Entre Irmãs
6 Um recomeço
Notas iniciais
POV PEETA
Ela era a noiva mais linda. Tinha certeza de que seríamos felizes, pois nos amávamos incondicionalmente.
— Irmão, está na hora de sua noiva dançar com o pai dela. – Nicole estava linda em seu vestido lilás de madrinha.
— Volto num segundo para os seus braços, querido. – Daphne me deu um selinho antes de caminhar até seu pai.
— Acha loucura estarmos nos casando agora? – minha irmã sempre foi a pessoa mais sincera comigo e sabia que não mentiria para mim.
— Não é loucura. Vocês se amam. Você já está ganhando bem com a realização das cirurgias, não vejo o porquê protelarem esse momento.
— Pois é, alguns médicos acham loucura um garoto como eu estar fazendo cirurgias até certo ponto, delicadas. Mas, a chefe da minha equipe disse que minhas mãos valem um milhão de dólares e ah, te contei a novidade? – minha irmã negou com a cabeça. – Ela quer me levar para a UCLA, para eu fazer um curso intensivo de um mês.
— E, isso é ruim?
— Não, claro que não, mas Daph terá que ficar sem mim nesse período.
— E, o que ela acha disso?
— Disse que é para eu ir.
— Então você vai. Daph é forte e se for preciso nós as Harmony, faremos companhia para ela.
— Já disse que amo você? – estreitei meus olhos e ela jogou sua cabeça levemente para trás com aquele sorriso lindo que eu adorava em minha irmã.
— Hoje você não disse.
— Então digo agora, eu te amo. – disse beijando seu rosto rosado pela maquiagem.
— Ei, amiga que tal devolver seu irmão para mim. Não quero perder nenhum minuto longe dele, já que daqui a algumas semanas irá viajar. – minha esposa chegou com seu olhar intimidador, mas ao mesmo tempo cheio de doçura.
— O marido é todo seu e deixa eu ir atrás do meu, senão sou uma mulher morta também. – Nick trocou um rápido beijo no rosto com a amiga e se pôs entre os casais que dançavam pelo salão.
— Eu amo a sua irmã. Tive a maior sorte do mundo em ter me casado com o irmão mais velho, de uma das minhas melhores amigas. – ela rodeou seus braços em torno do meu pescoço e juntos continuamos a dançar uma nova música.
— Sorte foi, nos apaixonarmos.
(...)
— Peeta... – ela me olhou surpresa e começou a chorar. Depois abraçou-me e por um instante fiquei atordoado. Não recebia algum tipo de afeto há tempo. Parecia que alguma coisa parecia errada – Peeta. – repetiu ela, deitando o rosto na curvatura do meu pescoço. Senti suas lágrimas quentes em minha pele e algo dentro de mim se moveu. Retribuí seu abraço. Toda a infância me voltava à mente, trazida pelo cheiro de pão assado de aneto com canela que mamãe preparava e o doce perfume cítrico do xampu de minha irmã. Ela afastou-se, enxugando os olhos vermelhos – Achei que não falava sério, quando disse que voltaria. – passou as mãos nos cabelos e fez uma careta – Estou parecendo uma múmia que acabou sendo descoberta por algum historiador. Estava plantando flores no jardim dos fundos.
— Você está linda. – disse com sinceridade, afagando seu cabelo.
— E, você está péssimo. Horrível para dizer o mínimo.
Ela segurou minhas mãos e puxou-me para a sala iluminada pelo sol.
— Estou mesmo. Minha cabeça está doendo.
Nick saiu correndo da sala indo em direção a cozinha.
— Água. – gritou – E, aspirina.
Me aproximei de um retrato que se encontrava sobre o consolo da lareira. Era uma foto de cinco mulheres juntas, quatro delas usando vestidos cor-de-rosa claro. Todas sorriam. Nick – à frente, no meio vestia branco. Daphne estava ao lado, sorrindo.
— É uma das minhas fotos preferidas. – comentou minha irmã – Eu não estava feliz só por ser meu casamento, mas por todas nós, estarmos juntas.
— No fim... – confidenciei – Ela falava de vocês. Das Five Harmony. Deve ter me contado uns cem casos do lago quando iam a Chester.
Ela me segurou pelo ombro e fez uma leve pressão.
— Todas nós, sentimos saudades dela.
— Eu sei.
— E, você encontrou... o que quer que estivesse procurando?
Pensei por um instante na pergunta.
— Não. – respondi – Mas agora que estou aqui quero desaparecer. Para onde eu olhar, sei que vou vê-la.
— Isso não acontecia lá também?
Suspirei. Minha irmã tinha razão. Não importava onde estivesse. Daphne tomava conta de meus pensamentos, de meus sonhos.
— Estou perdido, Nick. Não sei como começar. – desabafei.
— Já começou. Está aqui. — disse tocando meu o rosto – Tem que esvasiar sua mente e tentar deixar que Daph descanse em paz.
Pus a mão sobre a dela e tentei pensar em algo. Não me ocorreu nada, então sorri.
— Onde está minha sobrinha linda? E meu cunhado?
— Willow está na casa de uma coleguinha brincando.
