Entre Deuses E Mortais
2 Capítulo 2 - Finalmente em casa
Notas iniciais
Fiquei me sentindo estúpida depois da desculpa que o piloto deu, dizendo que “nós havíamos sido atingidos por uma rajada de vento inesperada causa pelo tempo tempestuoso”. Os passageiros me olhavam como se eu fosse louca. Tenho certeza de que quando saírem do avião irão falar sobre mim: “Você viu aquela garota maluca? Ela gritou por causa de uma rajada de vento. Que idiota!”. Mas eu sabia que não fora vento que fez o avião virar daquela maneira. Não estava maluca. Não podia estar.
Peguei uma revista de avião tinha o título: “Caribe: o melhor destino para suas férias!” para distrair minha mente. Comecei a folhea-la devagar, olhando as figuras. Não é porque não gosto de ler. Sofro de dislexia, e textos desinteressantes como “Vantagens dos pacotes internacionais” só fazem minha cabeça doer. Além do TDAH, que não deixava eu me concentrar. Fiquei apenas olhando as imagens e as propagandas.
Enquanto estava entretida com um anúncio interessantíssimo de um liquidificador, ouvi minha mãe chamar meu nome. Levantei os olhos e a vi, virada na cadeira e olhando para mim com preocupação.
– Vocês estão bem? Quer dizer, depois de toda aquela confusão?
– Na medida do possível. – Sorri.
– Falta pouco para chegarmos. – Ela piscou para mim.
– Ainda bem, não aguento mais ficar sentada. – Anne sorriu e virou-se novamente para sentar.
Olhei pela janela e pude ver o avião se aproximando do litoral carioca. Não pude deixar de dar um sorriso. Aquela era o melhor lugar do mundo para mim. O bom de viajar, é que, como você está longe de gente que convive com você, pode ser quem quiser.
Dei um longo suspiro e olhei para o lado. Lea ainda dormia. (Sério, como as crianças conseguem fazer isso?) e o seu rostinho estava inchado. Pensei que minha aparência não devia estar muito melhor, então peguei minha bolsa e levantei-me.
Fui caminhado calmamente até o banheiro, como se um passo em falso meu fosse fazer o avião cair. Entrei na minúscula cabine e me virei pra trancar a porta. Quando voltei a olhar na direção do espelho, tomei um susto. Meu cabelo parecia um ninho de ratos. Estava com olheiras tão profundas que me senti um urso panda. Sem contar que a minha roupa estava super amassada. Suspirei e abri a minha bolsa, jogando os meus itens de primeiros socorros em cima da pia: base, corretivo, escova de cabelo e brilho labial.
Molhei o rosto e fechei meus olhos. Uma sensação estranha começou a tomar conta de mim. Os pelos da nuca eriçaram e foi como se a temperatura tivesse caído uns 30 graus. Então uma voz sibilante ecoou pelo pequeno banheiro:
“Não sei como consegui se esconder por tanto tempo, filhote de deus, mas agora que te encontramos você não terá mais paz.”
Abri os olhos novamente e senti uma tontura. Apoiei-me na pia e respirei fundo. Olhei para os lados, a procura alguém que possa ter dito aquilo, mas só vi paredes brancas. Joguei mais um pouco de água no rosto e tentei pensar que eu só estava um pouco enjoada. Aquilo tinha que ter uma explicação perfeitamente lógica.
Respirei fundo novamente e olhei para água que estava escorrendo pelo ralo. Até que uma coisa estranha aconteceu. Aquela água começou a flutuar bem devagar em direção ao teto, até formar uma poça invertida bem acima da minha cabeça. Olhei para ela e, antes que pudesse pensar em como aquilo aconteceu, a poça se desprendeu e caiu em cima de mim, me deixando encharcada.
– Ah, que droga! – Disse, enquanto torcia os meus cabelos pra tirar o excesso de água dos meus cabelos. – Mas o que foi isso? Oh Deus, preciso de um psiquiatra!
Ouvi batidas na porta e me virei, assustada.
