Entre Dois
7 CAPÍTULO 05: A MÁ DA HISTÓRIA +
( Narrado por Penha )
Já era quinta-feira, todos ainda comentavam da minha festa. Para mim foi o dia mais infeliz da minha vida.
Vê-lo ali, beijando a Mônica. Sem mais nem menos, como se fosse apenas para me machucar.
A maioria das pessoas acha que eu só faço o mal, que só quero ver o resto do mundo sofrer. Isso não tem um pingo de verdade. Bom, talvez tenha sim.
E aqueles que me fazem sofrer? Nunca são julgados pelo que fazem, pelo que dizem, sempre são as vítimas. Porque ninguém nunca consegue ver o outro lado da história. Porque o ser humano tira suas próprias conclusões sozinhos antes de saberem a verdade.
Eu me lembro bem do que o Do Contra disse para mim. Lembro-me como se fosse ontem.
“Quer namorar comigo?”. Foi isso que ele disse, alto e claro. Mas depois de todo mundo ficar comentando ele desistiu. Ele consegue mentir dizendo que só foi um beijo ano passado, porque ele não sabe o que é sofrer pelo amor. Não sabe como é se sentir usado, como é estar machucada por um ser insignificante que só sabe lhe fazer mal. Não sabe o que é estar apaixonada por alguém que não olha nem na sua cara.
The scars of your love remind me of us
As cicatrizes do seu amor me lembram de nós dois
They keep me thinking that we almost had it all
Me mantém pensando que quase tivemos tudo
The scars of your love, they leave me breathless
As cicatrizes do seu amor me deixam sem ar
I can't help feeling
Não consigo deixar de sentir
Como eu queria que ele me escolhesse. Por que a Mônica? Ela mal chegou à escola. Ela nunca desejou como eu desejo. Por que ela? Por que não a mim?
- Penha, posso falar com você? – perguntava uma voz conhecida. Ela interrompeu meus pensamentos. Era voz do Roberto. Pode até soar meio falso, mas aquela hora eu não queria trocar uma palavra sequer com ele.
- Estou escutando. – falei, escrevendo a matéria que eu não tinha começado a copiar.
- Olha para mim. – pediu. Eu não consegui encará-lo e continuava a escrever.
- Eu escuto com os ouvidos e não com os olhos, Do Contra. – disse fria.
- Não precisava falar assim, eu só quero conversar.
- Então, vamos conversar. – falei fitando-o.
- Obrigado. – Penha, você sabe do que eu quero falar...
- Eu não faço a mínima idéia. – respondi fazendo-me de desentendida.
- É meio que assim... Eu gosto da Mônica. – falou, depois de respirar fundo. Eu lancei um olhar matador.
Isso lá é coisa que se deve dizer?, Pensei.
- Como pode gostar de alguém que mal conhece? – perguntei tornando a copiar a matéria.
- E-eu não sei... – respondeu cabisbaixo.
- Ou você gosta ou não. Parece simples para mim.
- Você gosta de alguém? — perguntou. Senti uma enorme vontade de bater na minha própria cara! Que perguntinha idiota.
- Você está tirando uma com a minha cara, só pode. – voltei a fitá-lo.
- Por que eu faria isso?
- Porque você me odeia. Assim como todo mundo nessa escola! – gritei. Todos olharam para mim, eu voltei a me sentar vermelha.
- Precisava gritar? – quis saber o roqueiro a minha frente.
- Você queria uma resposta, não queria?
- B... Bem...
- Por que você ainda faz questão? – perguntei, novamente o encarando.
- Questão do que?
- Questão de vir falar comigo. Você não tem vergonha na cara? Depois de tudo o que você me fez...
- Eu não te fiz nada. Eu só...
- Só me largou do nada porque todos não aceitaram o nosso “namoro”. – murmurei baixo.
- Nada haver, Penha. Eu só não queria que isso fosse um incômodo a você.
- Sei, sei... Quando você vai começar a parar de mentir?
- Eu não estou mentindo.
- Claro que não, Do Contra. Sou eu que minto, afirmando que só foi um beijinho ano passado. – falei. As palavras saiam com um timbre de nojo. – Posso te perguntar uma coisa?
- Você já está perguntando.
- Deixa para lá. – Você não presta mesmo, Roberto. – disse andando para fora da sala, assim que o sinal bateu.
- Espera! – gritou agarrando meu braço. – Pode perguntar.
