Entre Fachadas
2 O que fica quando o mundo dorme
O jantar seguiu caótico do jeito que só Anya conseguia tornar as coisas.
Ela falava com a boca cheia, gesticulava com o garfo, fazia caretas dramáticas e interrompia a si mesma para mudar de assunto sem qualquer aviso prévio. Bond, sentado ao lado da cadeira dela, observava tudo com a paciência de quem já tinha aceitado aquela dinâmica como parte da própria existência.
— Mamãe, o vizinho novo é assustador — anunciou Anya, entre uma colherada e outra. — Ele parece… vazio. Mas cheio ao mesmo tempo.
Loid ergueu os olhos do prato no mesmo instante.
— Anya — disse, num tom controlado. — Não é educado falar assim.
— Mas é verdade — ela insistiu. — A cabeça dele é igual à sua, papai. Só que mais escura.
O silêncio caiu rápido demais.
Yor pousou os talheres com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar algo invisível. Seus olhos encontraram os de Loid. Não havia pânico ali. Havia pergunta. E confiança suficiente para não fazê-la em voz alta.
Ele respondeu do mesmo jeito: um leve inclinar de cabeça. Depois.
— Pessoas novas sempre parecem estranhas — disse Loid, forçando suavidade. — Você vai se acostumar.
— Não quero — Anya respondeu, decidida.
Yor sorriu, inclinando-se um pouco.
— Está tudo bem sentir medo às vezes. Mas seu papai está aqui, não está?
Anya pensou por um segundo e assentiu.
— Então tá.
A conversa seguiu por trilhos mais leves. Escola, comida, um comentário exagerado sobre um colega que “com certeza era um espião disfarçado”. O riso voltou. A tensão se dissolveu. Mas não desapareceu.
Ela apenas se escondeu.
Mais tarde, a casa assumiu um ritmo mais lento.
Anya estudava com Loid na mesa da sala, apoiando o queixo nas mãos, os olhos acompanhando cada palavra dele com uma atenção quase comovente. Ele explicava com paciência, ajustando o tom quando percebia que ela estava se perdendo.
Yor observava do sofá.
Bond estava deitado com a cabeça em seu colo, e ela passava os dedos pelo pelo macio de forma automática. Seus olhos iam e vinham entre os dois, absorvendo aquela cena simples como se fosse algo raro.
Ela ainda se surpreendia com aquilo.
Com a facilidade com que Loid ocupava aquele espaço. Com o jeito natural com que se tornava indispensável. Não apenas funcional. Presente.
Quando Anya finalmente cedeu ao sono, Loid a pegou no colo com cuidado. Ela se aninhou contra ele sem abrir os olhos. Bond seguiu os dois até o quarto e se deitou ao lado da cama assim que Anya foi acomodada.
— Guarda — murmurou ela, já distante.
Loid apagou a luz e fechou a porta devagar.
Ao voltar para a sala, encontrou Yor sentada no sofá, segurando uma xícara de chá. A luz suave do abajur desenhava sombras gentis em seu rosto. Ela parecia… tranquila.
E, por algum motivo, isso o desarmou mais do que qualquer ameaça.
Ele se aproximou sem pressa.
— Quer um pouco? — ela perguntou, erguendo a xícara.
— Daqui a pouco.
Os olhos dele não se desviavam dos lábios dela. Yor percebeu. O rubor veio discreto, mas veio.
— Loid…
— Só pensei — ele disse, sentando-se ao lado dela — que deveríamos… continuar praticando.
Ela engoliu em seco. Não por surpresa. Mas por antecipação.
— Antes você poderia me falar do vizinho novo? — perguntou ela..
Loid fechou os olhos por um instante. Um suspiro escapou. Não apenas de frustração.
— Ele não é comum.
E então ele falou.
A postura mudou. A voz ficou mais precisa. Ele descreveu Adrian Keller como alguém descrevendo um mapa perigoso. Cada detalhe importava. O jeito de olhar. O tempo de resposta. O corpo relaxado demais para ser inocente.
Yor ouvia em silêncio.
Enquanto ele falava, ela observava. O modo como ele se transformava. Como a inteligência dele se tornava afiada, quase bela de se ver. Era assustador. É fascinante.
Como alguém podia ser assim? Tão perfeito quando queria. Tão mortal quando necessário. E ainda assim… sentar no sofá dela, dividir chá, beijá-la com cuidado.
Meu marido, pensou.
A palavra não soava falsa. Soava escolhida.
— Se ele se aproximar da nossa família — disse ela, a voz suave demais para o peso da promessa — não será um problema por muito tempo.
