Entre Dois Mundos
7 ENTRE STRIKES E SILÊNCIOS
O boliche estava cheio naquela noite de sábado.
Luzes coloridas refletiam nas pistas, o som das bolas deslizando e dos pinos caindo se misturava com risadas, música alta e conversas sobrepostas. Era o tipo de lugar onde ninguém levava nada tão a sério — e, ainda assim, tudo acontecia ali.
Alex de Oliveira e Adam Riveras haviam chegado ha pouco tempo.
Alex estava mais simples do que o habitual: camiseta escura, jaqueta leve, jeans. Nada chamativo. O tipo de roupa que dizia claramente que ele não tinha vindo ali para impressionar ninguém.
Adam, por outro lado, parecia ter nascido pronto para qualquer ambiente social.
— Você ainda está com essa cara de quem prefere estar em qualquer outro lugar do planeta — ele comentou.
— E você ainda está com essa cara de quem acha isso divertido.
— Porque é.
Alex não respondeu. Foi quando a porta do boliche abriu novamente.
E o ambiente pareceu mudar — não de forma dramática, mas perceptível o suficiente para quem prestava atenção. Isabelly Velloci entrou com Maceli Jones.
Alex percebeu antes de entender o que estava vendo.
Ela estava diferente.
Não no sentido de mudança, mas de contexto. Um vestido leve, elegante, na medida exata entre o casual e o intencional. A cor realçava sua pele clara, e os detalhes sutis do tecido pareciam acompanhar seus movimentos com naturalidade.
Ela não parecia deslocada ali. Ela parecia impossível de ignorar.
Alex ficou parado por meio segundo a mais do que deveria.
— Você vai piscar ou vai continuar travado? — Adam provocou ao lado dele.
— Eu não estou travado.
— Claro que não.
Isabelly percebeu o olhar dele quase imediatamente.
E, por um segundo, os dois fizeram a mesma coisa: desviaram um pouco rápido demais.
A primeira rodada do desafio começou logo depois.
Adam e Maceli formaram uma dupla automática — como se aquilo fosse algo que já acontecia há anos.
— Desafio aceito! — Maceli disse, pegando a bola com naturalidade.
— Preparem-se para a humilhação — Adam respondeu, girando o ombro como aquecimento.
O desafio era simples: quem fizesse três strikes em sequência, ganharia a disputa.
Isabelly e Alex acabaram juntos sem muita cerimônia.
Alex parecia ainda em observação silenciosa. Isabelly, por outro lado, se ajustava com calma, como se estivesse analisando o ambiente antes de agir.
— Você já jogou isso antes? — ele perguntou.
— Algumas... Vezes — ela respondeu.
— Que ótimo.
— Isso é ruim?
Alex olhou para ela por um instante.
— Com Adam envolvido? Sempre...
Ela sorriu levemente.
— Eu aprendo rápido – respondeu de forma leve.
Alex pensou em algo pra falar, mas parou. Porque ela já estava indo.
E, surpreendentemente acertando.
Primeiro lance: quase strike.
Segundo: strike completo.
Terceiro: outro strike.
Alex ficou em silêncio. Não era só habilidade.
Era precisão. Controle. Leitura do movimento. Algo que não combinava com a ideia que ele tinha formado dela na cabeça — se é que ele tinha conseguido formar uma ideia sólida.
— Isso não é normal — ele murmurou.
Isabelly ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Eu não gosto de perder.
Alex olhou para ela de novo. E dessa vez não desviou.
No placar final, contra todas as expectativas e principalmente contra o ego de Adam, Isabelly praticamente salvou a dupla.
— Isso não foi justo — Adam reclamou.
— Foi absolutamente justo — Maceli respondeu, rindo.
— Ela é uma arma secreta — Adam apontou para Isabelly.
— Eu prefiro “estrategista” — ela corrigiu educadamente.
Alex soltou um riso curto, quase imperceptível. Mas sincero. E Adam percebeu.
Depois do jogo, os quatro se sentaram em uma mesa próxima. Drinks, petiscos, luzes mais baixas. O barulho do boliche ficava mais distante ali.
Por alguns minutos, a conversa foi leve. Até que, aos poucos, algo começou a acontecer sem ser dito. Adam e Maceli trocaram olhares. Pequenos. Calculados.
E então, quase naturalmente, começaram a se afastar.
— Eu vou buscar mais bebidas — Adam disse.
— Eu vou… fazer uma ligação — Maceli completou já se levantando.
Alex estreitou os olhos. Isabelly também percebeu.
Os dois ficaram olhando enquanto os amigos desapareciam na direção oposta, sem pressa nenhuma.
— Isso foi planejado — Isabelly murmurou.
— Com certeza — Alex respondeu.
Silêncio. Mais longo agora. Mais denso. Quando os dois voltaram a olhar para frente, não havia mais distração. A mesa parecia maior. Ou eles menores dentro dela.
Isabelly mexeu levemente no copo.
— Então… — ela começou.
Alex a olhou. Sem desviar novamente.
— Então? — ele repetiu como ela fizera na noite do happy hour.
Um leve sorriso apareceu no canto dos lábios dela.
— Você sempre é tão sério assim fora do trabalho?
Alex pensou por um instante.
— Depende.
— De quê?
Ele sustentou o olhar dela.
— Da pessoa com quem eu estou falando.
O ar pareceu mudar discretamente.
Isabelly ficou alguns segundos em silêncio, como se processasse a resposta.
— Isso foi… uma resposta diplomática?
Ele sorriu de leve. Ela acompanhou com o mesmo sorriso.
E ali, entre luzes artificiais, música distante e o barulho ocasional de pinos caindo ao fundo… Alex de Oliveira e Isabelly Velloci estavam, finalmente, juntos de novo.
Sem interrupções. Sem fugas. Sem ninguém mais entre eles.
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