Entre Céu & Mar
23 As máscaras caem
Notas iniciais
Dias se passaram, e Evellyn ainda parecia ter voltado de um tsunami. É claro, não deixava que ninguém percebesse o que se passava dentro dela, e repetia a si mesma que não ia ficar obcecada por isso e seguiria em frente.
A teoria sempre é mais fácil.
Há dias não conversava com Hank. Ela sentia saudade da sua voz, da sua presença, mas lembrava-se sempre de que se continuasse a alimentar aquela saudade as coisas só iriam piorar. E já passara do tempo de cair na realidade. A culpa era toda dela.
Apesar da culpa e da vergonha, ela precisa vê-lo outra vez. Queria saber como ele estava. Se já tinha a esquecido. Talvez ela seja um pouco masoquista, mas precisa ver aquilo que havia perdido. E ela conhecia o lugar onde provavelmente ele estaria.
*****
Solange a recebeu com a mesma simpatia de sempre, porém havia algo escondido no seu rosto.
Ela sabia.
Evellyn pensou que talvez fosse mesmo uma péssima idéia aparecer ali. Qualquer coisa que Solange lhe dirigisse ela merecia escutar.
–Hank me contou o que aconteceu entre vocês. Então é verdade? –Solange tocou no assunto diretamente, e Evellyn logo percebeu que não havia para onde fugir.
–Sim. –Ela admitiu, envergonhada.
–Eu tenho que dizer. Nunca imaginei que isso ia acontecer com vocês.
–Ele lhe mostrou a foto?
–Se restou alguma coisa daquela foto, é fênix.
–Eu... Eu realmente sinto muito. Eu estou morrendo de vergonha. Eu nem sei o que eu vim fazer aqui... –Evellyn sentia o rosto enrubescer.
–Eve, relaxa. Eu não vou te julgar nem nada. Claro que o que você fez com ele foi péssimo, mas sei lá. Acho que ainda não acredito. –Ela disse pensativa.
–Por que não acredita?
–Bom, eu nunca o vi daquela maneira. Pensei que ia dar certo dessa vez.
–Mas não deu, e a culpa é toda minha.
Infelizmente Solange era obrigada a concordar.
Evellyn ficou aguardando o seu pedido ali, sentada no balcão, lembrando do primeiro dia que viera ali com Hank. O mesmo dia em que encontraram o irmão de Solange morto. Alguns dias antes de revirarem uma dor direto do baú e torná-la ainda pior. Parece que foi há uma década.
O restaurante estava quase vazio, a não ser por um casal que acabara de chegar. Sentaram-se em uma das primeiras mesas. Evellyn era uma observadora e tanto (o que não é um hábito ruim, só se te pegarem) e logo se virou para ver quem era.
E simplesmente seu cérebro se recusava a processar aquela informação.
O casal não era ninguém mais, ninguém menos que Pauline e Hank. Aquela cena lhe enojou de tal jeito, que teria vomitado bem ali se tivesse comido alguma coisa. Eles também pareciam ter notado a sua presença, mas Hank evitava olhar. Pauline lançava-lhe um olhar provocativo, com quem diz: “eu venci”.
–Eca. –Solange pareceu ler a sua mente quando apareceu com o seu pedido.
–Não acredito que... –A vontade de Evellyn era sair correndo dali, mas não iria dar a eles esse gostinho.
–Eu acho que me esqueci de mencionar que eles voltaram. –Solange se explicou.
Naquele momento Pauline começou a mordiscar a sua orelha, sem tirar os olhos de Evellyn. Nada no rosto de Hank denunciava se ele gostava ou não. Ele parecia neutro, quase taciturno. Algumas vezes dirigia a Pauline um meio sorriso forçado, mas é claro, aqueles eram detalhes que a pessimista Evellyn não podia perceber.
A vontade que tinha era de pedir a ele para ensinar-lhe a esquecer fácil e ser igualmente volúvel.
–Estou vendo que ele se recuperou fácil. –Ela murmurou tomando todo o cuidado para que eles não ouvissem.
–Tá brincando? –Solange parecia incrédula, mas Evellyn falava sério.
–Olha, eu realmente estou preocupada com ele. Você não o conheceu na época da Pauline. Foi quando ele começou a usar drogas, o que é aceitável, pois não acho que nenhum sóbrio consiga suportá-la. O namoro deles é de fachada. Ele é orgulhoso demais para aceitar isso sem nenhuma dignidade. E o problema maior é que ele está se afundando cada vez mais em drogas. –Solange sussurrou dessa vez, e sua expressão parecia dura.
–Sério Evellyn. Eu realmente estou preocupada com ele. –Solange admitiu. Lembre-se de que Solange é totalmente liberal.