— E John, hoje ele não trabalha, certo? – olhei aos arredores, mas não escutei nenhum ruído senão a nossa conversa.
— Ele me deixou, Peeta. Nós nos divorciamos.
Ela não jogou na minha cara “Enquanto você estava fora”, mas poderia. Minha irmã caçula precisara de mim, e eu não estava presente para ajudá-la. Estava acovardado nas profundezas do meu mundo sombrio. Puxei-a em meus braços.
Nick começou a chorar desta vez com mais intensidade. Voltei a afaguar seu cabelo e sussurrei que estava ali, que não iria a lugar nenhum.
Pela primeira vez em cinco anos isso era verdade.
Depois de se recompor ajudei-a a preparar o almoço ela estava um pouco mais animada. Fez uma ligação, então voltou a cozinha dizendo que minha sobrinha ia almoçar com a coleguinha. Comemos somente nós dois e depois que a ajudei com a louça fui tomar um banho e me deitar. Minha febre tinha baixado um pouco, mas minha garganta ardia como brasa, com toda certeza precisaria de antibióticos.
Acordei no fim da tarde e quando descia as escadas podia escutar minha sobrinha conversando com a mãe.
— Mamãe, eu quero ver o tio Peeta.
— Filha, seu tio está cansado e não está passando muito bem. Depois que ele acordar você...
— Ei... estou aqui, minha princesa! – falei e logo ela sorriu e correu para meus braços.
— Tio Peeta, que saudades! – a peguei em meus braços e a girei no ar.
— Como você cresceu! Está linda como sua mãe. – minha sobrinha riu e me beijou a bochecha.
— Estou feliz, e agora que voltou podemos fazer um montão de coisas legais. – olhei sua empolgação e pensei no quão devia ser difícil para ela a separação dos pais.
Fomos para a sala desenhar enquanto minha irmã preparava o jantar.
(...)
Na segunda noite na casa de minha irmã me senti sufocado. Para onde olhasse, via lampejos da minha antiga vida. Não sabia o que fazer, mas sabia que não podia ficar aqui.
Pela manhã esperei que minha irmã fosse até o supermercado. Coloquei meus pertences na velha mochila – inclusive alguns porta-retratos com fotografias de Daphne. Dela encostada à ponte onde adorávamos passear, e outro retrato de nós dois dançando em meio ao salão no dia do nosso casamento – deixei um bilhete na bancada da cozinha:
“Não posso ficar. Desculpe. Dói demais. Sei que é um momento difícil para você, então não irei longe. Telefonarei em breve. Com amor, Peeta”
Andei alguns quilômetros de volta ao centro da cidade. Pessoas andavam nas ruas, e mais de um rosto se voltou surpreso para mim, mas ninguém me abordou e agradeci internamente por isso.
Estava prestes a desistir de procurar emprego quando cheguei ao fim da cidade observei algo. Do outro lado da rua avistei um barracão de metal que anunciava: SMALL’S, A MELHOR OFICINA DE BELLEVILLE.
Na cerca de aço havia uma placa: PRECISA-SE DE MÊCANICO. EXIGE-SE EXPERIÊNCIA, MAS A QUEM QUERO ENGANAR?
Atravessei a rua e dirigi-me à entrada.
Um cachorro começou a latir. Notei então a placa de CUIDADO COM O CÃO. Instantes depois, aparecia um vira-lata branco com manchas marrom.
— Lady, pare de latir! – um homem velho surgiu do barracão escuro. Usava um macacão manchado de óleo e um boné – Não ligue para a cadela. Em que posso ajudar?
— Eu vi a placa “precisa-se de mecânico”.
— Não brinca? – ele parece que se animou – Essa placa está aí há quase dois anos... – o homem se deteve, deu um passo à frente e me encarou – Peeta Mellark?
No mesmo instante, senti meus músculos tencionarem.
— Oi, Sr. Small.
Ele suspirou profundamente.
— Uau, sério isso, é você mesmo?
— Eu voltei. Preciso de um emprego. Mas, se isso for lhe custar os clientes, posso entender. Sem ressentimentos.
— Você quer um emprego concertando carros? Mas você é...
— Aquela vida acabou.
O Sr. Small me encarou durante um longo tempo, então perguntou:
— Você se lembra do meu filho, Devon?
— Ele era bem mais velho que eu, mas me lembro sim.
— O Iraque acabou com ele, quando serviu lá. Culpa, eu acho. Ele fez umas coisas por lá... enfim, já vi homem fugir. Não é bom. Claro que vou contratar você, Peeta. O chalé ainda vem com o emprego. Quer?
— Quero. – respondi rapidamente
Ele me conduziu até o local que me oferecera. O quintal era grande e bem cuidado. Havia muitas flores ao longo da passagem de pedras. Muitos arbustos aninhavam-se ao lado do pequeno chalé de madeira e uma quantidade variável de petúnias e azáleas.
— Você era jovenzinho quando morou aqui.
— Faz muito tempo.
— É. – suspirou – Louise ainda mantém o lugar imaculado. Vai ficar feliz em ver que você voltou.
