Entre Grades e Destinos
29 O Início de uma Nova História
A manhã de terça-feira em Nova York trouxe um céu azul e limpo, cortado pelo vento fresco do outono. No centro financeiro de Manhattan, no quartel-general da divisão de inteligência do FBI onde Matteo Blake agora operava como consultor e administrador sênior, a rotina era milimetricamente organizada.
Matteo estava sentado em sua ampla mesa de vidro, analisando alguns relatórios na tela do computador. Suas feições, no entanto, entregavam que ele não havia dormido quase nada. As palavras de Ashley na noite anterior continuavam ecoando em sua mente, destruindo quinze anos de convicções e preenchendo seu peito com a constatação mais avassaladora de sua vida: ele tinha um filho.
O bipe do telefone de sua mesa soou, quebrando o silêncio do escritório. Matteo apertou o botão do viva-voz.
— Sim, Brenda? — ele disse, com a voz grave de sempre.
— Sr. Blake, com licença — a voz da secretária soou do outro lado, um pouco hesitante. — Tem um jovem aqui na recepção insistindo muito para falar com o senhor. Ele não tem horário agendado, mas disse que é urgente.
Matteo franziu o cenho, ajeitando a postura na cadeira de couro.
— Quem é ele, Brenda? Perguntou o nome ou a empresa?
— Bem, senhor... ele não deu o nome completo, mas quando perguntei o que ele era seu, ele olhou bem nos meus olhos e disse que era o seu filho.
Matteo paralisou na cadeira. Seus olhos se arregalaram levemente e o coração, acostumado a bater no ritmo frio das operações federais, errou uma batida. Ele engoliu em seco, tentando manter o tom profissional.
— Mande-o entrar imediatamente, Brenda. Cancele qualquer ligação nos próximos minutos.
A linha ficou muda. Segundos depois, a pesada porta de madeira do escritório se abriu com um clique. Pietro entrou. O jovem usava uma jaqueta jeans e carregava uma mochila em um dos ombros. Ao fechar a porta atrás de si, ele parou por um momento, observando o ambiente e, finalmente, focando o olhar no homem idêntico a ele que o esperava de pé atrás da mesa de vidro.
Matteo contornou a mesa lentamente, com as mãos nos bolsos da calça, uma timidez rara e uma emoção profunda travando sua garganta.
— Pietro... — Matteo começou, a voz saindo um pouco mais baixa que o normal. — Eu não esperava te ver aqui hoje. Depois de ontem à noite... achei que você precisaria de mais tempo.
Pietro caminhou até o centro da sala e descarregou a mochila em uma das cadeiras de couro, soltando um suspiro longo. O ódio do dia anterior havia sumido, dando lugar a uma maturidade precoce.
— Eu passei a noite em claro conversando com a minha mãe, Matteo — Pietro começou, olhando nos olhos do pai. — Ela me contou tudo. Cada detalhe da chantagem, do medo, do que ela passou no Vermont para me manter vivo. Eu... eu quero te pedir desculpas pelo soco de ontem. Eu estava cego pela história que eu achava que era real.
Matteo soltou uma risada curta, tocando de leve o maxilar ainda um pouco roxo, e balançou a cabeça.
— Não precisa se desculpar, garoto. Você defendeu o homem que achava que era seu pai e que te protegeu. Na verdade, aquele soco... doeu, mas me mostrou que você tem o sangue forte. Sente-se, por favor.
Os dois se sentaram nas poltronas, frente a frente. Pietro cruzou os braços, inclinando-se para a frente, o olhar curioso de quem buscava respostas para preencher dezoito anos de lacunas.
— Eu vim aqui porque quero saber mais sobre você — Pietro disse com honestidade. — Eu quero saber quem é o meu pai de verdade. E, honestamente... nós dois devemos isso à minha mãe. Ela sofreu demais carregando aquele segredo sozinha para nos proteger do meu avô e do Damon. O mínimo que podemos fazer agora é dar uma chance para as coisas darem certo.
Um sorriso genuíno e caloroso, daqueles que Matteo não dava há mais de uma década, iluminou o rosto do ex-administrador da máfia. Ele recostou-se na cadeira, os olhos brilhando com as memórias do passado.
— Nós devemos tudo a ela, Pietro. A sua mãe é a mulher mais corajosa que eu já conheci — Matteo concordou, com o tom de voz nostálgico. — Você quer saber como tudo começou?
— Com certeza. Ela nunca me deu os detalhes de Nova York — o jovem sorriu, interessado.
— Bem... eu conheci a sua mãe no lugar mais improvável do mundo: dentro de uma cadeia de segurança máxima — Matteo contou, soltando uma risada leve ao ver a expressão de choque no rosto do filho. — Eu tinha sido preso pelo FBI, antes de fechar o acordo de espionagem, e ela foi contratada como a minha psicóloga forense. No nosso primeiro encontro, eu tentei usar o meu charme de Blake para intimidar ela, ser o mafioso durão. Mas a Ashley... cara, ela era dura como uma rocha. Ela olhou bem na minha cara, ignorou toda a minha arrogância e me colocou no meu devido lugar em dez minutos. Foi ali que eu me apaixonei. Pela força dela.