Evellyn também estava demasiadamente preocupada. Se pudesse tentaria falar com ele. Dizer para parar com isso. Que ele tem um talento incrível e que estava jogando fora. Mas já era tarde.
–Ei, Sol, nós estamos com fome! –Pauline gritou com a voz mais irritante do mundo.
–Eu tenho que ir. –Solange disse, revirando os olhos.
Decidida a sair logo dali também, Evellyn pegou o seu pedido e o embrulhou. Não olhou para Hank e muito menos para Pauline, mas podia sentir seus olhos fuzilarem as suas costas. Longe dos dois, ela sentiu uma lágrima querer sair. Ultimamente elas andavam ‘serelepes’ demais. Mas não, ela não iria chorar por aquilo.
Pensou no que Madison a diria num momento desses. Claro, depois de um bom drama e escândalo, ela secaria suas lágrimas, ofereceria uma vodka, e com certeza a mandaria para o baile de máscaras no colégio. Porque Evellyn não era uma garotinha estúpida para desperdiçar um sábado chorando por homem, vendo filmes melosos e se entupindo de chocolate.
E era exatamente isso que faria. Ligou o som numa música bem animada e se dirigiu para a loja de fantasias.
*****
–Então, você vai mesmo à festa? –Sofia perguntou como quem não quer nada, jogada na cama de Ágata.
–Acho que não. –Ela respondeu pensativa.
–E por que não? –Sofia não desistia nunca.
–Eu nem tenho fantasia.
–Ágata, por favor! Não é obrigatório ir de fantasia, e você pode pegar sua roupa de balé.
Naquele momento Evellyn passou pelo corredor com a cara fechada e com sua fantasia de cisne negro esvoaçando em suas mãos.
–Sua irmã está tão mal-humorada ultimamente... –Sofia comentou, suspeita.
–Kate disse que ela e Hank terminaram. –Ágata disse quase indiferente. Ela nunca gostara muito de Hank.
–Eles o quê? Não acredito!
–Não acredita por quê? Essas coisas acontecem, Sofia.
–O que aconteceu? –Sofia faz questão de saber de tudo.
–Eu não sei, mas parece que foi grave.
Sofia ficou a pensar por um momento, ligando todos os fatos e preenchendo algumas lacunas.
–Você não acha tudo isso muito suspeito? –Ela começou, fazendo germinar mais uma vez a semente do ciúmes.
–Como assim “suspeito”?
–Ágata, pensa comigo. Erick tem andado estranho desde que vocês voltaram. Ainda mais estranho depois do acidente de carro. Agora Evellyn termina com o namorado e ela e Erick não se falam mais. Lembrando que além de amigos eles são parceiros de estudo. Você não consegue entender, Ágata? Alguma coisa está acontecendo!
–Sofia, lá vem você de novo com essa história... –Ágata já não suportava ouvir aquilo. Não acredita, ou melhor dizendo, não queria acreditar no que Sofia tanto afirmava.
–Ágata, estou dizendo isso para o seu bem! Você não é tão ingênua assim. Lembre-se. Em algum momento você deve ter suspeitado.
Ágata odiava o jeito como Sofia conseguia controlar sua mente. Em diversos momentos ela havia desconfiado sim, mas não acreditava. Era absurdo, era uma idéia nauseante.
–Isso nunca poderia acontecer. –Ágata repetiu, tentando acreditar em suas palavras.
–Então ok, Ágata. Se você tem tanta certeza, por que não comprova? –Sofia tentou sua última carta.
–Pois bem, já que você tanto insiste. É exatamente o que eu vou fazer. –Ágata disse, pisando firme e decidida enquanto saia do quarto. Sofia a seguiu até o quarto de Evellyn.
A fantasia era tão incrível que ambas tiveram que admitir que Evellyn tem bom gosto. Havia algo da roupa original de cisne negro, porém mais moderna. Acompanhavam também uma máscara que é o marco da fantasia (geralmente usada como maquiagem) e uma meia arrastão. Evellyn trocara as sapatilhas por um Ankle Boot preto.
–É bem a cara dela. –Ágata disse, imaginando-se dentro daquela fantasia.
–O que você vai fazer? –Sofia não entendia nada.
–Apenas observe e siga-me. Vou precisar da sua ajuda. –Ágata disse e nada do seu rosto indicava que ela estava brincando.
Ágata pegou a fantasia cuidadosamente e a levou para o seu quarto. Sofia já suspeitava qual era o seu plano, mas não falou nada. Apenas a seguiu até a porta do banheiro.
Aquilo ia ser muito divertido.
Ágata balançou um bolo de chaves consideravelmente gordo com uma expressão divertida.
–Kate tem a cópia de todas as chaves de cada cômodo dessa casa. Para emergências. Ela não pode sonhar que eu roubei. –Ágata lhe explicou, sentindo prazer em finalmente estar aprontando algo.