- Você já me esqueceu ou finge tão bem quanto eu?
Ele começou a gaguejar, eu me soltei dele e falei:
- Deixe quieto.
- Um pouco.
- O quê? – indaguei.
- Acho que uma parte minha ainda quer você.
You had my heart inside of your hand
Você tinha meu coração em suas mãos
But you played it with a beating
Mas você brincou com ele de acordo com o ritmo
- Azar o seu. Porque eu não estou nem aí para... – ele me interrompeu. O idiota me deu um beijo. O idiota que eu amo me beijou.
- Acho que mais que a metade de mim ainda quer você... – acertei-lhe um murro na cara.
- Você está pensando o que? Que eu sou esse tipo de garota que se entrega fácil?
- Na verdade... Eu acho sim. – respondeu. Outro soco em seu rosto.
- Então você mentiu. – disse em alto som uma voz no fundo da sala.
- Bertolle? – ecoou a pergunta de Do Contra por toda a sala.
- Não foi só um beijo, não é? – perguntava Mônica cabisbaixa.
- B-bem... – balbuciou o garoto.
- Eu estou indo. Resolva seu problema sozinho. – falei indo a até a porta. Não me custaram quatro passos.
- Pode ficar Penha. E você também Roberto. – andava em passos lentos. – Aproveite sua nova namorada, Thompson.
Fiquei pasma com a reação da dentuça – o “novo” apelido da Mônica -, não era de se esperar. Era impressão minha ou ela estava com... Ciúmes?
- Por que continua aqui? Vai atrás da sua querida Bertolle. – falei.
- Hã?
- Ainda está aqui? Então ta, se você não quer ir, eu vou. – disse e sai. Em passos rápidos e barulhentos por conta do salto. Não me certifiquei em nenhum momento se ele me olhava sair.
- Sou um idiota. – o ouvi repetir a si batendo nas mesas.
At first when I see you cry,
Primeiro, quando te vejo chorar,
Yeah it makes me smile, yeah it makes me smile
Me dá vontade de sorrir, sim, me dá vontade de sorrir.
At worst I feel bad for a while,
No pior dos casos, me sinto mal por um momento,
But then I just smile I go ahead and smile
Mas de novo logo sorrio, e sigo adiante e sorrio
Mordi o lábio inferior com um sorriso no canto. Senti-me mal por rir da cara dele, das suas burrices, dos seus fracassos. Só que me lembro do que ele já me fez. Então voltei a sorrir.
Desci os degraus que não acabavam com a mente pensativa. Fiz a coisa certa?, Pensava.
- Bah, aprenda agora Roberto. – pensei alto. Topei em seguida com minha única amiga, Aninha. Ela estava aos prantos, com a cabeça enterrada nas mãos e o corpo encostado a parede.
- Ana? O que aconteceu? – perguntei fechando o sorriso do meu rosto.
- O que mais teria acontecido? É o Timóteo.
- De novo ele? Já disse que para mim, você deveria ter escolhido o Tikara.
- Sabe que você tem razão, Palo-... – a encarei quase a matando com os olhos. Ninguém podia saber. – Ér... Penha. – Ana deu um sorriso amarelo corrigindo meu “nome”.
- Eu sempre tenho. Como diria Shakespeare: “Plante seu jardime decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.”
- Vou fazer isso, Shakespeariana. – eu sorri com o apelido. Ana era uma das únicas que me fazia sorrir.
Posso não ser uma Julieta meiga, delicada e perfeita. Mas também não sou nenhuma bruxa má, que acaba com a felicidade de todos.
Todos são muitos e como eu sou uma só, perderia logicamente.
Voltei meus pensamentos a Do Contra, havia uma coisa que não sabia ao certo.
Mônica é a garota perfeita, só faz o certo.
Roberto está apaixonado por ela, no entanto não é nenhum santo.
Cebola mostra que está afim da dentuça.
E eu – a má da história – gosto do garoto que é “apaixonado” pela dentuça que odeio.
Coisa mais de filme. Mas a questão não é essa. Enfim, o óbvio é que a Mônica fica com o Roberto e eu e o Cebola saímos infelizes. Se bem que, só eu que vou sair infeliz. O Cebola é popular, arruma outra fácil. Enquanto a mim? Fico sozinha o resto da vida.
Notas finais
2º trecho de música: Rolling in the deep - Adele
3º trecho de música: Smile - Lily Allen
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