Entre Céu & Mar
5 Uma tragédia inesperada
Notas iniciais
Não esqueçam de comentar sobre o que acharam!
Um sorriso bobo teimava em permanecer no rosto de Ágata, quando pôs os pés em casa, novamente. Evellyn ainda fingia prestar atenção à TV, embora mudasse de canal em menos de um segundo. Kate já havia chegado, e como de costume, estava sentada ao balcão da cozinha, bebericando seu café, e lendo as notícias do dia, indiferente com sempre.
-Você demorou mais que o costume hoje, Ágata. –Kate havia percebido a chegada de Ágata, e perguntou-a o motivo da demora, sem demonstrar verdadeiro interesse pela resposta. Ela não lhe respondeu, ao invés disso, dirigiu-se para a grande estante no centro da sala, numa busca interminável. Sua afobação era tanta que sem querer, acabou derrubando uma pilha enorme de CDS em cima de Evellyn.
-Ai!Ágata!Qual o seu problema?
-Desculpa! Preciso achar um CD!
-Que CD?
-Do Eagles. –Ágata lhe respondeu indiferente. Evellyn a olhou, estranha. Nunca passou pela sua cabeça que a sua irmã- sendo quem ela era- ouvia Eagles. Achando esse um mistério divino, não hesitou em ajudar a irmã, passando a mão por alguns CDS, até encontrar o tão escolhido.
-Este aqui?-Ela disse, lançando um olhar desconfiado.
-Este mesmo! Obrigada!-Ágata agarrou o CD e lhe deu um beijo no rosto inesperado. Depois, saiu perambulando pela escada, como se estivesse ensaiando seus passos de balé. Tanto Evellyn quanto Kate a observavam, sem entender nada.
Ágata mal havia chegado ao quarto, e logo pôs o CD para tocar. Logo pulou para a faixa que mais lhe interessava, pondo-a para repetir, jogou-se na cama, apreciando a música. Rapidamente, um misto de lembranças veio à sua mente naquele momento. Lembranças de sua infância, e de como eram raros os momentos que passara com o seu pai, e a lembrança de algo não muito antigo, que poderia se tornar algo futuro. Mas, o que não saía de sua cabeça, era a imagem de Erick, tocando violão, e de como se sentiu ao vê-lo pela primeira vez. Era tudo muito novo, afinal, nunca havia sentido isso por ninguém.
XXX
Evellyn havia desistido de assistir à TV. Desligou-a e subiu para o quarto, desanimada. “Sou uma idiota”, pensou. Embora mentisse até para si mesma, ela ainda esperava por qualquer sinal de Hank, obrigando-a a odiar a si mesma por não ter pegado o seu número também. Talvez fosse esse o motivo pelo qual ele ainda não teria ligado. Mas, do que adiantaria? Ela com certeza não ligaria. Como de costume, pegou o seu celular mais uma vez, e o que viu não poderia ter sido melhor. Havia duas chamadas não atendidas e uma mensagem de voz. Sem hesitar, pôs-se logo a ouvir, e então, uma voz conhecida se manisfetou:
-Olá Eve, nem sei por onde começar, mas eu precisava te ligar. Eu adorei a noite de ontem, e cada segundo que passei com você. Não vejo a hora de te ver de novo. Mas, me envolvi em alguns contratempos, e vou precisar ficar fora da cidade por alguns dias. Espero que entenda, sei que parece estranho, te explico depois. Beijos,
-Hank.
A mensagem de voz lhe deixara com uma pulga atrás da orelha. Era mesmo um contratempo, ou uma desculpa das boas?Seja o que for ela não ligava. Também não via a hora de revê-lo.
XXX
A primeira semana de aulas passou rapidamente, ou talvez, nem tanto. Seu decorrer fora normal até demais. Erick e Ágata continuaram a se falar, porém, raramente, e as poucas vezes que se falavam, eram conversas rápidas e falhas, como se não conseguissem dizer algo.
