Entre Gregos e Romanos
2 Cap. 1
Assim que terminei de empacotar meus poucos pertences, John apareceu na porta. Corri com minha mala para abraçá-lo. Apesar de sua aparência de durão, o cara era pura manteiga derretida. Sentiria sua falta. Sentiria falta de todos.
–Vou te acompanhar até o túnel. Como se você já não conhecesse o caminho. –Vejo seus olhos revirando com indignação.
Dou de ombros e o sigo o caminho todo até a saída, mas não sem antes dar uma última olhada na Quarta Coorte, onde eu costumava pertencer. Chegando lá, Lyu e sua namorada (e minha ½ irmã) Jujubs estão olhando impacientemente o relógio amarrado em uma das pelúcias.
–Estou atrasada? Não me deram um tempo certo pra chegar aqui...
–Não, tudo bem. Quem está um pouco atrasado é Hengles, que vai te acompanhar até a fronteira. –o áugure-pretor responde.
–Hengles? Qual deles? – digamos que os primos dessa família são bem numerosos.
–Aquele seu amigo, Vinicius. Achamos que seria adequado. Ele é um cara grandão, dá pra meter um medo básico nos monstros pelo caminho. E além do mais, achei que seria mais confortável você ir com alguém em que confia e pode bater um papo nas últimas horas como romana. – Jujubs abaixa o olhar.
–Vocês não vão mesmo me explicar o que está havendo, não é? –por mais que estivesse irritada com tudo isso, já tinha entendido que o quanto menos eu perguntasse, melhor.
–Desculpe, Mille, mas não. Talvez os gre... Depois você vai saber. – Ambos ficaram terrivelmente pálidos e para a sorte deles, Vini chegou correndo.
–Perdão, tive que ajeitar as coisas para minha ausência. Os novatos estão dando trabalho nos últimos tempos...
–Tudo bem. Vocês precisam partir logo. O limite que romanos podem chegar sem causar conflitos, é Nebraska. Chegando lá, Hengles terá que voltar, e você terá que seguir viagem sozinha.
–Quanto tempo você acha que demora para chegar ao endereço do papelzinho?
–Um dia e meio ou um pouco mais. SE tiverem a sorte de nenhum monstro trombar com vocês.
–Ah, ótimo. Bom... Foi bom conhecê-los. –Por mais que eu quisesse dizer que sentiria saudades, sabia que não deveria. Não seria muito romano de minha parte. Romanos não demonstram sentimentos e eu odeio isso. Acenei e segui pelo túnel.
***
Estávamos voando por um bom tempo, chutaria 1h, e Vini estava realmente silencioso desde que saímos do Júpiter. Normalmente eu ficaria preocupada e tentaria preencher o silêncio. Mas não hoje. Hoje eu estava, de certa forma, de luto. Nasci lá, fui criada lá, pretendia ter meus filhos lá. E isso foi tirado de mim sem nenhum motivo aparente.
Minha mãe, filha de Plutão e uma mortal, foi criada em Nova Roma e em uma das muitas festas que lá aconteceram, engravidou de Baco, meu pai. Como todo bom deus, ele não dá as caras nunca. Apenas em sonhos estranhos ou manda algumas mensagens vagas por meio do áugure. Já que sou filha de um legado e de um deus romano, tive o direito (praticamente duplo) de continuar na cidade para meu treinamento e aprendizado em geral. No meu aniversário de 8 anos, minha mãe saiu para preparar algo especial pra mim, algo que nunca foi terminado. O sumiço dela durou uma semana e o final não foi dos melhores. Encontraram seu corpo boiando na margem do Pequeno Tibre, até hoje não sabemos como isso aconteceu. Depois disso, foquei mais e mais nos estudos e nas práticas. A única coisa que atrapalhava demais meu foco, eram as constantes dores de cabeça e um pequeno desvio de atenção, por isso, mesmo me esforçando tanto, fui parar na Quarta Coorte, que não era totalmente ruim, mas também não era lá das melhores.
–Vini... você sabe de algo sobre isso? – depois de mais 1h de puro silêncio e tensão, decidi perguntar.
–Não, Mille, e isso tá me matando! Simplesmente não faz sentido. Eu tô esse tempo todo tentando achar algo que você possa ter feito, mas não consigo pensar em nada... Você andou aprontando alguma sem a minha ilustre presença? – sua cara estava fechada.
–Claro que não, Vini, você bem sabe que meus planos não são dos melhores, nem dos mais “perigosos”. Duvido que eles fossem me expulsar por ter saído pra tomar água no meio da noite, porque essa foi a única infração que cometi sozinha. – dei uma risada sem graça.
–Bom, então eu realmente não sei. Sinto que algo está acontecendo. Algo grande. Não quero que você vá, poxa.
–Não é como se eu pudesse escolher, porque se eu pudesse, certamente não estaríamos aqui nesses pégasos, sendo dois idiotas pedindo pra morrer.
–É, eu sei. Mas nós crescemos juntos... Quer dizer, envelhecemos juntos. Porque eu lembrei de crescer, já você... – deu uma risada daquelas que te dão vontade de rir junto.
–Ei, eu cresci, ok? – abaixei o tom da minha voz – Um pouquinhozinho, mas abaixei.
Não tínhamos voltado para a história séria e que era o motivo da viagem inesperada quando pousamos 3h depois para jantar e descansar alguns minutos. Estávamos montando acampamento no meio de umas rochas que encontramos no topo de uma montanha no momento em que ouvimos um farfalhar acima de nós. Antes que tivéssemos muito tempo para analisarmos a situação, uma águia enorme pousou em nossa frente. Sem brincadeira, aquele bicho era o dobro de uma águia comum e duzentas vezes mais feroz.
Desembainhei minha espada e me coloquei em posição de defesa antes de olhar para Vini para acertarmos qual seria a técnica. Anos de prática nos prepararam pra sermos rápidos em situações como essa. Assim que vi o olho direito sendo piscado, soube que eu seria a isca e Hengles atacaria.
Peguei um punhado de pedrinhas no chão e corri para um lado e Vini corria para o outro. Enquanto corria, ia jogando pedrinhas na águia, provocando-a e atraindo-a na minha direção. Isso durou por pouco tempo, pois a estressadinha resolveu me atacar, só tive tempo de levantar minha espada e cortar sua perna esquerda, que foi a primeira coisa que avistei. Vinicius veio o mais rápido que pode em minha direção e jogou sua espada que, com sua perfeita mira, atingiu a maldita ave em sua cabeça, fazendo-a se desintegrar.
–Por Júpiter! Que raios de bicho é esse? – não lembro de ter estudado sobre águias assassinas de semideuses.
–Estive aprendendo sobre isso recentemente – sempre esqueço que ele é dois anos mais velho que eu -, mas não faz sentido. Vimos sobre Ethon, que, segundo a mitologia primitiva, é filha de Júpiter em sua forma grega, ou seja, Zeus, ou algo assim. Porque uma criatura grega estaria viva? E por que atacaria romanos?
Senti como se minha ficha estivesse caindo, mas achei melhor guardar pra mim mesma, podia não ser seguro compartilhar algo dessa seriedade sem ter nenhuma comprovação, e provavelmente Vini riria de mim. Até eu riria de mim, se fosse outra situação, mas não nessa.
–Vamos descansar um pouco, acho que devemos estar seguros por algumas horas. – encostei no pégaso que havia voado comigo até aqui e me concentrei em deixar minha mente limpa e leve pra poder dormir um pouco, já que a viagem prometia ser longa, perigosa e bem confusa.
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