Entre Espelhos
1 Prólogo - Mãe e Kósmos
Notas iniciais
Não era verão, mas estava quente. Não era inverno, mas eu estava fria. Não era Outono, mas as flores caiam... Era primavera, mas as únicas flores ali presentes eram as solidárias Rosas... Eu estava no funeral da minha mãe, que acabara de morrer “Misteriosamente”, como dizia o médico. Eu não estava chorando, na verdade, nunca fui de chorar, mas estava muito triste, pois ela era a minha única companheira... Eu ouvia os gritos e choros agonizantes de meus outros parentes, que lamentavam pela morte de minha mãe. Após horas, eu estava prestes a ir embora — assim como grande parte das pessoas ali presentes —, mas logo ouvi os choros mais de perto junto de algumas poucas palavras. Deve ser difícil para você. Meus pêsames. Sinto muito por isso. Não fique triste. Isso não é sua culpa... Essas vozes começaram a ficar cada vez mais baixas, até que sumiram, pois todas as pessoas haviam ido embora, somente eu havia ficado.
Agora aqui estou eu, em frente a minha casa; Entrei pela porta de madeira escura e antiga que nós tínhamos após subir alguns pequenos degraus de pedra. Cada degrau que eu encostava sentia-me mais só, agora que minha mãe se foi. Minha única amiga. Minha última companheira... Logo lembrei de que meu pai estava fora — ele havia viajado para fora do país, se me lembro bem, era algo relacionado ao seu trabalho. —, Não me importei muito, afinal, ele me achava louca. O motivo? Por causa de que, quando eu me vejo no espelho, apareço com belíssimas asas que coincidem com as de um anjo.
Fui até o quarto da minha amada mãe, aquelas escadarias velhas que rangiam a cada degrau que era pisado só faziam da minha vida mais sombria, como se eu realmente tivesse sido abandonada. E fui. Peguei o colar de minha mãe, seu pingente era de uma reluzente cor roxa, uma pedra de Amethyst — de acordo com minha mãe —. Possuía um lindo, porém simples formato de uma gota d’água, como a maioria dos colares de hoje em dia. Suas bordas dourada refletiam lindamente a sua bela corrente brilhante, e logo me lembrei do que minha mãe havia dito há algum tempo. Esse colar será seu um dia querida, espere por ele. Parece que esse dia chegou.
Com o colar em meu pescoço, me dirijo até o espelho dela, vejo meus compridos cabelos ruivos com cacheados nas pontas que deixavam meus olhos azuis cristalinos mais brilhantes, enquanto minhas asas brancas davam contraste para minhas escuras roupas funerárias, deixando-as mais bonitas. E é claro, o meu novo colar de Amethyst. Eu estava com uma cara de tristeza, solidão e quebrada. Tentei cobri-la com um falso sorriso, mas parece que ninguém consegue enganar seus sentimentos. Comecei a refletir sobre o que acontecera com minha falecida mãe, a única da minha família que se importava comigo.
— Mãe... Agora estou solitária, por que você me deixou? — Perguntei a mim mesma, com tristeza no coração. — Você era a única pessoa que eu amava, e a única que sempre amarei... — olhei para o meu novo colar, até que algo estranho e repentino aconteceu.
Eu desmaiei.
— Onde.... Onde estou? — Acordei em algum lugar estranho, não parecia ser minha casa. Estava deitada em algo que parecia um tronco de árvore já cortado, com algumas grandes folhas em cima.
— Você está bem? — Olhei em minha volta para procurar aquela voz na qual eu havia ouvido, avistei um garoto que aparentava ter por volta de doze anos de idade, ele possuía asas — como as que eu via quando me olhava no espelho — e um livro na sua mão esquerda. Seu curto cabelo era um tom de castanho escuro, seus olhos eram verdes como uma pedra de Jade. Ele estava com uma feição preocupada. — Eu encontrei você caída no chão, perto do Portal ID. O que estava fazendo lá?
— Onde estou? — Eu perguntei um pouco tonta e assustada.
— Em uma floresta perto do Portal onde te encontrei. — respondeu o menino. — Qual o seu nome? — Acrescentou.
— Essa... não é minha casa... — Eu disse enquanto me levantava. — Floresta? No meu bairro não existem florestas! Eu estou no meu País? — Perguntei ainda perplexa.
— País? O que é isso? Aqui em Kósmos temos somente as raças e os vilarejos. — Exclamou o menino. — Qual seu nome? — ele perguntou novamente.
— Isso não é importante agora! O que é Kósmos?
— O nosso planeta, obviamente. — Respondeu o menino com certeza.
— Planeta? I-Isso... Não! Isso é um sonho... Eu sou da Terra! Como eu vim parar aqui?! – Fiquei confusa e aterrorizada, não sabia o que estava acontecendo, muito menos onde eu estava. Era óbvio que eu estava sonhando, não havia outra explicação.
— Isso quer dizer que... — O menino recua, erguendo e abrindo o livro que estava em sua mão. — Você é humana?
— É claro! Como não seria? — Retruquei.
O menino começou a ditar uma série de palavras estranhas, uma língua desconhecida. Um estranho brilho azul saiu do livro que ele segurava, fiquei muito confusa, o que era aquilo? Algum tipo de... Magia?
— Írahtak isfalóp uop em ienémirep, em ievétatsorp ópa sit senydníkipe sas... — ele continuava a ditar essas palavras incomuns. — Áxios! Uma humana! — Gritou o menino. Centenas de pessoas com asas vieram de portais que apareceram do nada, o que era aquilo? Eu estou louca? Estou sonhando? Mesmo com tantas perguntas piscando em minha mente, decidi fazer o mais óbvio no momento.
Correr.
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