Notas iniciais
Minha primeira Fic aqui, espero que gostem.

Choupos e velhos carvalhos inundavam a paisagem de uma floresta que pouco havia sofrido da interferência humana. As árvores ali viveram o suficiente para que fossem preciso mais de 5 homens para abraçar suas bases. O sol já se escondia, anunciando as últimas horas de luz. Estava quente e seco e as folhas das árvores já mostravam sinais da aproximação do outono, se tornando amarelo-amanteigado, vermelho vivo e dourado. Uma tarde simplesmente maravilhosa.

Mas o mais curioso se encontrava em seu interior, em uma pequena clareira, onde arvores centenárias se deitavam em contra o centro. Não quebradas, mas envergadas, como o aço malhado.

Deitado, preso em seus sonhos, encontrava-se um jovem – antes de mais nada, nu. Não deveria ter mais de 26 anos, de tez alva e cabelos negros já esboçando o malcuidado comprido. Nu como estava e sobre a luz tênue do sol, seu corpo nada revelava do corpo de um jovem. Esguio e com músculos definidos. Não era o corpo de um lenhador ou camponês, acostumado ao árduo trabalho, mas um corpo treinado para o combate.

Os raios de sol desenhavam em sua pele nua finos riscos prateados que corriam pelos ombros, desciam pelas costas e morriam na perna esquerda. Cicatrizes. Feridas antigas, lisas e prateadas.

Seu corpo mostrava tentativas de despertar, suas mãos tatearam o solo agarrando punhados de folhas secas e as soltava, seus pés se repuxavam e finalmente abriu seus olhos.

Olhos castanhos, mas não de um simples castanho. Era o castanho de folhas secas, do trigo maduro pronto para ser colhido. Olhos que exalavam uma aura antiga. Olhos que já viram muitas coisas e que nada combinavam com seu jovem dono.

Ficou o tempo de 10 respirações profundas deitado, imóvel, olhando ao seu redor sem nenhum objetivo real.

Se colocou de pé em um salto, só então se deparando com seu estado de nudez. Carregou o sobrolho, mas qualquer pensamento foi interrompido pelo som do trote de cavalos vindo do Sul dali.

Podia ouvir seu galope à talvez 150 metros e umas parte de sua mente contou 10 cavaleiros. Por instinto, pensou em fugir à esmo pela floresta, não sabendo o que lhe aguardava. Correu alguns metros na direção contrária ao som do galope, mas parou. Ouviu o som de mais cavalos, vindo de diferentes direções. O mais próximo devia estar à 40 metros agora.

Fugir seria inútil, mesmo assim, uma parte dele ainda lhe dizia para correr.

Sobre os galhos altos de um choupo, o jovem desnudo observou enquanto dois grupos de soldados montados se uniam. Todos em cotas de malhas e apenas seis usavam mosquetes, antigos e com canos enferrujados, os restantes se dispunham de espadas e facas.

– Pelos Três Juízes, Haul! Três turnos seguidos nessa maldita floresta! Oque eu fiz para merecer isso, cuspi no cenho dos Deuses? – Grunhiu o mais velho, um homem calvo e grisalho que já passara da casa dos 50, para um dos homens doutro grupo.

Haul esboçou uma falsa expressão pensativa.

– Da forma como as coisas estão indo estou pensando em me juntar aos rebeldes, talvez eles me paguem melhor.

Alguns riram baixo, outros se indignaram e tiveram até aqueles que pareceram realmente pensativos sobre aquela ideia.

– Não despreze seu potencial, há muitos nobres aqui em Forgia que dariam um bom tostão por uma hora com você. – Soltou o mais novo deles, como se lhe desse um concelho valioso.

Haul carregou o sobrolho por alguns instantes e desabou em gargalhadas.

A conversa continuou por 15 metros, onde o grupo montou um acampamento com a eficiência de quem se acostumara ao trabalho rotineiro.

Sobre a árvore, pesou suas opções e decidiu esperar eles adormecerem para descer, seria mais sensato do que aparecer nu e desorientado em um lugar que era obvio ser proibido.