Loid sorriu.
Não um sorriso gentil. Um sorriso que entendia exatamente o que ela era. E gostava.
Ele se inclinou e deu um selinho rápido nela. Curto. Intenso.
— É por isso que confio em você.
Yor desviou o olhar, mas não se afastou.
Eles ficaram ali, juntos, no silêncio que só existe quando não há mais necessidade de fingir.
E, em algum lugar do prédio, uma peça errada começava a se mover.
O silêncio que se instalou depois da conversa não era vazio.
Era denso.
Loid recostou-se no sofá, afrouxando levemente os ombros pela primeira vez desde que o nome do vizinho fora dito em voz alta. A tensão não desapareceu. Apenas mudou de lugar. Desceu do pensamento para o corpo, alojando-se nos músculos, na respiração curta demais, na atenção que ainda varria o ambiente por reflexo.
Yor permanecia sentada ao lado dele, a xícara de chá agora esquecida sobre a mesa. O rosto ainda carregava aquela expressão perigosa, serena demais para ser apenas calma. Era o rosto que ela usava quando decidia proteger algo. Ou alguém.
Ele a observou de soslaio.
Era curioso como ela podia ser as duas coisas ao mesmo tempo. A mulher que dividia o sofá com ele, os joelhos quase se tocando. E a assassina silenciosa que prometera eliminar qualquer ameaça àquela casa.
E, naquele momento, ele queria as duas.
Loid se inclinou um pouco mais para o lado dela, o movimento tão lento que poderia passar despercebido. Não passou. Yor sentiu a mudança no ar antes mesmo de vê-lo.
— Você está tenso — disse ela, sem acusação. Apenas constatação.
— Um pouco — admitiu.
Era raro ele admitir algo assim sem rodeios. Yor virou o rosto na direção dele. Seus olhos o estudaram com atenção. Não como esposa curiosa. Como alguém que conhecia sinais sutis demais para serem ignorados.
— Quer… descansar? — perguntou.
O canto da boca dele se ergueu quase imperceptivelmente.
— Pensei que talvez… praticar poderia me ajudar a relaxa mais.
Ela piscou, surpresa apenas pelo tom. Não havia leveza ali. Havia pedido.
Yor assentiu devagar.
Loid se aproximou mais um pouco, o suficiente para que o calor entre eles fosse inegável. Não a tocou de imediato. Esperou. Sempre esperava. Mas dessa vez, o controle parecia… flexível.
Quando a mão dele finalmente subiu para o rosto dela, foi com um cuidado que contrastava com o peso do que ainda vibrava sob a pele. O polegar roçou de leve a linha do maxilar, quase um teste.
Yor não recuou.
O beijo veio lento. Profundo não em intensidade, mas em intenção. Não havia pressa. Não havia técnica. Era diferente dos treinos anteriores. Menos ensaio. Mais escolha.
Loid sentiu a própria respiração se alinhar à dela. O mundo reduziu-se àquele espaço pequeno, ao sofá, ao silêncio quebrado apenas pelo som suave do contato.
Ele aprofundou um pouco mais, só o suficiente para testar. Para ver até onde podia ir sem quebrar nada. Yor respondeu sem hesitar, os dedos fechando-se de leve no tecido da camisa dele.
Por um instante, o perigo lá fora deixou de existir.
Quando se separaram, não foi abrupto. Foi como se ambos soubessem exatamente o momento certo de parar.
— Yor… — ele disse, o nome escapando mais baixo do que pretendia.
Ela ainda estava ali. Próxima. Os olhos escuros carregando algo entre orgulho e atenção afiada.
— Você confia em mim — disse ela, não como pergunta.
— Mais do que deveria — respondeu, com um meio sorriso.
Ela relaxou um pouco então. Não o suficiente para perder aquela aura fatal. Apenas o bastante para ser ela mesma outra vez.
Loid se recostou no sofá, puxando-a consigo num gesto discreto. Yor aceitou, apoiando-se contra ele. Não era uma posição vulnerável. Era confortável. Escolhida.
Ele percebeu naquele momento.
Não era só desejo. Era alívio.
Era saber que, acontecesse o que acontecesse com aquele estranho novo vizinho, ele não estaria sozinho. Nem como Twilight. Nem como Loid Forger.
Yor fechou os olhos por um instante, ouvindo o ritmo da respiração dele. Sorriu de leve.
— Se alguém mexer com a nossa família — repetiu, baixinho — vai se arrepender.
Loid inclinou a cabeça e beijou o topo do cabelo dela.
— Eu sei.
E, pela primeira vez naquela noite, ele realmente relaxou.
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