Ágata se encontrava na biblioteca, como de costume. Estava Relendo seu romance preferido, “Razão e Sensibilidade”, de Jane Austen, pela milésima vez. Charlie estava bem do seu lado, eufórico com mais uma revista em quadrinhos acrescentada em sua coleção. Fazia comentários sobre cada página que lia, e Ágata o ouvia atentamente, mas não por muito tempo. Sua atenção fora desviada para a figura conhecida um pouco distante. Erick estava de frente para a última estante, ele estava lindo, como sempre. O cabelo castanho-escuro caindo um pouco abaixo do queixo, o seu inseparável casaco preto, que acentuava ainda mais sua pele clara. Erick também a observava, de relance, automaticamente realizando uma súbita troca de olhares.
-Ágata, ei Ágata! Você ta me ouvindo?-Disse Charlie, acordando-a do transe.
-O que foi?
-Parecia que um zumbi tinha devorado o seu cérebro! Você nem me escutou, não é?
-Claro que escutei!
-Então o que eu disse? –O silêncio de Ágata confirmou que ela não havia prestado atenção.
-Desculpa Charlie, foi só uma distração! Anda, continua!
-Bem, como eu ia dizendo... Ah... Essa não... –Charlie ia continuar inocentemente, porém, seus pensamentos foram interrompidos pela pequena figura que ali se aproximava.
-Oi Anna... –Disse Ágata, porém não obteve resposta. Anna estava inquieta.
-Agora finalmente conseguiram tirar a minha paciência! –Anna estava quase gritando, o que chamou bastante atenção.
-Shh! –Disseram Ágata e Charlie em coro. Anna lançou um olhar esnobe para Charlie.
-Quem este ser pensa que é para me mandar calar a boca?-Exaltou-se.
-Bom dia para você também, cara de bolacha. –Disse Charlie.
- O que aconteceu Anna? –Ágata perguntou.
-Nada, só estou num dia ruim. – Ágata a olhou, sem acreditar que era só isso.
-Tudo bem! Terminei com o meu namorado, satisfeita?
-Não é novidade, afinal de contas, nenhum cara é louco o bastante para te aguentar por mais de três meses, ou menos. –Charlie murmurou, provocando a ira de Anna.
-Palavra de quem é muito experiente, aliás. –Anna respondeu ironicamente.
-Parem vocês dois! Será que não conseguem ficar um minuto juntos sem brigar? –Os dois permaneceram em silêncio, como Ágata queria.
-Ágata... Preciso de você, hoje!
- Hoje não dá, desculpe. Eu e a Sofia temos balé depois da escola. Por que não vai com a gente?
-Não, muito obrigada. Já não estou muito bem, e balé clássico é meio... “depremente”.
-‘Deprimente’ Anna... –Ágata corrigiu. –Bem, se você pensa assim, não posso fazer nada então.
-Tanto faz! Tudo bem então, vou ficar bem, sozinha. –Anna odiava a mania que ela tinha de corrigir tudo. O som estridente do sinal soou.
-Bem, eu vou para a aula agora. Mas não liga pra mim, vou ficar bem. Foi só um romance de verão, que precisava de um fim. Já me acostumei a ficar sozinha, no fim das contas. –Concluiu Anna.
-Ok então... –Disse Ágata. “Já era de se esperar”, pensou. “Só um romance de verão”, analisava suas palavras, incrédula ao ver a importância que as pessoas davam ao amor hoje em dia.
***
Já fazia uma semana que Evellyn não via Hank. Claro, ele dava sinais de vida, a ligava de vez em quando, mas não era o suficiente. Suas desculpas se tornaram repetitivas, estava na casa de um amigo, ainda não havia resolvido seu problema, e que não via a hora de vê-la novamente. No entanto, sempre que Evellyn perguntava qual era o verdadeiro motivo pelo qual foi obrigado a sair da cidade, ele sempre mudava de assunto. Isso a deixava nervosa, embora não deixasse transparecer. E sua desconfiança só havia aumentando depois de Madison soltar o seu veneno:
“Hank é apenas um covarde, como todos os seus amigos, e só está fugindo porque o papai se recusa a pagar o preço de suas farras. Mas não se preocupe, se ele estiver mesmo afim de você, vai voltar.”
Evellyn se lembrava de suas palavras, e sua afirmação só aumentava a sua curiosidade. Não via a hora de tirar essa história a limpo, pois uma hora ou outra ele teria que falar.
Felizmente, a hora fora mais breve do que imaginara:
-Chegou hoje mesmo Eve... –Dizia ele ao telefone.
