Sam sente o coração bater mais rápido conforme Katarina se aproxima. Eles estão tão perto que o garoto consegue sentir a respiração dela contra si.

Então ele toma coragem e finalmente...

— Sam! Acorda! Você vai se atrasar pro trabalho hoje no mercado! — Jodi gritou da cozinha, acordando o garoto.

Ele levantou da cama num pulo, assustado. Resmungou e chutou as cobertas para longe.

— Era só um sonho, de novo. — ele deu de ombros, frustrado, e se levantou.

Sam estava tendo sonhos com Katarina desde que os dois deram as mãos no último festival. Naquela manhã fria de outono, tudo que ele queria era voltar a dormir e sonhar com ela novamente.

Ela mexia com ele, e não era só por causa da beleza dela. Sam estava apaixonado por quem ela era. O jeito doce, as risadas e as conversas que tinham juntos. Se sentia mais vivo perto dela e não queria mais deixar de sentir isso.

Distraído, começou a cantarolar a melodia de uma música que estava compondo enquanto arrumava sua mochila.

Colocou o uniforme da Joja e saiu de casa, se despedindo da mãe. No meio do caminho cumprimentou Evelyn, a senhorinha que todos chamavam de vovó. Ela estava regando as florzinhas do quintal.

Na frente da casa dela, Alex, seu neto, brincava com o cachorro da família. O moreno era muito apegado ao cãozinho. Ele tinha sentimentos afinal, não amava apenas os próprios músculos.

— E aí cara, o treino tá em dia, pelo visto. — Alex deu um tapinha nas costas de Sam. Um pouco dolorido, mas era o jeito bruto dele.

— É, eu tenho me dedicado bastante — Sam sorriu, agradecendo mentalmente pelo seu esforço sendo notado.

— Mas me conta, tá querendo impressionar alguma gatinha? Cê sabe, é só eu fazer assim — ele fez um muque, deixando os bíceps bem aparentes — que elas ficam caidinhas.

— É, meio que sim. — Sam colocou a mão no pescoço, um pouco arrependido de ter sido sincero.

Alex deu uma risada alta, ele era um cara um pouco escandaloso.

— Se precisar de uns conselhos, conta comigo. — Alex se aproximou para um toque de mão e os dois se despediram.

Chegando no mercado, Sam cumprimentou os outros funcionários, dentre eles Shane, o bêbado arrogante da vila — descrição feita por Abigail.

Os dois não se davam tão bem assim mas se ajudavam quando necessário. O gerente da loja, Morris, pegava pesado com eles de vez em quando. Eram apenas os dois na sessão de reposição de estoque e faxina.

Pra variar, Shane estava mal-humorado hoje. Sam resolveu evitar a fadiga de uma conversa desnecessária e procurou seu fone de ouvido na mochila. Adorava escutar músicas enquanto fazia as tarefas monótonas do trabalho.

As melodias o faziam se distrair de seus pensamentos. Pensava demais, de forma não saudável.

Mas pra piorar tudo, havia esquecido o fone em casa.

Todo o susto que levou ao acordar do sonho com Katarina o fez esquecer de colocar todas as suas coisas na mochila. O loiro respirou fundo, um pouco irritado, e começou a pegar os produtos de limpeza.

Após um tempo, Morris chegou no estabelecimento. Comia donuts de chocolate recheados. Sam sentiu inveja.

— Venham os dois para meu escritório agora. — Morris ordenou aos dois funcionários, com um olhar indiferente.

Shane levantou as sobrancelhas, já esperando o pior. Ele e o loiro foram até a sala do gerente e se sentaram nas poltronas de frente à mesa de computador.

— Rapazes, serei direto. Tenho más notícias. Como vocês sabem, somos uma rede corporativa, mas nossa sede principal vêm enfrentado problemas financeiros.

— Mas eu vi no noticiário que a Joja estava com ótimos números esse ano. — Shane questionou, desconfiado. O outro batia os pés nervosamente.

