Entre Dois Mundos

12 MUNDOS QUE NÃO SE TOCAM


O beijo ainda parecia existir entre eles mesmo depois de acabar.

A música seguia ao fundo da pista, pessoas continuavam passando, luzes giravam lentamente, mas Alex e Isabelly ainda estavam presos naquele instante silencioso onde tudo tinha mudado. Até o celular dela começar a tocar. O som foi abrupto demais.

Isabelly piscou algumas vezes, como se estivesse voltando à realidade aos poucos. Quando viu o nome na tela, o coração apertou imediatamente.

Mãe.

Ela atendeu rápido.

— Alô?

A voz de Helena Velloci veio do outro lado carregada de tensão.

— Isabelly! Onde você está? Você viu a hora?!

Ela olhou ao redor pela primeira vez desde que tinham chegado.

Eram quase 22h. O rosto dela perdeu parte da leveza.

— Eu… já estou indo embora.

— Indo embora? Isabelly, isso é horário de voltar para casa? Você está sozinha?

Ela hesitou. Alex percebeu.

— Não, respondeu baixo.

Helena começou outro discurso imediatamente, mas Isabelly já quase não escutava. Desligou após prometer que estava voltando.

O silêncio entre ela e Alex agora tinha outro peso. Mais real. Mais perigoso.

— Eu posso te levar — Alex disse naturalmente.

Isabelly ergueu os olhos para ele. E hesitou. Porque aceitar significava abrir uma porta que ela vinha mantendo fechada desde o início. Ele descobriria. Veria.

Entenderia exatamente o tipo de mundo ao qual ela pertencia. Mas solicitar algum outro transporte naquele horário além de demorado seria também inseguro.

Ela respirou fundo.

— Tudo bem.

A estrada parecia longa naquela noite.

No carro simples de Alex, o silêncio era diferente agora. Não desconfortável apenas cheio de pensamentos demais. Seattle passava pelas janelas em luzes frias até que, aos poucos, a paisagem começou a mudar. Ruas mais limpas. Casas maiores. Portões. Carros luxuosos. Alex percebeu primeiro. Depois começou a entender. Ele lançou um olhar discreto para Isabelly. Ela estava tensa. As mãos juntas sobre o colo. Os olhos presos na janela. O carro popular dele parecia pequeno demais naquele lugar. E ela sabia que ele estava percebendo.

— É… mais à frente — disse ela, sem jeito.

Alex assentiu em silêncio. Então viu. A casa dos Velloci. Ou melhor, casa não, mas sim uma mansão. Elegante, iluminada, imponente. Por alguns segundos, Alex simplesmente ficou sem reação. Aquela realidade parecia distante demais da dele. Outro mundo. Literalmente.

Isabelly percebeu a expressão dele e sentiu o peito apertar.

— Alex…

Mas ele apenas balançou levemente a cabeça.

— Tudo bem.

Ela não sabia se aquilo significava realmente “tudo bem”.

Pararam em frente à entrada. Nenhum dos dois mencionou o beijo. Nem a pista. Nem o que haviam sentido. Porque agora existia algo maior ocupando espaço entre eles. Diferenças. Distâncias. Mundos.

— Obrigada pela carona — Isabelly disse formalmente demais.

Alex respondeu no mesmo tom:

— Não foi nada.

E aquilo doeu mais do que deveria. Ela saiu do carro devagar. E antes de entrar, ainda olhou para ele uma última vez. Mas Alex já evitava encará-la diretamente enquanto já fazia o retorno.

Assim que entrou em casa, Helena já a esperava na sala.

— Você tem ideia da irresponsabilidade que foi?

Mas ela passou direto. Sem responder. Sem discutir.

Subiu as escadas ignorando completamente o falatório da mãe.

Helena ficou parada, surpresa pela frieza da filha.

Enquanto isso, Alex dirigia de volta para a zona leste de Seattle sentindo algo estranho crescendo dentro dele. Quando finalmente entrou em seu pequeno apartamento, tudo pareceu ainda menor. Milu levantou a cabeça sonolenta no sofá. Alex largou a chave sobre a mesa e passou a mão pelo rosto. A imagem da casa dela voltava repetidamente.

O luxo. A sofisticação. A distância absurda entre a vida dela e a dele.

Ele soltou um riso sem humor.

— Claro… — murmurou para si mesmo.

Sentou no sofá lentamente.

— Que mundo ela vive?

Milu voltou a roncar, completamente alheio à crise existencial do dono.

Alex encarou o teto por longos segundos. Então veio o pensamento que ele tentou evitar desde o momento em que viu a mansão.

— O que uma mulher como ela veria em mim?

No quarto enorme da casa dos Velloci, Isabelly também não conseguia dormir.

Andava de um lado para o outro. Sentava. Levantava novamente. Porque agora ela sabia exatamente o que Alex devia estar pensando. E isso a assustava mais do que gostaria.

Ela pegou o celular. Hesitou. Digitou. Apagou. Tentou outra vez.

Então enviou.

“Eu acho que devia ter te contado antes sobre minha família. Não queria esconder isso de você. Só não sabia como explicar sem parecer estranho. Obrigada pela carona. E por ter me salvado na pista também. Hoje foi uma das noites mais leves que tive em muito tempo. Eu me diverti de verdade com você”.

Ela ficou olhando para a tela após enviar. Esperando. Ansiosa. Talvez até com medo.

Minutos depois, no apartamento simples da zona leste o celular de Alex vibrou. Ele leu a mensagem inteira. Mais de uma vez. Os olhos pararam principalmente na última frase.

“Eu me diverti de verdade com você.”

Alex ficou imóvel. O coração dizia para responder. A insegurança dizia outra coisa. Então, lentamente ele bloqueou a tela do celular. E não respondeu.