–E o que você vai fazer agora?
Ágata não lhe respondeu, e nem precisou. Ela abriu a porta do banheiro que por sorte Evellyn havia deixado aberta. Podia ouvir a irmã desafinar no chuveiro, tentando imitar aquelas vozes rasgadas e gritantes de suas músicas favoritas. Ágata cuidadosamente trancou-lhe e levou a chave consigo.
–Ela vai matar você!
–Provavelmente. A questão é quem vai me matar primeiro: Kate ou Evellyn? –Ágata disse, sentindo-se tão diferente. Ela tinha o direito de errar de vem em quando, não é? Ou apenas Evellyn podia?
–Agora eu preciso da sua ajuda. –Ela disse para Sofia.
–Com o que?
–Simples. A natureza já fez a maior parte do trabalho. Quero que você me transforme na minha irmã.
*****
Depois de passar pelas mãos mágicas de Sofia, Ágata finalmente observou-se no espelho. A roupa preta caiu-lhe perfeitamente bem, embora que o tecido da saia arranhasse um pouco. A meia arrastão lhe deixou incrivelmente sexy. A maquiagem não continha quase nada nos olhos, pois a máscara iria roubar toda a atenção. Então optara por um batom vermelho. Sofia também havia feito um penteado incrível, que escondia as mechas que não estavam vermelhas. Era a única coisa diferente. A sensação que tinha era de que estava em outro corpo. Que não era ela mesma. E era exatamente o que ela queria.
–Ainda acho que ficaria melhor se você me deixasse pintas as mechas. –Sofia comentou. Como sempre nada estava perfeito.
–Eu não vou estragar o meu cabelo! –Ágata gritou, achando a ideia absurda. Ela não era tão audaciosa assim.
–Estragar o quê? Aquilo sai na primeira lavagem.
–Não importa. Estou parecida com ela? –Ágata deu uma rodada.
–Está sim. Idêntica. Só não dê uma de Ágata boazinha, senão vai tudo por água abaixo.
–Pode deixar. A última coisa que eu quero ser hoje é boazinha.
Sofia parecia um pouco assustada. Aquela não era a Ágata que conhecia.
–Não acha que está exagerando? –Sofia perguntou cautelosa.
–Exagerando? Não era isso que você queria? Pois então. Já está pronta? Então vamos logo. –Ágata se dirigiu para fora do quarto, levando consigo as chaves.
Até aquele momento Evellyn não havia terminado o banho. Quando ela entrava na banheira se esquecia do mundo. Ao ver as horas avançadas levantou-se num salto e levou uma surpresa.
A porta estava trancada.
E nem sinal da chave.
–Ágata! Ágata! Eu estou presa! –Ela começou a gritar e a bater na porta.
Ágata e Sofia passaram pela porta do banheiro e ouviram suas súplicas. Não conseguiram conter a risada. Evellyn irritada era algo muito cômico.
–Ágata? Você está aí? Tira-me daqui!
–Como assim? Você sempre se virou sozinha, não é? Vamos ver se consegue sair daí. Até logo, irmãzinha.
As duas deram mais uma risada antes de saírem em direção à festa, e Evellyn permaneceu um tempo parada atrás da porta, ainda chocada com o que acabara de ouvir.
–Mas que brincadeira de mau gosto é essa? Ágata?!Ágata?!
Ela gritou, mas sua irmã já estava longe demais, preparando-se para desempenhar o seu papel.
*****
Logo na entrada Ágata pôde ouvir a música alta, e ficou a imaginar se conseguiria fazer aquilo. Aquele não era o seu mundo. Não estava acostumada. Música alta e aglomerações a deixavam tonta. E se algum conhecido de Evellyn viesse falar com ela? Ela não conhece nenhuma das ‘más influências’ com quem Evellyn anda.
–Agora lembre-se: -Disse Sofia –Você é a Evellyn agora então não podemos nos falar.
Ágata concordou e entrou na festa. Ela estava rodeada de pessoas e mesmo assim se sentia sozinha. Aquele realmente não era o seu ambiente. Com todas aquelas pessoas aglomeradas, aquela mistura de perfumes, a música eletrônica alta, as luzes fortes, ela se sentia um peixe fora d’água.
Muitas pessoas que ela não conhecia a cumprimentaram como se fosse Evellyn. “Então ninguém notou diferença alguma”, ela pensou. Tentou esquecer toda aquela confusão que era a festa, e começou a procurar por Erick no meio daquela multidão.
*****
Sofia também procurava por alguém, ou melhor, vigiava alguém. Não fora difícil encontrar Charlie e Anna. O Batman e a mulher gato da festa. Os dois estavam dançando, juntos! Sofia continuou a observá-los, e percebeu que Charlie sussurrava algo no seu ouvido. Logo depois, eles foram se afastando discretamente em direção ao corredor.
