça, um pedaço de espinha de peixe ainda na boca.
— Hm? O que vocês estão falando aí?
— NADA! — Lucy respondeu com um sobressalto, abrindo um sorriso largo e artificial.
Natsu aproveitou o exato milissegundo em que a atenção da maga estava voltada para o exceed e inclinou a cabeça um pouco mais, encostando a ponta do nariz e o calor de sua bochecha contra a lateral do pescoço dela, apenas para testar a reação do limite.
Lucy quase engasgou com o próprio alimento.
— NATSU! — ela sibilou, os olhos castanhos faiscando em uma fúria contida. — Tem gente no quarto!
— Mas ele está ocupado comendo — Natsu argumentou de volta, apontando com o queixo na direção do gato azul.
— Ele ainda entra na contagem de pessoas!
Happy piscou, limpando os bigodes com a pata.
— Entra na contagem de quê?
— De… de barulho! — Lucy improvisou a primeira palavra que encontrou, a voz subindo um tom. — Você faz muito barulho comendo, Happy!
— Ah. — O exceed pareceu aceitar a explicação, voltando a focar no prato. — Vocês dois estão esquisitos demais hoje.
Lucy girou o rosto na direção de Natsu, sustentando uma expressão severa, embora o tom de voz permanecesse confinado a um sussurro ríspido:
— Você me prometeu que olharia em volta antes de qualquer coisa.
— E eu olhei — ele respondeu de pronto, os olhos escuros fixando-se nos dela com uma simplicidade desarmante. — E eu vi você.
A maga dos espíritos celestiais cobriu o próprio rosto com uma das mãos por alguns segundos, completamente desprovida de qualquer argumento ou resposta.
— Você é inacreditável…
— Mas funciona — ele proferiu, exibindo um sorriso satisfeito antes de morder outro pedaço de comida.
Lucy soltou o ar devagar, os cantos dos lábios ameaçando ceder a um riso que ela se esforçou para reprimir.
— Depois — ela estipulou em um aviso mudo. — Sem qualquer tipo de interrupção ou plateia. Depois.
Natsu expandiu o sorriso, uma expressão nitidamente vitoriosa brilhando em suas feições.
— Tá bom — concordou ele. — Mas só porque eu ainda estou em fase de treinamento.
Happy ergueu os olhos mais uma vez, alternando o olhar desconfiado entre os dois.
— Treinando o quê, afinal?
Lucy e Natsu responderam em uníssono, as vozes sobrepondo-se com uma rapidez cirúrgica:
— NADA!
O gato azul piscou uma última vez, balançando a cabeça de um lado para o outro antes de dar de ombros.
— A Luce está cada dia mais estranha…
Lucy lançou um breve olhar de soslaio na direção do Dragon Slayer, que mantinha a postura vitoriosa ao seu lado. Enquanto tentava recuperar a compostura que lhe restava, ela percebeu, em um misto de vergonha e diversão, que havia acabado de criar um problema completamente novo para si mesma.
Havia ensinado uma técnica nova a um Dragon Slayer. E agora, ele queria utilizá-la o tempo todo.
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