— Ah... aquilo — Morris desviou o olhar, desconfortável. — Estratégia comercial. Não posso entrar muito em detalhes, mas meus superiores disseram que teremos cortes de verba.

Shane arregalou os olhos, incrédulo. Sam ainda não estava entendendo muito bem, então resolveu arriscar:

— O senhor está dizendo que vai diminuir nossos salários?

— Na verdade, receio que o mercado na Vila Pelicanos terá de ser fechado. — Morris completou com um suspiro cansado.

Sam sentiu seu coração parar. Aquilo não poderia estar acontecendo. Com seu pai servindo na guerra, Sam era a principal fonte de renda da família. O auxílio do governo não era o suficiente para sustentá-los, e sem emprego, como cuidaria de sua mãe e do Vincent?

— M-Mas, isso não pode... eu... — Sam mal encontrava as palavras, a boca seca.

— Sinto muito. Sei que vocês precisam sustentar suas respectivas famílias, mas não tem nada que eu possa fazer. Fecharemos as portas no final desse mês. — o gerente parecia transtornado.

Voltando para o mercado, Shane e Sam pareciam sem reação. O homem mais velho retirou o boné e levou as mãos nas têmporas. Mais uma dor de cabeça. Resolveria aquele incômodo no bar mais tarde.

Já o loiro sentia seu mundo desabar. O que faria agora? Ele precisava dar um jeito, não tinha outra escolha. Precisava ser forte para proteger sua família.

Na hora do almoço, voltou pra casa. O olhar fundo e desesperançoso. Mal tocava na comida.

— Irmãozinho, olha só o que a tia Penny me ensinou hoje! — Vincent chegou em casa e mostrou algumas contas simples de álgebra que havia resolvido.

— Você é o cara! Tô muito orgulhoso de você! — Sam bagunçou os cabelos do irmão mais novo, fazendo-o rir. O mais velho escondia para si mesmo a vontade imensa de chorar.

Se trancou no quarto após deixar metade da comida no prato. Colocou uma música alta na caixa de som e deitou na cama. Tentava pensar em alguma solução, mas a melodia gritante só atrapalhava.

— Abaixa esse som! — Jodi gritou da cozinha.

Obedecendo à mãe, Sam desligou o aparelho e se sentou na cama. Roeu as unhas e se perguntou se Marnie poderia contratá-lo oficialmente a partir dali. Seria difícil que isso realmente acontecesse, mas era uma possibilidade.

Saindo de casa rumo ao Rancho de Marnie, o garoto tinha o semblante abatido. Mas sua feição beirou o desespero quando a mulher disse que não seria possível contratá-lo.

— Com Shane sendo demitido, temos que economizar para manter as contas em dia. — ela concluiu, com pena do garoto

Ele entendeu e se despediu. Ele sempre entendia. Sempre estava ali pelos outros.

Mas quem estava ali por ele?

Com os olhos marejados, mandou uma mensagem para o melhor amigo. Combinou de passar na casa dele. Sam e Sebastian comeriam pizza e se esqueceriam dos problemas, esse era o plano.

Chegando na Carpintaria, foi bem recebido por Robin, que o abraçou com doçura após saber da notícia. O loiro foi até o porão, onde ficava o quarto de Sebastian, e os amigos se cumprimentaram.

— Que merda cara. — Seb abriu uma Joja-Cola, franzindo o cenho. Estava preocupado com o amigo.

— Não sei o que fazer. Eu tô fodido. — Sam deu uma risada sem graça, tentando minimizar a situação de alguma forma.

Os dois ficaram em silêncio e Sebastian resolveu quebrar o gelo. Ofereceu uma latinha de Joja-Cola para Sam, que fez um uma expressão incrédula.

— Tá me zoando né? Não quero nunca mais beber uma dessas. — revirou os olhos.

Sebastian riu da ironia da situação e recebeu um travesseiro voando em sua direção.

Os dois riram. Mesmo nas piores situações, sabiam que tinham um ao outro.

— Cara, você não tá fodido. Você só ficou sem chão por cinco minutos. Vai passar e você vai achar uma solução.

