Notas iniciais
Espero que gostem =3

Steve e mamãe vieram para perto da gente, com um semblante de preocupação.

– Vamos embora. – ele falou.

– Ah, não, eu quero ficar mais um pouquinho. – reclamou Lea.

– Desculpa filha, mas precisamos ir. Agora. – mamãe segurou a mãozinha da minha caçula e a fez levantar. Depois de termos recolhido tudo, voltamos para o condomínio.

Entramos no apartamento dos meus avós com pressa. Mamãe deixou Lea e Steve na sala e foi comigo até o meu quarto. Ela pegou a minha mala, abriu e começou a colocar umas roupas minha lá dentro.

– O que você tá fazendo mãe?

– Preparando a sua mala de viajem. – ela respondeu, num tom casual.

Eu não estava acreditando.

– Ma-mas por quê? Vamos embora?

Anne parou o que estava fazendo, se virou e colocou sua mão no meu ombro.

– Na verdade, só você vai. Eu preciso mandá-la para o acampamento agora.

Ela ainda não olhava nos meus olhos.

– Que acampamento? Do que você tá falando?!

– Eu vou explicar tudo depois. Agora, vá tomar um banho e coloque uma roupa bem confortável, ok?

Eu estava perdida. Nada mais fazia sentido. Estava sendo obrigada a abandonar o lugar que mais amo no mundo por um motivo que não conhecia.

Só que estava cansada de mais para lutar. Simplesmente obedeci a minha mãe.

Separei uma blusa e uma calça jeans bem simples. Fui para o banheiro e tranquei a porta. Quando me virei, levei um susto com meu reflexo. Eu estava horrível. Meu rosto estava vermelho e inchado, – devido o tapa do desgraçado do Fred – meu cabelo, completamente desgrenhado. Arranhões e hematoma se espalhavam por meu corpo.

Minha cabeça latejou, lembrando meu ferimento. Pus a mão sobre o machucado e vi que ainda estava sangrando um pouco. O ódio brotou dentro de mim. Era tudo culpa minha.

Durante todo o tempo que eu fiquei sob o chuveiro, esse fora meu único pensamento. Se eu não tivesse desobedecido minha mãe e ido tão longe na praia. Se eu a tivesse escutado e ficado longe de estranhos. Se eu não tivesse dado confiança para um completo desconhecido... Eu não fazia ideia de como minhas escolhas estúpidas iriam afetar minha vida. Agora eu estava prestes a ir embora desse paraíso tropical por ter entrado na água com psicopata canibal de três metros.

Voltei para o quarto e encontrei a minha mala pronta. Mamãe já não estava mais lá. Peguei um dos meus All Star que estavam perto da cama e calcei. Fui para frente do espelho e penteei meu cabelo cuidadosamente, evitando tocar a ferida. Quando eu estava terminando de passar pó para amenizar a vermelhidão causada pelo tapa, minha mãe reapareceu.

– Você está linda querida. Vamos?

Eu assenti fracamente. Não queria sair dali, mas parecia ser a única opção. Peguei a mala e fui para sala.

O clima estava tenso por lá. Meus avós e Steve estavam num silêncio pesado. Quando vovó me viu, levantou-se e me deu um forte abraço. Meu padrasto e meu avô fizeram o mesmo. Senti-me mal por estar me distanciando deles desse jeito. Espero que a minha mãe tenha esclarecido bem as coisas, apesar de Steve já parecer entender tudo.

– Onde está a Lea? – perguntei. – Quero me despedir dela.

– Ela deve estar na cozinha. – mamãe respondeu. – Por favor, querida, seja rápida.

Saí da sala com passos rápidos. Na cozinha, encontrei Lea a Naná rindo e comendo um bolo de cenoura com cobertura de chocolate que parecia delicioso. Minha pequena ainda estava usando o seu adorável maiô de morango. Cheguei perto dela e lhe dei um forte abraço.

– O que aconteceu, Melissa? – Lea me perguntou, intrigada.

– Ah... Eu vou ter que voltar para nossa casa. Láaaaaa longe. Mas eu vou ter que ir sozinha.

– Eu não vou? Mas por que você tem que ir?

Meu coração apertou.

– Olha, eu também não sei. – forcei um sorriso – Mas prometo que logo eu vou voltar. E aí a gente vai poder montar aquele quebra cabeça de mil peças que você sempre quis montar.

Lea fez que sim com a cabeça. Não sabia se ela tinha acreditado em mim, mas sabia que minha irmã era muito compressiva. Dei-lhe um abraço apertado e um beijo na ponta do nariz. Depois me despedi de Naná e deixei a cozinha, pensando se conseguiria cumprir minha promessa.

* * *

Quando estávamos na porta de saída do condomínio, eu perguntei a minha mãe:

– Ei, como vamos voltar? Quer dizer, eu não vou entrar em avião nenhum, ok?

Mamãe não olhava para mim. Seus olhos vagueavam pela praia, focando na direção do cais. Um sorriso travesso surgiu em seus lábios.

– Já sei como vamos arrumar uma carona. Venha comigo.