– Filha? Está tudo bem? O avião vai pousar daqui a pouco.
– Ah sim. – tentei não gaguejar. — Eu já estou saindo mãe. Obrigada por avisar.
Enquanto mamãe se distanciava, comecei a me secar com uma toalhinha de rosto que eu carregava na bolsa. Depois sequei o cabelo e prendi num rabo de cavalo. Passei a base, o corretivo e sai do banheiro com as mãos trêmulas.
“Calma Melissa, calma. Foi tudo sua imaginação. Você só esta um pouco enjoada por causa do voo. Você não está ficando louca.”
Cheguei um pouco cambaleante na minha poltrona e me sentei. Lea já estava acordada, e quando me viu disse:
– Nossa! O que aconteceu? Você tá toda molhada!
– É... Eu me molhei sem querer – respondi, um pouco sem jeito.
Olhei para a janela e vi a pista de pouso se aproximando. O avião desceu, e mais uma vez senti que ia morrer. Meu estômago veio para a boca, e decidi que não queria voltar a voar nunca mais. Finalmente descemos, pegamos nossa bagagem e ficamos esperando o carro dos nossos avós do lado de fora do aeroporto.
Não demorou muito e o motorista chegou dirigindo o sedan prata dos meus avós. Entrei, feliz por não estar mais a tantos metros distante do chão. Durante todo o trajeto, eu evitava pensar no que tinha acontecido. Olhei pela janela e vi a incrível praia carioca. Pessoas bonitas e bronzeadas desfilando pelo calçadão, parecendo serenes, despreocupadas.
– Chegamos! –Steve exclamou, saindo do carro.
Abri a porta e desci. Meus avós estavam lá, prontos para me receber. Vovó Regina estava usando blusa azul e uma calça de algodão branca. Ela tinha 63 anos, mas tinha uma aura tão jovem quanto a minha. Meu avô Vinícius estava com uma camiseta branca e uma calça caqui. Usava óculos quadrados e tinha um carinhoso sorriso no rosto.
– Meu Santo Deus Melissa! Você está enorme! Ah, está ficando uma linda mocinha. Deve estar cheia de pretendentes, né?
Corei. Certo, meu avô realmente sabe como me deixar constrangida. Namorar? Aquilo parecia uma piada pra mim. Não que eu fosse um ser monstruoso, mas os meninos não gostam muitos de meninas problemáticas como eu. Bem, eu gosto um pouco da minha aparência. Minha pele é clara, tenho os olhos verde-azulados e o cabelo castanho-escuro. Sou magra, de estatura média e tenho um corpo “normal”. Mas pra ser sincera, nem amigos eu tinha, imagina namorado. As pessoas me julgavam, por sempre me meter em problemas, tirar notas baixas, e por não ser rica como a maioria deles era. Claro que não sentia muita falta. A maior parte dos meus colegas de turma era estúpida.
Respondi ao meu avô com um sorriso sem graça. Um funcionário levou as malas para cima e orientou que nós o seguíssemos. Entramos no elevador que nos levou diretamente para a cobertura.
O apartamento dos meus avós era incrível. Simplesmente. A decoração era geométrica e limpa, mas ao mesmo tempo luxuosa. Uma brisa com cheiro de mar me atingiu e eu corri para a varanda. De lá eu tinha a melhor vista do mundo. A praia do Leblon resplandecia me dando boas vindas. Fechei os olhos e inspirei profundamente, obrigando meus narizes a aspirarem todo o cheiro de maresia que pudessem. E eu sorri involuntariamente, por que soube que estava em casa.
Ouvi passos se aproximando e abri os olhos. Vovó apareceu ao meu lado, o sorriso doce.
– Olá querida. Você não vai querer ver o seu quarto?
– Ah, claro vó. Só estava olhando um pouco...
– Eu sei como você gosta daqui, meu bem, mas você precisa descansar. Vamos ou não?
Assenti e acompanhei minha vó pelo corredor. Ela parou na frente de uma porta e fez um gesto com a mão, me convidando a abri-la. Quando empurrei a maçaneta, fiquei sem ar. Olhei para minha vó, ainda sem acreditar no que via.