-Finalmente, já era hora!
-Aconteceu algo?
-Isso é você quem vai dizer.
-Preciso te ver Eve, hoje mesmo. Você pode me encontrar hoje? No píer? Quero te levar a um lugar especial.
-Claro... Você me deve algumas explicações, aposto que tem bastantes novidades.
-Você nem faz ideia. Mas vou te contar tudo. Só mais uma coisa, por favor, não comente com a Madison que eu voltei? Tudo bem?-O pedido de Hank não poderia ser mais estranho.
-Tudo bem... Mas, posso saber por quê?
-É complicado, te explico depois. –“A mesma desculpa de sempre”, pensou. É isso que as pessoas dizem, quando não querem explicar algo ruim: “É complicado.”
Evellyn estava irritada de verdade. Qualquer que fosse o motivo do sumiço de Hank, Madison sabia, e não lhe contou. Mas pouco importava agora, ela iria descobrir tudo hoje (ou ao menos pensava assim). Mas a verdade (embora não admitisse) era que ela estava tão contente em rever Hank, que na certa, esqueceria de tudo, quando encontrasse seu sorriso novamente.
Ágata praticava balé desde os dez anos. Sempre se destacou entre as demais bailarinas, pois sempre se esforçou muito. Junto com ela, Sofia também praticava, porém, nunca conseguira ser tão boa quanto ela.
Hoje elas retornavam à academia de balé. Foram direto para o vestiário, que se encontrava cheio de conhecidas tagarelas. Cumprimentaram-se, e conversaram um pouco, mas logo o vestiário foi tornando-se vazio, deixando apenas as duas amigas.
-Será que ela vai voltar? –Ágata perguntou à Sofia, que rapidamente entendeu de quem se tratava.
-Eu ainda não a vi. Tomara que tenha atravessado a fronteira, e que fique bem longe da gente. –Sofia respondeu. Ágata se arrumou rapidamente, só faltava amarrar as sapatilhas, quando de repente, deparou-se com uma silhueta conhecida. À sua frente ela estava. O corpo exageradamente magro, a pele corada, os cabelos negros, bem cacheados. De braços cruzados, ela a fitava com aqueles olhos negros manipuladores.
-Oh droga, falando no diabo.... –Murmurou Sofia, tão baixo que nem ela mesma pôde escutar a sua voz.
-Olá Ágata... Faz um tempo que não nos vemos... –Ela disse, finalmente.
-Olá Valentina, pois é quem é vivo sempre aparece. –Respondeu.
-Vejo que está muito bem.
-Melhor do que nunca.
-Pois bem, porque esse ano será difícil. – Valentina parecia adivinhar.
-Não tenho medo de desafios.
-Sei muito bem disso, Ágata. Sempre foi algo que chamou a atenção em você. Então, só me resta desejar boa sorte, você irá precisar. –Ela disse, retirando-se logo depois. Ágata suspirou, aliviada por ela ter saído.
-Que pedra no sapato, pensei que ela tinha sumido! –Exclamou Sofia. Ágata não respondeu. Estava refletindo. Valentina a incomodava, porque, diferente das demais bailarinas, ela era um adversária forte contra ela, digna de não ser subestimada. Pior ainda, ela não podia evitar o remorso que sempre que a encarava.
-Esquece isso, vamos logo, senão vamos nos atrasar. –Ela disse, pondo fim na conversa, e seguindo em direção ao salão.
***
Evellyn esperava impaciente por Hank no píer. O mar estava revoltado, com ondas violentas. Ela estava como o mar, revoltada, e mais revoltada com o passar dos minutos. Apesar do mau tempo, o píer estava movimentado. De longe, ela avistou sua silhueta, vindo em sua direção. Embora estivesse irritada com ele, ela não podia evitar que o seu coração acelerasse, sempre que o via. Ainda mais hoje, pois Hank parecia ainda mais irresistível. Estava de bermuda e camiseta, e os cabelos molhados ao vento.
-Pensei que não viria mais.... – Ela disse, logo sendo interrompida pelo abraço forte, envolvendo-a em seus braços, como se não quisesse se separar de seu corpo nunca mais.