“Aí tem coisa”, Sofia pensou, tomando os mesmos passos, empurrando quem estivesse na sua frente.
Sofia seguiu-os discretamente até a sala do diretor, onde os dois entraram. A sala estava escura, o que era perfeito para Sofia ficar à espreita na porta sem que eles a vissem.
Sem nem ao menos desconfiar da presença de Sofia, Charlie e Anna conversavam intimamente.
–Finalmente um pouco de privacidade. –Disse Charlie. –Não aguentava mais não poder lhe beijar.
–É, mas isso logo não será mais necessário. –Anna disse, atraindo a atenção de Charlie.
–Como assim? –Ele disse entre um sorriso.
–Estou pensando em contar ao meu pai. –Ela soltou a notícia.
–Isso é ótimo. Mas, você pode prever a reação dele?
–Bom, ele gostaria que eu só namorasse depois da escola, o que é um absurdo. Mas ele vai ter que acabar aceitando. Mas não é por isso que estou preocupada. –Ela disse, e algo na sua face demonstrava algo próximo de tristeza.
–O que é? –Disse Charlie, igualmente preocupado. Ele não gostava de vê-la daquele jeito.
–Charlie, seja franco comigo. Você ainda sente algo por Ágata? –Ela foi curta e grossa, e o tempo que Charlie levou para pensar a decepcionou um pouco.
–Não mais. O que eu sinto por você é bem mais forte que aquilo. Acho que eu nunca a amei de verdade. Era apenas uma obsessão, uma paixão platônica que me fez muito mal. Você me fez sentir sei lá, mais vivo.
Aquelas palavras aqueceram o coração de Anna, fazendo-a transbordar a alegria em forma de sorrisos.
–Era isso que eu queria ouvir. –Ela disse, tirando a sua máscara para lhe dar um beijo. Charlie fez a mesma coisa, descendo suas mãos pelo corpo de Anna até repousar a máscara na mesa do diretor. Do pai dela.
–O que o seu pai diria se nos visse aqui, na sala dele? –Charlie sussurrou em seu ouvido, malicioso.
–Ele provavelmente gostaria de nos matar. –Ela respondeu de imediato. –“Meu escritório não é lugar para essa pouca vergonha! Anna! Pensei que tinha te criado direito”. –Ela disse imitando a voz de seu pai.
–E o que você diria para se defender? –Charlie disse, entre risos.
–Diria que eu te amo. Acho que é um sentimento digno, não é? –Anna disse de imediato, fazendo Charlie parar de rir e a contemplar, perplexo.
–E você? –Ela disse, parecendo totalmente tranquila. –Diria o que em sua defesa?
–Exatamente o mesmo. Talvez ele se comovesse se soubesse o quanto eu a amo.
Anna o beijou quase imediatamente. Seus lábios pareciam querer se derreter no meio de tanta ternura. Charlie a deitou sobre a mesa de seu pai, rapidamente entrelaçando seu corpo ao dela. Entre beijos e carícias, eles foram delicadamente retirando a fantasia um do outro, realizando assim, outra fantasia.
–Vamos fazer isso aqui mesmo? –Anna perguntou olhando ao redor. Afinal de contas, aquele era o lugar onde o seu pai trabalha.
–Está tudo bem para você? –Charlie perguntou, preocupado se ela estava gostando. Não queria decepcioná-la. Queria que tudo desse certo.
–Está tudo ótimo. –Ela acabou por concordar, puxando-o para si outra vez.
“Eu... Não... Acredito”, esse era o único pensamento na cabeça de Sofia ao presenciar aquela cena infame. Um aperto estranho em seu coração revelava decepção ao ver o quão longe aquilo havia chegado. Ela não podia se calar ao ver uma cena daquelas. Seu desejo era ir até lá e tirar Charlie de cima dela. Mas não, ela faria melhor.
Afinal de contas, o século XXI trouxe diversas armas ainda mais constrangedoras.
Sem perder mais um momento, ela sacou o seu celular bom o bastante para capturar uma imagem mesmo no escuro, e pôs-se a gravar. Agora teria o poder de se vingar, de chantagear, e ainda poderia ganhar algum dinheiro.
Ela sabia o quanto o pessoal do colégio dava valor a um bom vídeo pornô.
Sofia permaneceu ali, totalmente muda, sem perder momento algum. Era algo quase doentio, mas ela insistia em permanecer ali, vendo tudo, ouvindo tudo. Não havia contado o tempo, mas eles pareciam estar terminando.
Ela tinha que dar o fora dali enquanto eles mantinham-se entretidos em vestir-se novamente.
