Entre Dois Mundos
4 ECOS DE UMA SEXTA-FEIRA
A sexta-feira terminou de forma diferente para cada um deles, mas de algum jeito, o mesmo silêncio permaneceu.
Alex abriu a porta do seu apartamento na zona leste de Seattle já tarde da noite. O lugar era simples. Pequeno, funcional, sem excessos. Um sofá gasto, uma cozinha que mal era usada durante a semana, livros empilhados em uma estante improvisada.
E o seu local preferido daquele modesto apartamento, seu quarto, com uma larga cama de casal, uma pequena cômoda e seu notebook gamer. Mas havia algo ali que combinava com ele: não havia barulho demais.
Assim que entrou, uma pequena sombra se moveu pelo chão.
— Ei, Milu — Alex murmurou.
O pug levantou as orelhas, animado, e caminhou até ele com aquela lentidão característica, como se estivesse sempre julgando o mundo em silêncio.
Alex se agachou e passou a mão pela cabeça do cachorro.
— Pelo menos você não me faz ir à happy hour.
Milu soltou um ronco baixo, como se concordasse.
Alex encostou as costas na parede por um instante, ainda com o casaco, e fechou os olhos. Mas a imagem insistia em não sair.
Isabelly Velloci.
O jeito como ela olhava antes de falar. O sorriso breve. A forma como tinha ido embora sem explicação, como se sempre houvesse algo a puxando para fora do lugar onde ela queria ficar.
Ele abriu os olhos novamente, incomodado com a própria distração.
— Isso não faz sentido… — murmurou para si mesmo.
Mas fazia. Mais do que ele gostaria.
Do outro lado da cidade, na zona sul de Seattle, a casa dos Velloci parecia pertencer a outro mundo. Arquitetura elegante, iluminação suave, silêncio estruturado. Tudo ali parecia pensado para transmitir controle, até mesmo o ar.
Isabelly entrou fechando a porta com cuidado, já cansada antes mesmo de tirar os sapatos.
— Chegou tarde — a voz de Helena Velloci veio da sala, firme e imediata.
Isabelly suspirou.
— Era um evento da empresa, mãe. Eu avisei.
Helena apareceu no corredor, impecável como sempre, postura rígida, olhar avaliativo.
— Eventos da empresa não terminam nesse horário para pessoas responsáveis.
Antes que Isabelly respondesse, uma voz mais calma interveio.
— Helena, ela estava trabalhando — disse Lorenzo Velloci, surgindo da sala de estar.
O pai de Isabelly tinha um tom diferente. Menos rígido mais protetor. Os olhos dele suavizaram ao ver a filha.
Helena cruzou os braços.
— Trabalhando ou participando de distrações sociais?
Isabelly passou por eles sem parar.
— Eu vou para o meu quarto.
— Isabelly — Helena chamou, mais dura.
Mas Lorenzo levantou levemente a mão, impedindo a escalada.
— Deixe-a.
Isabelly não esperou mais. Subiu as escadas em silêncio, sentindo o peso daquela casa atrás dela. Ao fechar a porta do quarto, finalmente respirou fundo. Por um instante, tudo ficou quieto. Ela se sentou na beira da cama e soltou a bolsa ao lado. O celular vibrou.
Maceli Jones. Isabelly desbloqueou a tela.
Maceli Jones: Você sumiu no meio da gincana. Tá viva?
Ela soltou um leve sorriso, apesar do cansaço.
Digitou:
Isabelly Velloci: Sobrevivi à minha mãe primeiro.
A resposta veio quase imediata.
Maceli Jones: Clássico Helena Velloci.
Isabelly deitou um pouco na cama, encarando o teto. Depois de alguns segundos, Maceli enviou outra mensagem.
Maceli Jones: Quem era o cara da sua dupla?
Isabelly franziu levemente o cenho.
Isabelly Velloci: Alex… Oliveira.
Houve uma pausa na conversa.
Então Maceli respondeu:
Maceli Jones: Espera. Alex de Oliveira? O novo da Publisher Stars?
Isabelly se sentou de imediato.
Isabelly Velloci: Novo?
A mensagem seguinte veio cheia de velocidade.
Maceli Jones: Ele não trabalha lá há muito tempo. Foi contratado recentemente. Área de comunicação. Meio quieto, foi indicação do Adam Riveras. Aliás, uma boa recomendação.
Isabelly ficou alguns segundos olhando para a tela.
“Alex de Oliveira”.
Ela repetiu o nome mentalmente, como ele também tinha feito naquela noite.
Do outro lado da cidade, Alex provavelmente nem imaginava que estava sendo comentado.
— Por isso nunca o vi antes… — Isabelly murmurou mais para si mesma.
Maceli continuou:
Maceli Jones: O que achou do nosso happy hour?
Isabelly hesitou. Então respondeu:
Isabelly Velloci: Foi estranho.
Maceli Jones: Estranho como?
Ela olhou para a janela do quarto. Seattle brilhava distante, fria, indiferente. E, mesmo assim, o rosto dele voltava. Calmo. Reservado. Observando mais do que falava.
Isabelly Velloci: De quem foi à ideia daquele bingo em duplas? – Isabelly perguntou de forma cômica com um emoji no final.
Maceli demorou um pouco mais para responder dessa vez.
Maceli Jones: Ideia do RH, mas eu supervisionei os detalhes antes– respondeu de forma segura.
Isabelly sorriu sozinha.
Isabelly Velloci: Típica você– acrescentou com um leve sorriso enviando outro emoji.
Do outro lado da cidade, Alex também estava acordado. Sentado no sofá, com Milu dormindo ao lado, ele encarava o celular sem motivo aparente.
Sem mensagens. Sem respostas. Mas com uma presença nova ocupando o silêncio do apartamento. E, naquela noite, em dois lugares diferentes de Seattle, nenhum dos dois conseguiu realmente desligar o pensamento do outro.
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