Pietro prorrompeu em uma gargalhada alta, batendo a mão no joelho.
— É a cara dela! Ela faz exatamente isso comigo quando eu tento dar uma de esperto em casa!
A conversa fluiu com uma naturalidade impressionante. A tarde inteira passou sem que nenhum dos dois percebesse o tempo correr. Matteo contou sobre seus anos na Wall Street, sobre como operava os sistemas e, com cuidado, explicou como usou sua inteligência para derrubar a estrutura criminosa de Ricardo Blake por dentro, garantindo que Pietro pudesse crescer em um mundo limpo. Pietro, por sua vez, contou sobre sua faculdade de engenharia, seus amigos e suas ambições. O vínculo de sangue, rompido por tanto tempo, refazia-se a cada frase compartilhada.
Por volta das sete da noite, o carro de Matteo estacionou em frente ao prédio de Ashley no Upper West Side.
— Obrigado pela carona... pai — Pietro disse, a palavra saindo um pouco travada, mas dita com um sorriso sincero.
— Obrigado você pela tarde, Pietro — Matteo respondeu, sentindo o peito aquecido.
Quando Pietro abriu a porta do carro, Ashley estava saindo da portaria do prédio para pegar uma correspondência. Ao ver o carro de Matteo e o filho descendo rindo, ela parou, surpresa e aliviada. Caminhou até a janela do motorista, que Matteo prontamente abaixou.
— Vejo que os dois sobreviveram ao primeiro encontro — ela brincou, com um sorriso leve no rosto.
— Mais do que isso, mãe! O papai me contou como você era durona na prisão — Pietro zoou, fazendo Ashley corar levemente.
Matteo olhou para Ashley, a admiração e o carinho explícitos em seu olhar.
— Eu já estava indo, Ashley. Só vim deixá-lo em segurança.
Ashley olhou para o filho, depois para Matteo, e tomou uma decisão que mudaria o rumo de suas vidas. Ela deu um tapinha no teto do carro.
— Não precisa ir embora agora, Matteo. Suba. Nós estamos morrendo de fome e eu não estou com a menor paciência para cozinhar hoje. Vamos pedir uma pizza.
Matteo olhou para Pietro, que assentiu com a cabeça, sorrindo.
— Sendo assim... eu aceito o convite — Matteo disse, estacionando o carro em seguida.
Minutos depois, a sala do apartamento estava preenchida pelo cheiro reconfortante de pizza de calabresa e quatro queijos recém-entregue. Os três sentaram-se de forma descontraída ao redor da mesinha de centro da sala, com copos de refrigerante e fatias de pizza nas mãos. O clima tenso da noite anterior havia evaporado por completo.
— Então, pai... — Pietro começou, puxando um assunto com a boca meio cheia, um brilho travesso nos olhos escuros. — Já que nós estamos limpando o passado e conversando sobre tudo... você precisa me dar uns conselhos. Eu estava contando para a minha mãe mais cedo que essa semana eu quero perder a minha virgindade com uma garota da faculdade, a Chloe. Mas a dona Ashley quase teve um infarto aqui na cozinha.
Matteo, que estava dando um gole em seu refrigerante, engasgou de leve, tossindo enquanto Ashley cobria o rosto com uma almofada, rindo de puro constrangimento.
— Pietro, pelo amor de Deus! — Ashley protestou, jogando um guardanapo de papel no filho. — Você não tem filtros? Contar isso para o seu pai no primeiro dia?
Matteo limpou a boca com um sorriso largo, achando a espontaneidade do filho fantástica. Ele olhou para Pietro com um olhar cúmplice, de homem para homem.
— Deixe o garoto, Ashley, é uma dúvida legítima — Matteo defendeu, rindo, antes de focar em Pietro. — Olha, Pietro, o primeiro conselho que eu te dou é: escute a sua mãe sobre a proteção. Não estrague o seu futuro antes da hora. E o segundo... bem, não tente ser o "Blake durão" que eu tentei ser com a Chloe. Mulheres inteligentes como a sua mãe gostam de caras reais, não de personagens de cinema. Seja você mesmo, seja respeitoso e... não passe vergonha.
— Viu só, mãe? Conselhos de um especialista! — Pietro comemorou, pegando mais uma fatia de pizza. — Anotado, pai. Sem bancar o marrento.
Ashley observava os dois conversando, rindo alto no tapete da sala. A semelhança física era impressionante, mas ver a cumplicidade que nascia entre pai e filho fez todas as dores, os anos de isolamento no Vermont e os sacrifícios diante da chantagem de Damon valerem a pena. A máfia Blake havia caído na lama anos atrás, mas dali, daquelas cinzas, uma verdadeira família estava finalmente começando a se construir, baseada no amor, na verdade e no sorriso daquele menino de dezoito anos que finalmente encontrara o seu lugar no mundo.
Fale com o autor