Entre Cicatrizes e desejos
4 CAPÍTULO 3 / QUEM ERA?
O silêncio entre nós tinha mudado.
Antes, era só tensão.
Agora… era outra coisa também.
Algo que eu ainda não conseguia nomear.
Algo que eu queria entender.
“Esquece o que aconteceu aqui.”
A voz dele ainda ecoava na minha mente.
Como se fosse simples.
Como se fosse fácil.
Cruzei os braços, o ar frio atingindo minha pele ainda molhada.
— Eu não vou esquecer — falei baixo.
Ele passou a mão pelo cabelo, claramente irritado.
— Você precisa.
Aquele tom… eu não gostei.
— E você precisa parar de agir como se nada tivesse acontecido.
Silêncio.
Ele me olhou de novo — dessa vez mais exposto.
Mais real.
— Você não sabe do que está falando, Katherine.
Inclinei levemente a cabeça.
— Então me explica.
Ele soltou uma risada curta.
Vazia.
Nada verdadeira.
— O que é tão engraçado? — perguntei, já irritada.
— Não é tão simples.
— Nunca é.
Dei um passo à frente.
Sem hesitar dessa vez.
— Estou começando a entender quem você realmente é.
Isso atingiu ele.
Eu vi.
O jeito que ele congelou por um segundo.
O jeito que o olhar dele caiu… e depois voltou.
Algo dentro dele mudou.
— Você está errada — ele disse.
— Não parece.
Mais um passo.
Agora estávamos perto de novo.
Perto demais.
— Parece que você só está me evitando.
A mandíbula dele se contraiu.
— Você não devia insistir nisso.
— E você não devia ter me convidado pra piscina.
Silêncio.
Pesado.
Ele abriu a boca pra responder…
mas nada saiu.
E foi aí que eu percebi algo.
Ele também não estava no controle.
E isso… mudou tudo.
— Quem era? — perguntei de repente.
Ele franziu a testa.
— O quê?
— A ligação.
Direta.
Sem hesitação.
O corpo dele enrijeceu de novo.
— Ninguém importante.
Mentira.
Sorri de leve.
— Isso não é verdade.
— Não é da sua conta.
A voz dele ficou mais afiada. Mais autoritária.
— Talvez não.
Dei mais um passo.
Agora não havia espaço entre nós.
— Mas você mente muito mal.
Os olhos dele escureceram.
— Você sempre pressiona assim?
— Só quando estou perto da verdade.
Isso foi longe demais.
Eu sabia.
Mas não parei.
A respiração dele mudou.
Mais lenta. Mais pesada.
— Cuidado, Katherine — ele disse baixo.
— O quê? Vai tentar me assustar?
Silêncio.
Daquele tipo que avisa.
— O que você está procurando? — ele perguntou.
— E se eu quiser encontrar?
As palavras saíram antes que eu pudesse impedir.
Ele se moveu então.
Devagar.
Deliberado.
Perigoso.
A mão dele subiu, roçando de leve abaixo do meu queixo, levantando meu rosto.
Meu coração falhou uma batida.
— Você não faz ideia de onde está se metendo — ele murmurou.
Perto demais.
Real demais.
Meu corpo reagiu na hora.
Mas minha mente…
queria mais.
— Então me mostra — sussurrei.
Esse foi meu erro.
Porque dessa vez…
ele não se afastou.
O olhar dele desceu para meus lábios.
E ficou ali.
Tempo demais.
O mundo se estreitou.
Só nós.
Só aquela distância.
Só aquele momento.
Ele ia me beijar de novo.
Eu sabia.
E então—
O celular vibrou.
Não alto.
Mas o suficiente.
O suficiente pra quebrar tudo.
Simon fechou os olhos por um segundo.
Como se estivesse lutando contra algo.
Quando abriu…
ele tinha sumido de novo.
Frio.
Distante.
Intocável.
Ele soltou meu rosto devagar.
Como se não quisesse.
Mas precisasse.
— Eu preciso resolver isso — ele disse.
Sem explicação.
Sem olhar pra trás.
Ele se virou e foi embora.
De novo.
Me deixando ali.
Respiração irregular.
Coração acelerado.
Um pensamento queimando na minha mente—
Simon Carter estava escondendo algo.
E eu não ia parar
até descobrir o que era.
---
Um som cortou a casa.
Seco.
Repentino.
Algo caindo.
Eu congelei.
Simon também parou.
Nos olhamos por um segundo—
depois para a cozinha.
— Você ouviu isso? — perguntei.
— Ouvi.
Sem esperar, entrei.
— Katherine—
Ignorei.
Entrei na cozinha…
e parei.
Uma tigela estava quebrada no chão.
Frutas espalhadas por todo lado.
Fiquei olhando por um segundo.
— O que foi isso? — murmurei.
— Não fui eu — ele disse atrás de mim.
Olhei por cima do ombro.
— Então caiu sozinho?
— Talvez você tenha esbarrado antes.
Revirei os olhos.
— Eu não sou desastrada.
— Você saiu correndo mais cedo.
Cruzei os braços.
— Eu não estava correndo.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Não?
Silêncio.
Droga.
Desviei o olhar.
— Ok… talvez um pouco.
Ele soltou uma risada baixa.
E isso—
isso era novo.
Eu odiava o quanto aquilo me afetava.
— Enfim — falei, me abaixando — isso não vai se limpar sozinho.
— Deixa comigo.
Olhei pra ele.
— Por quê?
— Porque você vai se cortar.
— Eu sei me cuidar.
— Não parece.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— Mandão.
Ele se aproximou.
Perto demais de novo.
— Só quando é necessário.
Meu coração reagiu.
De novo.
— Eu não preciso disso — falei.
— Precisa, sim.
Antes que eu reagisse, ele segurou meu pulso.
Firme. Cuidadoso.
O suficiente pra me parar.
Aquele toque simples—
foi o bastante.
— Me solta — falei baixo.
Ele não soltou.
Não imediatamente.
O olhar dele se prendeu no meu.
E isso disse tudo.
Então ele me soltou.
Deu um passo atrás.
Como se nada tivesse acontecido.
De novo.
— Eu resolvo isso — ele disse, pegando um pano.
Fiquei parada por um segundo.
Observando.
— Você é estranho — falei.
— Já ouvi isso antes.
— Imagino que muitas vezes.
— E você?
— Eu sei que sou.
O silêncio voltou.
Mas dessa vez…
era mais leve.
Me encostei no balcão.
— Então… você sempre passa seu aniversário limpando?
— Não me importo.
— Eu percebi.
Inclinei a cabeça.
— Mas ainda é estranho.
Ele lavou as mãos com calma.
— Nem todo mundo gosta de atenção.
— Não é sobre atenção.
Ele me olhou.
— Então é sobre o quê?
Sorri de leve.
— Sobre não fingir que é só mais um dia.
Silêncio.
— Pra mim… é só mais um dia — ele disse.
Palavras simples.
Mas com um significado nada simples.
Dei mais um passo.
Devagar.
—
Então vamos mudar isso.
Ele franziu a testa.
— Como?
— Você e eu.
Isso chamou a atenção dele.
— A gente faz alguma coisa. Nada grande… só o suficiente.
Ele me analisou.
— Você não desiste, né?
— Não.
— Nem quando deveria?
Sorri.
— Principalmente nessas horas.
Isso fez ele rir de novo.
Baixo.
De verdade.
— Você é um problema — ele disse.
— E você gosta disso.
Silêncio.
Ele não respondeu.
Mas também não negou.
E isso…
já foi resposta suficiente.
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