A espera foi agoniante, e enquanto eles se banquetearam com alguns coelhos recém-abatidos, foi tentando formular mentalmente suas informações.

Onde estava? Oque estava fazendo ali? De onde viera? Sua têmpora doía pelo esforço, mas nenhuma resposta lhe surgia. Cada tentativa só o enchia mais e mais de vazio. Colocou suas mãos sobe o rosto e chorou.

Não estava chorando por medo ou tristeza. Aquele choro silencioso e abafado, quase inaudível, vinha de algo mais profundo. E assim como muitas coisas, esta também lhe era desconhecida e, portanto, ele apenas à aceitou como uma velha amiga.

Já era noite profunda quando algo lhe veio à cabeça. Quem era?

Esboçou um pequeno sorriso quando esta resposta lhe veio à mente. Jason Winkam. Repetiu várias vezes seu nome em sua cabeça, como se tentando grava-lo, temendo que também o esquecesse. Antes que percebesse estava escrevendo o nome à arranhões profundos em seu braço e alguns filetes de sangue escorreram pelas manchas vermelhas.

Por segurança, o jovem esperou meia hora depois que o bando havia adormecido. O rapaz que fazia a guarda por sorte havia enchido a cara e dormia o sono profundo dos beberrões. Escapuliu de seu ninho pé ante pé por entre galhos e nós da árvore. Já estava indo embora quando teve uma ideia. Olhou para um dos soldados. O mais velho do bando havia bebido tanto quanto ele pensara ser possível, de forma que estava terminantemente adormecido àquela altura.

Com gestos precisos e cuidadosos, despiu o homem. Conseguiu uma bela calça de couro cozido, um par de botas de cano curto em bom estado e uma camisa com o cheiro característico de beberrões versados em horas afim em tabernas. Em uma rápida olhada também encontrou uma bolsinha de couro cheia e quando a abriu se deparou com um punhado de moedas de metais diferentes, reconheceu o ouro e a prata, a levou também. Comeu um pedaço de coelho há muito frio e tomou do último gole de uma bebida destilada, que aqueceu seu corpo.

Decidiu que roubar um cavalo seria muito perigoso. Facilitaria muito seu caminho, mas há sempre a chance daquele cavalo pertencer à guarda, e andar com um cavalo da guarda de forma ilegal em qualquer lugar do mundo lhe levaria a enfrentar a lei. E até saber ao certo quem era, era preferível evitar qualquer complicação como esta.

Decidiu pegar o caminho por onde vieram os soldados. Já havia caminhado 10 milhas quando um calafrio passou pela região de sua nuca, seguido pela estranha sensação de estar sendo seguido. Andou mais alguns passos, lentos e cuidadosamente dados até seus ouvidos detectarem algo de incomum.

Passo, passo, parou, passo.

Passo, passo, passo parou, passo.

E assim se repetiu por 8 metros. Dava alguns passos, parava abrupto e se ouvia mais um passo. Era como se alguém o seguisse, repetindo seus movimentos, mas errava o último pisar. O pisar era sutil, leve e essa perseguição o lembrou muito a forma como crianças brincam.

Mais uma vez se pegou confuso. Ele não lembrava de já ter visto alguma criança. Sabia como eram, sabiam seu jeito de menino imaturo e curioso, mas não se lembrava de em que momento chegara a ver alguma.

Se amaldiçoou em silêncio por não ter roubado uma espada. Ladrões, pensou, era explicação mais óbvia para aquilo. Respirou fundo e correu em disparada. As pegadas leves o seguiram, obviamente surpreendidas, perdendo o ritmo com a sua. Correu vinte metros até se deparar com seu perseguidor.

Um vulto saiu por entre as arvores e na parada brusca para evitar o impacto, Jason acabou tropeçando no musgo de uma pedra e caindo, sentado, encarando os olhos de seu temível predador.