Segui ele quando abriu a porta e adentrou. O interior estava como sempre fora. Uma manta de lã xadrez vermelha cobria o antigo sofá de couro, e havia uma cadeira de balanço próximo a lareira de pedras. Havia uma cama de casal no único quarto. Apertei a mão dele.
— Obrigado, Sr. Small.
— Me chame de Anthony. Muita gente nesta cidade gosta de você, Peeta. Parece que se esqueceu.
— É bom ouvir isso. Ainda assim, prefiro que ninguém saiba sobre o meu retorno. Pelo menos por enquanto.
— Imagino que seja um longo caminho para superar uma coisa dessas.
— Muito longo. – disse eu.
Ele se virou para ir embora, mas deteve-se e me encarou
— Você é jovem. Com todo respeito filho, mas quem sabe um dia desses aparece uma garota que tenha um coração tão bom quanto a da saudosa Daphne. Isso poderá ser um recomeço, não?
Depois que ele saiu, procurei em minha mochila um dos porta-retratos que peguei na casa de minha irmã. Fitei o rosto sorridente de Daphne e disse:
— Pode até ser que seja um recomeço.
(...)
Na tarde do outro dia eu estava debaixo do chassi de um antigo trator, trocando o óleo, quando ouvi um carro aproximar. Esperei escutar a voz poderosa de Anthony, mas só silêncio.
— Alguém aí? – um homem gritou – Anthony?
Então levantei-me. Um homem corpulento, careca e cheio de tatuagens estava na oficina. Logo o reconheci. Era Brutus Nash, antigo lenhador que havia perdido um braço no trabalho. Baixei a aba do boné.
— Em que posso ajudá-lo?
— Minha caminhonete não está muito boa e fica morrendo a todo tempo. Acabei de trazer essa bosta para o Anthony. Ele disse que tinha consertado. Só vou pagar quando ele estiver realmente concertado.
— O senhor vai ter de acertar isso com ele. Mas, se quiser trazer a caminhonete para a oficina, posso...
— A gente se conhece? – Brutus franziu a testa e aproximou-se – Peeta Mellark. – ele soltou um assobio – É você, não é? Cara-de-pau em voltar aqui! Ninguém esqueceu o que você fez. Achei que estivesse na cadeia.
— Não. – mantinha-me imóvel, ouvindo. Merecia cada uma daquelas palavras.
— É melhor você dar o fora daqui. O pai dela não vai querer saber que você voltou à cidade.
— Ainda não o vi. – respondi de cabisbaixo.
— Claro que não. É tão covarde que não tem coragem.
— Chega, Brutus!
Era a voz de Anthony. Ele encontrava-se à porta da oficina, trazendo numa das mãos um sanduíche e na outra uma lata de Coca-Cola.
— Não acredito que você contratou esse desgraçado. – resmungou Brutus dando uma cuspida no chão – Não trago mais minha caminhonete aqui, se é ele que vai fazer o concerto.
— Posso perder você como cliente e ainda sobreviver. – rebate Anthony.
Brutus deu mais uma cuspida no chão, deu meia-volta e saiu. Quando entrou em seu veículo, gritou:
— Você vai se arrepender, Anthony Small. Gentinha assassina como ele não tem lugar nesta cidade.
Depois que o homem se foi, Anthony pôs a mão em meu ombro.
— Gentinha é ele, Peeta. Sempre foi. Ruim feito o diabo.
— Você vai perder clientes quando ele abrir a boca e a notícia de que estou de volta se espalhar.
— Não tem importância. A casa está paga. O terreno está pago. E tenho uma casa alugada na cidade que rende mais de quinhentos dólares por mês.
— Mesmo assim, sua reputação é importante.
Ele apertou meu ombro.
— Na última vez em que Louise e eu tivemos notícia de Derek, ele estava vivendo longe, muito longe daqui morando debaixo de um viaduto, e não queria ser encontrado por nós. Todos os dias peço a Deus para que alguém lhe ofereça uma mão amiga. — fiz um sinal com a cabeça de que entendia o que ele queria dizer. Não sabia o que dizer – Preciso dar uma saída. Acha que dá conta da oficina por umas duas horas?
— Não se Brutus servir de parâmetro.
— Não serve. – ele jogou as chaves para mim – Feche quando quiser. Ah, esse lanche é para você.
Lhe agradeci, então se foi. Consegui concluir meu dia de trabalho, mas não conseguia esquecer o incidente com Brutus. As palavras do homem pairavam à minha volta, envenenando o ambiente. Gentinha assassina como ele não tem lugar nesta cidade.
— Daph, estou tentando, mas é tão difícil recomeçar.
Bem no fundo da minha alma pude senti-la dizer:
— É um recomeço, Peeta. Você é forte, conseguirá lidar com isso.
Quando fechei a oficina senti um vazio por dentro. Tranquei tudo e estava prestes a retornar para o chalé quando olhei para o outro lado. O néon Monk’s bar, chamou-me a atenção. De repente queria entrar naquela escuridão enfumaçada e beber até sentir a dor no peito desaparecer. Antes de atravessar a rua baixei a aba do meu boné. Mentalmente pedi para que ninguém conhecido estivesse ali.
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