-Me desculpa por ter sumido Eve... Juro que se não fosse realmente sério eu não teria ido. –Ele sussurrou no seu ouvido. Evellyn não respondeu, não queria abaixar a guarda, mas com Hank era impossível. Mesmo sem conhecê-la a muito tempo, ele sabia exatamente como fazê-la perder a cabeça.
-Acho que lhe devo algumas explicações, não é?
-Com certeza. E muitas.
-E você terá todas que quiser, mas antes, quero te levar a um lugar.
Hank a levou para uma lanchonete que ficava bem próxima da praia. Pelo nome e pelo estilo do lugar, não fora difícil perceber que os donos fossem havaianos. O lugar era aconchegante, lembrava muito o Havaí, tinha um grande aquário ao fundo, o que chamou mais a sua atenção.
-Vivo aqui desde que me entendo por gente, e nunca vim aqui. –Evellyn disse, olhando para os lados.
-Eu imagino. Bem, eu sempre venho aqui quando preciso fugir um pouco de tudo. –Hank acenou para o homem atrás do balcão, de modo que deixava à mostra que ele já era conhecido por lá. Ele a levou para a última mesa, que ficava ao lado da janela. De lá, dava para sentir a brisa salgada vinda do mar. Uma miniatura de uma dançarina havaiana estava sob a mesa, segurando o cardápio. Hank puxou a cadeira para Evellyn se sentar, como um perfeito cavalheiro. Atitude formal até demais para o ambiente em que se encontravam, mas ele não ligou. Ficaram um pouco em silêncio, trocando apenas algumas palavras e olhares. Quem mais falava era Hank:
-Adoro vir aqui. Todo mundo é de bem com vida, nunca tem brigas, a comida é ótima, e sempre toca um som ótimo. –Ele dizia, enquanto ela prestava atenção. Uma garota se aproximou deles. Era alta, magra, a pele bronzeada e cabelos castanho-claros, que combinava com o dourado de seus olhos. Usava uma camiseta com o logotipo da lanchonete, devia ser a garçonete.
-Olhe só, Hank Collins dando as caras por aqui! Já era tempo hein! –Ela disse.
-Admitem vocês não conseguem viver sem mim.
-Ah sim, não conseguimos viver sem a sua carteira, assim podemos dizer.
-Se assim você diz... Ah! Quase ia me esquecendo! Eve, essa é a Solange, uma grande amiga de infância. –Ele disse, apresentando as duas.
-Ah sim. Muito prazer em conhecê-la Solange.
-Por favor, pode me chamar de Sol. Acho que já ouvi falar de você... É Evellyn Baker não é? Muito prazer em conhecê-la também. –Solange sorria sempre quando falava. Evellyn acenou com a cabeça.
-Então... Essa é a sua nova amiga Hank? –Ela perguntou, automaticamente fazendo com que Hank não parasse de falar sobre Evellyn.
-Ta aí... Gostei de você Eve. Pelo visto, parece que vamos nos ver bastante. Vou deixar os dois sozinhos, depois eu volto quando decidirem o que fazer. –Ela disse, caminhando até as mesas vazias. Solange era encantadora, sempre alegre.
No rádio, tocava agora uma música calma. Evellyn logo a identificou, “Questions”, de Jack Johnson.
-Eu adoro essa música... É ótima, não é? –Disse Hank, ao ver Evellyn tomada pelo ritmo calmo da música. Ela concordou. Foi meditando na letra, que finalmente lembrou-se do verdadeiro motivo daquele encontro.
-O que você vai querer? –Hank folheava o cardápio, como se não soubesse os pratos de cor.
-Respostas, é isso que eu quero. –Evellyn foi direto ao ponto.
-Hummm.... Acho que eles não têm isso no cardápio.
-Hank, sem piadas. Você prometeu. Hank respirou fundo. Fitou-a, sério.
-Tudo bem, você tem razão.
-Eu sei disso. Só pra começar, qual foi o motivo de você ter sumido?
-Eu sumi porque precisava de ajuda. –Agora ele sussurrava. Evellyn estranhou.
-Está com problemas?
-Sim, Estou devendo uma grana, e não sabia onde encontrar. –Evellyn o olhou, desconfiada. Então era isso? Do jeito que ele falava, parecia ser sério.
-E por que precisou ir a outra cidade?