Sofia, que naquele momento havia se escondido atrás de uma pequena poltrona levantou-se vagarosamente enquanto finalizava o vídeo. Ainda estava chocada com o que acabara de ver, e talvez fosse o efeito da surpresa que tirou seu equilíbrio e acabou por esbarrar na poltrona.
–O que foi isso, Charlie?! –Anna disse consideravelmente assustada.
–Tem alguém aí? –Charlie estava igualmente nervoso.
Sofia estava profundamente encrencada. Mas de qualquer forma eles descobririam sobre o vídeo.
–Acho que vou ser diretora de filmes, algum dia. –Disse Sofia, levantando-se do chão calmamente. Anna arregalou os olhos surpresa.
–Você não...
–Sim, querida Anna. Eu fiz isso sim.
–Você é doente! –Charlie gritou, vermelho de tanta vergonha.
–Sofia! Você me paga! –Anna disse antes de avançar em cima de Sofia com toda a sua fúria.
Sofia conseguiu fugir antes que Anna lhe pegasse, mas não conseguiu correr por muito tempo. Anna chegou perto o bastante para puxar o seu cabelo e assim, fazê-la parar.
–Sofia! O que você tem na cabeça?! –Anna gritou arquejando de cansaço.
–Eu? E você? Como pôde fazer aquilo com ele, e na mesa do seu pai?!
–O que eu faço é problema meu! Você é louca?
–Olha, Anninha. Se eu fosse você me tratava melhor, pois eu tenho uma coisinha aqui... –Sofia disse, mostrando o celular.
–Você não... Ai meu Deus!
–Acho que seu pai não iria gostar de receber esse vídeo por e-mail...
–Você não é capaz de fazer isso. –Anna queria acreditar nisso.
–Claro que sou! Pelo visto você não me conhece mesmo.
–Por que você está fazendo isso, Sofia? O que você vai ganhar com isso? Eu fiz alguma coisa contra você? Desse jeito eu poderia jurar que você está apaixonada por Charlie. –Anna disse, rindo da ideia absurda, mas aquele momento não era nem um pouco cômico. Aquele momento deveria ser só deles, afinal. E Sofia havia estragado tudo.
Anna esperou que Sofia gritasse com ela ao ouvir a ideia absurda, mas foi a primeira vez que a fez calar a boca. Ela parecia desconcertada, estava rubra de vergonha, como se tivessem revelado seu maior segredo.
–Ai meu Deus... –Anna disse, tirando suas próprias conclusões. –Você está apaixonada por ele! –Anna disse enfim, com a raiva e indignação escancaradas em seu rosto.
Sofia estava certa; ela não a conhecia mesmo.
*****
Enquanto Anna e Sofia resolviam suas diferenças (ou seriam semelhanças?) na lei do tapa, Ágata finalmente havia encontrado Erick. Ele parecia concentrado atrás do balcão de bebidas, e estava fantasiado de adivinhem? Erik, o fantasma de “O fantasma da Ópera”. A fantasia lhe caiu muito bem. Ele estava maravilhoso. Ágata de repente sentiu certo arrependimento. Mas havia chegado até ali e não sairia sem respostas.
–Olá Erick... –Ela disse com a voz lenta e provocante, aproximando-se cada vez mais.
Erick surpreendeu-se ao ver “Evellyn” ali, naquela fantasia apertada, falando com ele finalmente, depois de tudo que aconteceu.
–Olá, Eve. Bela fantasia. –Ele respondeu.
–Obrigada. Você também está ótimo fantasiado de... Erik. –Ela disse, olhando fixamente em seus olhos.
–Você quer beber alguma coisa?
–Não, muito obrigada. –Ágata recusou como de costume. Erick a olhou assustado e ela logo percebeu a falta que cometeu.
–Evellyn? Você está bem? Quer dizer, você é a Evellyn, e Evellyn nunca recusa bebida. Eu sei que nada aqui contém álcool, mas na certa você deve ter trazido alguma coisa. –Ele disse, divertido.
Ágata ficou totalmente desconcertada. Erick conhecia sua irmã há pouco tempo e sabia muito mais do que ela, que convivera com Evellyn desde a barriga de sua mãe.
–Tem razão. Eu não estou muito bem. –Ela tentou consertar as coisas.
–O que houve? –Ele parecia preocupado.
–Hank e eu terminamos. –Ela foi curta e grossa, fingindo uma tristeza bastante comovente.
–Sinto muito. –Disse Erick, e era verdade. –O que aconteceu entre vocês dois?
–É complicado. –Ágata disse, mas na verdade não fazia ideia do motivo do término.
–Entendo. Bom, espero que vocês se acertem. –Erick disse, lutando com toda a força que tinha para não olhar para o decote de “Evellyn”. Ágata fazia de tudo para testá-lo.
–Acho que isso não vai acontecer. Bom, pelo menos agora eu estou disponível. –Ágata disse, lançando-lhe um sorriso malicioso.