Caminhamos até um porto de iates. Havia vários homens de boa aparência, caminhando por lá, olhando e polindo seus barcos. Mamãe se aproximou de um deles e lhe disse alguma coisa que o deixou assustado. Em seguida ele lhe entregou um pequeno objeto e saiu correndo para a calçada. Anne fez um gesto rápido para eu me aproximar e eu obedeci.

– O que você disse para aquele homem?

Mamãe abriu um sorriso travesso

– Já vou lhe dizer. Agora entre, vamos dar uma voltinha de iate.

O barco era um verdadeiro luxo. Não tive a chance de olhar os detalhes, por que a minha mãe me arrastou para a cabine de controle. Ela girou a chave e ligou o barco. Demorei alguns instantes para entender o que ela estava prestes a fazer.

– Oh não. Você não está pensando em roubar esse barco, está?

Antes que ela pudesse responder, o nosso transporte arrancou mar adentro. A última coisa que eu ouvi foram os berros do dono atrás da gente. Eu estava atordoada demais para dizer qualquer coisa, mas mamãe tomou a palavra.

– Não estou roubando, ok? Eu só estou pegando emprestado. Depois nós vamos devolver.

Dei um passo para trás.

– Quem é você e o que fez com a minha mãe?

Ela sorriu e continuou avançando pela água.

– Uau! Isso aqui é bem tecnológico. Olha, tem até piloto automático. Ok. Eu vou por nosso destino aqui e aí conversamos.

Mamãe teclou alguns botões na tela e escreveu “Estreito de Long Island”.

– Long Island? O que vamos fazer lá?

– É lá que fica o acampamento. Ok. Já terminei, agora vamos descer, tenho muito para te contar.

Fomos para a parte de baixo do iate, que era chiquérrima. Num canto havia um sofá de couro e uma TV de plasma, no outro lado uma cama de casal com uma mini-geladeira ao lado. Mamãe se sentou no sofá e me chamou.

– Bem... Por onde eu começo?

– Gostaria de saber como você conseguiu convencer aquela carinha a entregar o iate.

– Ah, foi fácil: Bastou dizer que estavam saqueando o carro dele e que eu cuidaria da chave enquanto ele ia lá ver. Que desconfiaria de uma inocente moça como eu?

Minha mãe fez uma expressão engraçada de pobre coitada e conseguiu me arrancar um sorriso. Mas logo voltei a ficar séria. Tinha muita coisa que ela estava me escondendo.

– Bem, mas não é só isso, né? Tem mais coisa para explicar aqui.

– Ah sim, É difícil de dizer. Bom, vamos lá: Você sabe alguma coisa sobre Mitologia Grega?

– Mitologia Grega? Mas o que isso tem a ver?

– Você sabe ou não?

– Sei... Zeus, o carinha do raio, e o resto do povo todo. O que é que tem?

Mamãe respirou profundamente.

– Eles são imortais, certo? Quero dizer... Eles estão vivos até hoje. E você. – a voz dela falhou. Ela espremeu os olhos e balançou a cabeça – talvez você me ache louca, mas... Você é filha de um deles. Você é uma semideusa.

Depois que ela disse isso, um silêncio pesado tomou conta do cômodo. Minha cabeça ficou a mil. Isso tudo era muito estranho para mim.

– Como assim uma semideusa? Isso não existe -, eu dei uma risada nervosa – Você está brincando, né?

Mamãe negou com a cabeça tristemente. Fiquei sem reação por um tempo, tentando processar aquilo. Não podia acreditar que a minha mãe pudesse inventar algo assim, mas era difícil aceitar. Semideusa? Deuses? Como eu nunca soube de nada disso? Muitas perguntas rodeavam a minha mente, mas havia uma em particular que mais me intrigava:

– Quem é meu pai?

Essa pergunta mexeu com a Anne. Seu lábio inferior tremeu. Fiquei com medo de que ela começasse a chorar por minha causa, ou gritar e me deixar sem respostas. Felizmente, ela sempre foi uma mulher controlada.

– Ele era um homem maravilhoso. E não te abandou como você pensa. Precisou ir embora. Deuses não podem ficar aqui cuidando dos seus filhos.

Nossa. A ideia que meu pai era um deus tinha ficado subentendida, mas ouvir minha mãe falar assim tornava tudo sólido. E, caramba. Isso é muito estranho.

– Bem, e que deus ele era?

– Eu não sei, ele nunca me disse. Quanto menos a gente sabe sobre deuses, mais seguros estamos.

– Seguros de quê, exatamente?

– Monstros. Como o cara da praia, ele era um lestrigão.

Lestrigão. Fred era um monstro. Mas porque antes ele parecia um garoto tão normal e – urgh – bonito?

– Mas mãe, quando ele apareceu não estava no formato de monstro. Ela parecia uma pessoa normal...

– Ah, sim. Isso se chama névoa. A gente define como um pano, um véu que cobre o mundo que conhecemos. Ele transforma todas as coisas mágicas em ilusões que são fáceis de aceitar. Eu não sou semideusa. Mas nasci com capacidade de enxergar através desse véu. Entendeu?

