Entre Dois Mundos
30 UMA ÚLTIMA CONVERSA
Adam foi o primeiro a entrar no jardim da mansão dos Velloci.
Como sempre fazendo barulho antes mesmo da própria presença ser oficialmente notada.
— Nossa… então é assim que os ricos almoçam aos domingos.
A frase veio acompanhada daquele sorriso sarcástico típico dele.
Mas, surpreendentemente, ainda mantinha certa classe. Helena apenas arqueou a sobrancelha. Lorenzo segurou o riso.
Maceli imediatamente levou a mão ao rosto.
— Meu Deus… começou.
Adam abriu os braços teatralmente.
— O caos chegou querida.
Antes mesmo que ele pudesse continuar falando, Isabelly se levantou rapidamente. Foi até Adam e o abraçou com força.
O rapaz ficou sem entender.
— Ué… achei que eu era só o convidado inconveniente.
Ela riu.
— A pessoa que eu quero abraçar vem logo atrás.
E então… Alex apareceu. Por alguns segundos, o jardim inteiro pareceu silenciar. Era a primeira vez dele ali. Na residência dos Velloci. Tudo parecia impecável demais. Luxuoso demais. Organizado demais. Mas ainda assim Alex manteve a serenidade. Os olhos dele encontraram os de Isabelly imediatamente.
Os dois hesitaram. Sem saber exatamente como agir diante de todos.
Então optaram pelo mais seguro. Um abraço formal. Discreto.
Porém os olhares falavam absolutamente tudo. Arnold observou a cena em silêncio.
Cético. Confuso. Incomodado.
“De onde esse cara surgiu?”
Lorenzo não perdeu tempo. Com um sorriso satisfeito, aproximou Alex dos convidados.
— Este é o rapaz que salvou minha pele na avenida dias atrás.
Franz Stroheim imediatamente demonstrou interesse.
— Então foi você?
Alex assentiu modestamente.
— Foi só um problema mecânico simples.
Franz observou o rapaz por alguns segundos antes de comentar:
— Pouca gente pararia para ajudar hoje em dia.
Depois lançou um olhar discreto para Arnold.
— Principalmente alguém da idade do meu filho.
O clima mudou instantaneamente. Arnold percebeu a indireta.
Mesmo assim respondeu tentando manter a elegância:
— Eu provavelmente chamaria assistência o mais rápido.
Adam soltou uma risada abafada. Maceli quase engasgou com o suco.
Já Alex apenas respondeu calmamente:
— Também funciona.
Mas a troca de olhares entre os dois homens ficou carregada.
Desafiadora. Silenciosa. Pouco depois, todos se acomodaram para o almoço. Adam finalmente percebeu algo que até então parecia não ter notado direito. Maceli.
Ou melhor, o quanto ela estava bonita naquele vestido leve e elegante.
Ele a observou por alguns segundos além do normal.
Até comentar:
— Você está perigosamente bonita hoje.
Maceli fingiu surpresa exagerada.
— Nossa… e você finalmente fez um elogio decente.
— Foi sincero.
Ela sorriu debochadamente.
— Isso me preocupa.
Adam riu. Mas pela primeira vez não parecia apenas flerte vazio.
E Maceli percebeu isso. Mesmo fingindo não perceber. O almoço seguiu.
Risadas. Conversas aleatórias. Momentos leves. Adam contando histórias absurdas. Alex tentando salvar a situação. Maceli debochando de tudo. E Isabelly feliz. Genuinamente feliz. Talvez mais do que estivera nos últimos anos. Arnold, porém, quase não falava. Apenas observava.
Observava Alex. Observava Isabelly. Observava aquele pequeno grupo completamente confortável entre si. As risadas espontâneas. A intimidade verdadeira. As brincadeiras idiotas. A naturalidade. E aquilo começou a incomodá-lo profundamente. Porque ele percebeu algo. Nunca tivera aquilo.
Nunca tivera amigos assim. Nunca tivera pessoas ao redor que simplesmente gostassem dele sem esperar algo em troca. Sua vida inteira fora construída em interesses. Política. Negócios. Aparências. Influência. Sua mãe a falecida mãe, sempre tentara fazê-lo enxergar outro lado da vida. Mais livre.
Mais humano. Mas Franz sempre fora o homem dos negócios. Da postura impecável. Do poder. Da influência tradicional. Arnold crescera sozinho. Filho único. Sempre cercado de pessoas. Mas absurdamente sozinho.
E ao observar Isabelly sorrindo ao lado daquele grupo pela primeira vez em muito tempo sentiu inveja. Mais afastada da mesa, Helena também observava tudo em silêncio. E finalmente entendeu. Entendeu o brilho nos olhos da filha. Entendeu as mudanças recentes. Entendeu porque Isabelly vinha sorrindo diferente. Ela olhou discretamente para Alex. Depois para Lorenzo.
E lembrou-se de si mesma quando jovem. Impulsiva. Difícil. Sonhadora.
Lorenzo surgira exatamente como um salvador em sua vida naquela época. Protegendo-a. Amando-a. E em algum momento dos anos… Helena havia se perdido tentando controlar o futuro da filha. Tão preocupada em garantir estabilidade que esqueceu algo simples. A felicidade. Os olhos dela marejaram discretamente. Enquanto observava Lorenzo sorrindo durante a conversa com Franz…
Helena percebeu fazia tempo que eles próprios não tinham mais momentos leves juntos. Lágrimas escorreram silenciosamente por seu rosto.
Elegante como sempre ela apenas se levantou discretamente da mesa.
E se retirou.
Mais ao fundo do jardim, Lorenzo e Franz começaram a conversar sobre negócios. Seattle. Economia. A gestão de Michael McGinn. As futuras eleições.
Arnold observava aquela conversa à distância. E percebeu algo estranho dentro de si. Aquilo não era exatamente o mundo que queria. Ou talvez nunca tivesse sido. Então seus olhos voltaram para Isabelly. Para Alex.
Para Adam e Maceli discutindo inutilidades enquanto riam.
E alguma coisa mudou. Talvez pela primeira vez… Arnold se sentiu cansado de competir. Cansado de tentar possuir algo. Cansado de seguir um roteiro criado por outras pessoas. Então ele tomou uma decisão. Uma decisão que nem ele imaginava ser capaz de tomar.
Levantou-se lentamente. Caminhou até o grupo. E todos imediatamente silenciaram. Até Adam ficou atento. Arnold então olhou diretamente para Isabelly. Mas dessa vez não havia arrogância. Nem insistência. Apenas tristeza.
— Isabelly… posso conversar com você?
Ela ficou surpresa. Todos ficaram. Adam chegou até a se levantar da cadeira imediatamente. Mas Isabelly percebeu algo diferente no olhar de Arnold. Ela tocou levemente o braço de Adam.
— Tudo bem.
Depois apontou calmamente para uma área mais afastada do jardim.
Arnold assentiu. E os dois seguiram juntos em silêncio.
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