— Como? E minha mãe? Meu irmão e...

— Respira. — Sebastian interrompeu o amigo — Sei lá, você sempre dá um jeito. Eu nunca te vi desistindo de nada, nem quando você deu aquela ideia idiota de começar uma banda.

— Você chamou a banda de idiota por meses e...

— Pois é, e olha onde a gente tá agora. — Seb concluiu.

Sam pressionou os lábios, se convencendo. Era um garoto ansioso, saía de órbita facilmente.

— Eu não quero que todos pensem que sou um fraco mas... eu só queria que alguém fosse forte por mim por um segundo...

Após alguns segundos de silêncio, Seb devolveu, sério.

— Não sou bom nisso, mas hoje posso ser essa pessoa por você.

Sam sorriu sem mostrar os dentes, olhando pra baixo. Depois respirou fundo e encarou o teto do quarto do amigo.

— Eu sempre tenho que estar bem pra todo mundo sabe? Sempre sorrindo, sendo bonzinho... — o loiro segurou uma almofada contra si — Só não quero que minha mãe e os outros pensem que eu sou... sei lá...

— Que você é fraco? — o moreno completou.

— É.

— Ninguém vai pensar isso, todo mundo reconhece que você se esforça pra caralho. — Seb deu de ombros, prático. — Você tá pensando demais. A gente sabe que não tá sendo fácil pra você.

— Mas ainda sim tem toda a expectativa, ainda mais do Vincent. Ele não entende do mundo ainda. Não quero que ele olhe pra mim e ache que não tenho futuro.

Seb colocou a mão no ombro de Sam e depois deu um abraço no amigo. Um dos raros momentos em que o moreno se permitia ter contato físico com alguém.

Os dois ficaram em silêncio. Às vezes, ações eram melhores do que palavras.

— Eu... a Abigail... a Kat... a gente tá contigo. — o moreno afirmou, empático.

Sam se arrepiou um pouco ao escutar o nome da ruiva. Se desvencilhando do abraço, o loiro perguntou, sério:

— Será que a Katarina vai achar que eu sou fraco?

— Não viaja, você sabe o jeito dela contigo.

Os dois ficaram em silêncio. Uma verdade silenciosa, mas que ambos compreendiam o que queria dizer.

Sebastian já percebia a proximidade dos dois e isso o deixava um pouco incomodado, por mais que tentasse negar.

Depois daquela primeira conversa no lago, o moreno tentava ignorar todos os pensamentos sobre ela, mas estava se tornando impossível.

O sentimento de afastamento logo se transformou em carinho, que depois se transformou em medo de se sentir vulnerável perto dela.

Com ela, se sentia mais propenso a falar do que sentia. Dos medos, das inseguranças.

Da vontade de abandonar tudo e sair do Vale.

Mas seus pensamentos sobre a ruiva logo foram interrompidos por uma risada inesperada de Sam.

— Ah cara, chega de falar disso. Bora jogar videogame?

O loiro sabia que Katarina iria querer vê-lo bem naquele momento. Precisava estar melhor pra pensar com mais clareza numa solução.

Sebastian concordou com a cabeça e ligou o console. Não queria admitir para si mesmo que começava a sentir algo a mais pela ruiva.

Os dois passaram horas ali, se divertindo e passando de fases no jogo. Robin deixou uma pizza para os dois e outros aperitivos pra completar aquele fim de tarde.

Os amigos se cansaram e Sebastian ofereceu para que Sam dormisse ali naquela noite. O colchonete do amigo já estava guardado no quarto, já que o loiro sempre estava por ali.

Os dois se prepararam pra dormir. O loiro vestiu um pijama emprestado e, ao se deitar, agradeceu o amigo:

— Valeu, cara. Eu vou conseguir passar por isso.

Sebastian concordou com um sorriso. Ele sabia que Sam era um cara forte.

Durante aquelas horas juntos, Sam pôde sentir a paz de esquecer dos problemas e curtir com seu melhor amigo.

Um respiro antes do caos que estava por vir.