Erick estava começando a captar suas mensagens subliminares.
–Por que você voltou a falar comigo, Evellyn? –Ele foi direto ao ponto, cansado daquele jogo.
–Senti saudades. –Ágata disse com certo tom zombeteiro.
–É sério Evellyn. O que você quer, de verdade? –Erick parecia impaciente.
–Não está óbvio? –Ágata disse olhando para os seus lábios. Naquele momento ele poderia jurar que ela lhe daria um beijo.
–Evellyn, eu cansei disso. Vem, precisamos conversar. –Erick disse, puxando-a pelo braço e levando para um canto mais afastado.
–Humm... Por que me trouxe aqui, hein? –Ágata disse ainda sorrindo maliciosamente, mas temendo por dentro só de pensar que havia conseguido, afinal.
–Evellyn, é sério. Só me escute, está bem?
Ágata assentiu com a cabeça.
–Bom, pra começar você está estranha hoje. É como se não fosse você. Você nunca agiu assim antes. Estou confuso. Primeiro você tem me evitado desde aquele dia no quarto de Ágata. E agora eu poderia jurar que está flertando comigo. Não sei o que se passa na sua mente, quais esperanças alimentou desde que terminou com Hank. Mas isso não vai acontecer, Evellyn.
Por um momento Ágata respirou aliviada, mesmo com a citação do seu quarto. O que havia acontecido no seu quarto, afinal? Acreditou que tudo não passara de mais uma neurose de Sofia. Ele a amava e não seria capaz de fazer isso. Porém, Erick não havia terminado.
–Mas, eu devo admitir que sinto algo a mais por você, Evellyn. Você é maravilhosa, e precisava saber disso, e acho que nós dois misturamos as coisas. Acho que nunca fomos só amigos. Eu me sinto a pessoa mais mesquinha do mundo. Não posso mudar o que eu sinto. Talvez um dia eu consiga. Talvez um dia possamos ser só amigos. Mas desde aquele dia que nos beijamos eu vi que isso não seria possível. Foi naquele dia que eu enfim percebi que coisa horrível estávamos fazendo. E eu não posso continuar com isso. Não é justo com Ágata, e não é justo com você. E eu amo...
Justamente quando ele revelaria seus sentimentos verdadeiros, Erick fez uma pequena pausa assim que percebeu as lágrimas rolando sem parar da máscara de Evellyn. Ele nem sonhava saber em quantas partes havia despedaçado o coração de Ágata com aquelas palavras.
Então era tudo verdade. Enfim Ágata aceitava a realidade. Agora não havia como fugir dela.
–Evellyn? Por que está chorando? Pensei que quisesse isso também. Acertar isso de uma vez por todas. –Ele segurou os seus ombros, mas Ágata afastou seus braços imediatamente.
–Evellyn? O que foi? Eu fiz alguma coisa errada?
Cansada daquela farsa, Ágata jogou a máscara no chão e soltou seus cabelos, revelando o azul triste de seus olhos e as lágrimas de raiva. Sem pestanejar ela lhe deu um tapa, despejando em seu rosto toda a raiva proveniente da traição descoberta. A máscara caiu. Diferente do Erik fantasma, o nosso Erick não tinha o rosto deformado, mas a vergonha ao mostrá-lo era praticamente igual. E igual era o terror nos olhos de Ágata.
–E eu fui tola o bastante ao pensar que eu era diferente para você. Que eu não era apenas uma das irmãs. Mas você nem foi capaz de me identificar. E eu te defendi tanto, Erick! Como você pôde?! Como vocês dois puderam fazer isso comigo?! Eu me recusei a crer que isso fosse verdade, de tão absurdo que parece! Eu confiei em você, Erick! Mas você mentiu para mim esse tempo todo! Eu me entreguei a você, Erick!
–Ágata, Ágata! Eu sinto muito! –Erick dizia, e havia em seu rosto indícios de um pranto.
–Chega de mentiras, Erick! Vocês dois se merecem! Agora tem o caminho livre! Apenas fique longe de mim. Por favor! Se você algum dia sentiu algo por mim, não torne tudo isso ainda mais doloroso! –Aquelas foram as suas últimas palavras, e então uma Ágata vestida numa roupa que tornava ainda mais difícil soluçar e chorar atravessou a festa aos prantos.
–Ágata, por favor! Deixe-me explicar! –Erick gritou em vão, mas sabia que não há jeito de explicar tudo aquilo.
Ele a perdera para sempre.
Movidas pelo burburinho proveniente da confusão, Anna e Sofia pararam de brigar. As duas compartilharam um olhar e logo de imediato perceberam o que havia acontecido.
–Ágata! –As duas disseram ao mesmo tempo correndo para a saída.