– Vocês reformaram? Ai Meu Deus! Ficou incrível vó! Eu AMEI!
Minha vó riu e eu a abracei. Eu realmente tinha adorado a nova decoração. O velho rosa havia sido substituído pelo azul, minha cor favorita.
– Que bom que gostou. Agora eu vou deixar você sozinha, tenho que ajudar a sua mãe.
Assenti e agradeci mais uma vez pela reforma. Ela deixou o quarto e eu fechei a porta, sorrindo por estar finalmente sozinha. Minha mala já tinha sido colocada lá dentro, então tratei de arrumar logo minhas coisas. Tirei as minhas roupas de lá e fui organizando tudo nas gavetas. Não demorou e eu já tinha acabado. Depois de um tempo, terminei tudo e fui caminhando até a sala. Lá encontrei a minha família rindo e se divertindo, vendo fotos antigas. Me juntei a eles, pegando um álbum de cima da mesa de centro. Ele continha várias fotos da minha mão na adolescência, entre os 16 e 19 anos. Mas eu me interessei especialmente em uma delas. Minha mãe estava com uma fantasia de Branca de Neve, e ao lado dela estava uma menina fantasiada de fada. Elas deviam ter mais ou menos uns 17 anos. Faziam caretas e pareciam estar se divertindo bastante.
– Mãe, quem é essa menina aqui? – eu perguntei, enquanto apontava para a fadinha.
– Ah, sim... – minha mãe esboçou um sorriso no rosto – Esta é a Alice. Ela era a minha melhor amiga desde que eu era pequena.
– Era? O que aconteceu? –Eu indaguei um tanto surpresa.
– Bem... Nós nos afastamos na época da minha viajem a Miami. Você sabe, o intercâmbio...
Eu já tinha ouvido aquela história. Quando a minha mãe completou 21 anos, viajou para Miami para realizar o seu sonho de fazer intercâmbio. Mas ouve um “acidente de percurso”, que destruiu todas as suas esperanças. Eu. Três anos depois de ter saído do Brasil, quando já estava no fim dos seus estudos, ela conheceu o meu pai biológico. Eu nunca o vi, por que aquele desgraçado abandou a minha mãe enquanto ela ainda estava grávida. Sempre que eu toco nos assunto, ela fica triste. Ela diz que ele teve que partir, e que ele me amava. Mas mesmo assim eu ainda sinto um ressentimento. Eu nunca tive um pai. Bem, o Steve tenta, mas eu não consigo dizer que ele é como um pai para mim. Quer dizer, ele é um cara super legal, cuidou da gente quando nós mais precisávamos, nos trata muito bem e tal. Mas não é a mesma coisa.
Notei que a minha mãe estava ficando com uma expressão vazia, e imaginei que estivesse sendo dominada pelas lembranças. Senti-me desconfortável, em notar que eu tinha feito com que ela se entristecesse.
Passamos alguns minutos olhando as fotos, até que a Nana, a nossa cozinheira, nos chamou para almoçar. Sentamos-nos a mesa e começamos a conversar.
– Então Mel – era assim que o meu avô me chamava – O que achou de viajar de avião?
É claro que eu não iria falar sobre as coisas esquisitas que aconteceram comigo, como vozes sinistras e seres voadores, então resumi tudo em uma só fala:
– Foi horrível. Eu nunca mais quero viajar de avião na minha vida. Prefiro mil vezes o navio.
– Concordo com você netinha. – ele disse baixinho, como se fosse segredo — Aquela comida que eles servem é de matar.
Eu ri e a minha mãe faz cara feia para mim.
– Você não devia ficar reclamando. Você acha que aquela viagem foi barata?
– Desculpa, só fui sincera – eu respondi, dando de ombros.
– Pode deixar. A viagem de volta será por nossa conta – Vovó deu uma piscadela para mim – Um cruzeiro com tudo pago.