-Porque não havia ninguém por aqui que pudesse me ajudar...
-Não entendo... e o seu pai? Por que não pediu para ele? Pelo que me disse, ele tem dinheiro. –Hank deu uma risada desanimada.
-Sim, ele tem. Mas depois que eu tranquei a faculdade, ele não libera nada. E o pior, se eu pedir, ele vai querer a origem da dívida. –Evellyn foi tomada por um ar de preocupação.
-É tão sério assim? –Solange chegou bem na hora, notando que tinham uma conversa séria, resolver não interferir. Hank disse o pedido, e depois, retornou à conversa.
-Digamos que sim. –Hank concordou com a cabeça. Evellyn podia notar que ele tinha problemas. Ele estava diferente desde a última vez que o vira. Achou que fosse impressão sua, mas ele parecia mais cansado, os olhos fundos, como se não dormisse há semanas. Por um momento, achou melhor não interrogá-lo sobre a origem da dívida. Com o tempo, ela iria descobrir.
-Para quem você deve, afinal? –Ela perguntou, achando que assim teria uma pista.
-Para o Alex. –Ele respondeu, envergonhado. A resposta deixou-a surpresa. Apenas ouvir o nome de Alex embrulhava o seu estômago. Perdeu todo o apetite. “Hank seu idiota, por que foi se meter com aquele cara?”
-Agora entende por que não queria que dissesse à Madison que eu estou por aqui? Sabe, você não conhece o Alex como eu, ele é um sujeito violento, então, nunca se sabe o que ele poderia fazer. –Evellyn arrepiou-se só de pensar.
-Então... Você não conseguiu todo o dinheiro?
-A metade sim, mas a outra já sei onde encontrar, não se preocupe. Eu não podia me esconder mais. –Evellyn pensou no perigo em que ele corria ao estar ali, com Alex furioso atrás dele.
-Você não era para estar aqui, não é? Então... Por que voltou? –Ele deslizou a mão até encontrar a sua, enlaçando-a num encaixe perfeito.
-Porque eu precisava continuar o que começamos naquela noite. –Ele disse, abrindo um sorriso. Evellyn inclinou-se e lhe deu um beijo tímido, sentindo-se mal por ter duvidado de Hank.
Depois que saíram da lanchonete, resolveram caminhar pela praia, bem perto do mar, que continuava violento. Poucos se atreviam a entrar na água.
-Cara... Olha essas ondas, me arrependi de não ter trazer minha prancha...
-Estão assim desde ontem, a guarda costeira avisou para terem cuidado, e evitar entrar no mar... Olha só! –Evellyn exclamou, abaixando-se para pegar uma conchinha.
-Não faz ideia das coisas que se pode fazer com isso! –Evellyn contemplava o achado. Hank imediatamente lembrou que Evellyn adorava arte.
-Madison me disse que você leva jeito para a arte. –Ele disse. Evellyn corou.
-Ela disse isso? –Hank afirmou com a cabeça. Pegou a sua mão.
-Quero ver os seus desenhos... Por favor! –Hank lançou-lhe um olhar encantador.
-Melhor não... Nunca mostro para ninguém, não sei se são muito bons.
-Eu posso chegar numa conclusão sozinho Eve... Por favor! Fiquei curioso! –De tanto insistir, Evellyn acabou cedendo.
-Tudo bem então, mas não sei se irá gostar. –Ela puxou-o pela mão, levando até uma duna. Sentou-se na areia branca e macia, e tirou da bolsa seu inseparável caderno, entregando a ele, um pouco relutante. Hank corria os olhos pelos desenhos, observando atentamente cada detalhe. Sua expressão mostrava que estava fascinado.
-Então... O que achou? –Ela perguntou, meio constrangida. Quando alguém olhava seus desenhos, era como se descobrissem outra Evellyn.
-Eu nem sei o que dizer! Evellyn, eles são demais! –Hank estava boquiaberto.
-Sério? Você gostou mesmo?
-Se gostei? Eve, você tem um dom, é sério! –Hank parou num desenho em especial. Era o desenho de um surfista. Imediatamente notou que o surfista era ele mesmo.
-Ei!Sou eu aqui!-Ele a olhou, surpreso. Evellyn havia se esquecido desse desenho.