– Tá. E por que esses monstros querem me matar? O que eu fiz para o Fre... – me interrompi. Minha mãe me mataria se soubesse que antes de tentar me devorar, o Fred tinha flertado comigo. – Lestrigão. Para o Lestrigão querer acabar com minha raça?

– Pelo simples fato de você existir. Semideuses são perigosos, querida.

Perigosos? Por favor, eu poderia ser muita coisa, mas perigosa? Isso era ridículo. Eu não consigo fazer mal a uma formiga.

– E o que eu vou fazer nesse acampamento? – continuei.

– Lá você vai aprender a se defender, conhecer outros semideuses, ficar protegida de monstros e tal.

Então eu não era a única. Havia um acampamento inteiro de outros semideuses. Tinham muitas coisas que queria perguntar, mas precisava ir devagar.

– Mãe, lá na praia, quando eu tentava fugir do monstro, uma coisa estranha aconteceu. Bem... O meu colar. Não sei, eu o esfreguei sei lá por que e um campo de força apareceu em volta de mim.

Minha mãe sorriu fracamente. Depois fuxicou por algo dentro da sua bolsa e tirou de lá a adaga que usou para destruir Fred.

– Seu pai deixou essas coisas comigo quando partiu. A adaga era para eu te defender e o colar para te proteger.

– Como assim?

– Esse colar tem uma magia poderosa. Ele inibe o seu cheiro e te afasta dos monstros. Quando você o esfrega, atiça todo o seu poder, o fazendo criar um escudo a sua volta. Mas preste atenção, você não pode abusar dele, por que a magia pode se reverter e atrair mais monstros ainda.

Lembrei-me da conversa que escutei entre minha mãe e Steve. Uma pergunta veio na minha cabeça e eu a lancei sem sequer pensar.

– O que Steve quis dizer com “o poder do colar está acabando”?

Mamãe me lançou um olhar repreendedor.

– Então você estava mesmo ouvindo por detrás da porta?

– Oh, desculpe-me. Mas vocês estavam falando de mim, então...

Ela me interrompeu com um gesto das mãos. Olhei para o seu rosto e vi que sua expressão era culpada.

– Steve estava certo o tempo todo. Quando seu pai me entregou o colar, avisou que a magia não iria durar para sempre. Ele falou que quando você atingisse a adolescência, ele não seria forte o bastante, e então eu teria que te mandar para o acampamento. Mas eu fui teimosa. Acomodei-me ao poder e achei que poderia ter você perto de mim para sempre. Achei que nunca teria que te contar a verdade.

– Steve sabia? Steve sabia o tempo todo e eu não?

Fiquei chocada. Como meu padrasto aceitara isso tão bem? Como ele aceitara cuidar de uma mulher solteira e uma filha problemática assim? Como se lesse os meus pensamentos, mamãe disse:

– Não foi fácil para Steve aceitar. Mas ele nos ama muito. Já teve um relacionamento com uma deusa, mas desse não surgiu filhos. Por isso foi mais fácil de entender.

– Quem? Que deusa?

– Afrodite, a deusa do amor.

– Afrodite? Ué? Mas ela não é casada? Com Hefesto, né?

– A deusa do amor nunca foi muito fiel, sabe. Hefesto vive nas forjas, e ela nunca o amou. Foi obrigada a casar, por isso vive pulando a cerca.

– Uou. Pensei que deuses fossem corretos.

Mamãe riu com o canto da boca.

– Não muito.

– Mas e a adaga? Ela é sua?

– Sim. Seu pai me deu e avisou que eu deveria usá-la para te defender até você ir para acampamento. É feita de bronze celestial, por isso só e letal a monstros.

– Legal. Posso ver?

Mamãe assentiu e me estendeu a arma. Ela emanava poder. Tinha uns 15 centímetros. Seu cabo era branco e brilhoso.

– O cabo é feito de madrepérola, como o seu colar. – mamãe falou – Agora é sua. Gostou?

– Minha? Tem certeza?

– É claro! Mas vamos continuar, tenho certeza que você ainda tem muitas dúvidas.

– Sim. Por exemplo, o que foi aquilo no avião? Aquele monstro...

Mamãe pareceu desconfortável. Ela contraiu o maxilar e disse:

– Era uma... Sabe, não é bom dizer o nome dela assim. Nomes são perigosos. Então vamos chama-la de Benevolente, ok?

– Hm... E o que ela fazem? Por que são tão perigosas?

– Se mandaram ela até você é por que já desconfiam da sua existência.

– Ah... E isso é ruim?

– É péssimo.

Lembrei-me do olhar frio que aquela criatura lançara para mim e senti um arrepio percorrer minha espinha.

– Mãe, você não acha que vamos ser perseguidas pela policia? Quero dizer, você roubou um iate.

Anne franziu o nariz.

– Você tem razão. Já está na hora de eu pedir ajuda a um amigo.

Notas finais
Mereço reviews? *-* Oxi, ficou grande esse :3