Uma criança. Devia ter por volta de 13 anos e se vestia completamente de preto, em um traje de cabimento perfeito. Seus olhos se encararam por um longo momento e em momento algum a criança esboçou qualquer reação. Oque mais chamou atenção de Jason eram seus olhos. Eram castanhos, cor de pergaminho velho, de palha seca. Eram iguais aos seus.

Aproximou a cabeça um pouco da criança, num gesto amistoso.

– Está perdido? – Perguntou, em sua melhor voz carinhosa, buscando o mais próximo do tom de voz que as mães usam com seus filhos. – Qual seu nome?

O olhar do menor se intensificou, no começo esboçando surpresa, aspereza, incredulidade, mas logo passou a esboçar algo novo. Seria pena? Piscou duas vezes e algumas lagrimas brotaram pelos cantos dos seus olhos, escorrendo pelas bochechas rosadas e caindo sobre o negrume de suas vestimentas.

Uma sensação gélida percorreu o corpo de Jason. No inverno, mais ao Norte, é comum que lagos criem uma camada de gelo por sua superfície. Conforme você caminha por ela até seu centro, o gelo se torna fino e quebradiço. Naquele momento, foi como se aquela fina camada de gelo quebrasse sobre seus pés.

Tudo isso durou menos de um segundo e tão rápido se foi, a criança desaparecera.

-

Os primeiros raios de sol brilhavam no horizonte de Cronus, iluminando com sua luz alaranjada uma enorme confusão de prédios, armazéns, fabricas e esculturas que se espalhavam a esmo por um emaranhado de ruas sem qualquer ordem precisa. Aquelas ruas podiam tanto levar à grandes centros comerciais à céu aberto quanto de lugar nenhum para lugar nenhum. As ruas mais largas já começavam seu costumeiro burburinho enquanto carroças carregadas de mercadorias ajeitavam bancadas e os primeiros fregueses surgiam. O céu já se enchia da costumeira fumaça negra das fábricas. Ao Norte plataformas de madeira se estendiam pela água em um caís que tomava três quarteirões, onde navios mercantes desembarcavam cargas ao som de gritos imperativos.

A capital de Albion é o maior centro econômicos dentre os quatro cantos de Agharta – o mundo conhecido –, chamada popularmente de “cidade das invenções”. Foi em Cronus que grandes invenções foram feitas, como a pólvora, concreto e armas de fogo.

Uma grande parte de sua fama se localiza em seus arredores. As muralhas de Cronus se erguiam à 40 metros do chão com mais de 3 metros de espessura, construídas com pedras negras fundidas, um resquício da arquitetura que durou eras. Ela emoldura a cidade em forma de meia-lua, de forma que se abre para o porto. Além do porto a única abertura são dois portões localizados em seu canto oposto, feito da madeira negra de Forgia misturada ao ferro e ouro, duros como pedra e vigiados a todo momento. Uma verdadeira fortaleza.

Sentado sobre a borda de um dos maiores edifícios, um homem observava o horizonte como se tentando enxergar além da dobra do mundo, concentrado.

– Byakuran – chamou uma voz infantil, mais como se falando algo para si mesmo do que para o homem ali sentado.

Aquele chamado Byakuran apenas acenou com a cabeça, sem levantar os olhos do horizonte. Apesar de parecer não passar da casa dos 40 e ainda conservar um rosto jovem e de linhas perfeitas, haviam rugas de velhice ao redor dos olhos, como se não dormisse a muitas noites. Mas o mais interessante nele era seu cabelo. Descia até os ombros, selvagens e completamente brancos, como a neve nos dias frios de inverno.

O dono da voz estava à alguns metros atrás, uma figura baixa e de feições infantis e quem o desconhecesse o daria 13 anos. Vestido de negro e com penetrantes olhos cor de palha, ele encarava o homem a quem se dirigia como se ansiasse por devora-lo.

– Jason Winkam está de volta. – Disse como se pondo fim à um assunto cansativo.

Os lábios de Byakuran se curvaram em um sorriso quase imperceptível.

– Já não era sem tempo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.