Encontraram-na socando o carro com toda a sua raiva, mas apenas conseguia ferir a si mesma. Ela enfim olhou para suas amigas.
–Você tinha razão, Sofia. –Ela disse isso apenas, e foi o necessário para as duas esquecerem por um momento suas diferenças e a abraçarem.
–Eu sinto muito, Ágata. –Anna disse, afagando suas lágrimas.
–Eu também sinto muito, Ágata. Mas eu te disse.
Anna a lançou um olhar feroz. Ela já havia perdido a paciência com Sofia.
–Dizer ‘eu te disse’ não vai ajudar e nem mudar nada, Sofia. Então, se quer ajudar, eu sugiro que cale a sua boca venenosa.
Sofia calou-se, não pelas palavras de Anna, mas em respeito à Ágata. Ambas queriam saber o que de fato havia acontecido, mas estava mais do que óbvio que ela não iria dizer nada.
–Se você quiser pode dormir na minha casa, Ágata. –Anna sugeriu, imaginando que Ágata não iria gostar de ver a irmã por um bom tempo.
Mas para a sua surpresa, Ágata pausou o choro e olhou para o nada, com uma expressão fria.
–Não. Eu tenho algumas coisas para acertar com minha irmã.
*****
Quando Kate enfim chegou a casa Evellyn não aguentava mais gritar em vão. Apenas ficou sentada no chão frio do banheiro enrolada em sua toalha, perguntando-se por que diabos sua irmã fez aquilo.
–Tem alguém em casa? –Escutar a voz de Kate a fez levantar e gritar mais uma vez.
–Kate! Eu estou trancada no banheiro! Socorro!
–Evellyn? –Kate correu até o banheiro.
–Ágata me trancou aqui.
–Ágata fez o quê?!
–Eu sei, também custei a acreditar. Eu quero sair logo daqui, Kate. –Evellyn suplicava.
–Tudo bem, eu vou buscar a chave mestra. –Kate disse com a sua voz calma.
O lugar onde ela costumava guardar a chave estava agora vazio. Kate xingou em silêncio.
–Evellyn, pelo visto Ágata saiu e levou a chave consigo. –Kate disse com uma calmaria quase irritante.
–Ótimo! Então eu vou ficar presa aqui até ela voltar?!
–Calma! Por que você não procurou aí? Tem uma cópia da chave atrás do pequeno armário.
Evellyn socou a porta ao perceber quão óbvia era a solução.
–Por que eu não sei disso!?
–Eu expliquei a vocês duas, mas parece que você não prestou atenção. –Kate permitiu-se rir um pouco daquela situação.
Evellyn a ignorou e se pôs a procurar a chave. Encontrou-a quase imediatamente, e se sentiu aliviada a se ver livre do ar abafado do banheiro.
–Por que Ágata fez isso? –Disse Kate, surpresa.
–Eu não sei, mas foi uma ridícula brincadeira de mau gosto. –Evellyn murmurou antes de subir para trocar de roupa.
–Eu vou conversar com ela quando chegar. –Disse Kate, curiosa para saber o que havia de errado com Ágata.
Ágata chegou pouco tempo depois, e em seu rosto ainda havia indícios daquela péssima noite. Kate a olhou dos pés a cabeça, extremamente confusa. O que havia acontecido com Ágata para estar daquele jeito? E por que ela estava vestida de Evellyn? Nada fazia sentido.
–Fiquei sabendo que você quis dar uma de Jigsaw*. (*serial killer de “jogos mortais”)
Kate como sempre mostrou seu lado zombeteiro, mas a expressão de Ágata dizia que ela não estava para piadas.
–Onde está Evellyn? –Ágata disse, seriamente.
–Estou aqui. –Disse Evellyn, descendo a escada, ainda com os cabelos molhados. –Por que diabos você me prendeu no banheiro? Ficou louca, é? –Ela parecia bastante irritada.
Ágata a fuzilou com os olhos, e de repente seu ódio direcionado a Evellyn não era apenas por Erick, mas por todos aqueles anos. Todas as brigas que ela começou, todas as vezes que ela zombou dela. Todas as mágoas vieram numa hora só e Ágata sentia que precisava desenrolar aquele nó na garganta.
–Sua vadia! –Ágata gritou com raiva e avançou para cima de Evellyn.
Kate, assim como Evellyn ficou em estado de choque quando Ágata avançou e lhe deu um tapa no rosto. Movida pelo instinto Evellyn revidou e puxou o seu cabelo. As duas se jogaram no chão, e seguiu-se uma série de tapas, puxões de cabelo, mordidas, arranhões, e os gritos suplicantes de Kate para que parassem com aquilo ou iriam se matar. E apenas um pensamento rondava a mente de Evellyn naquele momento.
Ela descobriu tudo.
