Entre Irmãos
11 Capítulo 11
Notas iniciais
No dia seguinte Mayara acordou na cama de Matheus, mas ele não estava lá. “Talvez ele esteja no banheiro” Pensou.
Como não era de seu feitio dormir com homens na primeira noite, e muito menos passar a noite na casa de um estranho, ela resolveu aproveitar a deixa para ir embora; rapidamente ela ajeitou suas coisas e, quando estava virando a maçaneta para abrir a porta do quarto, percebeu que alguém a estava abrindo pelo outro lado.
—Bom dia. – Disse Matheus abrindo a porta. Ele estava sem camisa, em uma mão segurava o celular, e na outra um beck. – Desculpe, estava fazendo uma ligação e não queria te acordar. Quer? – Ele perguntou oferecendo o baseado para ela.
—Hum, por que não. – Ela respondeu dando de ombros e desistindo de ir embora.
Mayara colocou a bolsa em cima da cômoda e se sentou na cama com Matheus.
*FIM DO FLASHBACK*
Matheus deu o primeiro gole no seu milk-shake e finalmente começou a falar.
—Então, você se lembra da época em que nos conhecemos?
—Lembro. – Ela respondeu meio receosa quanto ao rumo daquela conversa. – O que tem?
Mayara reparou que ele parecia nervoso, pois não parava de olhar para os lados e passar as mãos no cabelo, e sempre o fazia quando estava nervoso ou desconfortável com algo.
—Você está bem? – Ela perguntou.
—Olha May. Me desculpa. Eu não fui honesto com você. Na real não estou sendo honesto com nenhuma das pessoas ao meu redor. No dia em que nos conhecemos eu estava na frente da entrada daquele lugar, você lembra?
—Sim...
—Naquele dia eu estava... – Ele falava cada vez mais pausadamente. – Estava...
—Fala logo! – Ela começou a se irritar. – Se esse é um joguinho para tentar me fazer “lembrar dos velhos tempos” – ela fez aspas com as mãos. — Para com isso.
—May, não é isso! Por favor, leva isso a sério, é uma coisa séria. – Ele respirou fundo. – Vou começar desde o começo.
E assim ele o fez:
— Quando eu fui para a Itália, a minha intenção era de fazer os 5 anos da minha faculdade de engenharia e depois voltar para o Brasil, mas depois de 2 anos eu comecei a me envolver com umas pessoas meio erradas; nós fizemos amizade e passamos a sair muito juntos, mas eles usavam muita droga, de todo tipo; e com o tempo eu acabei me envolvendo nisso também. No começo era tudo tranquilo, mas depois a coisa começou a ficar feia, alguns começaram a usar drogas bem pesadas como crack e heroína, e eu idiota, entrei na onda. Nunca usei crack mas cocaína eu usava, e depois disso a coisa desandou e quando eu vi já estava parando de ir à faculdade para usar drogas e sair para festas, acabei pegando várias dp’s e decidi trancar.
Enquanto falava, Matheus tentava desvendar o olhar que Mayara lançava. Ele estava apreensivo, mas agora que já havia começado a falar, teria que terminar. Então respirou fundo, fechou os olhos por alguns segundos e prosseguiu:
— O problema May, é que quando a gente tá dentro da coisa, nossa visão fica muito mais distorcida do que quando estamos vendo de fora, então era difícil perceber quando estávamos exagerando; e nós só tivemos essa visão quando um dos meus amigos teve uma overdose e quase morreu. Ele ficou um tempo no hospital, mas ficou bem. Depois disso ele nunca mais saiu conosco e deu um rumo para a vida dele, mas o resto de nós não fez o mesmo. Eu por exemplo decidi que ia diminuir o uso de drogas, mas no período em que eu ia comprar as drogas, percebi que era um negócio rentável e decidi tentar traficar também. E era isso que eu estava fazendo na porta da balada naquele dia... Estava esperando um comprador.
Matheus começou a olhar para Mayara esperando uma resposta, mas ela estava estarrecida com tudo aquilo e lhe faltavam palavras para dizer o que estava sentindo.
—Matheus... Eu não sei o que você quer que eu diga, me desculpe mas não sei como reagir, e nem sei porque você está me contando tudo isso. – Ela falava tentando processar toda aquela informação.
—Eu entendo May. –Ele respondeu e em seguida continuou com sua história. Ele estava decidido a deixa-la a par de tudo o que acontecera:
—No começo era bom, eu e mais dois amigos entramos nessa de traficar, então passamos de clientes à vendedores, e com isso fomos deixando o uso das drogas de lado; pois nosso chefe não gostava que fossemos trabalhar drogados. Eu comecei a faturar, e com o dinheiro entrando, comecei a pegar mais gosto pela coisa e passei a me afundar mais nesse mundo da venda de drogas, até que... – Matheus engoliu em seco. – Até que um dia... Um dos meus amigos foi baleado em uma perseguição, mas ele não teve a mesma sorte do que sofreu a overdose e... ele já não... bom, você entendeu. – Ele se recusava a dizer a palavra morte.
— Quando isso aconteceu eu parei e comecei a refletir sobre a minha vida e o que eu estava fazendo com ela. E decidi sair. Mas sair não é tão fácil quanto entrar, eles não deixam. Então comecei a tentar negociar minha saída de alguma forma, mas era impossível. Então eu me mudei e simplesmente parei de vender; mas eles me acharam. O meu chefe, Enzo, disse que eu teria que pagar 2000$ para ele pois era o que ele tinha perdido com a minha ausência, então ele me deu mais um lote de drogas; mas eu não queria mais aquilo para mim, joguei o lote fora e fugi de novo. Mas eles sempre me encontravam, eu passei a viver com muito medo, então decidi voltar; achando que eles não iriam me achar tão longe. Mas eles me acharam. – Matheus suspirou novamente. Sua garganta estava seca e suas mãos suando.
— Quando eu deixei a Itália, eu devia 10000$, segundo o Enzo; mas presumo que essa quantia já tenha aumentado, e eu não sei mais o que fazer. Desculpe te envolver em tudo isso.
Mayara olhava para ele sem saber como agir.
—Me envolver? E sua família? – Ela perguntou.
—Não sabe de nada. Eles acham que voltei porque me formei.
—Eu... Desculpe, eu preciso ir embora. – Ela disse pegando sua bolsa e se levantando.
—Espere. – Ele a segurou pelo braço. – Preciso que você veja uma coisa. – Ele pegou o celular e restaurou com um backup as mensagens que antes havia apagado.
Mayara começou a ler aquelas mensagens sem entender qual o sentido de mostrar a ela algo que ele acabara de contar; até que se deparou com um arquivo de foto. Quando ela o abriu seu coração palpitou, ela olhou para Matheus com os olhos arregalados e marejados e saiu correndo da lanchonete.
Matheus olhou em volta, as pessoas olhavam para ele confusas. Ele se levantou lentamente, pagou o que haviam consumido e saiu do lugar. Enquanto andava na rua tentava prever o que Mayara estava pensando, mas era impossível. Talvez ele devesse dar um tempo a ela, para pensar em tudo. Afinal por mais que ele tivesse contado tudo, ainda faltavam alguns detalhes e duvidas certamente apareceriam quando ela pensasse sobre o assunto com calma; e ele estava preparado para responder tudo com a maior honestidade possível. Só estava difícil encontrar a mesma coragem para contar tudo para sua família, que sempre teve muito orgulho do fato de ele ter ido estudar fora.
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