-É... Eu desenhei isso um pouco antes de te conhecer. –Ela disse, relembrando como Hank havia se destacado entre os demais naquele dia. Hank estava maravilhado. Ele continuou olhando os desenhos, o que chamava mais a atenção neles, era que alguns demonstravam situações do cotidiano que muitas vezes passam despercebidas por nossos olhos, e ali, nas mãos de Evellyn, ganhavam certo brilho. Hank notou que a maioria de seus desenhos eram dragões, de várias formas, cores e tamanhos.
-Eu gosto muito de dragões. –Ela disse. Hank olhou para o enorme dragão vermelho tatuado em suas costas (a blusa que usava deixava metade à mostra) e aproximou-se, até não existir um centímetro de distância entre ambos. Devagar, deslizou seus dedos, seguindo o desenho em suas costas. Evellyn arrepiou-se ao sentir o toque quente das mãos de Hank.
-Deu para perceber... –Ele sussurrou no seu ouvido. –Sabe, eu adoro a sua tatuagem. –Hank beijou-a com ternura, porém, foi interrompido. Evellyn levantou-se e se posicionou atrás de Hank. Deu uma leve e rápida massagem nos seus ombros, exatamente no local que se encontrava as suas tatuagens.
-Também gosto das suas... –Ela respondeu, em seguida beijando-o. O beijo fora longo enquanto durou, intensificando-se a cada segundo. No entanto, um grito histérico de uma voz feminina os trouxe de volta para a realidade.
-O que foi isso?!
-Não deve ter sido nada. –Hank tentou retornar ao beijo, porém mais uma vez foram interrompidos. Um garoto acidentalmente lhes deu um banho de areia, enquanto corria.
-Ei! Cara! Qual é o seu problema? –Hank enraivou-se, mas logo percebeu que ele não era o único a correr. A praia que antes parecia estar vazia dera lugar a um bando de pessoas, que corriam para a mesma direção: o porto. Sem hesitar, Hank pôs-se a correr também, em companhia de Evellyn. Uma multidão de curiosos havia se formado no canto mais afastado da praia, bem ao lado do porto. Todos olhavam para baixo, um tanto chocados, e alguns choravam (ou ao menos fingiam), repetindo frases do tipo “Meu Deus! Que Horror!” aumentando ainda mais a curiosidade de Hank e Evellyn. Sem se importar com a educação, ultrapassaram a multidão, para ver qual era a razão de todo aquele tumulto. A imagem que tanto havia transtornado os demais, respondeu por si mesma. Um jovem rapaz, ou só o seu corpo, como era bem provável, estava estendido na areia. Trazido pela mesma onda que agora limpava os vestígios de sangue abundante. No mar, só restava os restos dos Jet – esquis. Do seu lado, havia outro rapaz, aparentava ser mais velho, também estava machucado. Parecia cansado.
-Não foi minha culpa! Juro que não foi minha culpa! Cara, por que você fez isso? –Ele repetia incessantemente, entre soluços, mas ninguém lhe dava ouvidos. Era notável que ele não se encontrava sóbrio. Talvez o morto estendido no seu lado também não estivesse, poderia ser ele no seu lugar.
-Ai meu Deus! –Hank exclamou, levando as mãos à cabeça.
-NÃO! –Um grito histérico e cortante, seguido de um pranto incontrolável calou a multidão. Viraram o olhar, e lá estava ela, chorando no homem que deveria ser o seu pai. Evellyn logo percebeu que o homem era o proprietário da lanchonete na qual tinha acabado de sair. E garota em seus braços, era a alegre Solange, que acabara de conhecer a poucos minutos atrás. O sorriso que nunca saía de seu rosto dera lugar as lágrimas, que começavam a escorrer tímidas. Bem antes de constatar isso, Hank já estava em direção dos dois. Solange estava rubra.
-Meu irmão Hank!Meu Deus! Não pode ser ele!
-Eu sinto muito Sol... –Hank, o pai e Solange se uniram num único abraço, enquanto deixavam que as lágrimas rolassem livres. Evellyn observava a cena com um grande aperto no coração. Sabia exatamente a dor e choque que estavam sentindo. Tomada por tanta empatia, nem havia percebido quando a primeira lágrima desceu de seus olhos.
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