– Oba! – eu comemorei
Minha mãe bufou. Ela era muito orgulhosa, e detestava quando os meus avós queriam pagar alguma coisa para ela.
– Mãe! A Melissa é muito fresca, vocês não tem que fazer tudo que ela quer.
– Não, você não vai recusar. Considere como um presente de aniversário para a nossa netinha.
Minha mãe revirou os olhos. Achei engraçado o modo que ele agia, como uma adolescente mimada. Terminamos de almoçar e eu fui para a varanda. Deitei-me na espreguiçadeira e olhei para o céu. Uma série de nuvens escuras vinha rapidamente na direção do litoral. Uma tempestade.
Não pude acreditar. Era extremamente injusto que hoje, justamente no meu primeiro dia no Brasil, eu não fosse poder sair do apartamento. Saí da varanda xingando baixinho e fui para o meu quarto.
Liguei meu computador e comecei a navegar na internet. Como sempre acontece quando eu estou no computador, o tempo passou voando, e quando eu olhei no relógio já eram seis da tarde.
De repente, escuto alguém batendo na porta. Viro a cadeira e vejo a minha mãe encostada na parede.
– Posso entrar?
– Claro. – respondi.
Mamãe se sentou na minha cama e olhou para mim.
– Filha, tem alguma coisa que você queira me falar? Não sei... Mas você tem agido tão estranhamente desde que saiu do avião. Aconteceu alguma coisa?
Anne me conhecia como ninguém. Eu nunca conseguia esconder nada dela. Ela me olhou com aqueles olhos cheios de ternura. Não pude me conter. Precisava dizer o que tinha acontecido. Não tinha certeza se ela iria acreditar em mim ou se ia ligar para o hospício, mas eu precisava tentar.
– Ok. Mãe, no avião, naquela hora que eu gritei e ele virou de um lado para o outro... Bem, o que me fez gritar... Olha, isso vai soar muito estranho. Hã, eu nem sei como explicar.
Minha mãe respirou fundo e falou:
– Querida, você pode confiar em mim.
Concordei. Precisava falar. Inspirei o máximo de ar que pude e despejei tudo de uma vez só. Não sabia o que a minha mãe estava pensando, e fiquei com medo de saber. O silêncio pairou sobre nós durante tempo.
Quando olhei para ela novamente, vi que sua expressão tinha mudado. Assustada? Não. Preocupada. Era como se ela temesse que um dia isso acontecesse comigo.
– Filha... Olha, eu sei que você deve estar apavorada com tudo isso. Mas eu preciso que você me escute, e que confie em mim. – ela dizia tudo muito pausadamente – Essas coisas que aconteceram com você... Elas só vão ficar piores e mais frequentes.
Mamãe baixou os olhos. Eu não estava entendendo. Porque a minha mãe estava falando isso? Ela queria me deixar pior do que eu já estava?
– Mãe? Que história é essa? Tem como me explicar isso melhor?
– Melissa, você precisa manter a calma. Vocês sabe que é especial. Eu prometo que tudo vai fazer sentido depois, ok? Mas e preciso que você faça o que eu te pedir.
Eu assenti. Estava confusa e perdida, mas de qualquer forma, sentia que tinha que acreditar na minha mãe.
– Primeiro: Desligue o computador e o celular. Acredite, é para o seu bem. Segundo: Se mantenha o mais longe possível de pessoas estranhas. E terceiro: Não comente isso com ninguém, certo. Nem seu pai, nem a sua irmã e nem os seus avós.
Eu não entendia por que a minha mãe me mandava fazer aquilo. Não fazia sentido. No entanto, ela me disse para confiar nela, e era isso que eu iria fazer. Concordei e fiz o que ela pediu. Ela sorriu fracamente e saiu do quarto sem falar mais nada.
Agora que eu não tinha mais nenhuma distração, decidi que era hora de tomar banho. Era muita coisa esquisita acontecendo comigo de uma vez só. Coloquei um vestidinho de algodão e voltei para o meu cantinho, para tentar descansar um pouco. Deitei na cama e, antes que pudesse notar, já tinha pegado no sono.
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