Em compensação, a mente de Ágata era um turbilhão de mágoas, e a última delas foi o ápice para aquilo acontecer. Jogava toda a sua fúria para as mãos e descontava em Evellyn. Era como se livrasse de um peso enorme. Justo ela, que era tão contra a violência.
As pessoas são tão surpreendentes.
Kate viu o momento certeiro para interromper aquela confusão. Mas mesmo com toda a sua cautela, ela não se viu livre de alguns arranhões ao separá-las.
–Parem com isso, agora! Mas que palhaçada está acontecendo aqui!? E é bom alguém me explicar logo, porque se estão mesmo a fim de entrar no tapa, saiba eu tenho muito mais experiência em brigas do que vocês duas juntas! –Kate gritou, fazendo as duas pararem por um instante.
Ambas estavam descabeladas, e com marcas de unha para todo o canto da pele igualmente alva. As penas da fantasia de Ágata voaram para todo o canto, e o cisne negro parecia agora um pequeno patinho depenado. Uma alça da blusa de Evellyn havia escapado e agora metade do seu sutiã vermelho estava à mostra.
–Como você pôde?! –Ágata disse, enfim.
–Ágata, eu...
–Você o quê? Mais uma vez você me tirou alguém que eu amava! Eu nunca faria isso com você! Por que você é sempre assim? Destrói tudo! Eu sou sua irmã! Isso devia valer alguma coisa! Mas não vale, nunca valeu! Você nunca ligou para essa família. Você é uma egoísta, Evellyn! Agora eu entendo porque meus pais fizeram aquele passeio mortal. Eles precisavam de férias de você! Talvez se você fosse um pouco melhor eles ainda estariam aqui!
Ágata cuspiu aquelas palavras que fizeram Evellyn se sentir um monstro sujo e medíocre. Todas aquelas palavras algum dia Evellyn já repetira incessantemente para si mesma por um bom tempo, e ouvir de outra pessoa doía muito mais que um tapa na cara. Ela tinha razão. Ela havia estragado tudo. Ela desejou que tudo aquilo acontecesse.
–Ágata, eu sinto muito, por tudo... –Evellyn disse entre lágrimas, e não era apenas por Erick.
–Não, você não sente. Se sentisse não teria feito isso comigo. Erick era a única pessoa que me entendia, que me fazia bem, me fazia sentir viva. E você tirou isso de mim também.
–Você fala como se eu fosse a única culpada. Ninguém comete uma traição sozinha. –Evellyn disse em tom de defesa dessa vez, acertando em cheio o ego de Ágata.
–Você tem razão, sim. Mas diferente de Erick, você é minha irmã. E não teria doído tanto se fosse com outra pessoa. –Ágata também chorava.
–Perdão, Ágata. –Evellyn disse envergonhadamente, sem conseguir fitar a irmã nos olhos.
–Desculpe Evellyn. Mas não sei se algum dia serei capaz de perdoá-la. –Ela disse sentindo dor em sua voz. Aquelas foram suas últimas palavras antes de correr para o quarto.
Kate que observava toda aquela cena parecia estar em choque. Sabia que as duas tinham suas diferenças, eram distantes, mas nunca cogitou em sua vida que as coisas chegariam aquele ponto. Relembrar aquela cena das duas ferindo a elas próprias lhe repugnava.
–Evellyn, vá para o quarto. –Kate disse com a voz dura, assim que Ágata se fora. Evellyn quase pensou que sua tia também fosse julgá-la, mas por mais que merecesse, ela não fez isso.
–Kate, o que eu faço agora? –Evellyn buscava uma solução, entre lágrimas, com sua tia que sempre sabia o que dizer ou fazer.
–Eu... Eu sinceramente não sei Evellyn. –Ela disse, para a sua surpresa.
*****
Ágata trancou-se no quarto e atirou-se na cama, deixando que todas aquelas mágoas guardadas finalmente fossem embora, livres, sem culpa. Seu quarto estava impecável como sempre, mas dentro dela seu mundo estava de cabeça para baixo. Entre lágrimas e soluços, ela arrancou a roupa com ira, deixando outras marcas em seu peito nu. Sentiu o ímpeto de destruir tudo ao seu redor, e certamente o teria feito se ainda tivesse forças. Mas não fez isso. Ela continuou a chorar, finalmente. Por toda a sua vida ela teve que ser forte. Mesmo perante as duas perdas mais difíceis, ela manteve-se forte. Pela sua irmã. Ela cuidou de Evellyn. Porque a amava. E aquela era a recompensa. Agora, as duas estavam ainda mais distantes. Nada sabiam uma da outra, sem ser o remorso e o ódio e o antigo desejo de competição que as acompanha desde o ventre de sua mãe.
As duas sempre competiram. Seria assim até o fim?
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